quinta-feira, maio 31, 2012

Procurando apartamento

Não sei por que, sempre que eu digo que estou procurando apartamento, alguém se oferece para me indicar um corretor. Não estou procurando corretor, estou procurando apartamento! Corretor eu não preciso procurar, eles é que me procuram! Eu já conhecia uns três antes mesmo de iniciar minha busca e agora estou conhecendo uns dois por dia em média. Eu entro em contato com eles para solicitar informações sobre um imóvel específico e eles aproveitam para perguntar as características do que eu quero. Mas não sei se prestam atenção, porque depois mandam links para apartamentos completamente fora da área que eu especifiquei. Até em outros bairros. Se pegar, pegou, né? Mas não pega. Eles perdem o meu tempo e o deles tentando me oferecer o que eu não pedi.
Ontem mesmo um amigo meu falou que conhecia um corretor. É mais ou menos como se, no final de tudo, eu fosse me contentar em dizer: "Não achei bem o apartamento que eu queria, em compensação, encontrei um corretor sensacional!" No caso, esse meu amigo, depois de trocar algumas ideias comigo, chegou à conclusão de que eu devia ser "bem chato" para procurar imóvel. Ora, como não vou ser? Não estou à cata de um hotel para passar as férias ou um fim-de-semana, estou querendo achar o lugar onde vou morar! Para onde vou levar todas as minhas tralhas e passar a maioria dos dias que me restam, a que tudo indica. Como não vou ser exigente? Quero um apartamento grande, bem localizado e barato. Impossível? Veremos. Já perdi um que era bem como eu queria por detalhe. Outro há de vir.
Como eu comentei hoje com minha irmã, procurar apartamento é mais ou menos como tentar encontrar uma namorada: tem que ser amor à primeira vista. Ou, no mínimo, pintar um clima. Já entrei em imóveis razoáveis, até bem grandes, que não me passaram uma boa impressão. Aliás, não sei se todos são como eu, mas me sinto mais atraído quando eles estão desocupados. Uma residência ainda montada inevitavelmente carrega as vibrações e o perfil dos moradores atuais. Nem sempre é fácil visualizar que, no local onde hoje se encontra um armário horrível, pode-se colocar uma estante de livros. A bagunça do quarto das crianças pode bem ser substituída... bem, pela minha bagunça, digamos! É preciso um certo exercício de imaginação para projetar a minha futura morada num espaço que hoje contém o lar de outrem.
O meu filho também pesa na escolha. Ele ainda não sabe que vou me mudar, mas quando acontecer, quero que ele se sinta tão à vontade no novo local quanto se acostumou a se sentir aqui. Que ele possa continuar chegando na sexta-feira à noite e me puxando para irmos direto ao shopping, como faz há anos.
A busca continua. Ainda não achei o apartamento dos meus sonhos, mas já conheci uns dez corretores ma-ra-vi-lho-sos! Difícil saber qual deles é o melhor. Apenas como critério de desempate, vou escolher aquele que conseguir me vender o que procuro.

segunda-feira, maio 28, 2012

Reflexões sobre o Blog

Nada me deixa mais feliz em relação a este Blog do que saber que ele foi descoberto por alguém que não me conhecia e que resolveu vasculhar todos os tópicos desde o começo. Vejam bem, não estou desconsiderando o apoio dos amigos e parentes. Estes sempre me admiraram e realmente gostam do que eu escrevo. Eu sei quem vocês são e fico satisfeito quando deixam algum comentário. Mas quando os elogios vêm de ilustres desconhecidos, a massagem no ego é redobrada. Sinal de que o meu estilo realmente agradou, de forma isenta, sem predisposições à benevolência.
No ano passado, um músico chegou aqui pesquisando sobre um compositor gaúcho. Acabou lendo tudo desde o início e, de tempos em tempos, enviava alguma observação. Ou por e-mail, ou pelo Facebook (onde me adicionou), ou em algum tópico específico do Blog. Pois agora é uma moça quem está fazendo o mesmo e postando comentários em tópicos diversos. Lembro vagamente de uma terceira pessoa, há muitos anos, que também me avisou que estava fazendo um "tour" pelo site.
Como bem observou a recém-chegada visitante, no começo os assuntos eram mais diversificados. Eu escrevia bastante "sobre a vida", nas palavras dela. O que acontecia é que eu guardava meus melhores textos sobre música para o International Magazine. Quando o jornal parou de circular em 2009, redirecionei tudo para cá. Como música é o meu assunto preferido, é normal que venha a predominar.
Mas ainda penso em voltar a dissertar sobre relacionamentos, comportamentos, enfim, observações diversas. Nestes quase oito anos de Blog (o "aniversário" é em agosto), já coloquei aqui praticamente todas as minhas opiniões sobre o mundo. Uma frase recorrente quando participo de discussões orais ou escritas é: "Já escrevi sobre isso no meu Blog". Por isto os assuntos hoje não são tão fartos: eu já dei vazão a quase todas as "ideias reprimidas" que estavam em minha cabeça. Mas de vez em quando algum fato novo faz brotar a inspiração.
Mas é bacana saber que tem gente que gosta dos meus textos. Podem não ser muitos, mas eu sei que vocês estão aí. Pelo Site Meter, não tenho como saber exatamente quem chega aqui. Mas fico contente quando vejo que o argumento de pesquisa foi "Blog Emilio Pacheco" ou algo semelhante. Sinal de que o internauta em questão não encontrou este endereço por acaso. Veio porque queria me ler. E sei também que muitos estão com o endereço desta página nos "favoritos" do seu navegador.
A vocês, meus "leitores de fé", o meu muito obrigado. E bom dia, neste começo de uma nova semana.

sábado, maio 26, 2012

Como sempre

Fim-de-semana com o Iuri e tempo bom sempre tem caminhada. Da Praia de Belas à Rua da Praia via Avenida Beira-Rio.














