domingo, julho 31, 2005

Ganhada

Minha namorada me contou um lance de uma novela: a esposa ligou da Europa para o mordomo e, para conferir se o marido estava dormindo em casa, pediu para ouvir o ruído de sua respiração ao telefone. Eu comentei:

- Tu poderias fazer isso também, reconhecerias o meu ronco.

Ela respondeu na mesma hora:

- Para saber se tu estavas dormindo em casa eu poderia ligar para a vizinha!

Jovem Guarda

Inaugurou hoje o Portal da Jovem Guarda, organizado por Marcelo Fróes, autor do livro "Jovem Guarda em Ritmo de Aventura", editor do International Magazine e produtor de relançamentos e coletâneas em CD. Dêem uma conferida, ficou bem legal. Eu sou creditado no expediente por minha humilde colaboração.

sábado, julho 30, 2005

Mais calor

O mês de julho em Porto Alegre está encerrando do mesmo jeito que começou: com calor. Aquele que tem todos os anos e só eu lembro.

P.S.: Leiam aqui e aqui para confirmar que eu já tinha previsto tudo o que aconteceu. E não tenho bola de cristal.

sexta-feira, julho 29, 2005

Paternalismo presidencial

Meu pai certa vez me contou uma história da qual, infelizmente, não guardei os detalhes. Um dia, ainda antes de eu nascer, ele telefonou para um amigo. Quando a empregada que atendeu à ligação disse que o patrão não se encontrava e perguntou quem desejava falar, ele, de brincadeira, disse o nome do então Presidente da República:

- Juscelino Kubitscheck!

A moça, em sua ingenuidade, aproveitou para fazer um apelo:

- Ah, seu Juscelino, quem sabe o senhor não poderia me ajudar...

E contou uma longa história sobre uma dificuldade financeira em que se encontrava. Meu pai, comovido, achou uma forma de ajudá-la. Não com seus próprios recursos, imagino, mas com a colaboração de outros. O trote acabou tendo um desdobramento humano com final feliz.

Pois é. É sempre bonito e comovente auxiliar pessoas carentes. A questão óbvia que se levanta é: o que torna um cidadão necessitado mais merecedor de ajuda do que outro? No caso de particulares ou de empresas privadas, não há o que questionar: cada um auxilia quem quer e toda a iniciativa nesse sentido é louvável. Mas será justo o que aconteceu em Bagé, em que um gaúcho de 35 anos pediu ajuda ao Presidente Lula para custear sua Faculdade de Direito e levou? Entendo que o Presidente zelou por sua imagem ao atender à solicitação, mas também abriu um precedente arriscado. Agora será difícil conter a enxurrada de suplicantes nas aparições públicas de Lula. Isso se não se formarem filas em frente ao Palácio do Planalto.

Lembro quando Sílvio Santos tentou se candidatar de última hora à Presidência em 1989. Depois a candidatura foi impugnada. Naquele tempo ele ainda tinha em seu programa de TV o quadro “A Porta da Esperança”. Acho que todos lembram como era: alguém ia ao estúdio fazer algum pedido. Depois de conversar bastante com a pessoa sobre o que estava querendo, que tanto podia ser algo realmente necessário como uma extravagância, Sílvio dizia: “Vamos abrir a Porta da Esperança!” Aí uma enorme porta se abria no cenário. Se houvesse alguém por trás dela, era quem iria atender ao pedido. Se não houvesse ninguém, o participante não tinha sido contemplado.

Pois sempre que eu ouvia falar na possibilidade de Sílvio Santos vir a ser Presidente, imaginava uma nova versão da Porta da Esperança instalada em Brasília. Quando algum Governador ou autoridade quisesse pedir verbas para suas obras, teria que passar pela Porta da Esperança. A vantagem é que o critério para atendimento passaria a ser meramente arbitrário ou mesmo aleatório. Uns seriam agraciados, outros não, mas ninguém poderia argumentar falta de isonomia. Todos tiveram o mesmo direito à Porta da Esperança. Apenas nem todos foram contemplados.

Ao atender ao pedido do estudante gaúcho que havia interrompido seu curso, Lula instituiu uma Porta da Esperança em seu governo. Agora vai ter que administrá-la da melhor forma possível. É normal que um cidadão passando necessidades se sinta tentado a recorrer a uma autoridade quando vislumbra a chance de contato com ela. Também é compreensível que o Presidente procure tomar atitudes simpáticas no momento em que a imagem do governo está em xeque. Mas resolver o problema de uma e somente uma pessoa dessa forma paternalista é uma medida, no mínimo, questionável para um Presidente da República.

quinta-feira, julho 28, 2005

Especial Bee Gees

Só pra lembrar que hoje, quinta-feira, dia 28/07, tem Especial Bee Gees com a Sunset Riders no John Bull, que fica no Shopping Total, antiga Brahma. Eu já disse e repito: a Sunset Riders toca Bee Gees melhor do que os Bee Gees. Hoje talvez seja mostrado o DVD do encontro de nossa amiga Lisete com Robin Gibb em Londres. Devem exibir também a mensagem gravada por Robin para a Sunset Riders no final do ano passado. Essa eles sempre mostram e estão certíssimos, é uma verdadeira relíquia. Nos vemos lá (se o meu carro deixar).

Calefação incômoda

Em fevereiro de 2002, estive nos Estados Unidos a convite de minha meia-irmã, que é professora na Universidade da Geórgia, na cidade de Athens. Eu já tinha estado antes naquele país, mas nunca no inverno deles. Apesar da perspectiva de ver neve, que acabou não se concretizando, eu tinha receio de como o meu organismo se comportaria no frio do hemisfério norte. Não só a minha asma, mas também a possibilidade de faringite, gripe e febre. Ficar doente numa viagem de apenas nove dias seria um desastre. Felizmente, deu tudo certo. Levei na mala o meu "kit hipocondríaco" e não precisei usar quase nada.

Mas o que me chamou a atenção foi que, dentro de casa, o sistema de ar condicionado central deixava a temperatura amena, aprazível, gostosa. Você nem lembrava que tinha ar condicionado. Esta é uma briga minha aqui no Rio Grande do Sul: a mania que alguns restaurantes e estabelecimentos têm de, no inverno, ligar a calefação. Aí o ambiente não fica agradável, fica quente, mesmo! Você chega todo forrado de blusões e casacos, saído de uma temperatura entre nove e 15 graus, e sente aquele bafo sufocante. Eu não consigo disfarçar o meu desconforto. Faço cara de desaprovação na hora e começo a tirar os agasalhos um por um até ficar só de camisa. Imaginem uma pizzaria lotada, aquele povo cheio de energia e calor humano mandando ver fatias de pizza quentinhas, alguns tomando vinho, outros servindo-se das massas fumegantes que também são oferecidas, e o gerente ainda acha que precisa ligar o ar quente. É muita falta de visão.

No verão, acho que ar condicionado não é luxo, é necessidade. Porto Alegre tem um calor úmido e insuportável. Houve uma época em que eu viajava para o interior do Rio Grande do Sul para implantar um sistema de cobrança escritural e ia de ônibus. Alguns não tinham ar condicionado e eu achava um atraso descomunal. Hoje até alguns ônibus de linha têm climatização. Mas a temperatura no inverno não cai tanto que justifique o uso de calefação em ambientes fechados e populosos. O aquecimento (sem trocadilho) até cai bem na intimidade, seja em casa ou em motéis. Mas em cinemas, restaurantes e locais de trabalho é desnecessário. A menos que o brasileiro aprenda a regular a temperatura e deixá-la amena, como observei nos Estados Unidos.

quarta-feira, julho 27, 2005

Dúvida

Revendo o post sobre José Vicente Brizola e o Bixo da Seda (cliquem aqui), acho que o músico que aparece de boca aberta na foto não é Pecos e sim Cláudio Vera Cruz. Ele fez parte do Bixo da Seda. Se alguém souber com certeza, poderia me informar? Obrigado.

Deeeez miiiiiiil, deeeeeez miiiiil...

Pensando bem, eu e alguns amigos poderíamos ter nos tornado um grupo humorístico tipo Casseta e Planeta. Em nossa adolescência, gostávamos de ligar o gravador e improvisar sátiras (na verdade eu acho que já tinha 20 anos, mas era o mais velho do bando) . Às vezes combinávamos o que iríamos dizer, mas nunca havia propriamente um script. As melhores piadas eram as que saíam na hora, mesmo. Como no dia em que estávamos na oficina no fundo da casa de um dos caras da turma e gravamos uma matéria fictícia sobre calvície. (Naquela época, nem imaginávamos que esse problema atingiria muitos de nós. Mas eu escapei, não perdi nada: nem cabelo, nem peso.) Nosso camarada Miguel fingia ser um sujeito de meia idade (talvez uns 44 anos) dando um depoimento sobre queda de cabelo. No meio da gravação, caiu no chão um alicate, fazendo um barulho enorme. O Miguel emendou: “Olha aí, caiu mais um fio de cabelo!”

