quinta-feira, junho 30, 2005

Os Cavalos de Tróia

Em meio à quantidade absurda de e-mails não desejados que recebo diariamente, chama a atenção o número cada vez maior de "Cavalos de Tróia", ou mensagens mal intencionadas com o objetivo de contaminar o meu computador. Consigo entender os que mandam informes publicitários, embora questione a eficácia do método. Esses estão apenas querendo vender o seu peixe, literalmente. E se continuam fazendo é porque deve dar certo. Os golpes, mais raros mas de qualquer forma recorrentes, têm o objetivo de me lesar. "Querem o meu dinheiro", como dizia meu pai quando recebia "ofertas especiais" pelo correio. Mas qual a razão de elaborar cuidadosamente uma correspondência com o único propósito de infectar a máquina alheia? Apenas vandalismo digital.

Impressiona-me que os "Cavalos de Tróia" estão ficando cada vez mais sofisticados. Os mais comuns a gente já conhece: são os falsos cartões virtuais. "Alguém lembrou de você". "Estou com saudades". "Você recebeu um Humortadela". Um dado curioso é que a maioria deles tem erros de ortografia no título, mesmo que seja apenas a falta de um acento (geralmente na palavra "você"). Em quase todos é possível ler o conteúdo sem executar o programa nocivo, que normalmente está armazenado num servidor e o e-mail contém um link para ele. Esse link parece inofensivo, mas basta colocar o cursor por cima e olhar no rodapé do navegador para enxergar onde ele realmente leva. Geralmente é um site desconhecido, bem diferente do anunciado, e termina num arquivo .zip, .scr ou .exe que é o que vai fazer o estrago. Cartões verdadeiros trazem o nome do remetente, não contêm erros no título e podem ter sua autenticidade verificada na forma descrita. E-mails que contêm o vírus como anexo ainda circulam bastante, mas bem menos do que em forma de link.

Outro tipo de e-mail cada vez mais comum: "Você está sendo traído". Um amigo anônimo avisa que viu sua esposa ou namorada com alguém e tem fotos para provar. Basta clicar no link para visualizá-las. Também são freqüentes as mensagens que anunciam fotos eróticas. Avisos do SERASA, pedidos de atualização de CPF, comunicações de que seu pedido foi processado numa loja que você nunca acessou, tudo isso os internautas estão sujeitos a receber a qualquer momento. Eu me pergunto quantos se deixam enganar.

Mas agora a criatividade usada para o mal está chegando a níveis mais requintados. Olhem o que recebi sob o título "Dhara Bhaco no Jô":

Não percam no início da madrugada do próximo sábado ( 02 de Julho ), no programa do Jô, a entrevista com a maravilhosa cantora, a Indiana Dhara Bhaco, falando de sua carreira, histórias picantes de sexo, abrindo o jogo sobre a Rosa Cruz, sobre a Maçonaria Egípcia e de seu casamento com o famoso "poeta" e "Mestre" Maçon Egípcio, Lhéo Phondo Nadhara, onde vive com ele e com sua outra esposa no Egito.


Correm boatos que dizem ser comum os Mestres da Maçonaria Egípcia terem várias mulheres.

Será?

É sério.

Confira neste link:

(Aqui aparecia o link "camuflado").

A polêmica cantora Dhara Bhaco no Programa do Jô, no início da madrugada do próximo sábado.

Imperdível.

Esse e-mail eu confesso a vocês que abri de boa fé. Por meu interesse por música e participações em grupos de discussão sobre o assunto (e também minhas colaborações para o International Magazine), recebo algumas mensagens de divulgação de shows e outros eventos. E conheço uma cantora chamada Dhara. Mas, assim como os erros de ortografia, existem outros indícios de que uma mensagem é falsa. Ora, desde quando um release contém a afirmação de que "é sério"? Imaginem vocês lendo uma notícia no jornal ou ouvindo pela TV e lá pelas tantas o texto diz: "É verdade, gente!" Ou seja, se o rementente, em seu amadorismo, houve por bem dizer que "é sério", é porque não era. E tive a confirmação disso ao fazer o teste do cursor sobre o link.

Já estou quase desistindo de instalar um anti-spam. Acho que meus e-mails podem servir como uma rara massa de testes para análises diversas. É sério (epa!). Em que outra caixa postal os especialistas iriam encontrar espécimes tão diversos e fartos de anúncios, golpes e Cavalos de Tróia? Sem contar a chance que eu teria de entrar para o Guinness. Ou como o e-mail mais antigo ainda em uso, ou pela quantidade de correspondência não desejada. Acho que vou me inscrever.

quarta-feira, junho 29, 2005

Update

Lembram quando falei que teria que instalar uma nova versão do Adobe Acrobat Reader para poder abrir os arquivos enviados pela empresa de tradução? Pois bem: descobri que a versão 6.0 não instala no meu sistema operacional. Eu teria que atualizá-lo. Pra continuar fazendo a mesma coisa!

Ora, o Acrobat, para mim, só serve para receber imagens de documentos. Por que a empresa de traduções atualizou a sua versão do Acrobat? Ah, claro: para poder abrir documentos de outros que atualizaram também. Pra continuar fazendo a mesma coisa, ou seja, abrindo arquivos PDF com imagens de documentos digitalizados. Todos foram obrigados a fazer upgrade sem agregar qualquer benefício. Pelo contrário: a nova versão provavelmente ocupa mais espaço em disco.

Eu não sou contra o avanço da informática, principalmente no terreno de áudio e vídeo, que ainda tem muito chão pela frente. Enquanto não tivermos realmente TV e rádio via Internet com a mesma qualidade de um CD ou DVD, os recursos de processamento, armazenamento e transmissão de dados não pararão de evoluir. Mas que tipo de avanço alguém ainda pode querer para coisas tão simples quanto edição de texto e digitalização de documentos? Que benefício essa nova versão do Acrobat está trazendo para os usuários? Qual a vantagem de um documento digitalizado no Acrobat 6.0 em relação a versões anteriores? Gostaria de fazer um teste escaneando e imprimindo a mesma imagem em versões diferentes do Acrobat. Será que haveria diferença no resultado? Por que eu preciso atualizar tudo no meu computador, talvez até precisando colocar um disco maior, para poder continuar abrindo documentos escaneados? É isso que me revolta: certos utilitários já estão perfeitos, não precisariam de novas versões. Mas elas nos são empurradas à força apenas porque as anteriores foram tornadas obsoletas na marra. Duvido que não houvesse uma forma de evoluir o que precisa ser evoluído sem precisar obrigar o o usuário a atualizar todo o resto.

Já vi que é só uma questão de tempo até eu ser obrigado a instalar o Windows XP. Pra continuar fazendo a mesma coisa!

Desfecho

Lembram quando eu falei que o DVD que eu tinha encomendado não ia chegar? Que estava demorando muito e isso não era normal? Que era só uma questão de tempo até que eu recebesse uma mensagem dizendo "infelizmente não foi possível atender ao seu pedido e blá blá blá..."? Que eu logo desconfiei quando vi um DVD fora de catálogo aparecendo como disponível em uma e apenas uma loja virtual? Que eu me perguntava quanto tempo eles iriam levar enrolando até descobrir que não iriam ter como conseguir o produto? Lembram? Lembram?

Pois bem: o DVD chegou.

Assunto encerrado.

(Impaciente é a vovozinha!)

terça-feira, junho 28, 2005

O antes e o depois


Quando eu era adolescente (à direita), muita gente me achava parecido com o ator Bud Cort no filme "Ensina-me a Viver" (à esquerda) e também em "Voar é Com os Pássaros".

Bom, depois de ver o filme "A Vida Marinha de Steve Zissou", acho que estou feliz que a semelhança, se é que havia, não tenha se mantido. Talvez, se eu raspasse a cabeça...

Atualização de cadastro

Hoje a moça do Touring me ligou para, entre outras coisas, atualizar meu cadastro. Não houve nada a alterar, pois não mudei de carro nem de endereço. Mas quando ela chegou num determinado item eu não resisti e falei, bem sério: "Minha data de nascimento continua a mesma."

Os dois lados

É uma tranqüilidade poder pegar o resultado de exames pela Internet.

Por outro lado, não é uma tranqüilidade saber que o meu colesterol está alto (por que será?).

A ditadura das novas versões

Alguém poderia me explicar qual é o sentido de atualizar a versão de um software para continuar fazendo a mesma coisa? Tem sido assim desde que comprei meu primeiro computador, no final de 1995. Desde então, fora alguns brinquedinhos de áudio e vídeo, meu uso do equipamento tem sido basicamente o mesmo: navegação na web, edição de textos, troca de arquivos, mensagens e chats. Apesar de todos os upgrades e até de uma recente troca de computador.

Nesta semana descobri que vou ser obrigado a atualizar o meu Adobe Acrobat Reader. A empresa de traduções vai me enviar uma versão nova. Comentei com a secretária que achava um absurdo ter que fazer isso, mas ela argumentou: "Todos os nossos documentos em PDF são gerados nessa nova versão, então vais precisar dela para conseguir abri-los". Bela explicação. Sou forçado a atualizar o meu software para poder continuar trocando arquivos com outros usuários que também atualizaram os seus. Mas que benefício nós todos tivemos com isso? Nenhum. Fomos todos compelidos a gastar em upgrades inúteis para nos mantermos compatíveis e continuar fazendo a mesma coisa!