quinta-feira, maio 24, 2012

Formatação do Blog

Não sei se os colegas de Blogspot têm a mesma lembrança que eu, mas minha recordação é de que, antigamente, era bem mais tranquilo formatar um tópico para postagem. Vigorava o famoso "what you see is what you get", ou seja, o que você enxergava na preparação era o que iria aparecer para todos. Sei lá que modificações foram sendo feitas que foi ficando cada vez mais difícil editar um texto e deixá-lo do jeito que a gente quer. As últimas alterações na ferramenta de edição, então, bagunçaram tudo! Você formata de um jeito e, depois, o que aparece na postagem é bem diferente. Às vezes, a única solução é fazer pequenos ajustes no código HTML para evitar que os parágrafos fiquem com espaços enormes entre um e outro. Em suma, não aprovei as alterações. Quando criei o Blog em 2004, era tudo bem mais fácil. As "melhoras não solicitadas" é que estragaram tudo.

terça-feira, maio 22, 2012

Inconsciente Coletivo - o ensaio

 
Conforme prometido, aqui vai meu segundo texto sobre o Inconsciente Coletivo, contando sobre o ensaio do grupo a que assisti em 1976. Mas vou começar explicando como aconteceu meu contato com os músicos. Então é o momento certo para lembrar como me tornei fã.
 