Depois ficávamos ouvindo as fitas e tirando o maior sarro, repetindo as bobagens que tinham saído em tom de deboche. Uma das que fez mais sucesso foi a tirada de Paulo Brody, hoje um teatrólogo em ascensão em Porto Alegre: “Vou te enfiar dez mil pnc”. O “pnc” é uma forma abreviada do que ele falou, pois este blog pretende continuar “Censura Livre”. Mas de tanto repetirmos o que o Paulo havia dito, imitando a voz dele, o “dez mil” acabou virando uma piada interna da nossa turma. Nem precisávamos dizer a frase toda, apenas provocávamos: “Já pensou, hein? Deeeeez miiiiil, deeeeez miiiiil...” Até hoje todos lembram disso. E como poderíamos esquecer, se o “deeeeez miiiiil” foi a inspiração para Luís Mota batizar a sua banda de rock, a 10K PNR. O nome original era Dez Mil PNR, com o PNR por extenso, mesmo. Ele deve ter percebido que não iria muito longe com um nome tão obsceno, então encurtou-o.

Tenho saudades da velha turma. Nosso ponto de encontro era na Rua Pelotas, perto da Brahma (hoje Shopping Total), onde moravam dois do grupo. Éramos crianças grandes, sabíamos disso e nos divertíamos. Lembrei de tudo isso por causa dos dez mil acessos do blog. Já pensaram? Deeeez miiiil, deeeez miiiil... Às vezes me pergunto por que não podemos nos encontrar numa tarde de sábado na Rua Pelotas, só pra jogar conversa fora. Só porque estamos todos com mais de 40? Poderíamos retomar a matéria sobre a calvície, agora com casos concretos. Mas não sei se conseguiríamos conciliar nossas agendas.

Acho que não é a maturidade que nos torna adultos. É a falta de tempo. É preciso muito tempo livre para ser criança.

terça-feira, julho 26, 2005

Sem tempo

Gente, desculpem, estou ocupado demais hoje para escrever decentemente no meu blog. Acho que uma das sensações mais angustiantes é a de estar sem tempo, com muito serviço e pouco prazo. Eu nem deveria estar aqui, agora. Mas estou vendo que logo vamos atingir a marca de 10 mil acessos. Obrigado a vocês por me prestigiar. Breve escreverei com mais calma. Até lá.

segunda-feira, julho 25, 2005

Brasileiro

Essa notícia de que um jovem brasileiro foi morto em Londres por engano me faz lembrar de uma incidente que tive pela Internet ainda nos meus primeiros anos como internauta. Eu emiti uma opinião em um grupo de discussão em inglês, onde a maioria era de americanos, e um anônimo me ofendeu chamando-me de "Brazilian twat". "Twat" é um dos muitos nomes chulos do órgão sexual feminino, mas nesse contexto, representava uma ofensa. Mas o que me chamou a atenção é que muitos dos que vieram em minha defesa consideraram a afirmação "racista". Não, não era o "twat" por si só que tinha significado racista. Por incrível que pareça, o politicamente incorreto foi me chamar de... brasileiro.

Que brasileiro é uma raça eu já tinha descoberto em uma viagem para os Estados Unidos em 1990. Os americanos olham pra gente e sabem que somos brasileiros da mesma forma que nós identificamos os japoneses. Nós somos, sim, etnicamente típicos e diferentes. Para eles, não somos brancos: somos hispânicos. Nossa pele é parda. É uma experiência curiosa adquirir este senso de raça e identificação. A vida inteira eu pensei que fosse branco. De repente, descobri não só que não sou branco, mas que posso ser alvo de racismo.

No entanto, por mais maldosa que fosse a intenção, eu jamais imaginaria que houvesse um tom racista em me chamar de brasileiro. Ora, eu sou brasileiro! E o apoio que recebi de amigos estrangeiros que criticaram a mensagem "racista", no fundo, trouxe o preconceito embutido nas entrelinhas. Pensando bem, um negro também pode se ofender se ouvir a palavra negro num tom agressivo ou acompanhada de um termo de baixo calão. Ainda assim, eu não estaria condicionado a ouvir algum estrangeiro me chamar de "Brazilian" e perceber a conotação pejorativa. Claro que, no meu caso, a ofensa estava inequívoca na palavra "twat". Mas o fato de a mensagem ter sido considerada racista não deixa dúvidas sobre o fato de que os estrangeiros viram depreciação também na qualificação "Brazilian".

Então fica claro que, para os estrangeiros, os brasileiros são, em primeiro lugar, uma raça. Chamar alguém de brasileiro pode ser considerado uma ofensa. Brasileiro tem cara de brasileiro. E isso o coloca sob suspeita de terrorismo num país estrangeiro. Isso é grave.

Meu sobrinho Ricardo está em Londres. Vai mandar notícias de vez em quando em
seu blog. Mas o santo dele é forte e ele vai curtir a viagem sem contratempos. Só é uma pena que não vou poder mais contar com ele para me levar ao hospital quando tiver meus ataques de asma. Chamo o Ecco Salva, mesmo.

Desarmamento

Sou contra o desarmamento por um único motivo: não desarma os bandidos.

Efeito retardado

Quando foi mesmo que saiu o primeiro CD do Bidê ou Balde? Foi em 2000, não foi? Aquele disco trazia a música "E por que não", que está causando polêmica agora. Claro que a publicidade que o grupo está tendo com isso pode ser bem-vinda. Mas eles devem estar bem irritados com esse verdadeiro "desenterro de ossos".

Na verdade, isso mostra o poder dos discos ao vivo de transformar o velho em novo. A evidência que a música não teve em seu lançamento original está acontecendo agora, com a participação do grupo em uma coletânea de bandas gaúchas em versões acústicas. Santa desinformação, Batman!

sexta-feira, julho 22, 2005

Caça aos documentos

Hoje consegui agilizar a busca dos documentos do meu carro com três telefonemas. Um para o atendimento do DETRAN para saber o número do SEDEX. Outro para o atendimento dos Correios para saber onde se encontrava o meu SEDEX, pelo número. Por fim, um telefonema para a unidade de distribuição dos Correios onde estava o meu envelope. A moça do telefone disse que a correspondência ficaria separada para mim, eu só teria que ir até lá e pedi-la no balcão. Com isso, consegui evitar o calvário das três tentativas infrutíferas de me achar em casa para só depois receber um aviso. Um dia as empresas aprenderão que o endereço residencial é o pior possível para entrega de documentos, cartões, talões de cheque, etc, pois quem trabalha nunca está em casa em horário comercial e, se mora sozinho, não tem ninguém mais para receber. Aí, talvez, descubram que é útil criar um item a mais no banco de dados chamado “endereço para entrega”.

A propósito, o sujeito que me atendeu no Correio conseguiu complicar um pouco mais o procedimento. Quando eu disse que tinha falado com a moça e que o documento “seria retido” para que eu o buscasse, ele não entendeu. Continuou procurando nas remessas pendentes. Quando falei que o envelope “estaria no balcão”, ele também não entendeu. Continuou procurando nas remessas pendentes. Quando eu falei que o documento deveria “estar separado”, aí ele repetiu: “Ah, separado?” Essa era a palavra mágica. Aí ele entendeu. E o envelope apareceu. Mas aí se foram uns cinco minutos.

quarta-feira, julho 20, 2005

A desglamurização do cigarro

Hoje vi uma cena curiosa. No café, uma fumante queria escolher a imagem que aparecia no maço de cigarros para ilustrar a advertência do Ministério da Saúde. Como não encontrou a que queria, deixou de comprar. Eu era o seguinte da fila (para pagar o café, não cigarro) e aproveitei para saber mais detalhes. A moça do caixa me explicou que a maioria dos tabagistas prefere a imagem do “cigarro impotente”, ou seja, da cinza caída para simbolizar que “fumar causa impotência sexual”. É uma foto menos agressiva do que a de pessoas enfermas. Achei sensacional que os fumantes se incomodem com as embalagens de advertência. Tomara que elas se tornem cada vez mais grotescas.

Até hoje, foram pouquíssimos os fumantes que conheci que admitiram que começaram a fumar para se exibir. Ou para se sentirem mais velhos. Ou para ficar bem com a turma. Quase todos afirmam que não é nada disso, que é apenas um prazer. Que esse negócio de fumar por necessidade de afirmação é papo de psicólogo. Reclamam também do patrulhamento dos antitabagistas. Reivindicam o direito de fumar em paz. Até acredito que alguns não consigam imaginar a tortura que é para um não-fumante agüentar fumaça de cigarro no ambiente. Pensam que é implicância e perseguição.

