sexta-feira, novembro 28, 2014

Torcendo por Pelé

Não faz muito tempo que passei a observar com mais frequência os comentários que se postam em sites de notícias. E fico impressionado com a gana, a fúria, a agressividade dos leitores. Quase não se vê ponderação. São poucas as observações racionais e fundamentadas. É como uma multidão virtual ensandecida partindo para o ataque. O que está havendo? Por que tanto estresse, tantas palavras grosseiras? Qualquer informação parece desencadear essa reação desmedida.

Nestas horas, fico feliz com o nível do feedback que recebo aqui no Blog. São poucas postagens, mas quase todas em tom polido e cortês. Claro, já houve algumas “pérolas”. Às vezes penso em selecionar as mais incríveis e republicá-las, principalmente considerando que muitas desapareceram com a desativação do Haloscan. Tenho todas salvas e posso resgatá-las. Mas essas são as exceções. Esta página atualmente recebe menos de 100 acessos por dia. Mas o lado bom disso é que os diálogos, quando acontecem, ficam dentro de um padrão de civilidade. Menos quantidade, porém mais qualidade.

Enfim, o que eu queria comentar mesmo é o ódio que está sendo destilado nos sites que reportam o estado de saúde de Pelé. O jogador foi hospitalizado em razão de uma infecção urinária e o que mais vejo é gente torcendo pelo pior. Desejando o mal para um dos maiores ídolos da história do país. Será mesmo que isso se justifica?

O argumento de todos é o fato de Pelé não ter reconhecido sua filha ilegítima Sandra Regina Machado, já falecida. Isso está servindo de pretexto para crucificar o craque de uma forma desnecessariamente cruel. Como se uma atitude questionável apagasse toda uma vida de glórias e realizações.

Concordo que ele agiu mal. Inclusive para a imagem dele. Mas não acho que essa nódoa em sua trajetória seja motivo para transformá-lo em vilão. Perfeito, ninguém é. Às vezes me parece que algumas pessoas – não todas, felizmente – não se conformam que Pelé seja um negro bem sucedido, que não chegou a sofrer discriminação. Que não assume a postura de vítima de preconceito e não usa de falsa modéstia ao falar de seu talento como jogador. Aliás, referindo-se a si mesmo na terceira pessoa – “O Pelé isso”, “O Pelé aquilo” – ele acabou criando um padrão de discurso hoje imitado por todos os atletas de destaque no Brasil.

Já ouvi até observações em tom de crítica pelo fato de Pelé namorar mulheres brancas. Ora, qual o problema? O inglês David Bowie é loiro e gosta de negras! Alguns homens sentem atração pelas magras, eu prefiro as mais cheinhas. A cor da pele até pode condicionar a predileção pela mesma raça, pela convivência, mas não é determinante. Tenho visto cada vez mais casais birraciais e acho que já podemos pelo menos sonhar com um mundo sem racismo. Um dia, quem sabe.

Pelé perdeu pontos com o povo brasileiro em 1975, quando aceitou ser contratado pelo Cosmos, depois de recusar inúmeros apelos para que voltasse à Seleção Brasileira. Para mim, esse episódio já foi mais do que esclarecido. Li duas autobiografias dele e percebi claramente o revés que ele teve que enfrentar. Como garantidor de uma dívida astronômica que estava sendo executada, não lhe restou alternativa senão voltar ao futebol. Era a carta que lhe sobrava na manga. Resultado: virou ídolo nos Estados Unidos e foi amplamente homenageado em sua segunda despedida. Como bem observou minha irmã na época, “sabendo o quanto o americano é racista e preconceituoso com estrangeiros, é emocionante ver toda essa festa para um negro brasileiro”.

De minha parte, torço pela recuperação do nosso Rei do Futebol. Um dia todos iremos, mas que não seja a hora dele ainda. E quando esse momento chegar, espero que o nosso povo esteja preparado para lhe render as homenagens que ele faz por merecer. 