Em 1975, o Inconsciente Coletivo era um de muitos grupos e artistas gaúchos que a Rádio Continental de Porto Alegre rodava com exclusividade. Mas eu ainda não sabia disso. Quando escutei "Voando Alto" pela primeira vez, pensei que eles já tivessem disco. Depois comentei com um amigo sobre um conjunto novo que eu tinha escutado, "não sei das quantas Inconsciente" e ele disse na hora: "Inconsciente Coletivo". E citou algumas músicas que conhecia. Mais adiante, meu irmão João Carlos Pacheco, na época morando no Rio, veio a Porto Alegre em viagem a trabalho. Ele sempre visitava a Continental, onde havia sido e voltaria a ser locutor, às vezes até dando uma canja no microfone. Pois numa dessas visitas eu fui junto. E o operador da rádio, o Magrão Augusto, me mostrou o cartucho com a música "Voando Alto". Ali fiquei sabendo como eram feitas as gravações exclusivas.
Na noite de 30 de abril de 1976 aconteceu a primeira das duas apresentações do concerto "Vivendo a Vida de Lee" nº 3. Eu, minha irmã e uma turma de amigos comparecemos ao Teatro Leopoldina para prestigiar Beto de Barcellos, irmão de meu (hoje ex) cunhado. Mas claro que eu estava na expectativa das apresentações todas. E o grupo que eu mais esperava não decepcionou. Pelo contrário, confirmou a qualidade que eu já previa pelas amostras que escutara no rádio. Depois, no programa Mr. Lee em Concerto, o radialista Júlio Fürst colocou no ar uma sequência de depoimentos de jovens que haviam assistido aos shows. O primeiro deles foi curtíssimo, mas resumiu exatamente o que eu sentira: "Foi tudo muito legal, mas o melhor mesmo foi o Inconsciente Coletivo".
Cheguei em casa com minha irmã (grávida de seu segundo filho, meu sobrinho Rafael) e nossa mãe quis saber tudo sobre  o show. Falamos bastante e eu não deixei de elogiar o grupo que acabara de ver ao vivo pela primeira vez. Minha irmã endossou minha opinião. No começo daquele ano, meus pais haviam feito uma viagem histórica a Gravatal. Histórica porque, nessa época, era raro eles viajarem. Mas dessa vez foram e se divertiram. E fizeram amigos. Um deles foi o senhor João Araújo e sua esposa. Um dia, ele comentou com meus pais que seu filho tinha um conjunto chamado Inconsciente Coletivo. Minha mãe lembrou do nome na hora e falou de minha admiração pelo grupo. Eles eram os pais do João Antônio. Foi ali que surgiu um pré-convite para eu um dia assistir a um ensaio deles.
Depois disso, veio a notícia que me deixou eufórico: eles haviam sido contratados pela Tapecar! Iriam gravar um disco. Não recordo exatamente, mas acho que foi por isso que resolvi cobrar logo de minha mãe que fizesse um contato para saber se ainda estava de pé a possibilidade de eu comparecer a um ensaio do Inconsciente. E se eles estourassem e acabassem se tornando, digamos, inalcançáveis aos simples mortais? Minha mãe telefonou para a esposa do seu João e ela falou: "Eles estão ensaiando agora, diz para ele vir, então!" Era um domingo. Não vou lembrar a data certa, mas com certeza foi algum tempo depois de 7 de agosto de 1976, em que havia acontecido o Vivendo a Vida de Lee em Passo Fundo. Eu tinha 15 anos.
Fui de táxi até a casa do João Antônio, na rua 16 de julho. O grupo ensaiava na casa de Alexandre, um pouco mais adiante. A mãe do João me levou até lá. Ao me aproximar, já senti uma emoção ao escutar a música saindo da janela e avistá-los empunhando os instrumentos pelo lado de dentro. Ouvi um som de flauta e perguntei: "Flauta é ele (referindo-me ao João Antônio) que toca?" Ela confirmou: "Sim, flauta é o meu filho." 
Fomos atendidos pela irmã do Alexandre. Ela nos acompanhou até o quarto onde eles estavam tocando. A mãe de João Antônio me apresentou como poeta, já que naquela época eu frequentava o Grêmio Literário Castro Alves. Hoje, relembrando a cena, presumo que tenha havido um aviso prévio de minha chegada, pois ninguém esboçou surpresa. Já havia até uma cadeira estrategicamente colocada e o Alexandre falou: "Senta aí!"
Aqui começa exatamente a experiência do fã no meio dos seus ídolos. Na parede à direita havia dois pôsteres: um do show do Bill Haley em Porto Alegre, que teve abertura do Inconsciente Coletivo, e uma foto pequena em preto e branco do rosto de Alexandre tocando sua harmônica à la Bob Dylan. Alexandre estava sentado à minha direita. João Antônio e Ângela estavam de pé à minha frente, de costas para a janela. À minha esquerda, também de pé, estava um rapaz alto e magro com aparência mais jovem do que os demais, com um baixo plugado. Esse eu não conhecia. Perguntei (vou transcrever as falas como foram ditas, sem corrigir erros de concordância): "Tu é do conjunto, também?" Ele respondeu: "Tô entrando..." Era o Calique, que no futuro se destacaria como compositor de jingles e regente e integrante esporádico do Canto Livre.
Após a minha recepção e acomodação (eu lembro que era uma tarde fria e eu estava com um casacão cinza horrível que caía sobre as minhas pernas), a primeira a retomar o ensaio foi Ângela. Ela estava segurando uma escaleta que depois acabaria deixando de lado. E falou: "Tá, eu não sei se é lá lá lá...", cantarolando o trecho que deveria tocar. Aos poucos eles foram se achando. Pela introdução com flauta e harmônica, reconheci a música: "Salve o Rei", que a Continental já vinha rodando havia alguns dias. João Antônio tinha apenas alguns compassos para largar a flauta e colocar o violão a tiracolo bem a tempo de tocá-lo. Quando Alexandre começou a cantar ("Pequena cidade entre montanhas..."), tive uma das sensações mais incríveis de minha vida como apreciador de música: a de escutar a voz que eu ouvia todas as noites no rádio saindo da garganta do sujeito ao meu lado! Eles executaram a música tal e qual eu a conhecia, só que não era em rádio nem em teatro: era eu ali, no meio deles, em som direto, "surround natural", um verdadeiro show particular! Acho que nem eles podiam imaginar o que eu sentia naquele momento.
E eles tocaram "Salve o Rei" diversas vezes. Um deles, acho que o João Antônio, falou brincando que eu iria enjoar da música. Isso, é claro, estava fora de cogitação. Aí ele perguntou se eu a conhecia, eu disse que sim, a Ângela completou "claro, toca no rádio", e eu comentei: "Eu estava esperando, aliás, o Bizarro vai gravar aquela música ou não?" Aqui, uma explicação: eu me referia a uma matéria que havia saído na Zero Hora alguns meses antes, assinada por Juarez Fonseca. Ali eram citados alguns versos de "Salve o Rei" antes de a Continental começar a divulgar a música – daí o "estar esperando". E o mesmo texto informava que eles haviam composto "Dama da Noite", mas que era densa demais. "A gente fez a música, mas não podia tocá-la", teria dito Alexandre para Juarez. Então a matéria acrescentava que a composição "sairia às ruas" (entenda-se: seria gravada na Continental) pelo grupo Bizarro. Mas até então, nada. Alexandre disse que o Bizarro tinha prometido gravar. "Que música?", quis saber Calique. Quando Alexandre respondeu "Dama da Noite", o baixista comentou que a adorava. "Era bem pra eles aquela música", comentou Alexandre. Depois completou: "Não tem nada a ver conosco." Eu fiz a indagação óbvia: "Então por que fizeram?" Ficou no ar um clima de "pois é" e Ângela resumiu: "Saiu..." (É curioso que, entre as últimas músicas do Inconsciente Coletivo, havia algumas mais pesadas, como "Canteiros de Tramandaí", "Velhas Mentiras" e "Camarada". Considerando os novos rumos que eles buscariam, fica difícil imaginar que eles mesmos não conseguiriam interpretar uma composição própria.)
Outra canção que eles ensaiaram naquela tarde foi "Êxodo Rural". Essa eu não conhecia. Perguntei se já tinha sido divulgada na Continental e eles confirmaram que não. Calique disse, com ênfase, em tom de brincadeira: "I-né-di-ta!" João Antônio emendou: "Tás ouvindo em primeira mão!" O mais incrível é que eles falaram isso despretensiosamente, talvez sem imaginar que era exatamente o que eu estava sentindo: emoção e privilégio por estar conhecendo uma música do Inconsciente Coletivo antes de todos os ouvintes da Continental! Bem... quase todos. Depois a rádio começou a tocar "Êxodo Rural" numa gravação ao vivo do show de Passo Fundo, de forma que, quem esteve lá (como minhas primas), já a tinha ouvido.
"Salve o Rei" e "Êxodo Rural" foram as duas únicas músicas realmente ensaiadas naquela tarde, mas eles fizeram trechos de várias outras. Como, por exemplo, a introdução de "Fadas Douradas", com Calique e João Antônio tocando flautas em uníssono (como fariam novamente no show "Sul, Primeiros Passos", que será o tema de meu terceiro texto sobre o grupo). Já naquela época eu tinha uma tendência incontrolável de fazer piadas infames, e não resisti. Perguntei ao Calique: "Tu é gremista ou colorado?" Intrigado, ele respondeu: "Colorado, por quê?" Então eu disse: "Ah, então tu pode tocar flauta!" Alguns riram, acho que mais pela surpresa de eu ter feito a piadinha do que por ela ter ou não graça. Calique confirmou: "Tranquilo..." Em outro momento, Alexandre começou a interpretar "Viola em Punho": "Levanta o sol, levanto cedo / vou cantando campear / levo um beijo em minha testa / de Maria a me esperar". Nesse ponto Calique interrompeu dizendo que "Ana Rita" ficava melhor. Eu nem sabia que a música tinha essa variação na letra. Conhecia "Maria", mesmo, da rádio Continental. Mas foi a "Ana Rita" que eles cantaram em dezembro, no 4º e último Vivendo a Vida de Lee.
Como eles já estavam com disco anunciado, perguntei quando iriam gravar. Se não me engano a resposta foi "mês que vem". Mas nas lojas, mesmo "só em novembro", disse Alexandre. "Dezembro", emendou Ângela, mais realista. Comentei que, nos últimos dias, a Continental só tocava "Voando Alto". Embora não tenha explicado a eles, eu estranhava porque era uma das composições mais antigas do grupo e havia outras que mereceriam divulgação. Alexandre comentou, num tom meio contrangido: "É uma musiquinha legal, mas agora já enjoou um pouco..." Na verdade eu desconfiava – e depois isso se confirmaria – que eles escolheriam essa para o lado A do disco que lançariam.
Lá pelas tantas eles entraram numas de queimar umas palhetas brancas com cigarro, fazendo um furo no meio. "Por que isso?", perguntei. "Palheta marca Inconsciente Coletivo", brincou Ângela. Como bem observou Calique, a fumaça resultante exalou um cheiro de Vick Vaporub. Em outro momento, Alexandre começou a cantar uma música sozinho ao violão. "Você me deu a luz... quando eu estava cego..." Lembro também da expressão "poemas antigos" na letra. Perguntei se eles iriam gravar a música (na rádio Continental, eu queria dizer) e ele disse, "não, tamo fazendo ainda". E já tinha nome: "Madame Solidão". Mas nunca mais a ouvi.
Na saída, eu e Calique viemos juntos de ônibus para o centro. No momento em que deixamos a casa do Alexandre eu disse a ele: "Sou ligado no som deles". Curioso eu ter tido "deles", pois Calique agora era um "deles", também. Ele quis saber como eu tinha conseguido o endereço e eu expliquei a amizade de meus pais com os de João Antônio (acho que nem hoje eu seria capaz de pesquisar o endereço de um ídolo e aparecer de surpresa!). Ele falou: "Enquanto eu não estiver fazendo vocal e tal, não vou me sentir Inconsciente." "Bom, tu tá entrando agora..." "Mas em Passo Fundo, já fui." Em seguida ele comentou que, no início, achava o som do Inconsciente Coletivo meio imaturo, mas que se surpreendeu mesmo foi quando eles apresentaram "Sobre a Guerra" no Musipuc. Lembro que já estávamos no ônibus quando observei que, na gravação de "Voando Alto" que tocava na Continental, a voz do Alexandre mal alcançava a "caída" no final do verso "sem o som do relógio do lado". Ele fez uma cara séria e disse: "Isso tem como corrigir." Coincidência ou não, quando saiu o disco, a melodia estava alterada, com duas notas bem distintas salientando as sílabas "la-do". Calique sugeriu também que eu viesse assistir a um ensaio em véspera de show, quando o grupo estava mais afiado. Mas nunca mais falei com eles. Ou melhor: falei com Calique décadas depois, no estúdio em que ele trabalhava, mas ele não lembrou de mim. Para eles, foi algo corriqueiro, mais um entre tantos ensaios. Para mim, foi uma experiência marcante que está bem viva em minha memória.