Eu, sinceramente, não consigo entender que atrativo tem o cigarro. O álcool também é prejudicial à saúde, mas ainda dá um pilequinho gostoso. Não estou defendendo o consumo de bebidas alcoólicas, apenas digo que posso compreender o prazer de quem bebe. Ou mesmo de quem usa drogas ilegais, embora também não as aprove. Mas qual o barato do cigarro? Que graça tem ficar com aquela coisa suja na boca sugando fumaça para dentro do pulmão? E ainda impregnando o ambiente com cheiro de tabaco? Meus amigos fumantes que me desculpem, mas é uma grande idiotice.

No entanto, os fumantes juram que é um prazer. Que não querem se exibir ou aparecer, apenas reivindicam o direito de fumar. Se é assim, então não podem reclamar da crescente desglamurização do tabagismo. Querem fumar? Tudo bem. Mas não perto de mim. Escondam-se no mais recôndito corredor do prédio, onde ninguém os enxergue. Ou então, sujeitem-se às novas regras. Um shopping aqui de Porto Alegre tem uma área reservada a fumantes que parece uma vitrine onde os tabagistas ficam expostos feito animais. E esqueçam aquelas embalagens luxuosas dos cigarros de outrora. Quem quiser fumar vai ter que carregar fotos bem cruentas alertando sobre os riscos do tabaco.

Cada vez mais se observa a segregação e por que não dizer a ridicularização dos fumantes. Talvez eles se revoltem com isso e pensem em criar um movimento contra essa imagem pejorativa. Mas não terão o meu apoio. Pelo contrário: esse é um caso em que dou força para a discriminação total. Fumante tem que pagar mico, mesmo. Assim, não poderá se queixar de que está sendo impedido de satisfazer seu vício – desculpem, o seu prazer. Mas perderá aquele élan que antigamente se associava ao cigarro. Mas isso não deverá ser problema, ora! Afinal, não é por isso que as pessoas fumam, garantem os usuários. Ou é?

Relíquias perdidas

Meus colegas me criticam por ser bagunçado, por não organizar minha mesa e não me desfazer de papéis inúteis, muitas vezes até jornais velhos. Pois bem: tem um sujeito na Internet anunciando "vendas para colecionadores". Entre edições especiais de jornais antigos e outras curiosidades, ele oferece o "Catálogo Primavera 2004 C&A com Gisele Bundchen" por 50 reais. Ora, eu ainda tenho isso! Será que meus jornais velhos também valem tanto? Vai ver, estou perdendo de ganhar dinheiro e não sabia!

Alerta

Aqueles que, por ocasião do Dia do Amigo, enviarem o conhecido texto que começa com a afirmação "tenho amigos que nem sabem o quanto são meus amigos, etc", não esqueçam de dar crédito ao autor certo: o cronista gaúcho Paulo Sant'ana e não Vinicius de Moraes!

Folclore

Diálogo por telefone com um colega de Brasília, há alguns anos:

Colega: Tá muito frio aí em Porto Alegre?
Eu: Aqui não faz tanto frio. Mais é folclore.
Colega: Uma vez fui aí e peguei um folclore...

Pois nesta semana está fazendo um folclore de arrepiar.

Lista

O Banrisul divulgou a lista de aprovados... em ordem de classificação! Quem achar a lista na Internet ainda pode dar um "procurar", mas quem só tiver o jornal terá pela frente uma longa leitura com pouco enredo e muitos personagens.

Bom dia

Feliz Dia do Amigo a todos os visitantes do blog!

terça-feira, julho 19, 2005

Brizolinha já foi roqueiro


Pecos "Pássaro" (no fundo, à esquerda, de boca aberta), Edinho Espíndola (na bateria), Mimi Lessa (à esquerda, de cabelos encaracolados) e Zé Vicente Brizola (em frente, à direita).
P.S.: Agora estou em dúvida. O de boca aberta é muito parecido com Cláudio Vera Cruz. Se alguém souber com certeza, poderia me informar? Obrigado.

Acredite se quiser: José Vicente Brizola, ex-diretor da loteria gaúcha que vai depor hoje na CPI dos Bingos, já foi guitarrista e roqueiro da nata. Ele fundou o Bixo da Seda em Porto Alegre em 1973 juntamente com Mimi Lessa. Pouco depois, o destino fez com que a formação do Bixo viesse a ser praticamente a mesma do antigo Liverpool, com a saída de Zé Vicente (como era conhecido) e a entrada do vocalista Fughetti. Mais adiante, em 1981, o filho de Leonel Brizola veio a formar o grupo Eureka, tendo ele na guitarra, Hermes Aquino (retomando suas origens roqueiras cinco anos depois de estourar com "Nuvem Passageira") no baixo, Cláudio Vera Cruz na guitarra e Paulinho Soares na bateria (depois substituído por Bebeto Mohr). Nesse mesmo ano, saiu também o LP Nova Canção do Sul, incluindo uma faixa solo de Zé Vicente: "Na Ponta do Anzol". A letra de Paulinho Buffara se torna irônica diante dos fatos recentes: "Morreu esperança de pobre / Na dança da sorte / Na ponta do anzol / (...) Peixe na linha fisgado / E o pobre coitado / Na ponta do anzol".

Segurando a vela

Na primeira vez em que participei de um bolo vivo num aniversário de 15 anos, tive dificuldade em segurar a vela acesa. A cera ficava caindo na minha mão. Eu reclamava: "Não consigo segurar essa vela sem me queimar." Uma senhora ouviu e falou: "Olha os outros, como estão segurando direitinho." Eu fiquei indignado. Como segurar uma vela acesa sem queimar a mão com a cera? Impossível! Mas os outros, realmente, estavam conseguindo.

Muito tempo depois voltei a participar de um bolo vivo. Não sei se foi a maturidade, a experiência ou a boa-vontade, só sei dizer que dessa vez a vela não me queimou. Como? Não sei explicar. Existe uma maneira certa de segurar, mas eu não saberia descrever nem ensinar. Tem que tentar, tem que acreditar que é possível. Tem que ter jeito.

Certas coisas na vida são como uma vela acesa. Para alguns, pode ser algo impossível de segurar. Afinal, se a cera acumula ao redor da chama, como impedir que ela caia na mão? No entanto, outros conseguem. Talvez segurem tão bem que a cera não caia nunca. Ou então a cera cai só de vez em quando, mas eles podem suportar. Depende da pessoa. Mas não tem como ensinar. Quem consegue, consegue. Quem quer, aprende.

segunda-feira, julho 18, 2005

Sem arroz, por favor

Quem não conhece aquela piada clássica do porquê de os orientais terem olho puxadinho? É porque, todos os dias, antes das refeições, eles olham para o prato, colocam as mãos aos lados dos olhos e, numa expressão de indignação, repuxam a pele e exclamam: “Aroz outra vez...”

Só não entendo o que os brasileiros têm de diferente. Se fosse assim, todos nós teríamos olho puxadinho também. Ou melhor: todos menos eu. Porque já falei aqui que não gosto de arroz. E sou visto como um ET por isso. É impressionante como, em geral, nenhum brasileiro consegue pensar numa refeição sem arroz. Quando vou almoçar ou jantar na casa de alguém, dependendo do grau de intimidade que tenho com o anfitrião, prefiro que nem saiba dessa peculiaridade do meu paladar. Só o que eu espero é que me deixe à vontade para comer apenas o que eu quiser. De preferência, sem muitas perguntas e sem olhares cheios de curiosidade. Quando as pessoas sabem de antemão que eu não gosto de arroz, costumam ficar atrapalhadas:

- Puxa, o Emílio não come arroz. E agora, o que vamos fazer?

Já me aconteceu de estar na praia com meus tios e, na hora do almoço, o prato principal ser à base de arroz. Quando minha tia viu que eu não iria comê-lo e daria preferência às outras opções (que eram poucas, mas não importava, eu só queria liberdade para recusar o arroz sem muito transtorno), teve um sobressalto: “Eu não lembrei que o Emílio não gosta de arroz!” E levantou da mesa correndo para fazer um bifinho para mim. Claro que só conseguiu me deixar morrendo de vergonha. A partir daquele dia, meus tios e minhas primas não comeram mais arroz durante todo o veraneio. E percebi que minha tia ficava perdida no momento de escolher o cardápio. Não adiantava eu dizer que não me importava. Se eu não comia arroz, ela não iria fazer. E sem arroz, fazer o quê? É assim que brasileiro pensa. E ainda debocha dos japoneses.