Tá, estou exagerando. Eu sei que não é bem assim. As versões atualizadas de software sempre trazem novos recursos. Aí eu pergunto: quem solicitou essas implementações? Eu? Você? O normal seria os fabricantes responderem às demandas dos usuários. Na prática, a Microsoft e demais empresas seguidoras de maus exemplos nos empurram goela abaixo as famosas melhoras não solicitadas. Em alguns casos, corrigem alguns bugs – mas criam novos em seu lugar. Por mim eu estaria até hoje usando o Word 6.0. Ele atendia às minhas necessidades. Tive que substituí-lo pela mesma razão que terei que instalar a nova versão do Acrobat Reader: para poder continuar trocando arquivos com a empresa de tradução. Benefícios, mesmo, não tive nenhum. E mais cedo ou mais tarde, em efeito cascata, a gente ainda tem que aumentar o disco, a memória e a velocidade do processador para acomodar essas melhoras não solicitadas. Para continuar fazendo a mesma coisa!

Sempre que eu entro no MSN ele me avisa que há uma nova versão disponível. O anúncio não é exatamente uma oferta: noto que há uma certa "cobrança". Como se a repetição do aviso cada vez que eu entro tivesse um tom de reprimenda: não atualizou ainda? Ora, e por que deveria? Estou satisfeito com a edição atual. Está funcionando bem. Ou quase. Tenho uma amiga "
emoticonsilábica" que às vezes digita um código e, em vez de surgir a "carinha" que ela programou, aparece uma seqüência de caracteres. Então eu seria obrigado a atualizar o MSN para poder enxergar as novas opções de emoticons. Que baita vantagem! Justifica plenamente a substituição e o espaço em disco que vai ocupar!

Eu sei que há pessoas que se entusiasmam em adquirir novas versões. São os mesmos que fazem questão de ter sempre o carro do ano. Só que, no caso do carro, o usuário – quer dizer, o motorista – tem a opção de continuar com o mesmo, se quiser. Eu, por exemplo, tenho o mesmo automóvel desde 1989. E se um dia comprar um novo, ele andará nas mesmas ruas e estradas e caberá no mesmo box onde hoje coloco o meu Gol velho de guerra. Eu tento ao máximo exercer o meu direito de manter o mesmo software, em sua versão mais antiga e enxuta, mas chega um momento em que a ditadura da obsolescência forçada me deixa sem escolha. Foi assim com o Outlook, por exemplo. E com o novo programa do Imposto de Renda, que não funcionava no meu antigo sistema operacional. O procedimento em si da declaração não mudou. Apenas a nova versão do software implementou melhoras não solicitadas.

Ninguém me convence que isso tem lógica. Ficamos todos atualizando nossos equipamentos e recursos para nos adequar aos novos padrões do mercado e, no final das contas, nenhum valor nos é agregado. Vamos ver por quanto tempo mais eu conseguirei usar minhas versões atuais do Word e do Outlook até que comecem a me chegar arquivos e mensagens que eu não consiga ler. Aí, só atualizando. Pra continuar fazendo a mesma coisa!

segunda-feira, junho 27, 2005

Alarme falso

Quando alguma coisa que normalmente é rápida começa a demorar mais do que o esperado, você já sabe que houve um problema. Na maioria dos casos, significa que, desta vez, não vai dar certo. Às vezes tenho vontade de xingar os terminais de Banco 24 horas: "Se não vai me pagar, diz logo, não me deixa aqui esperando feito bobo!"

Bem que eu desconfiei quando a edição dupla do DVD "Traffic" apareceu em uma e somente uma loja virtual. Se houvesse um alerta tipo "somente uma peça em estoque" ou "últimas unidades" eu até levaria fé. Mas, aparentemente, o anúncio era de disponibilidade total, com entrega em até dois dias úteis. Fiz a minha encomenda no dia 20 e até agora o status de meu pedido é "em andamento". Já vi que é só uma questão de tempo até que eu receba uma daquelas mensagens tipo "infelizmente não foi possível atender seu pedido e blá blá blá". Já é uma falha que um produto esgotado apareça como disponível no site. Agora eu me pergunto quanto tempo eles levarão para se convencer de que não adianta enrolar: se não tem mais, tem que dizer e pronto! Ou será que estão tentando conseguir mais com o fornecedor? Perda de tempo, pois está fora de catálogo. Só que eu sei disso. Eles provavelmente vão ter que descobrir na prática.

Peço desculpas aos candidatos à doação, mas vou ficar com a edição "pelada" que já comprei.

O dia de glória do touro

Às vezes fico pensando como, para os animais, o homem é um grande inimigo. Aliás, o desenho "Bambi", de Walt Disney, focaliza isso muito bem. E a discriminação estética que os humanos impõem entre si mesmos também é transferida para os animais. Peixes bonitos e vistosos vão para o aquário. Peixes feios e gordos vão para a panela. Baratas nos causam repulsa, embora não tenham culpa de ser como são. Borboletas são admiradas. Mas mesmo assim são caçadas para exposição. Pensando bem, os bichos não têm muita escolha: ou são capturados para exibição ou consumo, ou são simplesmente exterminados. Sobram os animaizinhos de estimação, como cães e gatos.

A essas alturas vocês já devem estar sabendo do touro que escapou de um leilão no cais do porto, ontem, em Porto Alegre, e foi parar no parque da Redenção. Somente lá ele foi recapturado. Pensando bem, o touro ainda é um dos animais mais felizes da terra. É um escolhido. Mas vive em cativeiro. Com espaço, mas com limites. Pois este touro que escapou viveu uma rara experiência de liberdade. Deu uma longa caminhada pela cidade. O depoimento de Fernando Bonotto, dono da ABN Agropecuária, para Zero Hora, diz tudo: "Ele estava tranqüilo. Parava onde tinha verde, como no Gasômetro, no Parque da Harmonia e na Redenção. Quando o pessoal tentava pegá-lo é que disparava".

Esperto esse touro. Sem conhecer a cidade, descobriu os pontos mais interessantes de se visitarem num domingo. Eu me pergunto se o animal, em sua irracionalidade, teve consciência do momento especial que vivenciou. Pensando bem, que inveja! Enquanto eu estava fechado em meu apartamento trabalhando, o touro fez um "tour" dos parques da cidade. Livre das cercas e dos laços, avançou sem limites pela Avenida Mauá, seguiu pela perimetral do Gasômetro, Avenida Loureiro da Silva, Avenida Perimetral, até finalmente chegar à Redenção pela área próxima aos prédios da UFRGS. Quantos quilômetros dá isso? Uns quatro ou cinco? Muita gente não se animaria a perfazer essa distância a pé.

Só foi capturado na Redenção porque cansou. Do contrário, provavelmente teria cumprido o ritual domingueiro de quem está em Porto Alegre e passeado pelo Brique. E no final, um dado curioso: ao ser arrematado no leilão, rebelou-se. Recusava-se a sair da pista e entrar no brete. Claro: havia descoberto que existia um mundo diferente além das cercas de uma propriedade rural. Percorrera esse mundo com as próprias patas sem encontrar uma só barreira pela frente. Não agrediu ninguém, não causou danos, apenas viveu uma aventura ímpar que dificilmente outro touro conseguirá repetir. Conheceu os parques da cidade e gostou. Não queria voltar.

É uma pena que touro não fale. Porque este teria uma bela história para contar para os netos.

domingo, junho 26, 2005

CD do Nando Gross

Vejo agora na TV COM que Nando Gross - ou Luiz Fernando Gross, como o chamam na TV - está lançando um CD. Quem o conhece como jornalista de esportes pode ficar surpreso. Pois eu me surpreendi às avessas quando, na Faculdade, fiquei sabendo que ele era, na época, radialista. Eu o conhecia como músico. Cheguei a freqüentar o bar que ele teve no Moinhos de Vento, o Bar do Nando, onde ele tocava. Lembro da música "Porto Alegre de Quintana", que chegou a sair em LP numa coletânea de músicos gaúchos. Na Faculdade, falei com ele rapidamente sobre isso. Quando perguntei se ele "era" músico ele corrigiu: "Sou". Nos formamos juntos, embora ele já trabalhasse no ramo. Aliás, acho que, da turma que se formou comigo, só eu não fiquei famoso. Os outros estão aí: Nando Gross, Farid Germano Filho, Alexandre Praetzel, Carlos Simon (ele mesmo, o juiz da FIFA)... Sem contar os famosos que não se formaram comigo, mas foram meus contemporâneos. A lista é enorme. Fico feliz de ver Nando retomando seu trabalho como músico. Vou comprar o CD dele.

Pensamento da hora

O barulho de um grupo fazendo algazarra é inversamente proporcional ao nível de inteligência da conversa.

sexta-feira, junho 24, 2005

Bowie em português

"Batman Begins" estava no topo de minhas prioridades de cinema, até que vejo no jornal que estréia hoje "A vida marinha de Steve Zissou" (The Life Aquatic). Quero ver esse filme por uma razão óbvia: o ator brasileiro Seu Jorge participa no papel de um especialista de segurança que tem mania de cantar músicas de David Bowie em português. Os estrangeiros que já viram o filme disseram que gostaram das versões. Claro: não entenderam as letras...