Expansão do Trensurb

Leio no Clicrbs que o Trensurb inaugura hoje sua extensão até Novo Hamburgo. Quando tirei a foto acima, em julho de 2008, não podia imaginar que estava preservando uma imagem que iria mudar para sempre: o fim da linha em São Leopoldo. Quando terminava lá, é claro.

segunda-feira, maio 21, 2012

Dois momentos de Robin Gibb


Enquanto fãs de todo o mundo choram a perda de Robin Gibb, falecido ontem, aproveito para republicar dois momentos dele junto a admiradores brasileiros. Na foto acima, vemos o Bee Gee ao lado das gaúchas Lisete e Dani. O marido de Dani, Paulo Braz, morava em Londres em 2005 e se dispunha a fazer a longa viagem a Thame para levar amigos visitantes até a porta do castelo onde morava Robin. Em um desses passeios, ele conseguiu gravar em vídeo uma mensagem do cantor para a banda de cover Sunset Riders, de Porto Alegre. Cliquem à direita para ampliar e ler a matéria que escrevi para o International Magazine, na época. Alguém deveria disponibilizar esse trecho no YouTube.

domingo, maio 20, 2012

Robin Gibb


Morreu Robin Gibb. Era um fim esperado, considerando sua luta contra o câncer. Quando eu me tornei fã dos Bee Gees, ainda na infância, ele era o vocalista principal do grupo, cantando em sucessos como "Massachusetts" e "I Started a Joke". Seu vibrato marcante deixará saudades.

Agora, definitivamente, perdemos os Bee Gees. Ainda temos Barry, mas a banda não volta mais. E a pobre Barbara Gibb passa pelo sofrimento de perder um terceiro filho (depois do caçula Andy e de Maurice, gêmeo não-idêntico de Robin).

Eu já tinha postado, mesmo assim mostro de novo a chamada do segundo de dois shows de Robin que deveriam ter acontecido em Porto Alegre e foram cancelados:

Dica

Não lembro se já dei esta dica aqui no Blog: se em algum momento você estiver angustiado tentando achar alguma coisa e de repente encontrá-la, deixe-a onde está! Não cometa o erro de mudá-la "para um lugar melhor". Depois você lembra onde achou, mas não onde guardou. Comigo, pelo menos, sempre foi assim.

sábado, maio 19, 2012

Atualização de foto

Acabo de trocar as fotos de um tópico antigo, pois achei outras melhores para ilustração. Confiram aqui.

quinta-feira, maio 17, 2012

Donna Summer

Sou fã de Donna Summer desde "Love to Love You Baby", que a Rádio Continental de Porto Alegre tocava em 1975, com gemidos e tudo. Ela foi uma rara unanimidade no universo da disco music, conquistando até mesmo o respeito dos críticos mais xiitas. Pudera, cantava muito bem e sempre gravou ótimas canções, com produção esmerada. Donna faleceu hoje, de câncer. Deixo aqui uma de minhas músicas preferidas do repertório dela, ainda que o vídeo-tape que achei no YouTube não esteja em perfeitas condições de conservação: "Love's Unkind".

domingo, maio 13, 2012

Beira-Rio durante o jogo

Fotos do Beira-Rio durante o jogo em que o Inter se sagrou bicampeão gaúcho. Sim, eu fui caminhar com o Iuri bem na hora. Qual o problema? Meu filho é mais importante!
 

sábado, maio 12, 2012

Dia das Mães


Minha mãe tinha uma visão cor-de-rosa da vida. Não era ingênua, conhecia as maldades e as dificuldades do mundo, mas acreditava em final feliz. Pensava ser possível resolver os problemas com um sorriso ou uma frase de efeito. Vivia falando no tal do "jogo do contente" da Polyanna  e com isso se tornava, às vezes, um tanto conformada. Afinal, como ela sempre dizia, "mais tem Deus para dar do que o diabo para tirar".
Era uma pessoa sorridente, de bem com a vida e muito amorosa. Formada em Odontologia, ela levava esse carinho para a profissão. Orgulhava-se em contar dos pacientes que a elogiavam, dizendo que o bom humor dela fazia até perder o "medo de dentista". Mas, no dia-a-dia, não fazia questão que a chamassem de "doutora". Fora do consultório, ela era a Dona Irene com que todos simpatizavam.

