domingo, maio 22, 2016

As almas de Diana Pequeno

Em 2015, depois de um longo jejum fonográfico (seu CD anterior, Cantigas, saiu em 2002 e o último vinil foi Mistérios em 1989), Diana Pequeno retornou em dose tripla. Estes três CDs independentes estão sendo chamados de "Trilogia das Almas": Alma Calma, Alma Gêmea e Alma Moura. A cantora baiana já havia interpretado composições próprias antes, mas eram casos raros. Seu repertório era quase todo de músicas de autores comprovados da MPB. Esta, então, é a grande novidade: neste novo trabalho, Diana ataca de "cantautora". Somente em Alma Moura aparecem canções assinadas por outros, muitas em espanhol, e em destaque uma cover de "Corsário", de João Bosco e Aldir Blanc. Nos outros dois, é Diana do princípio ao fim.
As músicas de Diana encantam pela simplicidade e leveza. Melodias simples, rimas singelas e recados diretos vão conquistando a cada nova audição. Letras de amor, saudade e esperança se ouvem numa voz madura. A produção musical ficou por conta de Jorge Solovera, multi-instrumentista que aparece nos créditos de praticamente todas as faixas no violão, guitarra, ukulele, baixo e piano. Nem todas as execuções incluem bateria, mas essa, quando presente, é tocada por Victor Brasil. Outros músicos fazem participações esporádicas, com destaque para o baixo de João Bosco na já citada "Corsário". Diana está de parabéns por trazer a público esse conjunto de gravações que dificilmente uma gravadora bancaria na totalidade. É para se ouvir com calma, em longos momentos de tranquilidade e relax. Afinal, são três CDs. Contudo, espera-se que ela não tenha abandonado por completo o seu ofício de intérprete de grandes autores. Senti falta de "Vim Vadiá", do gaúcho Nélson Coelho de Castro, que Diana disponibilizou no Soundcloud.
Para encomendar os CDs, escreva para epfj@bol.com.br.

Aula de Bach

Quando decidi escutar as 32 aulas do curso de "Bach e o Alto-Barroco" do professor Robert Greenberg, estava ciente de que eu não pertencia ao público-alvo do material. Não sou músico, não sei ler música e minha cultura de compositores eruditos é quase nenhuma. Tenho CDs das peças clássicas mais manjadas, aquelas que todos conhecem. Mesmo assim, achei que seria interessante ouvir explicações em inglês das obras de Bach e, o melhor de tudo, incluindo trechos das composições. Como eu imaginava, a linguagem usada não é tão difícil de entender. Além de Bach, o palestrante roda trechos de trabalhos de outros autores, como Vivaldi, para efeito de comparação.

Uma surpresa foi saber que muitas das composições de Bach foram perdidas. Fico imaginando se haveria entre elas peças tão especiais e agradáveis quanto as que ouvimos até hoje. Também foi novidade para mim o fato de que o compositor alemão só obteve reconhecimento e prestígio muito tempo depois de sua morte. Quando o professor Greenberg tocou um trecho da "Paixão Segundo São Mateus" ao piano, eu imediatamente reconheci a melodia de "American Tune", de Paul Simon. Depois pesquisei e descobri que a adaptação de Bach pelo músico americano foi creditada na época do lançamento do disco respectivo (o álbum There Goes Rhymin' Simon, de 1973). No CD que tenho comigo, não há qualquer referência a isso.

Foram 25 horas de gravação que digeri aos poucos, em minhas caminhadas. Tive a sensação de estar do lado de fora de uma sala de aula à qual eu não pertencia, ouvindo e apreciando os ensinamentos do professor. Os títulos da série "The Great Courses" incluem um arquivo em PDF com uma transcrição razoavelmente fiel das palestras. No caso deste, aparecem também trechos de partituras, os quais nem me preocupei em examinar. Gostei da experiência, mas não pretendo repeti-la com outros cursos sobre compositores eruditos. Já sei como são essas aulas, então tive minha curiosidade satisfeita. Agora vou começar a ouvir a nova biografia de Paul McCartney escrita por Philip Norman. Este, sim, é o meu chão.