Na verdade, os americanos não costumam apreciar músicas cantadas em outro idioma que não o deles. Só os ouvintes mais curiosos escutam canções em língua estrangeira. Para fazer sucesso nos Estados Unidos, tem que cantar em inglês. Para eles, ouvir música num idioma estrangeiro é o mesmo que ouvir poesia em outra língua: não faz sentido. Com isso, eles acham que a mesma norma vigora nos demais países. E imaginam que, se um brasileiro fosse fã de David Bowie, seria um negro chamado Pelé (o personagem de Seu Jorge se chama Pelé dos Santos) que verteria as músicas para o português para poder cantá-las ao violão. Nem passa pela cabeça deles que o brasileiro gosta de cantar em inglês, mesmo que seja "Iarnuou" ou seja lá como foi que aquela Big Sister cantou "We Are The World". Os americanos que viram o DVD "Rush in Rio" ficaram surpresos de ouvir a platéia toda cantando as letras do Rush com perfeição. Sem contar o mico de artistas como Barry Manilow e Sting, que gravaram músicas em português imaginando que isso lhes daria mais chance de sucesso no Brasil.

Uma coisa é certa: a nossa perspectiva do personagem do filme não será a mesma dos estrangeiros. Nós somos brasileiros, sabemos quem é Seu Jorge e entenderemos as letras. Já ouvi algumas pela Internet. "Rebel Rebel" virou "Zero a Zero". Talvez para os americanos o exotismo pretendido pelo diretor tenha atingido o seu intento. Para nós vai ser algo um tanto estranho. Até mesmo porque o perfil dos fãs brasileiros de David Bowie não tem nada a ver com uma figura como a de Seu Jorge.

Em geral, os fãs brasileiros estão gostando da novidade. Provavelmente imaginam que o filme criará uma conexão Bowie-Brasil, aumentando as chances de uma terceira vinda do cantor (ele já se apresentou aqui em 1990 e 1997). Agora imaginem Seu Jorge abrindo para Bowie. Pior: fazendo um dueto com Bowie! Acho que, com o tempo, esse episódio será arquivado na pasta dos equívocos e solenemente esquecido. Ainda não vi o filme, mas com certeza essa não é a melhor forma de promover Bowie no Brasil, nem de divulgar os fãs brasileiros no exterior.

quinta-feira, junho 23, 2005

Constatação

Está esquentando paulatinamente.

Promessas terceirizadas

Uma situação bastante incômoda que às vezes nos acontece é quando alguém se compromete por outra pessoa. Caso típico é quando você liga para reclamar de um serviço ou conserto que deu problema. O sócio da empresa responde:

- Não se preocupe, senhor, hoje à tarde o Fulano vai aí verificar. Antes das cinco ele está aí.

E você fica tranqüilo com a resposta. Só que tem um problema: o Fulano ainda não foi avisado. Quando ele chega na firma, o sócio lhe avisa:

- Fulano, você tem que ir na casa do Seu Beltrano hoje à tarde pra revisar o serviço, que está com defeito.

E o Fulano, indignado, rebate:

- Ah, não posso! Tenho um monte de volta pra dar e tenho que entregar isso aqui tudo lá na firma do Cicrano.
- Não, você tem que ir. Prometi que você estaria lá e ele vai estar esperando.
- Impossível. Hoje, nem pensar!

O curioso é que raramente o Fulano se lembra de apresentar o argumento óbvio: o sócio não deveria ter-se comprometido sem falar com ele primeiro. Na cabeça dele, esse detalhe é irrelevante. O que importa é que ele não pode ir e não vai, fim de papo. E você é que paga o pato. Pior é quando a situação vira queda-de-braço.

- Falei com seu sócio e ele disse que não vai poder vir hoje.
- Não, ele vai sim, não tem essa de não poder!
- Pois é, mas ele disse que não pode. O senhor não tem outra pessoa pra mandar?
- Não, ele vai! Pode deixar que ele vai, eu garanto.

Aí você já sabe que o sujeito ou não vem, ou vem de má vontade. De um jeito ou de outro, você se sente prejudicado.

Outro caso é quando chega algo que você estava esperando. Um livro, por exemplo. Aí alguém lhe telefona da livraria avisando:

- Vou deixar seu livro aqui com a Beltrana. O senhor procura por ela.

Aí você chega lá e procura a Beltrana.

- Eu sou o Cicrano e vim buscar o meu livro.
- Qual livro, senhor?
- "Tratado Geral dos Chatos", de Guilherme de Figueiredo.
- Olha, não me deixaram nada. Com quem o senhor falou?
- Não peguei o nome. Ela disse pra falar com você.
- Não estou sabendo. Ninguém me avisou nada.

E aí você fica no meio, de bobinho, naquela situação chata de um dizer que deixou e o outro afirmar que não recebeu. Pelo correio ou por e-mail é ainda mais desagradável:

- Ainda não recebi minha encomenda. Vocês mandaram?
- Sim, faz mais de um mês.
- Pois é, mas o correio disse que não recebeu nada.
- Mas nós mandamos.

Por essas e por outras é que o ideal é lidar diretamente com a parte que irá executar o serviço ou entregar a mercadoria. Onde entra um terceiro desavisado, sempre aumenta o risco de falha.

quarta-feira, junho 22, 2005

A volta do colírio


Depois daquele boxeador lá em baixo eu estava devendo uma imagem mais interessante. Desculpem se a mulher é a mesma de sempre. Sabem como é, eu sou um cara fiel.

Inversão de valores

Um dia desses eu estava teclando com uma amiga no MSN quando ela me disse que estava com problema "na web". Achei curiosa a forma de ela se expressar. A Internet, em seus primórdios, continha apenas textos e arquivos. A "world wide web" (teia mundial) são as telas de modo gráfico cheias de links como conhecemos hoje. Atualmente, fala-se em Internet, rede e web quase como sinônimos. Mas ela dizer que estava com problema "na web" soou um tanto erudito. Fiquei impressionado. Até que, em outro papo via MSN, a internauta avisou:

- Vou ligar a web.

Só então caiu a ficha: não era nada do que eu estava pensando. "A web", nesse contexto, referia-se à "web cam", ou seja à câmera. Eu acho que ela deveria ter dito que estava com problema na câmera ou mesmo na "cam", como já vi gente escrever. Mas na "web" ficou estranho.

O inglês, ao contrário do português e outras línguas latinas, coloca o substantivo ao final. Todos os adjetivos e demais modifiers vêm antes. Como os brasileiros estão acostumados a considerar a primeira palavra como a principal, acabam substantivando adjetivos do inglês. Já é um uso consagrado, mas não deixa de ser engraçado.

- Fulana contratou um personal.

Sim, mas personal o quê? Trainer? Computer? Bodyguard? Driver? Lover? Pode ser até comprometedor!

Outra frase comum:

- Vou tirar dinheiro ali no cash.


Se fôssemos traduzir, ficaria: vou tirar dinheiro ali no dinheiro. Sim, pois "cash" é dinheiro vivo, em papel moeda. A expressão completa é cash dispenser. Prefiro dizer terminal de clientes. Até porque possui outras funções que não apenas o fornecimento de cédulas.

Outra pérola:

- Estou tão entusiasmado com meus DVDs que acho que vou comprar um home.

"Home" quer dizer, casa, no sentido de lar. Home, sweet home. O que têm a ver os DVDs com a motivação de comprar um lar? Os DVDs não têm mais onde ficar? Ou o sujeito vai se casar com seus DVDs e ir morar com eles num apartamento maior? Seria melhor dizer o nome completo: home theater. Que quer dizer "cinema em casa" (sim, "theater" também quer dizer cinema, conforme o contexto).

Em minha primeira viagem aos Estados Unidos, ouvi uma colega de excursão perguntar numa loja, em português, mesmo:

- Aceita travelers?

"Travelers" quer dizer viajantes. Sim, os americanos aceitam travelers se estiverem com passaporte, visto em dia, não trouxerem mais dinheiro do que o permitido e observarem as leis e costumes do país que estão visitando. Mas o que a moça queria saber, na verdade, é se a loja aceitava traveler’s checks, ou seja, cheques de viagem.

No fundo, não deveríamos nos preocupar com isso. Afinal, só pessoas de classe alta podem tirar dinheiro no cash para comprar um home, contratar um personal e viajar ao exterior com travelers no bolso. Mas o preço da web já caiu bastante.

terça-feira, junho 21, 2005

Orkut parado no tempo

Meu Orkut parou no tempo. A lista de comunidades está congelada desde o dia 10/06/2005 às 09:49, que é o horário assinalado da postagem mais recente. A ordem não se alterou mais, de forma que a única maneira de saber qual comunidade teve mensagens novas é olhando uma por uma.

Acho que os responsáveis pelo site devem pensar assim: "ah, pra que dar manutenção, só tem brasileiro, mesmo..."

Teste


Adivinhem o que este boxeador colombiano tem em comum com minha mãe Irene Pacheco. Para saberem a resposta, passem o cursor de um asterisco ao outro abaixo:
* O NOME! Ele também se chama Irene Pacheco! *

Temperatura

É por causa de dias como ontem e hoje que dizem que o Rio Grande do Sul é frio.