Quando lia algum texto em voz alta, chegava a exagerar na ênfase, valorizando cada palavra. Gostava que lhe tirassem fios de cabelo branco, dizia que a sensação era agradável e terapêutica. Se estava levemente tensa ou preocupada com alguma coisa, assobiava uma sequência de notas que eu já sabia de cor, embora não identificasse a música. Um dia ela me disse qual era, mas eu não conhecia. Sabiamente, ela me avisou: "cuidado com a mãe, quando ela está assobiando!"  

Mesmo com seus compromissos profissionais, ela sempre fez questão de trabalhar no mesmo horário em que eu tinha aula, para poder estar em casa comigo e acompanhar meus estudos. Por um bom tempo ela participou das atividades do Clube de Mães do colégio Paula Soares, que ajudou a fundar e do qual foi a presidente. A presença dela era tão constante que uma de minhas colegas a chamava de "professora". Isso, infelizmente, não durou muito. Mesmo antes de ter um enfarte em 1977, ela começou a se acomodar e ficar mais caseira. No meu tempo de Pio XII ela já não comparecia às festas de Dia das Mães que a escola organizava.  

De 1970 a 1978, ela teve um companheiro inseparável: o cocker spaniel Rocky, que a acompanhava como uma sombra. Quando ouvíamos o barulho das patas de unhas compridas saindo do quarto, sabíamos que ela vinha junto. O cachorro a protegia incondicionalmente. Mesmo depois que ele se foi, por muito tempo eu ainda me aproximava com cuidado da cama dela, para não ser surpreendido por uma mordida no pé do seu "protetor" canino.

 Apesar do carinho imenso que tínhamos um pelo outro, o diálogo nem sempre fluía bem. Lembro de quando a visitei na UTI em 1977, na ocasião do citado enfarte que nos deu um susto. Como ela só podia receber uma visita de cada vez, ficamos eu e ela sozinhos e eu sem saber o que dizer. Felizmente, isso mudou. Nos últimos anos de vida dela eu já não me inibia de conversar com ela com naturalidade. Ficamos mais próximos em termos de comunicação. Ela nunca conseguiu me enxergar como um adulto, mas pelo menos já me entendia melhor. E assim eu me sentia mais à vontade para falar das minhas coisas.  

Quando ela faleceu em 1989, senti que havia uma cobrança de minha família para que eu chorasse. Todos estavam firmes, mas eu, por ser o filho mais moço, só podia estar me reprimindo, dentro daquela premissa machista de que "homem não chora". Depois todos conseguiram entender que eu sentia o mesmo que eles: alívio por ela ter partido sem sofrimento, já que sabíamos que ela tinha câncer, mas principalmente gratidão por ela ter ido com a missão mais do que cumprida. Ela nos deu muito amor e isso não morreu nunca. Está dentro de cada um de nós. É claro que, na hora do sepultamento, as lágrimas vieram. E eu sabia que, em algum momento, elas iriam voltar.  

Certa tarde eu estava em minha casa ouvindo o CD "A Arte de Caetano Veloso". De repente, veio aquela melodia que eu conhecia desde a infância: "Quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada... Irene ri, Irene ri, Irene ri..." E aí fui eu que chorei convulsivamente. 

Mas é bom saber que a Dona Irene deve estar dando o seu sorriso lá no Céu, junto do meu pai, a quem ela devotou um amor eterno e incondicional, e da mãe dela, a minha vó. Ah, sim, e do meu irmão, também, o Cau. E da Celina, que também continua cuidando deles e de todos nós.  

Mãe, um beijo e obrigado por tudo. Feliz Dia das Mães!

O passeio tradicional

Meus passeios com o Iuri são sempre pelos mesmos trajetos, mas de vez em quando gosto de fotografá-los.


De repente a câmera ficou sem memória e perdi de fotografar a passagem de um navio. Fica para a próxima. Na foto acima, observa-se que ainda havia muita água da chuva torrencial que caiu na madrugada.

Antes tarde do que nunca, a superlua

 
Eu tinha dito que nem valia a pena fotografar a superlua do dia 5, pois a luminosidade mais intensa não agregaria valor à imagem, mesmo assim fiz algumas tentativas com a minha Nikon. Sem tripé, mesmo, deixando a máquina escolher a regulagem ideal. Até que não ficaram tão ruins, mas a lua em si está de tamanho normal.
 
A foto abaixo é imagem capturada de um videozinho que fiz das nuvens passando.

sexta-feira, maio 11, 2012

Há 35 anos, Genesis em Porto Alegre

 
 Ontem e hoje faz 35 anos que o Genesis se apresentou em Porto Alegre, em 1977, abrindo a turnê brasileira. Eu fui na primeira noite. Ainda não conhecia muito do trabalho do grupo. Talvez só o álbum Selling England By The Pound. Eu e um colega ficamos atrás do palco, na arquibancada do Gigantinho, mas felizmente a disposição dos equipamentos não bloqueava nossa visão. Conseguimos enxergar Phil Collins, Steve Hackett, Mike Rutheford, Tony Banks e o baterista convidado Chester Thompson, mesmo de costas.
 
O show começou bem na hora marcada, às 21 horas. Meu amigo comentou que eles eram ingleses, daí a pontualidade britânica, depois Osvil Lopes fez a mesma observação na Folha da Tarde. O aguardado visual do raio laser marcou presença logo na segunda música, que hoje sei ter sido "One for The Vine". Quando Steve Hackett anunciou "Firth of Fifth" eu comentei com meu colega: "Essa eu conheço, começa com um pianinho." Para meu constrangimento, eles pularam a introdução e iniciaram direto no acorde que antecede o vocal. Meu amigo só riu: "Começa com um pianinho, é?" Depois fiz questão de mostrar pra ele a gravação de estúdio.