Já houve casos em que não havia outra opção. Era só risoto, por exemplo. Nessas situações, nada me resta senão ir comendo bem devagar, como geralmente acontece quando ingerimos algo que não nos agrada. E agüentar o anfitrião dizendo: “Pode comer e repetir à vontade, não se acanhe!” Para não dizer que não gosto de nenhum tipo de arroz, adorei um carreteiro de lingüiça que provei em minha adolescência. Não era exatamente igual a esse “arroz de china” que se vende em restaurantes campeiros, pois a lingüiça estava inteiramente desmanchada em meio ao arroz, enquanto o “arroz de china” tradicional traz a lingüiça fatiada. Mas é a única exceção. E fico possesso quando peço um prato sem arroz e na hora H lá estão aqueles repulsivos grãos brancos fumegando. Não adianta levar o prato de volta à cozinha e retirar o arroz. Não pode ter nem um grão, nem cheiro, nada.

Por fim, poupem-me daquela inteligentíssima pergunta sobre se eu comeria um prato de arroz para não morrer de fome. O instinto de sobrevivência não tem nada a ver com paladar. Os sobreviventes dos Andes que o digam.

sexta-feira, julho 15, 2005

Eu li!

“Grendene troca gado por cana e usina”

Título de matéria na Zero Hora de hoje. Mas dêem um desconto. Uma das coisas que aprendi na faculdade de Jornalismo é que o título de uma notícia tem que ocupar o espaço exato das colunas. Dizem que o desafio é gratificante. Imaginem só: “Show agrada o público”. Não deu, precisa ser mais longo. “Show não agrada o público”. Perfeito! Fulano, escreve outra crítica do show pra combinar com o título.

Quando os homens não notam

Em um dos primeiríssimos textos deste blog eu fiz um comentário sobre meias de homens. E qualifiquei-as como “o paradoxo da indumentária masculina”, pois quanto melhor você as escolhe, menos notadas elas são. Se as pessoas repararem nas suas meias, é porque alguma coisa saiu errado. Pois bem: um recente comentário da Bruna sobre mulheres que cortam um centímetro de seus longos cabelos e os homens não notam me fez perceber que a lógica das meias também se estende para outros detalhes do visual, tanto em homens quanto mulheres. Pena que algumas mulheres não entendam.

Então a namorada renovou a pintura dos cabelos. Depilou meticulosamente cada pêlo das pernas. Colocou uma roupa diferente. Ai de mim se eu não notar! E nisso a língua portuguesa não me ajuda muito, pois podem-se confundir os significados de “desatento” e “desatencioso”. “Meu namorado não tem atenções comigo”. Eu posso achá-la linda, maravilhosa, deslumbrante, sensual, aquela pele lisinha e macia, e ela reclamar porque não notei que ela não nasceu assim, nem acorda desse jeito todos os dias: aquilo tudo foi o resultado de um cuidadoso banho de loja e instituto. E aquela mechinha a mais! Aquela mecha um pouco mais clara quarenta graus à direita! Como é possível que eu não tenha visto?

É preciso entender que algumas pessoas são mais observadoras e detalhistas do que outras. Nessa hora, permito-me argüir a lógica das meias. Se o cabelo estivesse feio, claro que eu notaria. Se as pernas estivessem ásperas, por depilar, isso chamaria a minha atenção. Se eu não gostasse da roupa, acho que a notaria a um quilômetro de distância. Aquilo que cai bem e combina com a pessoa nem sempre se sobressai. Apenas se mistura a um conjunto esteticamente harmônico e agradável aos olhos (ou ao toque).

Portanto, mulheres, peguem mais leve com seus homens. Parem de reclamar que eles só notam o que está ruim porque, até certo ponto, isso é normal. É melhor não notar nada do que fazer aquela cara de desaprovação e comentar: “Você pintou o cabelo!” Essa aparente distração não é descaso, nem desinteresse, nem falta de amor, muito menos invalida o investimento que vocês fazem periodicamente em roupas e institutos. O que importa é o conjunto.

quinta-feira, julho 14, 2005

"Ghost" e o fantasma do espectador


Já que puxei o assunto de cinema, vou aproveitar para fazer um comentário sobre o filme “Ghost” que venho ensaiando em minha cabeça há vários meses – mas as opiniões vêm desde a época em que o vi pela primeira vez. “Ghost” fez um sucesso tão estrondoso que surpreendeu à própria Paramount, que chegou a pedir que os espectadores que tivessem visto o filme diversas vezes entrassem em contato. Para mim, a fórmula de êxito do longa metragem é bastante clara.

O sonho secreto de todo espectador ou leitor é entrar dentro da estória e conduzi-la ao final desejado. Quantas vezes, vendo um filme ou mesmo lendo um livro ou gibi, temos ganas de falar com o personagem. De avisá-lo que está sendo enganado. Ou mesmo de nos materializarmos na trama para dar uns socos no vilão. Não podemos fazer nada disso. Somos meros assistentes, invisíveis, incapazes de transpor a barreira que separa a nossa realidade da ficção que observamos. “Ghost” realiza esse sonho impossível através de um de seus protagonistas.

Quando Sam (Patrick Swaize) morre e vira um fantasma no filme, ele se torna, como nós, um mero assistente. Fica vendo tudo com indignação, comentando, reclamando, extravasando seu descontentamento, mas não pode fazer nada. Ali, cria-se um vínculo entre ele e a platéia. Sam passa a ser um representante dos espectadores no filme, um de nós, ansioso por se comunicar com os personagens e evitar que sua esposa Molly (Demi Moore) seja enganada pelo falso amigo Carl (Tony Goodwin). Mas, como nós, ele só pode observar sem fazer nada.

Mas, no momento em que o espírito de Sam consegue fazer contato e interferir na estória, é como se cada um de nós estivesse lá, participando do filme, ajudando Molly e levando a trama para um final feliz. A partir de então, cada nova vitória de Sam nos realiza, como se nós é que tivéssemos obtido cada façanha. Essa sensação de que somos nós que estamos direcionando o enredo é reforçada pelo fato de que, a partir de determinado momento, tudo acontece como gostaríamos. Poucos filmes são assim.


Em “O Céu Pode Esperar”, amargamos a frustração da amnésia de Joe Pendleton logo após ter assumido o corpo de um jogador acidentado. O filme termina como se ele tivesse se tornado outra pessoa, sem lembrar de sua namorada quando a vê. Não é o desfecho que esperaríamos. Assim como gostaríamos que Jenny não morresse em “Love Story” e que Romeu e Julieta vivessem para serem felizes para sempre. “Ghost” realiza o espectador de forma quase orgásmica, dando-lhe exatamente o que deseja a partir de certo momento até o final.

Não sou um expert em cinema. Acho que não sirvo para crítico nessa área. Mas certos filmes eu considero perfeitos do ponto de vista de entretenimento e “Ghost” é um deles. Aliás, é curioso como, na música, são cada vez mais raros os artistas e discos que conseguem me entusiasmar. Já bons filmes aparecem ano após ano. Enquanto a indústria do disco precisa recorrer a relançamentos para aquecer as vendas, a indústria do cinema ainda consegue manter o pique.

De novo

Hoje, pelo visto, teremos mais um "veranico de inverno", também conhecido como "calor atípico", "calor fora de época" ou "a troco de que este veranico em pleno mês de julho".

Como sempre acontece todos os anos.

quarta-feira, julho 13, 2005

Labirinto


Está saindo em DVD no Brasil o filme “Labirinto”, de Jim Henson, estrelando David Bowie e Jennifer Connelly. Eu vi este filme pela primeira vez no cinema, em 1986, e gostei bastante. Filmes infantis criativos e originais sempre me agradaram. Que eu sou fã de David Bowie, todos sabem. Mas eu também adorava o “Muppet Show”, cuja primeira temporada está para ser lançada em DVD nos Estados Unidos (tomara que chegue ao Brasil, também). Então acho fantástico o visual do filme, os bonecos, o labirinto, aquela cena final que desafia as leis da gravidade, enfim, “Labirinto” é um clássico de seu gênero.

No entanto, também tenho por “Labirinto” o que se chama em inglês de “mixed feelings”, expressão que o escritor Ruy Castro traduz sem o menor constrangimento como “sentimentos mistos”. Pra começar, quem já tinha ouvido falar de David Bowie e sabia que eu era um antigo fã vinha me dizer: “E aí, viu que tem um filme com o David Bowie?” Ora, em 1986 fazia dez anos que Bowie havia estrelado seu primeiro longa metragem, “O Homem Que Caiu na Terra”. Depois desse, teve “Apenas um Gigolô” (1979), “Furyo, Em Nome da Honra” (1983), “Fome de Viver” (1983) e um papel secundário em “Um Romance Muito Perigoso” (1986). Descontados projetos menores, “Labirinto” era o no mínimo o sexto filme de Bowie, que já havia conquistado o respeito da crítica como ator. E os desinformados de plantão vinham comentar comigo a grande novidade de que estava passando um filme com David Bowie.