Mas o calor volta ainda antes do fim do inverno, provavelmente em julho. Não digam que não avisei.

segunda-feira, junho 20, 2005

Edição pelada

Agora que já comprei o DVD "Traffic" pela promoção da Zero Hora, descubro que havia uma edição anterior com dois DVDs incluindo extras aos montes. Deve estar fora de catálogo, mas consegui encontrar à venda em uma e somente uma loja virtual. Espero que não seja alarme falso. Claro que o preço não é o mesmo, mas se é para comprar um DVD, prefiro pagar o preço justo pelo pacote completo a me contentar apenas com o filme a preço de banana.

O que vou fazer com o DVD que já comprei? Provavelmente farei uma doação. Não vale a pena tentar revender. Custou 12,90 e ainda tem pra vender em quantidade nas bancas.

Só a ficção é a realidade

De vez em quando, em meus cadastros em lojas virtuais da Internet, surge um questionário sobre meu tipo preferido de literatura. E já duas vezes apareceu uma lista de estilos onde constavam quase vinte itens, menos o que eu assinalaria: não-ficção. Impressiona-me que os próprios livreiros esqueçam desse gênero tão apreciado por jornalistas, historiadores ou aficcionados por biografias.

O fechamento dos parques

Sempre que alguém toma posição em um assunto polêmico, eu me pergunto o quanto dessa postura é embasada em argumentos sólidos ou apenas resultado de um idealismo romântico. Idealismo é bonito, mas nem sempre funciona na prática. Por exemplo: os transgênicos. Não tenho opinião formada, mas se conseguirem me provar que realmente não fazem mal, não vejo por que ser contra. A impressão que eu tenho é que muito do combate aos transgênicos vem de um discurso purista de "não mexer com a natureza" sem realmente analisar os prós e contras.

Leio hoje no jornal que será feito um plebiscito para decidir se os grandes parques de Porto Alegre devem ou não ser fechados. O cronista Paulo Sant’ana, que já foi vereador, luta pelo fechamento do Parque Farroupilha desde pelo menos 1975. E sempre que ocorre um crime lá dentro ele aproveita para repisar a questão, dando a entender que o cercamento teria evitado o fato. Será mesmo? Cercar um parque, no fundo, seria uma forma de proteger o cidadão de sua própria irresponsabilidade, pois todos sabem que é perigoso entrar em um parque à noite. Quem o faz já está assumindo um risco desnecessário. O cercamento não impediria assaltante e assaltado de se encontrarem em outro local.

Quando meu filho era nenê, eu e a mãe dele estávamos procurando um cercadinho onde pudéssemos deixá-lo com mais tranqüilidade. Uma amiga opinou que não concordava em "prender" as crianças, que elas deveriam ter liberdade e blá blá blá. É comum ouvir-se essa mesma argumentação contra a colocação de grades em apartamentos. Belo discurso. Mas só quem tem filho pequeno sabe da preocupação que é proteger os pimpolhos que começam a se deslocar sozinhos, mas sem noção de limites. Esses devem ser impostos fisicamente. Ficar de olho é uma boa opção, mas quem consegue fazer isso o tempo todo, sem um só momento de distração?

Minha opinião pode mudar mas, no momento, sou contra o fechamento dos parques. Mas não por esse discurso panfletário de que os parques pertencem ao povo e não se pode cercear o acesso dos cidadãos a um bem público. Apenas acho que, na prática, não resolve nada. As pessoas deveriam ser mais cautelosas e não transitar por locais perigosos à noite. Além disso, o cercamento forçosamente criaria gargalos em seus pontos de acesso, dificultando a entrada e saída de multidões no caso de eventos. Meu voto será contra, mas não sairei por aí com bandeiras e cartazes fazendo campanha pelo não fechamento. Estou pronto a acatar pacificamente a decisão da maioria. Mas que seja uma decisão consciente e não movida por teorias e ideais abstratos.

sábado, junho 18, 2005

Atendimento especializado

A impressão que eu tenho é que o Pizza Hut tem:

- Uma pessoa para levá-lo até a sua mesa.
- Outra para anotar a pizza que você pede.
- Outra para anotar a bebida que você pede.
- Outra para trazer a bebida.
- Outra para trazer a batata sorriso.
- Outra para trazer a pizza.
- Outra para trazer a sobremesa.
- Outra para quem você pedir a conta.
- Outra para lhe trazer a conta.
- Outra para buscar o pagamento.
- Outra para lhe trazer o troco.
- Outra para lhe dizer "boa tarde" ou "boa noite" na saída.

Eu e o meu filho sempre fomos bem atendidos no Pizza Hut do Shopping Praia de Belas. Lembro do dia em que o restaurante inaugurou. Foi num domingo. Chegamos lá bem cedo, 11 e pouco da manhã. Devia haver no máximo mais duas mesas ocupadas. O gerente veio nos cumprimentar, dizendo que éramos os primeiros fregueses e esperava que déssemos sorte para o lugar. Nunca mais vi aquele gerente. Acho que estava lá só para nos cumprimentar naquele dia.

Para os fãs do "falsíssimo"

Você escreve "Luiz Fernando Veríssimo" com "z" no primeiro nome e acento no último? Você adora textos como o "Quase", "Dar Não é Fazer Amor", "A Impontualidade do Amor" e não agüenta mais os chatos que vêm dizer que os textos não são dele cada vez que você os posta? Você quer ter o direito de continuar acreditando que esses textos piegas, românticos e messiânicos são mesmo do Verissimo mesmo que já tenham lhe provado que não são? Mesmo que ele próprio já tenha dito que não são? Pois seus problemas acabaram! Nosso amigo Vitor Hugo Zeilmann acaba de criar a comunidade "Luiz F. Veríssimo (Quase)" no Orkut. Lá você tem toda a liberdade de exercer a sua teimosia e continuar na ilusão. Eis o texto de apresentação redigido pelo Vitor:

Para você que adora os textos românticos, de auto-ajuda e bagaceiros do Luiz Fernando Veríssimo (o falso) e não agüenta mais ser maltratado pelos fãs do verdadeiro Luis Fernando Verissimo, que vivem lhe dizendo "este texto não é dele!", aqui é o local para você colar, ler, discutir e a-do-rar este tipo de texto. Traga seus "Quase", "A Pessoa Errada", "Um Dia de Merda", "Dar Não é Fazer Amor", "Depoimento Sobre as Drogas", "O Direito do Palavrão", "A Verdade Sobre Romeu e Julieta", "A Impontualidade do Amor", "Dez Coisas Que Levei Anos Para Aprender" e outros textos falsamente atribuídos ao LFV para cá. Aqui ninguém vai estar preocupado com a autenticidade dos textos. Deixe os fãs do verdadeiro Verissimo com seus textos em suas comunidades e seja feliz aqui!

ATENÇÃO: textos verdadeiros do Verissimo não serão aceitos aqui. Nada de humor inteligente, ironia e tiradas inesperadas. O negócio aqui é só amor e mensagens positivas!

sexta-feira, junho 17, 2005

Esperar

Sempre que alguma revista publica aquelas listas de "eu gosto" e "eu detesto" a partir de depoimentos de pessoas famosas, um dos itens mais recorrentes em "eu detesto" é: esperar. Esperar é perder tempo, é jogar vida fora, é queimar minutos preciosos que não voltam mais. Não é o caso, claro, da espera ativa e certeira. Por exemplo, esperar o fim do expediente, o fim-de-semana, esperar as férias. Esperar a noite. Isso até tem um certo gostinho. Refiro-me à espera incerta e ociosa. Esperar na fila. Na sala de espera. Esperar alguém que ficou de chegar mas se atrasou. Esperar um telefonema. Esperar a vez.

Quando ainda não existia o Shopping Praia de Belas e seu providencial Corte Zero, eu cortava o cabelo em um cabeleireiro próximo à minha antiga casa. Ele atendia homens e mulheres em horário comercial e não marcava hora. Geralmente eu só tinha tempo no sábado. Muitas vezes desisti de cortar o cabelo porque preferia aproveitar minha tarde de sábado a ficar de três a quatro horas sentado esperando minha vez. Com isso, meu cabelo e principalmente minha barba iam crescendo a ponto de me deixar com cara de huno. Quanto chegava num ponto em que realmente "não dava mais", aí eu cortava. E todos notavam.

O ideal, nessas ocasiões, seria sempre providenciar uma leitura. As revistas da sala de espera geralmente são chatas. Em fila de banco ou nos assentos de chamada por painel não tem revista, então é bom ter um livro à mão. A questão é que muitas vezes a gente não adivinha que vai ter que esperar. A tendência é ser otimista e achar que vai ser rápido. Mas nem sempre é. Considerando o quanto somos obrigados a esperar e entrar em filas o dia inteiro, deveríamos estar sempre carregando um livro. Claro que haveria o risco de se expor ao ridículo.

- Sempre que eu o encontro, você está com esse livro na mão. Pra quê?
- Esse é o meu livro de espera.
- Como assim?
- Se eu tiver que esperar, aproveito para ler.
- Esperar o quê?
- Sei lá, qualquer coisa!