A mais esperada era "I Know What I Like", que foi muito bem recebida. Também se ouviram outros clássicos como "The Carpet Crawler", "Supper's Ready" e o final de "The Musical Box". Phil anunciou "uma música nôva para vocês" (ele falou quase tudo em português, lendo em uma folha) e cantou "Inside and Out", que sairia no compacto duplo Spot the Pigeon. Na hora do bis, a banda ressurgiu vestindo camisetas do Internacional, mas teve que aguentar a vaia dos gremistas presentes.

Não assisti ao show do dia seguinte, mas ouvi as mais diversas versões sobre o que aconteceu. Com certeza a duração foi mais curta porque Mike Rutherford sentiu-se mal, mas quanto tempo exatamente? Alguns diziam que teria sido só meia-hora, outros falavam em uma hora. Pois hoje, 35 anos depois, o blog argentino Polichelas desvenda o mistério (não deixem de visitá-lo para conferir as fotos). Um contingente significativo de fãs veio a Porto Alegre de Buenos Aires especialmente para ver o Genesis, entre eles jornalistas da revista Roll e o músico Charly Garcia. Um dos portenhos gravou o show com microfone mesmo e o preservou por todos esses anos. Graças a esse registro, hoje podemos saber que, quem foi na segunda noite, teve uma hora e 15 minutos de show, aproximadamente. Cerca de uma hora a menos do que deveria (e não apenas 12 minutos como noticiou a Folha da Tarde), mas pelo menos já foi uma apresentação razoável. O verdadeiro motivo do mal súbito do baixista foi revelado no livro "Lembra do Transasom", de Pedro Sirotsky e Marcelo Ferla, lançado em 2007: à tarde o grupo tinha viajado a Gramado com Pedrinho e alguém teve a brilhante ideia de misturar vodka no chocolate quente. Deu no que deu. 

Para baixar a gravação da segunda noite (mais curta) do Genesis em Porto Alegre, cliquem aqui. Observem que Phil chega a anunciar com detalhes a apresentação de "Supper's Ready", depois um locutor avisa que Mike Rutherford está sendo atendido pelo médico e por fim eles tocam "Los Endos". Ainda que tenha sido captada das cadeiras na plateia, a fita tem um valor documental inestimável. Até mesmo a voz dos vendedores de "Coca gelada", etc., dá um toque de autenticidade, como "estar lá".

quinta-feira, maio 10, 2012

Narradora

Ontem comecei a ouvir o audiobook "His Way, the Unauthorized Biography of Frank Sinatra", de Kitty Kelley. Mas, de cara, achei péssima a voz da narradora: lenta, abafada e com péssima dicção. Pensei comigo mesmo: como essa mulher foi escolhida para a tarefa? Em alguns trechos eu tinha que voltar um pouco a gravação (felizmente já aprendi como se faz isso no Ipod) para entender o que ela dizia. O livro parecia interessante, mas achei que iria ter dificuldade na escuta. Quando terminou a introdução e começou o primeiro capítulo, entrou outra voz feminina, esta bem clara, dinâmica e com ótima pronúncia. Ufa! Que alívio! Só então entendi que a própria autora havia feito a leitura inicial para depois entrar a locutora profissional Anna Fields.

A propósito de audiobooks, uma comunidade do Orkut afirma que eles se destinam a deficientes visuais e "leitores preguiçosos". Achei uma visão um tanto limitada. Como já comentei aqui, eles são ótimos para se ouvirem em caminhadas, exercícios, filas de espera e deslocamentos em geral. É uma forma de aproveitar bem o tempo. Também sei de gente que ouve audiobooks no carro, em viagens. Portanto, não acho justo chamar os ouvintes de audiobooks de "preguiçosos". Alguns talvez sejam, mas não todos.

quarta-feira, maio 09, 2012

Inconsciente Coletivo - o grupo

Prometi que escreveria um longo texto sobre o Inconsciente Coletivo, o grupo de Alexandre Vieira, falecido no dia 4. Mas concluí que tenho tantas lembranças para compartilhar sobre essa banda gaúcha que eu idolatrava com entusiasmo na adolescência que resolvi dividir meu relato em três partes. Assim facilita para mim e para vocês. Vou começar contando a história deles de forma geral, tanto quanto eu a tenha acompanhado e consiga lembrar. Mais adiante publicarei minhas memórias sobre o ensaio deles a que tive o privilégio de assistir em 1976. Por fim, em um terceiro e último testemunho, descreverei o maravilhoso show "Sul, Primeiros Passos", que eles apresentaram em 1977 no auditório da Assembleia Legislativa.

Alexandre e João Antônio Araújo eram vizinhos na rua 16 de julho. Ângela Lângaro era namorada de Alexandre. Os três costumavam cantar informalmente em festinhas e foram descobrindo seu talento para a música. Já no tempo de faculdade, em 1975, decidiram inscrever-se no festival Musipuc, organizado pela PUC de Porto Alegre. Na hora de informar os dados, faltava um nome para o grupo. João Antônio cursava Educação Física, mas Alexandre e Ângela eram colegas na Psicologia. Das matérias que ambos estudavam, surgiu a ideia de batizar o trio de Inconsciente Coletivo. A música "Lar, Doce Lar", de Alexandre, tirou o 4º lugar. Mas talvez mais importante do que a colocação foi o convite de um dos jurados, o radialista Júlio Fürst, para que os músicos tivessem o seu trabalho divulgado no programa "Mr. Lee em Concerto", na Rádio Continental. Aliás, esse Musipuc foi decisivo e trouxe para a emissora outros nomes importantes da época, como Status 4 (que venceu o festival), Fernando Ribeiro e Gilberto Travi.
O Inconsciente Coletivo começou a ter suas músicas rodadas na Continental (em gravações ao vivo ou feitas no próprio estúdio B da emissora) e também a participar da série de concertos coletivos "Vivendo a Vida de Lee", ao lado de Almôndegas, Hermes Aquino e outros destaques do chamado movimento musical gaúcho. A fórmula simples de vozes, violas e harmônica, com influência folk, logo conquistou uma pequena legião de fãs. Alexandre era o principal compositor e fazia o vocal solo. Ângela e João Antônio completavam as harmonias nos refrões ou em detalhes ao longo das estrofes. Às vezes o trio experimentava variações. Por exemplo, em "Caminhante", só as duas vozes masculinas cantavam nas estrofes, com o timbre grave do futuro locutor João Antônio dando um toque mais sombrio. Já "Herói Suburbano" começava com a rara combinação das vozes de João Antônio e Ângela somente, para que Alexandre pudesse tocar sua harmônica. Mas as gravações mais ouvidas eram "Terras Estranhas", "Voando Alto" e "Fadas Douradas", que logo se tornaram clássicas do repertório do grupo.

