segunda-feira, janeiro 26, 2015

Demis Roussos

Demis Roussos, cantor egípcio radicado na Grécia, faleceu no sábado, aos 68 anos. Não lembro ao certo qual foi a primeira música dele que ouvi, talvez "Velvet Mornings". Na verdade o meu irmão tinha o compacto "Such a Funny Night", do grupo Aphrodite's Child, e eu nem notava que o vocalista era ele. Outra recordação foi vê-lo no Globo de Ouro cantando "When I'm a Kid", uma gravação atípica do seu repertório, quase um rock. Depois meus amigos disseram que tinham visto também e queriam achar o disco. Acabamos todos comprando. Também um vizinho tinha um equipamento de som bastante sofisticado para a época e tocava bastante "Forever and Ever". De tanto ouvir, acabei gostando da música. Demis tinha o seu lado brega, mas cantava muito bem. Sua voz caía como uma luva para canções românticas e açucaradas. Ele era e continuará sendo um de meus muitos ídolos.

domingo, janeiro 25, 2015

The book is still on the table

Uma notícia que está causando um certo frisson entre roqueiros tupiniquins (leiam clicando aqui) é a de que o produtor americano Jack Endino criticou os grupos brasileiros que cantam em inglês. Isso depois de escutar uma música do grupo paraibano The Noyzy. Ele postou uma mensagem curta e grossa no Facebook: 

"Bandas brasileiras! Por que vocês cantam em inglês? Nunca consigo entender uma palavra!"

Por mais que alguns ranjam dentes com esse recado, a verdade é que ele está apenas dizendo o óbvio. Qualquer produtor estrangeiro teria a mesma reação ao ver essa febre recorrente e inexplicável de brasileiros cantando em inglês. Porque realmente não faz sentido. As letras são cheias de erros, a pronúncia em geral é ininteligível, mas a turma insiste. Enquanto as opiniões ficam "em casa", parece que está tudo bem. Aí surge alguém de fora para colocar o dedo na ferida e pronto, ficam todos ofendidinhos. 

E nem foi o primeiro caso. Vejam esta nota publicada na Bizz de agosto de 1996:

"CANTE EM PORTUGUÊS!!!"

Palavras de Jay Ziskrout, o cara que fundou a Epitaph, a gravadora punk de LA que sacodiu o mercado fonográfico americano. Responsável também pelo estouro do Offspring, ele esteve no Brasil atrás de grupos esquisitos que cantem em português. À frente de um novo selo, o Grita!, especializado em maluquices cucarachas, Jay já contratou os espanhóis Cérebros Exprimidos e quer mais. Gente boa, o cara foi o primeiro baterista do Bad Religion, fala sem problemas sobre a ida do Offspring para a Sony. "Na verdade, oferecemos mais dinheiro do que eles, mas a banda achou que não iria ser prioridade na Epitaph e preferiu ir para a major".

Tomando aulas de português semanalmente, Jay finaliza mandando um recado com as palavras que aprendeu. "É ridículo bandas brasileiras cantando em inglês. Fenômenos como o Sepultura acontecem de dez em dez anos. Foda-se o Sepultura! Seja você mesmo!!!", diz, enfático, e dá o endereço de contato: Grita! - PO BOX 1216, Murray Station New York, NY 10156 - USA.


Na verdade eu já me incomodava com essa mania desde os anos 80. O sucesso do Sepultura criou a falsa ideia de que o mercado internacional está aberto para bandas brasileiras gravando em inglês. Aí vem um produtor estrangeiro para cá e não entende nada - em todos os sentidos da expressão. Para quem exatamente cantam esses incautos? Não dominam o idioma o suficiente para criar boas letras, cometem erros aos quilos e têm uma pronúncia horrorosa. Onde pretendem chegar? Em geral, ficam marcando passo. Mas teimam em continuar.

Em 1996, alguns meses antes de a nota acima ser publicada na Bizz, escrevi um texto sobre esse assunto para o International Magazine. Intitulava-se "The book is on the table". Talvez por não acompanhar tão de perto a cena independente, pensei que essa equivocada tendência estivesse superada. Pois agora vejo que não. E segue provocando as mesmas reações em produtores estrangeiros. Passados 19 anos, "the book is still on the table". Lamentável. 