E você ainda fica com fama de louco. Mesmo esperas curtas podem ser irritantes, principalmente se você está atrasado. Esperar elevador, por exemplo, é uma tortura. Enquanto isso, a fila vai-se avolumando. Se você tem claustrofobia, encara a perspectiva de entrar num elevador cheio. Ou esperar mais um pouco. Se for para descer, prefiro levar dois minutos de escada a esperar um minuto pelo elevador. No trânsito, prefiro levar 40 minutos indo para a casa a pé do que esperar 30 minutos num trânsito congestionado. O raciocínio básico é: não me importo de perder tempo por iniciativa própria, mas odeio que os outros percam o meu tempo.

quinta-feira, junho 16, 2005

Auto de data

Quando me disseram que tinha surgido uma tradutora no Orkut se dizendo "auto de data", achei que fosse gozação. Mas experimentem pesquisar "auto de data" no Google, somente em páginas em português, e vejam o que aparece!

P.S.: Isso prova o quanto faz falta um professor...

terça-feira, junho 14, 2005

DVD do Jornal Nacional

Não tive pressa nenhuma de comprar o DVD do Jornal Nacional porque o conteúdo listado na caixa não me entusiasmou. Mas, como o assunto jornalismo sempre me interessa, achei melhor encomendar logo antes que saísse de catálogo. Infelizmente eu estava certo: o DVD é muito chato. A seleção de reportagens priorizou séries de matérias investigativas, como uma forma de destacar o trabalho dos jornalistas. Não há uma única matéria cobrindo algum fato histórico. Até consigo entender que um repórter talvez não valorize tanto uma notícia que simplesmente cai no seu colo. Ele não faz mais do que sua obrigação em cobri-la. Mas a inclusão de notícias históricas, divertidas e marcantes tornaria o DVD mais atraente para o consumidor. Do jeito como saiu, ficou um material do tipo "didático-chato", daqueles que a gente era obrigado a pesquisar no tempo do colégio. Olhem só os títulos: "Brasil Bonito", "Profissão Professor", "Brasil Rural", "Desigualdades Regionais", "Saúde e Saneamento", "Atitude Saúde", "Fronteiras", "Mata Atlântica", "Identidade Brasil", "Fome no Brasil", "Recontando os Mortos da Repressão", "Feira de Drogas", "Planeta Bola", "Afeganistão Pós-Taliban". O que salva o pacote de ser uma chatice total é o bate-papo entre os apresentadores Cid Moreira, Sérgio Chapelin, Léo Batista, Fátima Bernardes e William Bonner, em que eles recordam fatos pitorescos e até mostram algumas falhas que foram ao ar. Quem se interessa por telejornalismo vai querer este DVD de qualquer maneira, mas é uma pena que não tenham usado um critério mais diversificado para escolher o material.

Pergunta

De que adianta existir o Orkut, se não funciona?

Ignorância

Vou confessar algo a vocês: gosto de escrever, tenho facilidade de me expressar, mas meu vocabulário é muito limitado. Acho que vocês já perceberam. De vez em quando alguém vem dizer que meu estilo é "leve". Encaro com um elogio, mas evito comentar que eu não conseguiria ser mais erudito do que isso mesmo que tentasse. Até os 20 anos, o máximo de formalidade verbal que eu havia absorvido eram os gibis da Ebal, que usavam em suas traduções palavras como "doravante", "entrementes" e farto emprego de mesóclises. ("O Homem da Máscara está aqui dentro! Matar-nos-á!") Quando finalmente aprendi a gostar de ler, mais da metade dos livros eram em inglês. Tenho um razoável domínio da gramática, mas meu vocabulário deixa a desejar. Na Faculdade de Jornalismo, o professor Marques Leonam era impiedoso com palavras repetidas. E como meu estoque de sinônimos se esgotava rapidamente, lá vinha ele com seu lápis assinalar "já usaste antes" pra lá e "já usaste antes" pra cá de cima a baixo em meus textos.

Vai daí que não só minha redação é "leve" (palavras muito complicadas pesam demais), como às vezes sou tomado de surpresa por palavras e expressões que, aparentemente, só eu não sei o que significam. De uns anos para cá, virou moda nas reuniões falar-se em "questões pontuais". No início eu achava que o "pontuais" se referisse a horário. Em outras palavras, "questões pontuais" seriam questões urgentes, prementes, da hora, para se resolver rapidamente. O dicionário não foge muito dessa interpretação. Só recentemente percebi que "questões pontuais" quer dizer questões específicas, certeiras, focalizadas. Por favor, não me digam que também não é isso. Eu ficaria muito traumatizado se estivesse errado mais uma vez.

Meu amigo Paulo Brody, teatrólogo, redigiu e dirigiu uma peça adaptada do conto "Pai Contra Mãe", de Machado de Assis. Achei um depoimento dele na Internet: "Sua obra não estimula os leitores a se fecharem em uma conchinha solipsista e auto-satisfeita." Nessa o Paulo ganhou não só de mim, mas do meu dicionário: o Michaelis em CD-ROM não registra o vocábulo "solipsista" ou "solipsismo". Fiquei na mesma. Mas já foi pior: aos 19 anos fiz uma prova onde aparecia a palavra "prescindir". O professor ficou tão indignado quando perguntei o que significava que só me olhou de testa franzida.

Nos últimos tempos, só o que se fala é no fisiologismo do PT. Na primeira vez, não me preocupei. Até que a palavra apareceu de novo. E de novo. Hoje, vi na capa da revista gaúcha Press uma declaração do Governador Germano Rigotto sobre o fisiologismo do PMDB. Será alguma novidade? Antigamente os partidos políticos tinham ideologia, doutrina, plataforma, ideário... Agora têm fisiologismo? O Michaelis também não me ajudou nessa. Sei lá, parece termo de Medicina. Algo que o médico me diria mais ou menos assim:

- Seus exames estão OK, mas é bom dar uma controlada no fisiologismo.

E eu responderia:

- Não se preocupe, doutor, tenho ido ao banheiro regularmente.

E eu não sei o que é fisiologismo. Isso é grave! Como poderei votar nas próximas eleições sem poder sequer analisar o fisiologismo dos candidatos? E se algum repórter me pegar para uma enquete na rua e perguntar:

- Em termos de fisiologismo, qual dos partidos é mais forte?

Socorro! Minha cidadania está ameaçada! Corro o risco de fazer mau uso de meus direitos políticos por desconhecer o significado dessa palavra. Podem me criticar, me chamar de ignorante, de desatualizado, dizer que tenho que ler mais sobre política, qualquer coisa (menos uma: não me mandem ler a Veja!), mas me tirem dessa sinuca. Digam-me o que é fisiologismo e façam um eleitor voltar a ter um sono tranqüilo.

A máquina do vovô

Num futuro que pode ou não ser próximo, um garoto foi passar o domingo na casa de seu amiguinho. Depois do tradicional churrasco, depois de brincar até cansar, os dois se atiraram cansados no sofá da sala para ver televisão. O vovô, já bem idoso, mas ainda lúcido, estava confortavelmente instalado em sua cadeira cativa. Aí o amiguinho criou coragem e perguntou:

- O Juquinha me disse que no seu tempo não existia computador, é verdade?

O vovô, feliz de ver um garoto interessado em suas histórias, responde:

- Existir, existia, mas não como esses que a gente tem em casa. Eram enormes e ficavam num lugar chamado CPD – Centro de Processamento de Dados.
- Ah, entendi. Era tipo um cybercafé, né? Quem quisesse acessar a Internet ia lá!
- Não! Naquele tempo não existia Internet. O computador era praticamente outra coisa com o mesmo nome. Não era para uso de todos.
- Como se mandava e-mail?
- Não existia e-mail. A gente mandava carta pelo correio. Naquele tempo o correio não era só pra enviar pacotes. Mandava cartas, também.
- Mas como se fazia pra digitar um documento?
- Você nunca ouviu falar em máquina de escrever? Em datilografia?
- Não, nunca.

E o vovô, entusiasmado, levanta-se da cadeira.

- Vou mostrar uma pra vocês!

E o simpático velhinho leva os garotos até uma sala empoeirada no fundo da casa. Abre um armário e tira de lá uma paleozóica Royal, ainda funcionando. Pega uma folha de papel A4, coloca-a na máquina e se põe a demonstrá-la. Os garotos exclamam:

- Que legal, é um teclado com impressora! Como se faz pra voltar no que se digitou?

O vovô mostra a tecla "retrocesso". O garoto estranha:

- Ué, voltei e não apagou o que foi digitado!

O vovô explica:

- Não, não apaga. Você tem que cuidar pra não errar. Até tem como apagar, mas tem que usar uma borracha especial e nunca fica a mesma coisa. Peraí, acho que tenho uma aqui pra mostrar...

Fuçando numa gaveta, o vovô acha uma borracha velha, mas ainda usável. E mostra como apagar uma letra mal teclada. O garoto comenta:

- Ah, mas é muito complicado. E o corretor ortográfico, como funciona?

O vovô não sabe se ri ou se chora.

- Não tem corretor ortográfico! No meu tempo, só bons redatores e bons datilógrafos podiam usar uma máquina de escrever.
- O que é dati... Como é mesmo?
- Datilógrafo. Era quem usava a máquina de escrever.