Para ler mais sobre Pelé neste Blog, clique aqui.

quarta-feira, novembro 26, 2014

Série "Batman" em Blu-ray

Depois de um aparentemente interminável impasse entre a Fox (que produziu os episódios) e a Warner (que detém os direitos sobre o personagem), finalmente a antológica série “Batman” de 1966/67 é lançada em vídeo. No Brasil ela deverá sair em DVD, mas eu fiz questão do Blu-ray, então investi na cara edição importada. É meu presente antecipado de aniversário e Natal de mim para mim mesmo. Chegou hoje. (Se já viram essa produção para venda em DVD em alguma loja ou site brasileiro anteriormente, era uma edição não autorizada de péssima qualidade.)
Apertando-se no botão acima, mesmo antes de abrir a embalagem, ouve-se o trecho final do "Batman Theme", de Neal Hefti, que é o tema de abertura. É o marketing dos brinquedos musicais e bonecas falantes chegando ao Blu-ray! Na loja mesmo o comprador em potencial já pode "brincar" um pouco.
A edição especial inclui vários extras, como Batmóvel em miniatura (formato "matchbox"), cartões, guia de episódios e um livrinho de fotos. São treze discos: doze com os episódios e um com documentários. Oficialmente, as três temporadas totalizaram 120 episódios, mas na primeira e na segunda, cada dois episódios completavam uma aventura. A trama era interrompida numa situação de perigo para Batman e/ou Robin. Os criminosos nunca os matavam ou tentavam lhes tirar as máscaras (quer dizer, uma única vez o Coringa ameaçou desmascarar Batman): os inimigos da lei sempre bolavam uma morte criativa, depois saíam de perto para que eles pudessem escapar. E só ficávamos sabendo como isso seria feito na continuação, "na mesma Bat-hora, no mesmo Bat-canal"!
Ainda lembro da estreia da série em Porto Alegre. Tenho uma vaga lembrança de ter sido em 1966, o mesmo ano do lançamento nos Estados Unidos. Eu tinha cinco anos. Já lia com fluência, mas somente gibis infantis. Conhecia o Batman apenas de nome, das revistas de meus irmãos. O primeiro episódio a ser exibido foi o clássico da Mulher Gato em que Batman fica à mercê de um tigre. Fiquei bem confuso com o fato de uma mulher tão bonita ser a vilã da história. Ela morre no final. Aparentemente, nunca ninguém tentou explicar como ela veio a falecer ao final de dois episódios diferentes. Inevitável lembrar o mito de que o gato tem sete vidas. Ou nove, nos países de língua inglesa. Os gatos brasileiros ficam em desvantagem. (Observem o bigode do dublê na imagem acima - cliquem para ampliar!)
Aconteceu comigo um fenômeno que ocorreu com praticamente todos os telespectadores que descobriram a série na infância: num primeiro momento, eu não captava o humor. Levava a sério os personagens e as histórias. Como já comentei em outra ocasião, meu lado criança lamenta que a figura austera e imponente do Homem Morcego fosse na realidade um palhaço com máscara em vez de pintura. Diante da constatação, na vida adulta, passei a apreciar as histórias sob outra óptica. Comecei a me divertir com as trapalhadas. Batman sacando o “Bat-mata-moscas” para eliminar as moscas venenosas do Pinguim. Batman dançando o “Batusi”. Batman cantando. Batman entrando na igreja para se casar com Marsha, a Rainha dos Diamantes, sem precisar tirar a máscara ou revelar sua verdadeira identidade.
Assistindo-se ao primeiro episódio (que, diferente do que foi mostrado em Porto Alegre, é na verdade o do Charada), percebem-se algumas características que logo seriam descartadas. Junto ao Comissário Gordon, no começo, aparecem mais seis policiais além do Chefe O’Hara. O humor está presente, mas de forma bem mais sutil do que seria usado no futuro. Na cena final, Bruce Wayne e Dick Grayson travam um diálogo sério, revelando nuances de personalidade que em nada combinam com a imagem caricata que viriam a assumir.
Na história seguinte, apenas quatro policiais com o Comissário Gordon. E o mesmo recurso de perguntarem entre si se alguém é capaz de solucionar o caso antes de olharem para o Batfone e decidirem chamar a Dupla Dinâmica. Depois disso, o Chefe O'Hara passou a ser o único auxiliar sempre presente ao lado do Comissário.
Pelo que sei, o DVD que será lançado no Brasil inclui, além da trilha original, também a dublagem. Mas só me interessaria se fosse a primeiríssima, da Odil Fono Brasil. Isso, sim, me resgataria lembranças de infância. O narrador falando: “Atriz especialmente convidada, Julie Newmar, no papel da Mulher Gato”. Esse trecho em itálico foi suprimido nas versões posteriores. A Mulher Gato dizendo a Batman: “A bela... ou a fera!” A segunda dublagem traduziu literalmente “A mulher...ou o tigre”. O Batfone era às vezes chamado de "telefone vermelho" (a forma achada para traduzir "hot line", quando a expressão era usada). Esse áudio anterior, infelizmente, deve estar perdido. Com a introdução da TV a cores no Brasil em 1972, os episódios passaram a iniciar com o anúncio: “A Twentieth Century Fox apresenta Batman... a cores”, sobre o slide acima. E outras mudanças na primeira temporada.  
A imagem do Blu-ray preserva a proporção original 4:3, de forma que há espaços ociosos nas laterais. Mas é preferível assim do que cortar uma parte de cima e/ou de baixo para adaptar ao formato widescreen, como criminosamente está sendo feito em alguns relançamentos de shows. E já que o objetivo é recriar com maior fidelidade possível a experiência de ver TV nos velhos tempos, o sistema de áudio 5.1 tem som apenas no canal do centro! Em outras palavras, você vai ter que levantar bastante o volume para escutar os episódios, como se estivesse ouvindo o pequeno alto-falante de um televisor vintage. As fotos acima foram tiradas diretamente da tela de TV, já que não disponho de unidade de Blu-ray em meu computador para captura de imagens. Agora é aguardar o lançamento no Brasil (somente em DVD, o que é uma pena).