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Quando tudo acaba bem

Hoje recebi um telefonema inesperado de meu amigo e colega Luis Fernando Kalife. Tínhamos mais contato quando trabalhávamos juntos. Há algum tempo ele me adicionou no Facebook, então víamos as fotos um do outro. Sujeito feliz, de bem com a vida, ele termina quase todas as postagens com a mesma frase: "É aí que eu me refiro, é só alegria!"

Kalife tem motivo de sobra para tanto entusiasmo. Os leitores mais antigos do blog talvez lembrem de uma postagem que eu fiz em 28 de dezembro de 2007, retransmitindo um apelo dele para doação de órgãos para o filho (vejam aqui). Eu já sabia que tinha dado tudo certo e o transplante de pulmão havia sido realizado com êxito em 2009. Mas uma coisa é tomar conhecimento, outra é falar com ele, ouvir a voz dele lembrando da agonia, do desespero e por fim o final feliz. Kalife Júnior está hoje com 28 anos e é professor. Nasceu de novo. Faz bem pra alma sentir, mesmo de longe, o regozijo sem limites de um pai aliviado. É maravilhoso. Viva a vida!

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Aproveito para agradecer a citação ao meu nome no Blog do Ayrton Mugnaini Jr., o "Mini Blog do Big Mug". Numa retrospectiva pessoal de 2014, ele lembra da sessão de autógrafos de que participamos em São Paulo em fevereiro do ano passado, com foto e tudo. É aí que eu me refiro, é só alegria! (Copyright by Kalife.)

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Mas

"Mas" é a mais comum das conjunções coordenativas adversativas. Segundo a definição do site Capcursos, ela "introduz uma oração que é o contrário (o avesso) do que seria a conclusão lógica". Se tudo acontecesse de forma linear e previsível, se não houvesse incoerências, surpresas, casos especiais e exceções a regras, viveríamos num mundo sem "mas", sem "porém", sem "todavia" ou "contudo". 

Só que, às vezes, as conjunções coordenativas adversativas são usadas como instrumentos de retórica. Como tentativas nem sempre bem sucedidas de ocultar um preconceito ou uma opinião condenável. Nesses casos, antes do "mas", vem o que a pessoa gostaria que os outros pensassem dela. Depois do "mas", aí sim, aparece a realidade. A verdadeira posição que o transmissor tenta dissimular. 

No ano passado, no Rio Grande do Sul, tivemos um exemplo claro. Com a polêmica do casamento gay em CTGs (Centros de Tradições Gaúchas), o que mais se ouvia e lia era: "Não sou contra o casamento gay, mas..." Em geral a frase terminava com "CTG não é lugar para isso" ou algo semelhante. Ora, no momento em que alguém se declara favorável a uma prática e depois impõe uma restrição discriminatória, não me parece que esteja realmente a favor. Está apenas disfarçando o seu real entendimento. 

Pois o "mas" voltou a ser usado e abusado nas discussões sobre a condenação do traficante brasileiro na Indonésia. Perdi a conta de quantas vezes li no Facebook: "Sou contra a pena de morte, mas..." Como assim, "mas"? Se é contra, é contra, seja no Brasil, na Indonésia, em Marte ou em outra galáxia! Mas (epa!) não, os internautas se declaravam contrários à punição capital ao mesmo tempo em que buscavam os argumentos mais estapafúrdios para apoiar a execução do condenado. Incoerência total!