Mas o fenômeno mais intrigante foi a conquista de uma nova geração de fãs a partir desse filme. A popularidade de Bowie já vinha em franca ascensão desde o sucesso do álbum “Let’s Dance” em 1983. Muitos descobriram o cantor com esse disco e chegaram a pensar que fosse o seu LP de estréia. Já o filme “Labirinto”, especialmente no Brasil, apresentou o ídolo a um tipo de público que não combinava em nada com o conjunto de sua obra. Porque Bowie já tinha uma longa história antes, especialmente nos anos 70. Tinha sido um roqueiro surpreendente e revolucionário, iniciando seu trabalho em 1964, lançando o primeiro LP em 1967, estourando com o “glam rock” de “Ziggy Stardust” e “Aladdin Sane” em 1972/73, abraçando a “soul music” com “Young Americans” em 1974/75, experimentando um som dançante e eletrificado com “Station to Station” em 1976 e incorrendo na música eletrônica em parceria com Brian Eno com “Low” e “Heroes” em 1977. “Lodger” dividiu opiniões em 1979, mas “Scary Monsters” foi seu último clássico unânime em 1980.

Os fãs atraídos por “Let’s Dance” ou “Labirinto” não conheciam nada disso. Para eles, Bowie surgiu como um ídolo pop de consumo fácil, um cantor para ser ouvido juntamente com Phil Collins, George Michael, Culture Club e Elton John. E com a vantagem de ter boa aparência, reforçada pelos terninhos que ele usou na turnê “Serious Moonlight” em 1983. Em suma, o roqueiro genial e extravagante dos anos 70 virou galã nos anos 80. O filme “Labirinto” coroou essa fase, com seu apelo instantâneo e as pegajosas músicas da trilha sonora. A balada “As The World Falls Down” fez sucesso no Brasil, tocando até hoje na Antena 1, embora não tenha sido sequer lançada em single. E um detalhe que poucos observam: Bowie nunca cantou nenhuma música do filme “Labirinto” ao vivo. Nem mesmo “Underground”, que ele promoveu bastante na época. Isso decepcionou o público que compareceu aos shows de Bowie no Brasil em 1990, já que, naquele ano, os poucos discos do cantor em catálogo eram quase todos dos anos 80.

Na segunda vinda, em 1997, foi um pouco diferente. Ocorreu com a geração “Labirinto” um processo de seleção natural. Depois do deslumbramento com a descoberta do ídolo (o que chegou a motivar um velho fã a desativar seu fã-clube, pois recebeu uma enxurrada de inscrições de novatos que desconheciam a obra de Bowie), veio a surpresa de saber que havia uma longa lista de títulos anteriores em sua discografia. Quem ouviu esses clássicos do passado e não gostou, percebeu que David Bowie não era o bibelô pop que imaginava e o descartou. Já os ouvintes de cabeça mais aberta descobriram um tesouro onde imaginavam haver apenas um pequeno brilhante. Não se pode reclamar do sucesso de “Labirinto” porque serviu de porta de entrada para muitos dos fãs que hoje admiram o trabalho de Bowie como um todo. Mas de vez em quando ainda leio mensagens de garotas dizendo que adoram Bowie porque ele está liiiiindo no filme. Isso, me desculpem, não é ser fã de Bowie, mas do personagem Jareth.

terça-feira, julho 12, 2005

Diálogos românticos

Durante o almoço:

Ela - O que eu preciso fazer pra ficar bonita?
Eu - Basta respirar e ocupar espaço.

Ela gostou tanto que anotou a frase num guardanapo.

Olhando DVDs na loja:

Ela - Eu gosto do Zeca Pagodinho!
Eu - Eu, não. Mas tudo bem. Se nós gostássemos exatamente das mesmas coisas, não estaríamos juntos, porque tu gostas de homem e eu gosto de mulher.

Mais uma idéia óbvia

Lembram quando escrevi sobre as idéias óbvias? Aquelas que todos têm ao mesmo tempo e cada um pensa que teve um lampejo de genialidade e originalidade? Pois acho que daria pra encher um livro bem grosso com as charges e colunas desta semana que falam em "moral de cueca".

segunda-feira, julho 11, 2005

Política? Que política?

Eu diria que, nos 20 primeiros anos da minha vida, fui um alienado total e convicto. Política não me interessava. E se alguém viesse tentar me "conscientizar", só conseguia me deixar irritado. Do ponto de vista pessoal, isso tinha um lado bom. Eu não me incomodava com a situação do país. Porém, entre os meus amigos havia um em especial que era politizado. Lembro de uma noite em que saímos para um barzinho e ele estava na fossa. Tudo porque o então Presidente João Figueiredo acabara de instituir o voto vinculado, isto é, a obrigação de votar em candidatos de um mesmo partido. Eu não estava nem aí. Só o que me deixava de baixo astral era levar um fora de uma namorada, por exemplo. A situação política que se danasse.

Aos poucos eu fui mudando. Senti uma emoção muito forte quando Tancredo Neves foi eleito. Eu estava indo para casa para almoçar quando escutei o barulho da multidão exultante em frente à Prefeitura de Porto Alegre. Pela primeira vez eu via o nosso povo comemorar algo concreto, de real importância, que não apenas uma Copa do Mundo ou Carnaval. A Faculdade de Jornalismo me pegou num ótimo momento, cheio de vontade de conhecer a história política que havia passado despercebida bem debaixo do meu nariz nas décadas anteriores. E também o que aconteceu antes, especialmente a Era Vargas. Devorei livros sobre o assunto.

Mas Tancredo não chegou a assumir. Com ele morreram os sonhos de um país ideal. Como eu disse na época, o Brasil ganhou um Kennedy. Alguém que, por não ter tido tempo de ser posto à prova, manteve a mística do super-herói que iria salvar os fracos e oprimidos. Mas eu nunca me iludi. Nem Tancredo, nem Lula, nem qualquer outro presidente seria capaz de fazer um milagre. O que o Brasil precisa é de um processo democrático estável e de um povo persistente. Que aprenda, devagar e sempre, a derrubar governos nas urnas. Errando até acertar.

Se eu escrevesse numa coluna de jornal e não num blog, provavelmente já teria sido obrigado a comentar sobre o PT. Não agüento mais receber mensagens dos antipetistas eufóricos, que debocham e festejam a derrocada de um sonho. Eu não torci pelo fracasso da administração anterior, nem nunca me juntei ao coro de "Fora FHC". Espero que a nação tenha maturidade para sair dessa crise sem que a democracia sofra baixas. E também continuo na torcida: vai lá, Tarso!

Quase que este texto toma seu próprio rumo e se encerra sozinho, fugindo à intenção original. O parágrafo acima seria um fecho perfeito, não concordam? Mas ainda não cheguei onde queria. No fundo, ainda sou aquele mesmo jovem de 19 anos que se preocupava em primeiro lugar consigo mesmo. Pode até ser um mecanismo de defesa. É chato ver que o PT vai mal, mas o que importa é que eu vou bem. Muito bem. Que me interessam os dólares na cueca? Tive coisas bem mais interessantes com que me preocupar nesse fim-de-semana. E muito bem acompanhado!

sexta-feira, julho 08, 2005

Pensamento da hora

Teu sorriso é um sol particular que eu quero ver nascer todas as manhãs.

O show de despedida dos Almôndegas


Parece que foi ontem que os Almôndegas fizeram seus dois shows oficiais de despedida no Salão de Atos da UFRGS em 1979. Eu fui na primeira noite. Lembro bem que o primeiro a entrar foi o baterista Fernando Pezão, coringa do pop gaúcho que já tocou com praticamente todo o mundo e hoje está nos Papas da Língua. Pezão entrou de capote e, se não me engano, capuz, assumiu seu lugar na bateria e começou a bater nos tambores espaçadamente à medida que os demais "encapuzados" iam entrando, de um em um. O baterista nunca chegou a participar de nenhum disco dos Almôndegas, mas os acompanhou neste show como convidado (e depois novamente no show de 15 anos em 1990 no L’Atmosphere). A formação do grupo era: Kleiton, Kledir, João Batista e Zé Flávio.


