sábado, maio 12, 2012

Dia das Mães


Minha mãe tinha uma visão cor-de-rosa da vida. Não era ingênua, conhecia as maldades e as dificuldades do mundo, mas acreditava em final feliz. Pensava ser possível resolver os problemas com um sorriso ou uma frase de efeito. Vivia falando no tal do "jogo do contente" da Polyanna  e com isso se tornava, às vezes, um tanto conformada. Afinal, como ela sempre dizia, "mais tem Deus para dar do que o diabo para tirar".
Era uma pessoa sorridente, de bem com a vida e muito amorosa. Formada em Odontologia, ela levava esse carinho para a profissão. Orgulhava-se em contar dos pacientes que a elogiavam, dizendo que o bom humor dela fazia até perder o "medo de dentista". Mas, no dia-a-dia, não fazia questão que a chamassem de "doutora". Fora do consultório, ela era a Dona Irene com que todos simpatizavam.

Quando lia algum texto em voz alta, chegava a exagerar na ênfase, valorizando cada palavra. Gostava que lhe tirassem fios de cabelo branco, dizia que a sensação era agradável e terapêutica. Se estava levemente tensa ou preocupada com alguma coisa, assobiava uma sequência de notas que eu já sabia de cor, embora não identificasse a música. Um dia ela me disse qual era, mas eu não conhecia. Sabiamente, ela me avisou: "cuidado com a mãe, quando ela está assobiando!"  

Mesmo com seus compromissos profissionais, ela sempre fez questão de trabalhar no mesmo horário em que eu tinha aula, para poder estar em casa comigo e acompanhar meus estudos. Por um bom tempo ela participou das atividades do Clube de Mães do colégio Paula Soares, que ajudou a fundar e do qual foi a presidente. A presença dela era tão constante que uma de minhas colegas a chamava de "professora". Isso, infelizmente, não durou muito. Mesmo antes de ter um enfarte em 1977, ela começou a se acomodar e ficar mais caseira. No meu tempo de Pio XII ela já não comparecia às festas de Dia das Mães que a escola organizava.  

De 1970 a 1978, ela teve um companheiro inseparável: o cocker spaniel Rocky, que a acompanhava como uma sombra. Quando ouvíamos o barulho das patas de unhas compridas saindo do quarto, sabíamos que ela vinha junto. O cachorro a protegia incondicionalmente. Mesmo depois que ele se foi, por muito tempo eu ainda me aproximava com cuidado da cama dela, para não ser surpreendido por uma mordida no pé do seu "protetor" canino.

 Apesar do carinho imenso que tínhamos um pelo outro, o diálogo nem sempre fluía bem. Lembro de quando a visitei na UTI em 1977, na ocasião do citado enfarte que nos deu um susto. Como ela só podia receber uma visita de cada vez, ficamos eu e ela sozinhos e eu sem saber o que dizer. Felizmente, isso mudou. Nos últimos anos de vida dela eu já não me inibia de conversar com ela com naturalidade. Ficamos mais próximos em termos de comunicação. Ela nunca conseguiu me enxergar como um adulto, mas pelo menos já me entendia melhor. E assim eu me sentia mais à vontade para falar das minhas coisas.  

Quando ela faleceu em 1989, senti que havia uma cobrança de minha família para que eu chorasse. Todos estavam firmes, mas eu, por ser o filho mais moço, só podia estar me reprimindo, dentro daquela premissa machista de que "homem não chora". Depois todos conseguiram entender que eu sentia o mesmo que eles: alívio por ela ter partido sem sofrimento, já que sabíamos que ela tinha câncer, mas principalmente gratidão por ela ter ido com a missão mais do que cumprida. Ela nos deu muito amor e isso não morreu nunca. Está dentro de cada um de nós. É claro que, na hora do sepultamento, as lágrimas vieram. E eu sabia que, em algum momento, elas iriam voltar.  

Certa tarde eu estava em minha casa ouvindo o CD "A Arte de Caetano Veloso". De repente, veio aquela melodia que eu conhecia desde a infância: "Quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada... Irene ri, Irene ri, Irene ri..." E aí fui eu que chorei convulsivamente. 

Mas é bom saber que a Dona Irene deve estar dando o seu sorriso lá no Céu, junto do meu pai, a quem ela devotou um amor eterno e incondicional, e da mãe dela, a minha vó. Ah, sim, e do meu irmão, também, o Cau. E da Celina, que também continua cuidando deles e de todos nós.  

Mãe, um beijo e obrigado por tudo. Feliz Dia das Mães!

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Caro amigo, Uma bela homenagem a tua querida e lembrada mae. Muito obrigado por ter compartilhado este grande relacionamento conosco. Ainda me lembro da D. Irene muito, muito bem.
Recebe um forte abraco do amigo de sempre, Jeff

5:13 PM  

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