Neste momento o vovô começa a se sentir inferiorizado, como se os aparelhos do seu tempo não fossem tão sofisticados quanto os atuais. Até que vem a pergunta seguinte:

- Se não tem monitor, onde aparece a mensagem "Este programa executou uma operação ilegal e será fechado?"
- Isso não existia. Você datilografava até o fim, sem medo.
- Como assim? Nunca falhava?
- Os aparelhos do meu tempo até podiam quebrar, mas iam pro conserto pra voltar funcionando.

Intrigado, o garoto examina a máquina de escrever por cima, por trás, por baixo e questiona:

- Mas não tem unidade de disquete nem CD?

O vovô responde:

- Claro que não tem! Por que teria?
- Mas o senhor não acabou de dizer que, se um aparelho desse problema, ia pra assistência técnica?
- Sim, falei.
- Então! Como eles faziam pra reinstalar o sistema?
- Ora, não tinha que reinstalar nada. Só consertavam o que estivesse com defeito e pronto.
- Não precisava nem passar Scandisk e antivírus?
- Não! Naquele tempo só existia vírus em seres vivos, não em máquinas.


O garoto e o Juquinha, neto do vovô, agradecem a atenção e se retiram para voltar a brincar. Mas antes, comentam:

- É verdade o que o seu avô falou? Que máquina de escrever nunca falhava na metade, não tinha vírus e podia consertar sem reinstalar?
- Não dá bola pro vovô, ele gosta de contar lorota. Um dia desses me mostrou uns pedaços de plástico com as figuras de uns fantasmas e disse que no tempo dele se usava para imprimir fotos. E ainda disse que elas tinham melhor qualidade do que as de hoje.

segunda-feira, junho 13, 2005

Presente

Depois de um mês de contratempos, voltei a passar um fim-de-semana maravilhoso com meu filho. Não tive crises de asma e ele parece estar bem recuperado da cirurgia de adenóides. Que bom. Foi meu presente de Dia dos Namorados.

Agora só falta uma namorada.

sábado, junho 11, 2005

Dia dos Namorados

Se você tem alguém, esqueça que o Dia dos Namorados é uma data comercial e comemore. Vocês merecem. Dê um presente bem legal. Saia pra jantar, pra passear de mãos dadas, pra dar um beijo de cinema em público. Inventem um passeio diferente. Façam sua enésima lua-de-mel, mesmo que não sejam casados. Aproveitem, os tempos são outros.

Na verdade, valeria para o Dia dos Namorados o que se diz do Dia das Mães, ou seja, que é todos os dias. Que não devemos reservar uma data só para dar atenção a quem se ama. Mas se existe esse dia, usem como pretexto e namorem bastante. Neste ano caiu num domingo, ainda por cima. Vocês têm tempo para curtir.

Eu quero acreditar que o meu melhor Dia dos Namorados ainda está para acontecer. Mas tenho algumas lembranças legais. Aos 20 e poucos anos eu estava envolvido com uma colega de faculdade – naquele tempo ainda não se dizia "ficar" – mas não sabia o que eu representava para ela. Nosso "caso" tinha começado no Dia das Mães, mas sem compromisso. Saímos mais algumas vezes e, quando chegou o Dia dos Namorados, sem combinar nada, compramos presentes um para o outro. Ali tivemos certeza de que estávamos mesmo namorando. Depois acabou não dando certo, mas as boas recordações ficaram.

Eu tive uma namorada no ano passado, mas em 12 de junho estava sozinho. Como estou novamente neste ano. Meu último Dia dos Namorados em boa companhia foi em 2003. Almoçamos juntos no Atelier das Massas, depois nos reencontramos ao final da tarde para fazer um lanche no Mercado Público. É, nesse dia, ficou só nisso. Mas foi legal.

Mesmo estando sozinho, eu procuro ficar bem no Dia dos Namorados. Fico curtindo o que vejo ao meu redor. Lembro de um Dia dos Namorados que caiu num sábado e só o que se via pela manhã eram homens carregando buquês de flores. Casais almoçando ou jantando juntos. Peças publicitárias bonitas e criativas. Um clima de romantismo no ar. Algumas vezes eu dei a entender que as mulheres preferem os cafajestes, mas justiça seja feita: conheço várias que acharam homens que as valorizam (um para cada uma) e que sabem retribuir a atenção que recebem. Talvez ainda haja esperança para o amor.

Eu fico aqui, feliz de estar me recuperando bem da asma e podendo dar atenção para o meu filho, com quem dei uma boa caminhada no sábado. Mas também penso nas namoradas que tive, que não foram tantas, mas que marcaram bastante. Hoje eu já sei que é possível esquecer uma paixão fulminante, basta a gente aceitar que não tem volta. Mas no começo é complicado. O dia de hoje faz os solitários se sentirem ainda mais sozinhos e, se ainda curtem uma saudade, pensam no que foi e no que poderia ter sido. Onde estará ela agora? Estará sozinha, também? Será que pensa em mim de vez em quando?


Aos que estão sozinhos, um recado contraditório: vocês não estão sozinhos (tem mais gente na mesma situação). Aos que estão bem acompanhados, desejo simplesmente um feliz Dia dos Namorados. Valorizem os companheiros que conquistaram. E aproveitem bastante o dia de vocês!

Comentário sobre DVD

Escrevi um comentário sobre o novo DVD de The Mamas and The Papas para o site da Amazon e no dia seguinte ele já estava na seção "Spotlight Reviews" (comentários em destaque). Vários comentários meus foram colocados nessa seção do respectivo item avaliado, o que significa que foram considerados bem escritos e com informações úteis para os clientes. Legal, né?

sexta-feira, junho 10, 2005

Roubo de idéias

Um dia desses o David Coimbra publicou uma crônica na Zero Hora sobre as "carinhas" dos chats e eu não falei nada. Apenas lembrei que já tinha abordado esse assunto no meu texto "As emoticonsilábicas". E ele usou o mesmo enfoque que eu, ou seja, o das mulheres que teclam assim. Pois hoje ele escreve sobre gírias, outro tema já abordado aqui. Desta vez não posso deixar passar. Fica registrado aqui o meu protesto. Parem de roubar minhas idéias!

quinta-feira, junho 09, 2005

Lojas Portuguesas

Esta só vendo para crer: as Lojas Americanas estão com alguns produtos em oferta no site, estipulando arbitrariamente até quantas vezes você pode parcelar cada mercadoria no cartão sem juros. Com isso, aparecem alguns absurdos. Por exemplo, a caixa de 4 DVDs do Live Aid pode ser feita até dez vezes sem juros ou em onze ou doze com juros. Logo, se você achar que pagar dez prestações de 18,99 não é prazo suficiente, pode optar por onze de 20,51 ou doze de 19,06! Você é quem sabe, pois, pois...

O abstêmio

Hoje a Zero Hora publicou uma matéria sobre alcoolismo, focalizando o caso específico de um gaúcho de 42 anos que conseguiu se recuperar. Mas uma passagem me chocou bastante. Quando parou de beber, aos 36 anos, a esposa com quem vivia desde os 19 se aborreceu com sua sobriedade. E lhe deu um ultimato: teria que escolher entre os Alcoólicos Anônimos ou ela. Felizmente a decisão foi certa e houve a separação. Hoje ele tem uma nova companheira com quem descobriu "o que é amar, ser amado e ser digno desse amor". Mas o que impressiona é que possa existir uma pessoa com pequenez de espírito como essa mulher.

Na verdade o abstêmio incomoda. Ele é como aquele sujeito que tem a camisa mais branca que a sua: se ele senta perto de você, o contraste faz o seu branco parecer amarelo. E você gostaria que ele sujasse logo a roupa para ficarem todos iguais e você se sentir tão limpo quanto ele. Existe entre os alcoólatras não assumidos um pacto de conivência: vamos todos encher a cara e convencer um ao outro que somos bebedores sociais. Que esse é o comportamento normal de quem vai em festas ou freqüenta a noite. Se aparecer algum abstêmio, vamos nos unir para fazer com que ele é que se sinta o errado no meio dos certos. Mesmo assim, no fundo, os bebuns é que se irritam em ver que há pessoas que conseguem viver bem sem o álcool.

O caso dessa ex-esposa impressiona, mas não é tão raro. Quando alguém resolve parar de beber, nem todos dão apoio. Alguns entendem a situação e estimulam. Mas muitos não aceitam. "Você não vai beber nada? Ah, fica chato todo o mundo bebendo e você aí, careta, sem rir das nossas bobagens." "Que graça tem sair pra tomar guaraná?" "Pô, perdi meu parceiro? Que é isso, cara, sem uma cervejinha não dá pra ser feliz!" Ah, sim, já ouvi muita gente dizer: "Eu não bebo, só tomo uma cervejinha de vez em quando." Então tá.