O show tinha um roteiro. Em determinado momento, cada integrante era apresentado por uma gravação, enquanto ficava sentado num banco alto bem sério e imóvel, com um facho de luz por cima. Havia também vários momentos em que Zé Flávio recitava: "Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste / Criança: não verás outro país como este." Kleiton emendava: "Lá vêm as caravelas das praias de Portugal / Na maior de todas elas, Pedro Álvares Cabral". Esse trecho era repetido várias vezes e, em algumas delas, Kleiton tapava o nariz e fazia voz fanha quando dizia "Pedro Álvares Cabral". "Amor Caipira e Trouxa das Minas Gerais" foi apresentada numa versão sem bateria e sem repetição de versos. "Vento Negro" foi cantada por Kledir, já que o vocalista da gravação original, Quico Castro Neves, havia saído do grupo no final de 1976. Em "Harmonia", Kledir errou a letra: quando deveria cantar "meu coração é um rio correndo pra ser feliz", atrapalhou-se com a estrofe anterior, cantou "teus olhos", percebeu o erro e parou. Kleiton veio em seu socorro: largou a flauta, cantou "são rios" e Kledir completou: "correndo pra ser feliz". Também em "Circo de Marionetes", na segunda estrofe em que todos deveriam cantar que o coração "se agita", alguns repetiram a primeira parte e disseram "palpita".

Todos esses comentários eu coloquei na comunidade dos Almôndegas no Orkut. Aí, para minha surpresa, uma das integrantes – Glorinha, a quem já considero uma amiga, embora virtual – disse que tinha esse show gravado em cassete, com microfone. Não acreditei. Pedi cópia na hora e ela não se fez de rogada. Mesmo morando em Santa Catarina, providenciou as fitas e as colocou no correio. Ontem à noite eu dei uma escutada. Pude perceber, com certeza, que ela gravou o show da segunda noite e não o da primeira, onde eu estava. Ora, se eu lembro até dos erros, não esqueceria se eles tivessem incluído músicas novas no repertório. Pois foi exatamente isso que fizeram no segundo show. Eles cantam uma inédita no começo, uma versão rapidinha de "Gatinha Manhosa" (antes, bem antes de Leo Jaime a redescobrir), "Bandeira do Divino", um trecho de "Em Mar Aberto", de Fernando Ribeiro, antes de "Circo de Marionetes", e ao final tocam uma longa composição instrumental que depois seria gravada por Kleiton e Kledir como "Couvert Artístico". Mas nesse show a música era bem mais extensa, cheia de variações, e tinha uma participação marcante de Zé Flávio na guitarra. Pelo que pude ouvir, o ex-integrante Pery Souza é chamado ao palco para participar nessa execução. Isso não aconteceu no primeiro show. Também não houve o erro em "Harmonia", mas eles se atrapalharam de novo no final de "Circo de Marionetes".

É curioso que, 26 anos depois, eu ainda lembro de detalhes dos textos do roteiro. Nunca esqueci a forma como João Batista foi apresentado. Enquanto o facho de luz pairava sobre ele, a voz dizia: "João... Batista. Baaaaaaaaah! Esse não precisa nem dar titulação!" Kledir foi anunciado como "ex-integrante do PC – Piquete do Caveira!" Esses trechos eu não esqueci, mas não imaginava que iria escutar de novo. Continuo achando que uma das invenções mais fantásticas de todos os tempos é o gravador. Foi um dos melhores presentes de Natal que ganhei na infância. Também gravei alguns shows e festivais com microfone, mas burramente eu desligava entre uma música e outra. A Glorinha gravou tudo e preservou um momento histórico.

Depois, o crítico de música Juarez Fonseca fez um comentário na Zero Hora que era um verdadeiro manifesto a favor da saída dos músicos gaúchos para o centro do país, olha aí o exemplo dos Almôndegas que amadureceram e blá blá blá. Anos depois ele aconselhava Bebeto Alves a não se mudar de vez para o Rio porque "o Rio tira mais do que dá, os artistas vão perdendo sua identidade sem perceber..." Seria o caso de saber hoje onde o Juarez recomenda que os gaúchos se estabeleçam.

quinta-feira, julho 07, 2005

Confusão de significados

Acabo de descobrir que bimensal faz parte do rol das "palavras ou expressões em português que nem todos sabem usar corretamente". Isso significa que a partir de agora: 1) não usarei mais essa palavra (substituirei por "quinzenal") para não correr o risco de ser mal interpretado; 2) quando a palavra aparecer em alguma tradução, consultarei antes para saber o que o cliente realmente quis dizer.

Eu não imaginava que o uso de bimensal como sinônimo de bimestral estivesse tão difundido. Acho que muita gente deve achar bimensal uma palavra mais bonita e sonora. Eu nunca tive dúvidas quanto à diferença porque, na minha infância, existiam as revistas bimestrais da Ebal. Eram edições maiores e com mais histórias do que as mensais. O nome era encurtado para "Superman Bi", "Batman Bi" e assim por diante. Um dia perguntei para minha mãe o que significava "bimestral" e ela me explicou o significado e a diferença de "bimensal". Por isso eu achava que não houvesse dúvida. Bimestral é a cada bimestre, ou seja, a cada dois meses. Bimensal é duas vezes por mês.

Isso me lembra quando, na minha adolescência, vi no informativo do meu curso de inglês uma notícia de que uma festa organizada pela instituição havia contado com a presença de membros do corpo discente. Para ilustrar, havia a foto de um professor. Ou seja, o que eles queriam dizer era corpo docente. Mas devem ter gostado mais de discente e por isso escreveram assim, pouco importando que o significado não fosse o mesmo. O corpo docente é formado pelos professores. O corpo discente se compõe dos alunos. Acho que esse erro que testemunhei foi um caso isolado. Continuo presumindo que a diferença entre os dois termos é bem conhecida.

Por outro lado, nunca uso a expressão "de encontro a", pois já sei que boa parte dos leitores vai entender "ao encontro de". Quem vai "de encontro a" alguma coisa entra em choque, vai contra. Mas nem todos sabem disso, então é melhor não arriscar, para evitar que a interpretação do receptor vá de encontro à mensagem pretendida (epa!).

Recado

"Será que você não é nada que eu penso? Também se não for, não faz mal." (Leoni, "Só Pro Meu Prazer")

A ineficácia do "não" cordial

Na semana passada um amigo da Internet comentou sobre a insistência de alguns missionários religiosos. Confundem cordialidade com receptividade e não conseguem entender que um "não" com sorriso e polidez tem o mesmo significado de um "não" seco e antipático. "Não" é "não", fim de papo. E nem estou me referindo ao caso do "não disfarçado", que já comentei aqui. Muitas vezes um "não" é direto e inequívoco, mas resulta ineficaz por uma série de motivos.

No filme "Assédio Sexual", há uma cena em que Michael Douglas consegue provar, por meio de uma gravação, que disse não ao assédio de Demi Moore. Demi tenta argumentar que é comum alguém dizer não quando quer dizer sim e advogada responde, irredutível: "Não significa não." É claro que existem pessoas que gostam de dizer não para se fazerem de difíceis ou dar início a um jogo de conquista. O músico gaúcho Nélson Coelho de Castro explorou isso muito bem em uma de suas mais bonitas composições, "Teu Não é Sim". Mas, em princípio, deve-se presumir que um "não" tem o significado explicitado pela advogada do personagem de Michael Douglas e não o da musa do Nélson.

Uma das profissões mais ingratas deve ser a de vendedor. Seus chefes e instrutores lhes orientam a nunca aceitar um não como resposta. E aí nós, os consumidores em potencial, é que nos tornamos vítimas dessas técnicas que, embora superadas, devem dar certo ou não estariam sendo ensinadas até hoje. Mas eu, particularmente, detesto que me perguntem se já peguei minha cortesia da revista tal ou que me chamem para responder sobre minha necessidade desse ou aquele produto. Essas vendas disfarçadas de pesquisa acabam atrapalhando o trabalho dos verdadeiros pesquisadores, como constatei quando apliquei meu questionário para a monografia da Faculdade.

Enfim, existem pessoas para as quais o "não" precisa ser bem antipático, ou não cola. A gente tenta ser gentil, tenta manter uma relação cordial e, quando menos espera, recebe uma nova investida. Aí, nada mais resta do que virar o rosto, tapar os ouvidos e fechar a porta.

quarta-feira, julho 06, 2005

Recado

"Se você quer ser minha namorada, ah que linda namorada você poderia ser..." (Vinicius de Moraes e Carlos Lyra)

Adorei o almoço, menininha assustada. O café foi melhor ainda.

terça-feira, julho 05, 2005

Sunset Riders

Aí vai a agenda da banda Sunset Riders para o mês de julho. Estou em dívida com eles e a turma, mas pelo menos ajudo a divulgar.

07/07 - JOHN BULL PUB - Shopping Total - Porto Alegre

09/07 - BULEVAR DANCY - Bento Gonçalves

15/07 - Festa CPM Inst. Educ. Prof. Irmã Teofânia
Clube 31 - Garibaldi

16/07 - BAR JOE - Garibaldi
Onde estaremos comemorando nosso 4º ano de
de sucesso junto a você.