terça-feira, novembro 18, 2014

Kleiton em e-book

Kleiton Ramil já publicou dois livros sobre sonhos. Mas para sonhar é preciso pegar no sono, certo? Então desta vez o músico decidiu escrever sobre como combater a insônia, por sinal tema de uma das músicas do primeiro LP da dupla Kleiton e Kledir em 1980. A inspiração não foi casual: Kleiton conta no livro que tem problemas para dormir e justamente por isso aprofundou-se no assunto. A obra ganhou o original nome de "I N S Ô N I Adeus" e tem fotos de Cristina Carriconde e Luciana Duque (esposa de Kleiton) em que a filha Kamila Ramil posa para demonstrar como a ioga pode ajudar no tratamento. Ainda não li tudo, apenas passei os olhos, mas espero que a elasticidade que a moça exibe não seja condição sine qua non para uma aplicação eficaz dos métodos sugeridos. O livro está disponível somente em versão e-book na Amazon (tanto brasileira quanto americana) no formato Kindle.

segunda-feira, novembro 17, 2014

Roberto Carlos em Detalhes - Realeza exposta

Publicado originalmente no International Magazine em 2007. Este foi o texto citado pelo autor Paulo César de Araújo em seu novo livro "O Réu e o Rei". 

Depois de anos anunciando e adiando uma biografia que seria escrita por Okky de Souza, Roberto Carlos foi surpreendido por um livro não autorizado. E não uma obra qualquer: "Roberto Carlos em Detalhes" é um trabalho de fôlego, com quase 500 páginas, assinado por Paulo César de Araújo. Que o historiador baiano é um pesquisador sério e meticuloso não é novidade para quem leu o excelente "Eu Não Sou Cachorro Não", sobre música brega. O que surpreende é decisão de biografar justamente o maior cantor brasileiro, que sempre exerceu um severo controle sobre sua imagem. Roberto Carlos jamais aceitou sequer a publicação de reportagens sobre sua vida particular, que dirá um livro inteiro. A hipótese de o autor eventualmente desconhecer esse fato cai por terra diante do próprio conteúdo da biografia: ela cita a condenação sofrida pelo jornalista Ruy Castro em razão de matéria publicada na revista Status. Na coletiva para divulgação do CD+DVD "Duetos", Roberto repudiou o livro, dizendo que considera a história de sua vida "um patrimônio".

Não fosse Roberto Carlos o protagonista, a obra mereceria apenas elogios, sem causar tanta polêmica. Não há nada de desrespeitoso ou sensacionalista em suas páginas. O pecado do autor foi apenas o de biografar o rei sem pertencer à corte. E, nessa condição de plebeu, abordar assuntos reservados, como os eventos da infância do cantor que inspiraram "O Divã". Com isso, os fãs mais fiéis enfrentam um dilema. Se comprarem o livro, estarão prestigiando um lançamento que seu ídolo desaprova. Por outro lado, se o boicotarem em solidariedade ao rei, deixarão de ler um texto brilhante, cobrindo todos os aspectos da vida e obra do artista. Até agora, aparentemente, a maioria preferiu a primeira opção.