Geralmente quem não bebe também não fuma. E ouve a tradicional piada: "Não fuma, não bebe e não pode." Como se o uso de álcool e tabaco fosse essencial para fazer sexo e aproveitar a vida. Que uisquinho antes, que cigarrinho depois, que nada! Bom mesmo é durante, durante e durante. Quem quer beber e fumar, tudo bem, cada um sabe o que faz. Mas desestimular quem decide parar é muita mesquinhez de caráter. Infelizmente, existem pessoas assim, com personalidade fútil. Como essa mulher, que só queria o marido alcoolizado. Felizmente, ele teve hombridade e saiu por cima.

quarta-feira, junho 08, 2005

Word temperamental

Faça um teste. Abra o Word. Digite:

231(1A)

E tecle "Enter".

E aí? Funcionou? Se você não recebeu a mensagem "Este programa executou uma operação ilegal e será fechado", parabéns, o seu Word não é temperamental como o meu. Até descobrir que era essa combinação de caracteres que detonava a bomba, tive que penar muito. Isso, casualmente, é uma seção (artigo) de uma lei australiana. O meu Word entra em crise quando eu digito. E o seu?

P.S. - Não é só esse o problema. Recebi a mensagem de novo sem identificar o motivo. Parece que está havendo também um limite de tamanho. Sei lá, meu computador está todo estranho.

A propósito...

Tem gente querendo saber como foi o meu exame de "penetrado do mediastino". Ou onde fica exatamente esse lugar do corpo humano. Não sei, não senti nada. Este é o perigo do raio X: ele penetra e a gente nem nota!

Famoso por tabela

Lendo a notícia sobre a prisão de Edinho, filho do Pelé, penso em como deve ser complicado ser parente de alguém famosíssimo. Ter boa fama deve ser ótimo. Já ser famoso por tabela, aí a situação é diferente.

Eu próprio já experimentei essa sensação em escala bem menor. Às vezes acho que o curso de Direito se chama na verdade "Ciências Jurídicas e Sociais" em homenagem ao meu pai, que teve um certo destaque tanto como Juiz quanto como presidente do Clube do Comércio. Meu irmão mais velho foi locutor de televisão nos primórdios da TV em Porto Alegre. Meu outro irmão teve seu momento de fama em 1989, quando era apresentador da TV Goyá e atuou como negociador em um seqüestro em que duas jornalistas subordinadas a ele tomaram o lugar de um garoto como reféns. Minha irmã é hoje uma figura atuante na prevenção da AIDS e foi notícia em todo o Brasil quando ganhou uma ação contra a Veja por uso indevido de imagem. E eu... bem, eu sou filho do meu pai e irmão dos meus irmãos!

É claro que a evidência de pessoas próximas sempre é motivo de orgulho. Mas chega um momento em que a gente cansa e quer ser "a gente mesmo" e não mais "filho do Fulano", "irmão do Beltrano" ou "irmão da Cicrana". É comum as pessoas que me conhecem por meu parentesco começarem me chamando pelo sobrenome, para simplificar a referência. Depois, quando percebem que ninguém me chama assim, passam a usar o meu primeiro nome. Mas já houve o caso de uma pessoa que me chamava pelo primeiro nome e, quando soube de quem eu era irmão, passou a chamar pelo sobrenome. Aí, fui obrigado a pedir que voltasse a usar o primeiro nome. Pior é quando esperam que a gente tenha determinado comportamento em razão do parentesco, como se cada um não tivesse direito a sua própria personalidade. Certa vez um dentista comentou: "Tua irmã é uma pessoa mais dinâmica e tu és mais quieto." Sim e daí? Me deixa quieto, ora!

Existem casos de parentes de pessoas realmente famosas que conseguiram brilho próprio, muitas vezes na mesma atividade de seus antecessores. Gonzaguinha. Luis Fernando Verissimo. Vitor Ramil (irmão de Kleiton e Kledir). Tunai (irmão de João Bosco). Liza Minelli (filha de Judy Garland). Arlo Guthrie. Outros conquistaram seu quinhão de notoriedade, mas sem perder o estigma, como Julian Lennon, Sean Lennon, Yoko Ono (ninguém vai me dizer que essa mulher teria lançado um só disco sem casar com John Lennon), Gary Lewis (filho do comediante Jerry Lewis que se lançou como músico nos anos 60), Dweezil Zappa, Janet Jackson e outros. Ainda é cedo para avaliar os filhos de Elis Regina, mas Maria Rita parece ter chance de ir mais longe do que Pedro Camargo Mariano e João Marcelo Bôscoli. Por outro lado, há exemplos de talentos que superaram os antecessores e fizeram com que os mais velhos é que passassem a ser vistos como "pai do Fulano" e "irmão do Cicrano". É o caso dos jogadores de futebol Zico (irmão do Edu, que bem antes teve seu momento de destaque no América do Rio) e Ronaldinho Gaúcho (irmão do ex-jogador Assis).

Mas a situação de Edinho é mesmo sui generis. Filho do maior jogador de futebol de todos os tempos, ele cresceu no pior lugar do mundo para desenvolver seu potencial com a bola: os Estados Unidos. Para "ter graça" jogar com os americanos, acabou indo para o gol. Talvez se ele tivesse sido tratado como um jogador igual aos outros, conseguisse desenvolver sua técnica com calma e perseverança. Mas a cobrança era enorme. O parentesco lhe abria portas depressa demais. A expectativa era toda em cima dele. Chegou a ter seu momento de glória, mas nunca foi um grande goleiro. E não deixou de ser "o filho do Pelé".

Pelé teve o seu auge numa época em que as pessoas de boa família comentavam à mesa, como quem relata uma tragédia: "O filho da Fulana está fumando maconha!" O jogador sempre fez questão de projetar uma imagem sadia e honesta. E agora suporta o desgosto de ver o próprio filho envolvido em notícia de crime e drogas. Deve haver mais nesse rolo do que apenas uma suposta dependência de maconha. Se todos os usuários fossem presos, iria faltar cadeia. Não eximo Edinho de suas responsabilidades, mas garanto a vocês que não deve ser fácil ser filho de alguém absurdamente famoso. Meu pai é nome de uma rua sem saída perpendicular ao Iguatemi e está de bom tamanho.

terça-feira, junho 07, 2005

Cyberconsumo

Eu sou fã assumido da Internet e tudo o que ela oferece. Mas, além das informações e da chance de fazer amigos virtuais (ou mesmo reais), um dos maiores benefícios que a rede me proporcionou foi poder fazer compras diretamente das lojas do exterior, sem intermediários. Claro que antes isso já era possível em menor escala, desde que se instituiu no Brasil o cartão de crédito internacional. Mas a Internet liberou geral, agilizou e facilitou o consumo via ciberespaço.

Faz tempo que eu me interesso principalmente por livros importados. Mas, nos velhos tempos, eu dependia dos atravessadores. Era uma agonia. As revistas importadas até chegavam – algumas. E lá eu ficava sabendo dos livros que eram lançados no exterior. Aí, lá ia eu nas livrarias ditas "importadoras" de Porto Alegre. Algumas até diziam poder conseguir e ficavam de me dar retorno. Eu voltava na semana seguinte e a resposta era: "Não tinha em São Paulo". Ora, desde quando uma loja que consegue suas mercadorias em São Paulo pode se anunciar como "importadora"? Antigamente a humanidade pensava que o mundo terminava no Oceano Atlântico. Pois os lojistas de Porto Alegre achavam que o mundo acabava em São Paulo. Em outra livraria eu perguntei como eles faziam para encomendar livros importados e a moça respondeu: "A gente não encomenda, vem automático". Que beleza! Então era só esperar (sentado) que o livro "vinha automático". De São Paulo, é claro.

Certa vez levei o recorte de uma revista importada com o anúncio de um livro que eu queria comprar. Quando mostrei para o gerente da loja, ele não escondeu sua surpresa pelo fato de o livro existir mesmo e ele nunca ter ouvido falar. Naquele dia aprendi que vendedor – de qualquer tipo de mercadoria – pensa que conhece tudo. Hoje, quando quero procurar algum CD ou livro diretamente na loja, tento imprimir a capa da Internet, pois isso faz uma diferença enorme no atendimento. Se você pede um título e o vendedor não conhece, acha que não existe. Mas se você prova que existe ele se vê obrigado a lhe dar uma atenção maior (aliás, várias vezes em lojas de discos já ajudei clientes a achar CDs que os vendedores disseram que não tinham).

Voltando à era pré-Internet, encontrar discos importados era mais fácil porque havia um mercado maior, não era "só eu" que me interessava. Um lojista em especial tinha contatos no exterior (os outros, obviamente, só em São Paulo) e conseguia praticamente tudo o que eu encomendava. Mas livros era difícil. Quando fui aos Estados Unidos em 1985 e depois novamente em 1990, aproveitei para trazer um estoque de volumes escolhidos a dedo, pois não sabia quando teria essa chance outra vez. Hoje consigo o que eu quiser pela Internet. Tanto a
Amazon quanto a Abebooks permitem a encomenda de livros raros e fora de catálogo. E os preços não são extorsivos, como se poderia imaginar. Em questão de anos, consegui todos os livros importados antigos que queria comprar. Hoje meu problema é outro: achar tempo para lê-los.