21/07 - JOHN BULL PUB - Shopping Total - Porto Alegre

22/07 - JOHN BULL PUB - Shopping Total - Porto Alegre

23/07 - REVIVAL ROCK BAR - Caxias do Sul

28/07 - ESPECIAL BEE GEES
John Bull Pub - Shopping Total - Porto Alegre

29/07 - JOHN BULL PUB - Shopping Total - Porto Alegre

30/07 - JOHN BULL PUB - Shopping Total - Porto Alegre

O Ouvinte Casual

(Publicado originalmente no International Magazine nº 53 - não me perguntem em que ano.)

Todos os fanáticos por música, especialmente os discófilos, têm uma história parecida. Vivem sendo criticados pelo excesso de discos que compram. Primeiro, pelos pais. Depois, pela esposa. Futuramente, quem sabe, pelos filhos. E vocês, que já nasceram na era do CD, têm a vantagem de poder esconder cada nova compra em qualquer espaço onde caibam cinco polegadas de diâmetro: uma bolsa, uma capanga ou até o bolso. Até o final dos anos 80, não existia essa moleza. Não havia como chegar em casa com doze polegadas em baixo do braço e não ser notado. Aí, a crítica era inevitável, mesmo que não-verbal. Bastava um olhar fulminante para dizer tudo: "Ele comprou mais um disco..."

No entanto, nem todos são assim. Na verdade, somos minoria. O mercado está tomado pelo Ouvinte Casual. Sim, aquele sujeito comum que gosta de música sem ser fanático. Compra menos de um CD por mês, em média. Não lê International Magazine, não lê "Ice", não consulta a Internet, não troca informações com amigos e, em geral, só conhece os CDs que a rádio ou a televisão literalmente lhe esfrega no ouvido. Por um lado, ele está certo. É uma pessoa ponderada, que sabe administrar seus gastos. Não torra o seu orçamento em supérfluo. Contabiliza ajuizadamente suas despesas, de forma que nunca lhe falta dinheiro para o cinema, o bar, a noite, as roupas. Mas que é chato ter que agüentar o Ouvinte Casual, isso é. Porque o comércio trabalha praticamente só para ele.

Em geral, o Ouvinte Casual é adorado por vendedores. Ele se contenta com pouco e nunca procura nada complicado. É aquele indivíduo que pede um CD que está esparramado por toda a loja, só não vê quem não quer. O vendedor, feliz por poder ajudar, alcança o disco ao Ouvinte Casual, que o compra e sai dali pensando: "Adoro essa loja porque eles sempre têm o que eu quero!" Mas não só nas lojas de disco o Ouvinte Casual se sente em casa. Nas lojas de móveis, também. Sabe aquelas prateleiras com compartimento para, no máximo, 40 CDs? Ou aquelas torrezinhas que ficam no meio da sala, sem proteção nenhuma, também com o objetivo de armazenar algumas dezenas de discos? Para o Ouvinte Casual, elas são mais do que suficientes. Ele realmente coloca toda a sua CDteca ali. O Ouvinte Casual é o único que consegue comprar uma estante para o seu som sem precisar fazer sob medida.

O Ouvinte Casual geralmente é beatlemaníaco. Afinal, quem não gosta de Beatles? Só que ele nunca ouviu falar de disco pirata. Para ele, todas as faixas da série "Anthology", sem exceção, eram desconhecidas. E, cá entre nós, que saco agüentar os beatlemaníacos casuais comentando animadamente faixas manjadíssimas como "Three Cool Cats" ("é aquela do Roberto Carlos", numa alusão à semelhança com "Negro Gato"), "How Do You Do It", "If You've Got Troubles" e "What's The New Mary Jane" ("que música esquisita") como se fossem altas novidades. Agora vai ser a mesma coisa com a "Anthology" de John Lennon. O Ouvinte Casual tomou conhecimento do CD "In My Life", de George Martin, depois da entrevista no Fantástico. E esta aconteceu mesmo: um Ouvinte Casual beirando os 50 anos entrou em uma locadora de vídeo comentando que tinha conseguido o último CD dos Beatles que faltava para a sua coleção, "um disco importado que não saiu no Brasil". Quando espichei o olho, vi que era um pirata italiano daqueles bravos, de capa desenhada, dos menos valorizados. Queria só ver a cara do sujeito quando ouviu o disco, em casa.

Se o Ouvinte Casual gosta de Jovem Guarda, não toma conhecimento das melhores coletâneas da época. Se diz que tem a coleção completa de Roberto Carlos, é porque nem sabe da existência do Primeiro LP, "Louco por Você". Acima de tudo, o Ouvinte Casual é a vítima preferida das coletâneas enganosas, aquelas que incluem gravações obscuras como se fossem "Grandes Sucessos". Exemplos: compilação dos Bee Gees da fase australiana (pré-67) com foto do grupo já maduro, com Barry barbudo e Maurice careca. CD de David Bowie do período não-roqueiro (1967-68) com foto do visual Ziggy (73). Disco com faixas de James Taylor e Carole King para os menos atentos não perceberem que é dela e não dele a gravação de "You've Got a Friend" que foi incluída. CDs com regravações ou versões ao vivo, sem que esses detalhes sejam explicitados na capa. Quem compra tudo isso? O Ouvinte Casual, ora!

Agora um conselho de amigo: não deixe o Ouvinte Casual ter acesso à sua coleção de discos. Isso nunca dá certo. Primeiro, ele ficará estarrecido com a quantidade. E o bombardeará com as perguntas inevitáveis: "Como você conseguiu comprar tanto disco?" "Quanto você gasta por mês em disco?" "Quantos discos você tem, já contou?" (Aí você pensa em responder: "Já, meu amigo, passei um fim-de-semana inteiro fazendo isso: 323, 324, 325... 452, 453, 454... 546, 547, 548...") Num segundo momento, ele irá examinar alguns títulos, ao acaso. E terá novamente algumas surpresas, pois – acredite se quiser – o Ouvinte Casual pensa que conhece tudo em termos de CD. Então virão mais indagações incômodas: "Que disco é esse que eu nunca vi em lugar nenhum? Onde você o comprou? Onde posso consegui-lo?" Essa reação não se restringirá necessariamente a piratas e importados. Há discos de fabricação nacional que simplesmente escapam ao olhar desatento do Ouvinte Casual. Não estranhe se ele vier com frases tipo "que disco é esse da Rita Lee que eu nunca vi" ou "eu não sabia que este LP do Beto Guedes tinha sido relançado em CD".

Mas o pior está por vir. No final da história, o Ouvinte Casual vai lhe pedir CDs emprestados. Aí, prepare-se para enfrentar o doloroso dilema: perder os discos ou perder o amigo? Só os colecionadores sabem o quanto essa decisão é difícil. Não pense que ele vai se lembrar de devolver os CDs. Para ele, CDs são todos iguais: baratos e fáceis de encontrar. Ele nem acreditaria se você dissesse o quanto pagou por certos itens do seu acervo. Claro que existe a opção de, no caso de ele não se manifestar, você pegar o telefone e cobrar a devolução. Mas essa alternativa só adia o fim da amizade. Ele vai pensar: "Que cara mesquinho, incomodando por causa de uns míseros CDs!" Logo, a melhor forma de proceder é manter o Ouvinte Casual a uma distância segura. Ele é feliz assim, comprando o que vê no Fantástico.

Ah, se o Orkut funcionasse...

A nova moda do Orkut: não posta mais mensagens novas. Mesmo quando não retorna mensagem de erro. Você volta para o tópico e sua mensagem não aparece.

E continua não atualizando a lista de comunidades. A comunidade que encabeça a minha lista continua mostrando a última postagem como tendo acontecido em 10/6/2005 às 9:49.

Procura-se


Isso aí é um desumidificador de ambientes chamado "Humi-No". Eu usava bastante. O compartimento enchia de líquido bem depressa. Era assustador olhar aquela água toda e pensar que era a umidade do meu apartamento. Mais assustador ainda é pensar que não encontro mais o produto no supermercado onde comprava. Toda aquela água hoje se espalha pelo meus livros. Já cansei de explicar nos mínimos detalhes cada vez que a caixa do supermercado me pergunta se encontrei tudo o que procurava. Eles anotam, bem atrapalhados ("como se escreve isso, mesmo?"), e depois não fazem nada. Então estou lançando um apelo aqui pelo blog: procura-se refil de Humi-No! De preferência em Porto Alegre. Quem encontrar, favor avisar pelos comentários ou pelo e-mail. Obrigado.