Mesmo avançando em terreno perigoso, não resta dúvida do respeito de Paulo César de Araújo para com o biografado. Por exemplo, são citados vários personagens que em algum momento privaram da intimidade do cantor, menos um: o mordomo Nichollas Mariano. O ex-empregado entrou para a lista negra de Roberto Carlos ao trair sua confiança duas vezes: a primeira ao usar uma antiga procuração para sacar dinheiro de sua conta e a segunda ao publicar um livro de memórias indiscretas em 1979. Ao omitir o nome da persona non grata, bem como os fatos que a envolveram (exceto o encontro de Roberto Carlos com Maysa, em que é mencionado apenas "o mordomo"), o escritor demonstra que está procurando ser ético. De resto, as supostas "revelações" que repercutiram de forma bombástica em outros veículos da imprensa já eram conhecidas dos fãs. Aqui mesmo, no IM, Erasmo Carlos contou de seu desentendimento com Roberto nos anos 60 em entrevista para Marcelo Fróes, depois republicada no livro "International Magazine Entrevistas".

Araújo optou por narrar a história de Roberto Carlos em capítulos temáticos. Mas não ficaram lacunas: mesmo sem ordem cronológica, o quebra-cabeças se fecha com perfeição. A vida do ídolo está toda ali, dividida em 15 partes. Cada faceta de Roberto Carlos é esmiuçada com embasamento histórico, político e social. Mas um detalhe merece questionamento: embora apresente uma extensa lista de fontes ao final, o autor não indica especificamente de onde foi obtido cada fato ou citação. Além disso, talvez por ter sido finalizado às pressas para o Natal, o livro contém alguns erros que uma revisão mais minuciosa teria evitado. O grupo argentino que acompanhou Caetano Veloso em "Alegria Alegria" se chamava Beat Boys, não Beach Boys. A banda americana que fez sucesso com "Aquarius/Let The Sunshine In" era Fifth Dimension, não Five Dimension. O autor de "Just The Way You Are" é Billy Joel, não Billy Paul. Ao descrever uma estátua feita para Roberto Carlos em Cachoeiro do Itapemirim, o que deveria ser uma "efígie" virou "esfinge". Por fim, um erro fático: o capítulo sobre Roberto Carlos e a política afirma que somente em 1992 foi revelado que a música "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos", lançada em 1971, havia sido feita para Caetano Veloso. Não é verdade: isso já fora contado pelo próprio Roberto nos anos 70 em matéria da revista Pop*.

O grande mérito de "Roberto Carlos em Detalhes" é não apenas enumerar os fatos, mas acrescentar uma análise correta e bem informada sobre a vida do cantor. Roberto Carlos emerge como uma figura grandiosa, de talento ímpar, capaz de tocar a alma de seus ouvintes independente de raça, credo ou nível social. Mesmo que surjam outras biografias com algo a acrescentar, dificilmente superarão esta. Porém, enquanto o livro chega a 45 mil cópias vendidas, o ídolo fala em tomar medidas judiciais. Paulo César de Araújo produziu um documento extraordinário, mas pode pagar um preço por sua corajosa empreitada. 

*P.S.: A homenagem a Caetano também é citada em matéria da Veja de 1º de dezembro de 1971, quando do lançamento do LP. Ou seja: nunca foi segredo.

Leiam também: 

Diversos (incluindo um comentário rápido sobre o recolhimento do livro) 
Novos tempos
Na Feira do Livro (meu encontro com o autor)

sexta-feira, novembro 14, 2014

Olha, gente...

Leio hoje no Clicrbs que Lauro Quadros acaba de se aposentar. Eu confesso que há muito não acompanhava o trabalho dele no rádio, já que, da TV, faz tempo que ele se despediu. Mas lembro bem dele nas coberturas da "Rede Ipiranga dos Esportes", na Rádio Guaíba. Eu não tinha a mínima ideia da sua fisionomia, mas reconhecia a voz dele na hora. Devo ter gravações dele entre 1970 e 1973, no auge de meu fanatismo pelo Inter. Ele e Ruy Carlos Ostermann eram os comentaristas da emissora. Ruy fazia um tipo mais analítico e intelectual, enquanto Lauro tinha uma fala mais tranquila e objetiva. Invariavelmente, abria seu comentário com o clássico: "Olha, gente..."