Encomendar CDs e DVDs do exterior é mais problemático, por causa da taxa de importação de 60%. Mesmo assim, dependendo do quanto eu quero conseguir algum item, vale a pena. A
Gemm congrega lojas de discos do mundo todo. Lá se consegue tudo, praticamente. Até um colega meu, por dica minha, comprou um vinil de uma cantora chamada Anamia, que ele já teve e depois extraviou. Eu consegui o LP "On a New Street", de Little Anthony and The Imperials, de 1973, em estado de novo. E também o CD raro "Love You Till Tuesday", de David Bowie, pelo selo inglês Pickwick. Em suma, a Internet, em termos de consumo, me libertou da restrição dos atravessadores desinformados (ou desinteressados) e me colocou diretamente em contato com vendedores do mundo inteiro.

domingo, junho 05, 2005

Dica


Que jogo do Brasil, que nada! Todo mundo no show do Zé Renato hoje às 17 horas no Átrio do Santander Cultural!

sábado, junho 04, 2005

Depois das compras de sábado de manhã

- De vez em quando o patê de fígado Sadia some das prateleiras. Agora não é época de fígado?

- Esqueci de comprar desodorante. Mas não se preocupem, ainda tem um restinho.

- Esqueci de perguntar na farmácia se existe máscara para inalação com elástico. Quero poder nebulizar com as mãos livres.

- Os sites da Internet dizem que o DVD "Alice no País das Maravilhas" já está disponível, mas as lojas só têm o "Bambi".

- Já saiu a terceira temporada de "Perdidos no Espaço", em DVD. A primeira, que é em preto-e-branco, está sendo vendida pela metade do preço que paguei. Saiu também a primeira de "Jornada nas Estrelas". Um dia quero escrever com calma sobre essa maravilha que é o lançamento de séries inteiras em DVD.

- Estou com sono.

- Estou respirando bem.

- Estou de celular. Sim! Depois das crises de asma que me pegaram de surpresa, achei melhor render-me a essa... maravilha da tecnologia moderna.

Bom fim-de-semana.

sexta-feira, junho 03, 2005

Refeições comentadas

Não sei se é mania de gordo ou intolerância, mesmo, mas detesto fazer o que eu chamo de refeições comentadas. Em outras palavras, agüentar alguém fazendo observações sobre o que eu estou comendo ou deixando de comer no almoço ou na janta. Sei que minha alimentação não é balanceada e não preciso que um chato venha me avisar isso bem na hora de comer. Eu não fico olhado para o prato dos outros enquanto almoço.

- Puxa, você não come nada de verduras?

Pior é quando a pergunta ou a observação se torna repetitiva. Na primeira você responde, na segunda você conta até dez, na terceira você bufa e na quarta... Enquanto isso, na mesma mesa, alguém está comendo a mesma quantidade de carne, farinhas e gorduras, apenas engrossando a porção com alguns tomates e alfaces para dizer que sua refeição é equilibrada.

Eu sei que tenho manias. Talvez tenha faltado rigor dos meus pais nesse quesito, já que eu era filho temporão e eles já não tinham a mesma energia, mas desde a infância eu divido os alimentos em três tipos: os que me apetecem, os que eu como sem muito entusiasmo e os que me repulsam. E o fato de eu não gostar de arroz me torna uma aberração da natureza aos olhos dos outros. Vêm aquelas perguntas inteligentíssimas:

- Você não come arroz? Mas então o que você come com o feijão?

Normalmente eu procuro desconversar, pois se eu der a resposta certa, terei que escutar outra pérola. A resposta certa seria:

- Eu raramente como feijão.

E a pérola:

- Então você come o quê?

Eu mereço! Um colega meu ouviu essa mesma pergunta quando foi à Itália visitar parentes e comentou que não gostava de massa. Se um dia alguém me disser que não gosta de torradinhas eu vou perguntar no que a pessoa em questão passa o caviar. No caso, adoro misturar feijão com batata palha, polenta frita ou, na falta desses, até batata frita comum. Também gosto de colocar por cima do bife à milanesa e depois limpar o caldo do prato com pão. Com farofa também fica bom. Mas o ideal é comer sozinho ou com alguém que já me conheça, senão vêm os comentários de novo:

- Feijão com polenta? Que estranho...

E ficam olhando demoradamente, com aquela mesma cara interessada com que se deliciam com um carro acidentado ou algum caso bem escabroso no programa do Ratinho. Sobre o fato de eu não comer arroz, de vez em quando alguém diz, com cara de detetive esperto que desmascarou o mordomo:

- Já sei! É porque engorda!

Claro! Brilhante dedução! Para fugir às calorias do arroz, eu o substituo por aquelas frituras todas que citei. Parabéns pelo raciocínio lógico, Sherlock! Outra mania que eu tenho que atrai comentários inteligentes, oportunos e sempre bem-vindos é a de beber refrigerantes "diet" ou "light". Muita gente já veio me dizer que eu sou gordo por tomar muita Pepsi Light (que alívio, eu pensei que fosse por causa da massa e da carne gorda!). Outros olham para o meu prato e debocham:

- Comendo esse monte de massa e tomando Pepsi Light!

Eu poderia tentar explicar que o fato de a soma calórica ser grande no prato não me obriga a dobrar o valor no copo. Ou que os refrigerantes "diet" me descem rápido e fácil enquanto um só copo do refrigerante comum me faz sentir inchado, como se eu tivesse bebido chumbo. Ou ainda que o fato de eu estar mantendo a forma (literalmente) não significa que eu não me importe em aumentá-la ainda mais. Em outras palavras, que ainda é melhor ter 100 quilos do que 200. Mas não adianta. Quem é burro e inconveniente a ponto de fazer um comentário desses não vai entender um raciocínio matemático, por mais simples que seja. Dai-me paciência!

Agora com licença, que eu vou até ali comer uma picanha gorda com feijão, polenta frita e Pepsi Light e já volto.

Cirurgia

O Iuri já almoçou normalmente na casa dele hoje. Acho que está tudo bem. Estou com saudades daquelas bochechas.

quinta-feira, junho 02, 2005

Hein?

Tenho uns exames marcados. Um deles já me deixou apreensivo. "Estudo radiológico do tórax: frente, perfil e penetrado do mediastino." Penetrado onde? Como? Calma lá! No mediastino dos outros é refresco!

quarta-feira, junho 01, 2005

Cirurgia do Iuri


Não bastasse o sufoco (literalmente) da asma e de uma tradução grande que tem que ficar pronta para segunda-feira, hoje fiquei sabendo que meu filho Iuri vai fazer a cirurgia de adenóides já na sexta pela manhã. Eu sabia que ele precisaria operar, mas não imaginei que fosse tão logo. E justo agora que não estou tendo tempo nem saúde para ajudar a cuidar dele. Mas vai dar tudo certo. Para mim e para ele. Nós dois vamos nos recuperar bem e voltaremos a passar uns fins-de-semana bem legais, com longas caminhadas pela Avenida Beira-Rio.

Esta foto aí em cima é antiga, acho que ele estava com cinco anos. Hoje tem onze e está enorme, mas continua lindo.

O burro

Eu costumo dizer que, se uma pessoa é burra só pra ela, não tem problema, é uma burrice benigna. Para gente assim é que foi criado o Prêmio Darwin, homenageando aqueles que contribuem para a evolução da espécie humana eliminando a si próprios por conseqüência de sua burrice. Estou com preguiça de procurar um link. Pesquisem vocês mesmos "Prêmio Darwin" ou "Darwin Awards" na ferramenta de busca de sua preferência e divirtam-se com as histórias reais que encontrarão.

Infelizmente, nem sempre o burro restringe o seu raio de influência à sua individualidade. Aí é que começam os problemas. Lembrei disso em razão das notícias que apareceram nos jornais nos últimos dias. As mortes no trânsito durante o feriado, os ataques de pitbulls e rottweilers, tudo isso é conseqüência de burrice. Desculpem, mas desta vez não vou usar outra palavra mais bonita ou elegante. É burrice mesmo e não tem conversa.

Ah, o burro. Como lidar com ele? Ele faz sua própria lógica. Se o pitbull de outro dono estraçalhou alguém, ele acha que foi uma exceção. O dele nunca vai fazer isso, imagina! É tão mansinho... E se os jornais começam a publicar outras notícias semelhantes, ele se irrita, acha que é implicância, que saco, me deixem ter meu animalzinho feroz em paz! Até que um dia acontece a tragédia.

Já o burro ao volante é aquele que pensa que as regras de trânsito são só para quem "não se garante". Que não é o caso dele, é óbvio. Logo ele, que dirige desde a infância, vai pagar o mico de andar na velocidade máxima permitida? Ah, que se danem as normas! Não tem fiscalização aqui, vou andar do meu jeito. E se ele tiver sorte de sobreviver a um acidente, jamais vai admitir que teve culpa. Foi outro motorista que o fechou ou freou muito em cima. O fato de ele estar andando coladinho no carro da frente, querendo passar de qualquer jeito, não teve qualquer influência. Era só o outro não ter parado tão inesperadamente. O burro desconhece o significado da expressão "dar chance para o azar".

Eu não tenho paciência com gente burra. Mas ainda reservo uma certa complacência para aqueles que têm noção de limite, que sabem respeitar o próximo e fazer com que sua burrice só atinja a eles mesmos. Infelizmente, são poucos. E aí vem a missão impossível de conscientizar esse tipo de pessoa. Como conscientizar o burro? Árdua tarefa. É mais fácil manter uma distância segura.