Nesta hora, cumpre lembrar um questionamento bastante comum entre os leigos: por que criminosos têm direito a defesa? Deixando de lado o que ocorre na prática, em tese, a missão de um advogado nesses casos é garantir que seu cliente tenha um julgamento justo. E, se for o caso, uma pena na medida certa. Pagar o que deve. Nem mais, nem menos. Foi esse o objetivo de todos os que repudiaram a pena de morte para o brasileiro. Dilma não "defendeu um traficante", apenas tentou impedir o que considerava uma punição exagerada. A única chance que ele tinha era um pedido de clemência da Presidente da República. E ela fez o que lhe cabia, como qualquer outro ocupante do cargo teria feito (com possível exceção de um certo futuro candidato). Como bem observou um cidadão no Facebook: "Pela mesma razão eu não posso respeitar uma lei que legaliza e recomenda o apedrejamento de uma mulher difamada como adúltera, só porque o tribunal do país em causa é autônomo e legítimo."

O traficante em questão nunca foi um herói, vítima ou mártir. Era um criminoso. E, como tal, tinha que ser condenado. Mas (aqui usado sem incoerência) não à pena de morte.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Estarrecido

Quem me conhece sabe que eu sou contra o mero uso de drogas ilegais, que dirá o tráfico. E com certeza não sou a favor da impunidade. Mas punição é uma coisa, pena de morte é outra! E o que me deixa verdadeiramente estarrecido é a quantidade de pessoas que aplaude a execução desse traficante brasileiro na Indonésia! O que é isso? O que está acontecendo com nosso povo? Parece que estão todos revoltados, amargos, com gana de sangue! Dilma fez a parte dela com um telefonema, tentando pedir clemência. Não deu certo.

Quando me perguntam minha posição sobre a pena de morte, respondo que sou contra. Que existem pessoas que merecem morrer, mas que o ser humano não tem virtude suficiente para decidir quem deve ou não ser executado. Mas nesse caso, não vejo motivo para uma medida tão extrema.

É difícil argumentar nessa questão porque nem todos têm o que eu chamo de "discernimento fino". Entender que ser contra a execução desse rapaz não significa defender o tráfico ou a impunidade. Só sei que me sinto muito mal em saber que um brasileiro vai morrer nas mãos da justiça da Indonésia. E me sinto ainda pior de constatar que há conterrâneos regozijando por isso.

Como dizia Roberto Carlos em 1971: "Meu amigo, volte logo / venha ensinar meu povo / que o amor é importante / vem dizer tudo de novo..."

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Carlinhos vive

Segundo informou um fã no Facebook, Carlinhos Blue Caps está vivo. Tony, ex-baterista de Renato e Seus Blue Caps, falou com ele por telefone ontem. O boato surgiu por consequência de uma internação por crise renal.

sábado, janeiro 10, 2015

Tributo a Nico Nicolaiéwsky

O show "Nico Tributo" a que assisti ontem à noite (e se repetirá hoje e amanhã) no Theatro São Pedro é perfeito para quem, como eu, é fã do "outro Nico", que não o de Tangos e Tragédias. O repertório é praticamente todo da carreira solo e do Saracura. E assim, ouvem-se canções como "Só Cai Quem Voa", "Poeta Analfabeto", "Cabeça Quebra Cabeça", "Feito Um Picolé no Sol", "Marcou Bobeira" e "Flor", esta última em participação especial do ex-Saracura Sílvio Marques.
A banda básica é formada por Arthur de Faria (acordeom, piano e voz), Fernando Pezão (piano, bateria e voz), Hique Gomez (violino, bandolim, piano e voz), Cláudio Levitan (banjo, bandolim e voz) e Marco Lopes (tuba). Pezão tocou com Nico no Saracura e em shows solo. Hique é a outra metade da dupla de Tangos e Tragédias. Cláudio Levitan é autor de diversas músicas do espetáculo Tangos e Tragédias e também do Saracura (entre elas a já citada "Marcou Bobeira").
Além da mencionada participação de Sílvio Marques, também marcaram presença Nina Nicolaiéswky, filha de Nico, e Fernanda Takai, da banda mineira Pato Fu. Para que não faltasse pelo menos uma recordação de "Tangos e Tragédias", no bis, o grupo interpreta "A Verdadeira Maionese", paródia que combina a melodia de um jingle da Varig com a assinatura da Maionese Hellmann's.
Ao final, todos saem para a rua e dão uma rápida canja em frente ao teatro. Uma bela homenagem ao grande músico que faleceu em fevereiro do ano passado.