Telefonema

Sempre que alguém me telefona por algum motivo insignificante, muitas vezes até por engano (o que é bastante comum, por exemplo, no ambiente de trabalho), eu brinco: "Quando quiser ouvir minha voz, não precisa inventar uma desculpa, pode ligar!" Só que agora recebi um telefonema para confirmar o número do meu celular e não tive coragem de fazer a mesma brincadeira.

Talvez porque, dessa vez, eu gostaria que fosse verdade.

segunda-feira, julho 04, 2005

Mitos e falsas verdades

Mesmo depois de Luis Fernando Verissimo ter divulgado em sua coluna o nome da verdadeira autora do "Quase" – Sarah Westphal, nossa amiga do Orkut – o texto continua circulando como sendo dele. Isso me faz lembrar de algo que observo praticamente desde a infância: quando uma falsa verdade se impõe, um simples desmentido é inútil para acabar com ela. Seria preciso uma verdadeira campanha. Só se a Globo veiculasse a versão correta no Fantástico ou no Jornal Nacional. E mesmo assim uma vez só não seria suficiente.

Não é preciso ser famoso para protagonizar mitos. Na própria família acontece. Lembro quando eu ouvia minha mãe falando sobre algo que teria acontecido comigo, porém de forma totalmente distorcida. Aí eu corrigia: "Mãe, não foi assim, foi assado!" E achava que estava esclarecido. Quando eu menos esperava, lá estava ela de novo contando a história do mesmo jeito, bem diferente da verdade. Apesar do respeito que eu tinha pelos meus pais, às vezes eu me descontrolava: "Eu já disse que não foi assim!" Faltava-me vivência e maturidade para compreender que as pessoas fazem da gente a imagem que bem querem. Vêem o que querem ver, ouvem o que querem ouvir e entendem o que querem entender. Depois que uma falsa verdade se propaga, fica difícil reverter a situação.

Aí consigo entender por que certos artistas não gostam que publiquem suas biografias. Só imagino as distorções e interpretações equivocadas que não devem aparecer. David Bowie sempre recusou todas as propostas para uma autobiografia ou biografia autorizada, mas abriu uma exceção e permitiu que o escritor David Buckley entrevistasse músicos que ainda faziam parte do sua banda para o livro "Strange Fascination". Deve ter percebido que seria melhor assim do que deixar os depoimentos à mercê dos famigerados "ex": ex-músico, ex-empresário, ex-esposa, ex-amigo. Dizem que o ex é a melhor fonte, mas depende do enfoque que se quer dar. Por exemplo, o livro "Alias David Bowie", de Peter e Leni Gillmann, buscou muito de suas informações com familiares de David. O músico ficou furioso pelo fato de os autores terem "localizado tias perdidas" para falar sobre ele.

Jânio Quadros passou os últimos anos de sua vida corrigindo jornalistas: ele nunca disse "forças ocultas" e sim "forças terríveis". Pelé até hoje jura não ter pronunciado a frase "o povo brasileiro não está preparado para votar", mas continua sendo cobrado por ela. O compositor João Ricardo, dos Secos e Molhados, já afirmou várias vezes que o grupo existia antes e continuou existindo depois de Ney Matogrosso, mas constantemente é questionado sobre o "fim" ou a possibilidade de uma "volta" do conjunto. Embora algumas de suas declarações sejam um tanto agressivas, não deve ser fácil ver o grande público ignorar a continuidade do seu trabalho.

E assim o público da Internet continua acreditando no Luis Fernando Verissimo romântico e messiânico. A comunidade do escritor no Orkut tem um alerta para os textos falsos, mas muitos nem o lêem, entram lá ansiosos por postar o "Quase" ou "Dar Não é Fazer Amor", como se Verissimo escrevesse coisas assim. A propósito, o frio voltou, a Zero Hora hoje noticiou o "calor fora de época" do fim-de-semana e os gaúchos daqui a pouco já esquecerão do veranico de inverno. No ano que vem, quando acontecer de novo, dirão que é atípico e nunca ocorreu antes.

Infelizmente, os mitos são mais fortes do que os fatos.

sábado, julho 02, 2005

Cartas ao Sant'ana

Estou começando a desconfiar das cartas que o Paulo Sant'ana publica de vez em quando em sua coluna. O que me chama a atenção é que todas têm rigorosamente o mesmo estilo. Que por coincidência é o estilo do Paulo Sant'ana. Não digo que sejam inventadas. As que vêm de autoridades e assessorias de imprensa, por exemplo, com certeza não são. Mas acho que muitas ele reescreve para publicação. Assume o papel de ghost writer. Retransmite com as palavras dele a mensagem pretendida pelo leitor, talvez até com autorização prévia. Leiam as cartas na coluna de hoje em Zero Hora e vejam se não têm a mesma impressão.

sexta-feira, julho 01, 2005

Veranico de inverno

Eu não falei que o calor iria voltar? Ainda que os gaúchos nunca lembrem, todos os anos tem o "veranico de inverno", geralmente em julho. Pois neste ano julho já está começando com veranico.

No ano passado também teve – confiram aqui. Seria muita pretensão esperar que o meu blog fizesse as pessoas aprender de uma vez por todas de que o calor nesta época do ano em Porto Alegre não é "atípico", a menos que até essa palavra tenha um significado diferente do que eu pensava. Mas eu vou tentar.

Está lançada a campanha. Vamos divulgar o "veranico de inverno" e acabar com essa falsa idéia de que é algo incomum que nunca aconteceu antes.

Mudar por mudar

Esta minha revolta por ser obrigado a atualizar software pra continuar fazendo a mesma coisa, como costumo grifar, me fez perceber o quanto sou avesso a mudanças gratuitas. Há uma sutil diferença entre mudanças necessárias e gratuitas. Existem pessoas que resistem a qualquer tipo de mudança. Não me vejo assim. Sei reconhecer quando algo muda para melhor. Por exemplo: eu já sentia falta de um substituto para o disco de vinil muito antes de o CD existir. Os LPs eram frágeis, incômodos e difíceis de conservar. Assim também, as fitas VHS tinham os seus inconvenientes. Sou fanático pelo formato DVD, embora já tivesse videodisco antes. Sou a favor da fila única, dos saques e pagamentos via terminal, das compras pela Internet, dos aparelhos de barba descartáveis, do forno de microondas, do fio dental extra-deslizante. É verdade que tenho um certo saudosismo pelos filmes Super-8, que coleciono há dez anos. Também lamento que a fotografia em slide esteja se encaminhando para a extinção ou para um nicho restrito. Mas isso não significa rejeição do que veio depois. Por outro lado, não tenho a menor saudade da máquina de escrever.

No entanto, há quem goste de mudar por mudar. E alguns até dizem que faz bem, pois renova os fluidos. É nessa mentalidade que eu não me encaixo. Sou o tipo da pessoa que, se conseguir montar a residência ideal, posso morar nela a vida toda sem alterar a disposição dos móveis. Pra que mexer no que está bom? Minha filosofia de vida nesses casos é: planejar bem para fazer uma vez só. Quando minha mãe resolvia mudar a cama ou um armário de lugar eu só lembrava da vez anterior em que ela havia feito isso e me perguntava o que tinha saído errado. Tem gente que se diverte agindo assim. Eu não. Sempre tenho a impressão de que faz pouco tempo que foi feita a última mudança e questiono: de novo?

No caso do meu carro, eu admito que já deveria tê-lo trocado. Falta dinheiro. Mas o televisor que tenho no meu quarto vem funcionando muito bem há mais de dez anos. O botão de liga/desliga soltou, mas consigo prendê-lo com um calço. O equipamento de som já tem 15 anos. O rádio começou a falhar, mas o amplificador e as caixas continuam perfeitos. Está nos planos a compra de um home theater, mas quando vejo o tamanho das caixas desses equipamentos mais modernos, fico decepcionado. Será que elas conseguem proporcionar a mesma qualidade das portentosas Technics que tenho hoje? Meu provedor e meu e-mail são os mesmos desde 1996.

Muitos adoram ficar trocando de fogão, de geladeira, de televisor, de mobília, apenas pelo prazer de comprar. Os aparelhos antigos continuam funcionando bem, mas chega um momento em que a simples visão deles se torna enjoativa. Então, compra-se tudo novo apenas para renovar o visual. Eu não sou assim. É por isso que, sempre que me vejo obrigado a atualizar software e hardware, sinto como se alguém estivesse perturbando o meu sossego. A cada mudança eu ingenuamente penso: agora não vou precisar trocar mais? Desta vez vão me deixar em paz? Mas logo começa aquele martírio de não conseguir abrir arquivos “porque a versão está desatualizada”. Tem gente que gosta e até sentiria falta se um software ficasse muito tempo sem lançar uma versão nova. Já eu acho que não se deveria trocar o que está funcionando bem. Ainda mais de forma compulsória.