Em 1976, o produtor da Tapecar, Luiz Mocarzel, esteve em Porto Alegre com o objetivo de garimpar novos talentos para a gravadora. Como já havia feito no ano anterior com Hermes Aquino, desta vez ele se interessou por duas das melhores bandas gaúchas ainda sem contrato: Hallai Hallai (que acabaria não lançando disco) e Inconsciente Coletivo. Outro fato marcante para o Inconsciente foi a entrada de um quarto integrante, Calique, para o baixo. Ele vinha do Mercado Livre e no futuro se destacaria como compositor de jingles e regente e integrante esporádico do ótimo conjunto vocal Canto Livre. Foi como um quarteto que o Inconsciente Coletivo viajou a São Paulo e gravou seu hoje histórico compacto simples no estúdio Templo do Som. A escolha das faixas recaiu sobre as duas composições mais conhecidas dos fãs: "Voando Alto" (lembrada pelo refrão "abra a janela e respire o novo ar da manhããããããã...") e "Fadas Douradas".

O compacto autografado para mim 

O disco chegou às lojas em novembro do mesmo ano, mas a rádio Continental teve acesso às gravações antes e as divulgou em primeira mão. Apesar da produção esmerada, o som acústico e natural do grupo acabou ficando descaracterizado. O acréscimo de bateria foi bem-vindo, mas a ideia do produtor de acelerar o andamento das músicas e adicionar Arp String trouxe resultados duvidosos. Uma novidade foi Ângela fazendo solo em "Fadas Douradas", que ganhou um arranjo levemente inspirado em música japonesa. Na versão da Continental, somava-se à voz dela o falsete de Alexandre. Enfim, ninguém conseguiu esconder sua decepção. Embora de forma alguma o disco pudesse ser considerado "ruim" - tanto que vendeu bem, talvez pela cumplicidade dos fãs - ele não captou a essência do Inconsciente Coletivo. Ah, sim: os créditos de autoria no rótulo oficializavam os novos nomes artísticos Xandy, Tonho e Anginha (embora Júlio "Mr. Lee" Fürst sempre tivesse se referido a eles como Alexandre, João Antônio e Ângela).

Pouco depois do lançamento, o Inconsciente Coletivo gravou dois vídeos dublados para o programa de Fernando Vieira no Portovisão da TV Difusora canal 10. Estranhei que, no final de "Fadas Douradas", Calique dava um sorriso meio debochado. Isso me fez desconfiar que talvez ele não tivesse realmente tocado no disco. Pois Ângela acabou confirmando esse fato na entrevista que concedeu para o livro "Continental, a Rádio Rebelde de Roberto Marinho", de Lucio Haeser. Também um trecho de "Voando Alto", a partir do solo de harmônica, foi usado por algum tempo como abertura do Jornal do Almoço na TV Gaúcha (hoje RBS TV, onde o programa ainda existe).

Em 1977, não havia mais o programa de Mr. Lee. Os artistas que participavam dos shows coletivos tentaram alçar voos mais altos em apresentações individuais. Foi o caso do Inconsciente Coletivo, com seu ótimo "Sul, Primeiros Passos", que breve recordarei com todos os detalhes em um texto à parte. Ali houve o acréscimo de um quinto integrante: o lendário baterista Fernando Pezão, hoje nos Papas da Língua. Também o som do Inconsciente Coletivo se desprendia de sua fórmula original e buscava outros caminhos. No blues "Canteiros de Tramandaí", João Antônio plugava sua guitarra. "Camarada" tinha influência de Jethro Tull, com flauta e tudo. Foram as duas últimas músicas do grupo que ouvi tocarem na rádio Continental. Quando o ano terminou, o Inconsciente Coletivo não existia mais. Na entrevista referida, Ângela cita o fim de seu namoro com Alexandre como uma das causas para a separação da banda.

Ângela largou a música para se dedicar à Psicologia. Alexandre e João Antônio voltariam a tocar juntos por longos anos na Banda dos Corações Solitários do pub Sgt. Pepper's. Paralelamente a isso, João Antônio se lançou como locutor, Discocueca, publicitário e humorista. Um fato hoje pouco lembrado é que Alexandre tentou trazer de volta o Inconsciente Coletivo com outra formação em 1980. Teve curta duração. Ele também participou do show Gaúcho Blues em 1981. Na noite em que eu estava na plateia, ele sem querer rebentou uma corda da viola. Um dos integrantes brincou: "Na viola de cinco, Xandy!" Tempos depois eu o vi romper outra corda em um bar da noite em que tocava. Fui falar com ele rapidamente (ele não se lembrou de mim do ensaio de 1976, nem eu me identifiquei) e perguntei se isso acontecia com frequência, pois eu tinha visto ocorrer o mesmo no Gaúcho Blues. Ele riu.

Confesso que não acompanhei o trabalho de Alexandre a partir do Sgt. Pepper's. Lamento muito não ter assistido ao Anexo 44, pois ele ao lado de Zé Flávio deve ter sido algo muito especial. Como eu disse em meu texto anterior, para mim ele será sempre o Alexandre do Inconsciente Coletivo. Hoje, além das faixas do compacto, duas gravações do tempo da Continental podem ser encontradas no CD que acompanha o já citado livro de Lucio Haeser. São elas "Terras Estranhas" e "Novo Lugar". Ali, sim, encontra-se o som acústico do Inconsciente Coletivo tal como conquistou os fãs na época, sem pasteurizações.