Nos anos 70, em um jogo do Inter, iria entrar em campo um atleta relativamente novo no time: Escurinho. Lauro imediatamente lembrou das partidas anteriores de que o reserva havia participado, todas com resultado positivo para o Colorado. E concluiu: "Pode não ser um grande jogador, mas é um tremendo pé quente." Em seguida, já em sua primeira jogada em campo, Escurinho marcou um gol. O narrador - acho que era Armindo Antônio Ranzolin - anunciou o autor do tento: "Escurinho Pé Quente!" E assim o simpático apelido acompanhou o atacante por toda a sua carreira, sendo citado em emissoras concorrentes e demais veículos da imprensa. Mas poucos lembram que o responsável pelo "batismo" foi Lauro Quadros.

A voz do rádio ganhou um rosto, para mim, numa noite em que meu pai estava girando os canais de um velho televisor preto e branco. Mais tarde, Lauro entrou para a equipe do Portovisão, programa do meio-dia da TV Difusora Canal 10 que rivalizava com o Jornal do Almoço, da TV Gaúcha canal 12 (hoje RBS TV). Nos anos 80, com a derrocada da Caldas Júnior, o "futebol estilo Guaíba" foi migrando aos poucos para a Rádio Gaúcha até lá se estabelecer em definitivo. A emissora da RBS chegou a ter, em certo momento, o narrador Ranzolin, o plantonista de estúdio Antônio Augusto e os comentaristas Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros, todos egressos da Guaíba.

Na despedida, Lauro teria evitado informar qual é o seu time do coração. Mas não faz tanto tempo assim que o mesmo questionamento lhe foi feito numa entrevista à revista gaúcha Press. E ele disse: "Na minha infância, meu time de botão era do Grêmio." E acrescentou: "Furo pra Press!" Isso responde à pergunta.

Lauro certa vez entrevistou minha irmã e com certeza conheceu nossos dois irmãos (um já falecido), mas nunca teve contato comigo. Mesmo assim, mando a ele um abraço, votos de uma feliz aposentadoria junto à família e aos amigos, e um muito obrigado por tantas décadas irradiando simpatia pelo rádio e pela TV. Por fim, reapresento um vídeo que já tinha mostrado antes aqui no Blog: um momento do Jornal do Almoço em que Lauro faz uma severa crítica ao comportamento do jogador Renato Gaúcho no dia seguinte ao episódio em que ele e Leandro voltaram atrasados para a concentração da Seleção, em 1986. Felizmente, o que o comentarista receava não aconteceu: Renato não ficou pobre. Pelo contrário, tornou-se um bem sucedido técnico de futebol

segunda-feira, novembro 10, 2014

Como meu pai agia

Meu pai, Ivéscio Pacheco, era Juiz do Trabalho. Foi Presidente do TRT da 4ª Região, no Rio Grande do Sul. Gostava de ter sua autoridade respeitada, mas nunca exigia isso ostensivamente. Assim, sem querer, acabava colocando outras pessoas em situação constrangedora. Por exemplo, ao dizer "é o Ivéscio" ao telefone, sem que o interlocutor conseguisse adivinhar que deveria se referir a ele como "Dr." Ivéscio. Era simples e simpático com todos. Logo, quem não o conhecia não poderia desconfiar de sua posição.

Mas ele tinha uma característica que muito nos orgulhava: não se considerava acima da lei. Não dava "carteiraço". Certa vez ele me contou, rindo, de uma multa que levou na Free-Way ao cair na armadilha de "disputar velocidade" com outro carro. Acatou a sanção com humildade e ainda comentou que o motorista do outro automóvel, também multado, tentou argumentar, indignado. Em outra ocasião, eu estava com ele no Aero Willis que ele tinha, andando pela beira-mar, em Atlântida. Um guarda nos parou e avisou a ele que, naquele horário, ainda não era permitido o trânsito de carros pela praia. Ao que ele respondeu: "O senhor tem toda a razão." E saiu. 

Por tudo isso, esta história narrada pelo jornalista Antônio Barañano no Facebook, em abril do ano passado, não me surpreendeu nem um pouco:

Numa noite de inverno, Dr. Ivéscio sai quase onze horas do Clube do Comércio, cerração muito forte e ele envereda pela contramão ao sair da Mostardeiro para entrar na Avenida Goethe, ali no Parcão. O policial com um carro da Brigada Militar parado na esquina o intercepta.

"O senhor entrou na contramão", diz, se aproximando. "É mesmo, é a cerração", responde Dr. Ivéscio. "Por gentileza sua identidade, carteira de motorista e documentos do veículo". Naquele tempo, identidade e carteira de motorista não estavam unificadas, ainda. Ivéscio alcança tudo o que ele pede. "Mas o senhor é Juiz!" surpreende-se o policial. Ao que o magistrado responde: "Não importa que eu seja Juiz. Faça o que o senhor tem que fazer".

O policial olha o nome dele na carteira e diz: "Dr Ivéscio, podemos fazer um acordo? No seu tribunal, o senhor decide. Aqui na rua, muitas vezes, preciso decidir eu. Concorda?" "Concordo, é fato". "Então agora decido eu. Aqui estão seus documentos, tenha uma boa noite, siga seu caminho". Diante de tão paradigmático argumento, Dr. Ivéscio não teve outra alternativa senão expressar seu sorriso peculiar, agradecer, dar marcha à ré e obedecer ao guarda...


Este era meu pai. Assim deveriam ser todos os Juízes. 

domingo, novembro 09, 2014

Antigas lojas de discos de Porto Alegre

Há tempos em pensava em postar aqui fotos das etiquetas que as antigas lojas de discos de Porto Alegre colocavam nos vinis. Pois vamos lá. A Galeria do Rosário, quem diria, já foi "point" desse tipo de comércio, com nada menos do que três estabelecimentos. "A Musical" ficava à direita de quem entrava na Galeria pela rua Marechal Floriano. O adesivo grandão acima foi do primeiro LP de minha coleção, no caso, o lançamento de Roberto Carlos do final de 1971, aquele de "Detalhes".

Não sei dizer qual das três lojas durou mais tempo, mas minha lembrança é de que a última etiqueta acima é de 1982 ou 1983.

A Kidiscos ficava um pouco mais adiante de quem entrava pela Marechal Floriano, também à direita, ainda antes de chegar nos elevadores.

A Discorama se localizava à esquerda de quem saía (ou à direita de quem entrava) pela Vigário José Inácio. Ainda estava lá em 1982 com certeza. Além desse momento, minha memória não registra. O segundo selo acima é bem posterior ao primeiro.

Chegou a vez da Galeria Chaves. A King's Discos foi a melhor loja de sua época. Essas duas etiquetas são bem antigas, de 1974.

Se não me falha a memória, foi em 1975 que inaugurou a Casa Coelho, em frente à King's. Depois o espaço foi ocupado pela Discoteca, que lá permaneceu um bom tempo até o Século XXI.


Da Pop Som eu era cliente assíduo. Acho que inaugurou em 1977. Era administrada pelo filho do dono da King's.

Velha Curtisom, na Borges. A segunda imagem acima é de um plástico personalizado que protegia um compacto.


Na Galeria Malcon, à direita de quem entrava pela Vigário José Inácio, ficava uma loja da Discoteca.
Na mesma galeria, a saudosa Star Discos. A loja chegou a existir com esse nome na Rua da Praia.
Por fim, tanto quanto eu lembre, a que fechou primeiro de todas que aqui estão: Loja TV, na Rua da Praia, quase em frente à entrada da Galeria Chaves. Infelizmente não localizei nenhuma etiqueta da Yes*, da Pink Som, da Wings Discos ou da Artes Reunidas.
*P.S.: Aí está uma etiqueta da Yes, numa gentileza de minha amiga Marli. A primeira Yes abriu no final da Rua da Praia, à esquerda de quem seguia em direção à Dr. Flores, pouco antes da esquina. Tenho quase certeza que inaugurou em 1973. Ainda existia em 1978. Nesse mesmo ano, havia outra Yes na Borges de Medeiros à esquerda de quem subia em direção à esquina da Salgado Filho. Não sei precisar quando abriu ou fechou.

Se mais alguém tiver imagens para contribuir, fique à vontade. Darei o devido crédito. Peço apenas que sejam de etiquetas de lojas de discos de Porto Alegre e não de outra cidade.


Vejam também: King's Discos e Pop Som, com vídeo.