Aguardem a segunda e a terceira parte de minhas lembranças sobre o grupo.

Leia também: 
Inconsciente Coletivo - o ensaio
Inconsciente Coletivo - o show 

Tirinhas legais


Achei essas tirinhas do "Doktor Fred" em exemplares da Folha da Tarde de maio de 1977. Quem desenhava? Gostei!

domingo, maio 06, 2012

Dica

Quem lê este Blog já está acostumado que, de vez em quando, eu dou alguma dica de inglês, embora não seja o principal objetivo da página. Então, aproveitando que falei em Sgt. Pepper's, vocês sabem como se escreve "Sgt." por extenso? Esse talvez seja o erro mais cometido pelos fãs brasileiros dos Beatles. Eu próprio errei por muitos anos sem me dar conta. A grafia correta é SERGEANT. Sim, isto mesmo: S-E-R-G-E-A-N-T. Os "São Tomés" de plantão podem conferir no dicionário.

sábado, maio 05, 2012

Sem fotos da superlua

Nem adianta fotografar a superlua, porque só a olho nu se percebe o fenômeno. É como se tivessem trocado a lâmpada da lua por uma mais forte, de 200 watts. A luminosidade mais intensa, por si só, não fará muita diferença numa fotografia. Consegue-se o mesmo efeito numa noite comum com superexposição. Mas é bonito de se ver. Não percam.

P.S: Mudei de ideia e resolvi postar as tentativas que fiz, mesmo que os resultados obtidos não sejam de nível profissional. Vejam aqui.

Profissão louvável

Acabo de acrescentar mais um item à minha lista de profissões que admiro: narrador de audiobook. Quem imaginaria que alguém se disporia a ler em voz alta as mais de mil páginas da Bíblia? Ou de "Ascensão e Queda do III Reich", de William L. Shirer? Claro que estão sendo pagos por isso, mesmo assim é uma senhora empreitada! Tudo para que a gente possa desfrutar dos livros enquanto se exercita ou se desloca na rua entre um compromisso e outro. Sem falar, é claro, no benefício inestimável para os deficientes visuais. Avante, narradores de ofício!

sexta-feira, maio 04, 2012

Alexandre Vieira

Para as gerações posteriores à minha, ele era o Xandy do Sgt. Pepper's (pub de Porto Alegre). Para mim ele vai ser sempre o Alexandre do Inconsciente Coletivo. Os outros dois integrantes eram Ângela Langaro (na foto, ao fundo, em 1975) e João Antônio Araújo (que depois se lançaria como locutor e um dos Discocuecas originais). Para vocês terem uma ideia do quanto eu era fã desse grupo gaúcho, entre 15 e 17 anos eu os considerava meus artistas brasileiros preferidos, acima de qualquer outro. Gostava mais deles do que dos Almôndegas ou do Hallai-Hallai. Ou até do que de Secos e Molhados, Mutantes... Eu era mesmo fã de carteirinha. Então imaginem minha emoção o dia em que assisti a um ensaio deles na casa do Alexandre, em 1976. Ainda lembro de muita coisa que vi e ouvi naquela tarde de domingo e prometo fazer um relato detalhado, incluindo trechos de diálogos que ainda estão bem vivos em minha memória. 

Alexandre Vieira faleceu hoje. A penúltima notícia que tive dele era de que estava tocando na banda Anexo 44, ao lado de Zé Flávio (ex-Almôndegas), Jorge Dorfman, Gabriel Mohr e Tito Garbinato. Talvez já na semana que vem eu publique aqui um longo texto sobre o Inconsciente Coletivo, incluindo minhas recordações do ensaio. Foi um dos momentos mais marcantes para mim como apreciador de música.

P.S.: Lucio Haeser, autor do livro "Continental, a Rádio Rebelde de Roberto Marinho", disponibilizou no Soundcloud o lado A do compacto "Voando Alto", do Inconsciente Coletivo, que chegou às lojas de Porto Alegre entre novembro e dezembro de 1976. Alexandre faz o vocal solo. Se não estiver enxergando o player abaixo, acesse pelo Firefox: Em tempo: considerando os comentários que fiz acima sobre o quanto eu era fã do grupo, já adianto que esse disquinho não captou a essência do Inconsciente Coletivo. A música ficou bonitinha, mas o trabalho deles era maior e melhor do que o que está registrado nessa gravação. Confiram, por exemplo, as duas faixas que estão no CD que acompanha o livro do Lucio, citado acima.

Leia também:  
Inconsciente Coletivo - o grupo
Inconsciente Coletivo - o ensaio
Inconsciente Coletivo - o show  

quarta-feira, maio 02, 2012

Pink Floyd em português

Nunca esqueço de um lance que aconteceu em uma Feira do Livro de Porto Alegre no começo dos anos 80. Em uma das bancas havia um livro chamado "25 Years of Rock". Aí um sujeito jovem com cabelo comprido e visual de roqueiro - nos anos 70 ele seria chamado de "magrinho" pelos portoalegrenses - perguntou ao vendedor se ele não tinha biografias de bandas específicas. E comentou que tinha visto uma do Pink Floyd em outra banca. Eu me interessei pelo assunto e quis saber se o livro em questão tinha bastante texto. Ele ficou indignado com a minha pergunta. Ainda lembro do tom de voz dele, cheio de razão: "Tem mais é foto, né, porque o texto tá em inglês, como é que tu vai ler..."

Pois bem: para a alegria de fãs como aquele rapaz (que já deve estar hoje com mais de 50 anos, como eu), já existem livros sobre o Pink Floyd "que a gente pode ler". Duas ótimas obras sobre a banda inglesa foram traduzidas para o português. "Nos bastidores do Pink Floyd" é considerada uma das melhores biografias recentes do grupo. Já "Inside Out, a verdadeira história do Pink Floyd" tem o atrativo de ter sido escrita pelo baterista Nick Mason, o único integrante a participar de todas as formações. Ainda não vi a edição nacional, mas se for igual à original, as fotos são ótimas, também. Está dada a dica.