terça-feira, maio 17, 2016

Rogério Ratner e convidados ao vivo

Foi no sábado, dia 14, o pocket show de Rogério Ratner na Livraria Cultura, em Porto Alegre. Além de estar acompanhado por uma ótima banda com Ciro Moreau (guitarra, produção e direção musical), Mário Carvalho (baixo), Luiz Mauro Filho (teclado) e Ronie Martinez (bateria), Rogério conseguiu reunir seis cantores que participam como convidados de seu novo CD Canções para Leitores. Adriana Marques, infelizmente, faleceu em 2009.
Aqui Lúcia Severo interpreta "Buraco", com letra de Paula Taitelbaum.
Mônica Tomasi cantando "O Que Você Quer", letra de Ricardo Silvestrin.
Ana Krüger e a apresentação de "Dizer quem sou, não sei", sobre versos de Martha Medeiros.
Karine Cunha e "Uma palavra para cada coisa", letra de Letícia Wierzchowski.
Dudu Sperb cantando "Uma palavra a mais", poema de Fabrício Carpinejar musicado por Rogério.
Rafael Brasil interpretando "Elektranight", a minha parceria no CD.
Da esquerda para a direita: Rogério, Rafael Brasil, Lúcia Severo, Karine Cunha, Ana Krüger, Dudu Sperb e Mônica Tomasi. Sei que não deve ter sido fácil reunir esses cantores todos, mas valeria a pena expandir o show (já que o formato pocket teve apenas uma hora) e levá-lo para um teatro. Mesmo que fosse para uma única apresentação. O resultado ficou bom demais e merecia chegar a um público maior.
Ao final, fiz questão de tirar esta foto em que aparecem os quatro responsáveis por "Elektranight": Rogério Ratner (melodia), Ciro Moreau (arranjo e guitarras), Rafael Brasil (vocal e percussão) e eu (letra).
 
Aqui a apresentação de "Elektranight" com Rafael Brasil no vocal. A "minha" música eu fiz questão de gravar em vídeo.

sexta-feira, maio 13, 2016

Show de lançamento do CD de Rogério Ratner

Finalmente chegou o tão esperado lançamento do CD de Rogério Ratner, Canções para Leitores. É no dia 14 de maio de 2016, sábado, às 19h na Livraria Cultura (Bourbon Shopping). A entrada é franca. Participação especial de Monica Tomasi, Karine Cunha, Rafael Brasil, Ana Krüger, Lúcia Severo e Dudu Sperb. Banda: Ciro Moreau (guitarra), Mário Carvalho (baixo), Luiz Mauro Filho (teclado) e Ronie Martinez (bateria). 

O projeto de Rogério teve uma longa gestação, com início em 2005. Sua ideia era musicar letras de poetas riograndenses de renome. Ao mesmo tempo, convidou cantores para fazer participações especiais. Então o que temos são parcerias com Martha Medeiros, Letícia Wierzchowski, Fabrício Carpinejar, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Paula Taitelbaum, Arnaldo Sisson, Celso Guttfreind, Cíntia Moscovich e, em meio a esses nomes todos, o meu, com muita honra. Rogério é um grande amigo e o convite dele para entrar nesse camarote VIP foi um presente maravilhoso.

É impossível para mim comentar esse CD com isenção, mas adorei o resultado. Entre os intérpretes, chama a atenção a presença da saudosa Adriana Marques, a "Cat Milady" da peça "Rádio Esmeralda", falecida em 2009. Rogério já tinha tido a felicidade de entrevistá-la para o seu programa Paralelo 30, da rádio on-line Buzina do Gasômetro, e agora nos brinda com uma gravação inédita da moça. Ela interpreta "Uma canção antiga",  com letra de Ronald Augusto. Essa é uma das parcerias para as quais Rogério criou uma balada, começando em notas mais baixas e subindo progressivamente. As outras são "Dizer quem sou, não sei", com letra de Martha Medeiros e vocal de Ana Krüger, "Buraco", em versos de Paula Taitelbaum cantados por Lúcia Severo, "Uma palavra a mais", poema de Fabrício Carpinejar com vocal de Dudu Sperb e piano de Michel Dorrfman, e "Uma palavra pra cada coisa", letra de Letícia Wierzchowski na voz de Karine Cunha. Os arranjos de Ciro Moreau mudam em cada música, garantindo uma bela diversidade. 

Rogério sempre gostou de compor blues ocasionalmente e foi o que fez em duas faixas que ele mesmo canta: "Bach em Lupicínio", com letra de Celso Guttfriend, e "Diz com jura", parceria com Cíntia Moscovish. "O que você quer", com letra de Ricardo Silvestrin, é interpretada por Mônica Tomasi em clima de "power ballad". O músico guardou para o final aquela que é provavelmente a minha preferida: "Qualquer caminho", com letra de Arnaldo Sisson, na voz do próprio Rogério (sua melhor interpretação no CD e uma das melhores de seus três álbuns). É uma balada soul com uma certa influência de gospel, uma bela mensagem de ânimo e iniciativa: "Vem, deixa teu ninho, um mundo te aguarda! / Mas se não tens alegria, não é por aí!" 

O que dizer de "Elektranight", que é a minha participação no CD? Achei que recebeu um tratamento do tipo "melhor, impossível" por todos os demais envolvidos. A melodia é bem o que a letra pedia, simples e ganchuda. A voz do cantor Rafael Brasil ficou perfeita. E, por cima disso tudo, o multi-instrumentista Ciro Moreau criou um arranjo maravilhoso, cheio de pequenos detalhes de violão e guitarra que entram nos momentos certos. Ficou uma canção pop com influência de Ritchie e Kid Abelha. 

Um aspecto que estranhei foi a capa do disquinho. Nos dois primeiros, Rogério colocou fotos. Desta vez, a imagem é essa que aparece aí em cima. Enfim, se os Beatles têm o seu álbum branco, por que Rogério Ratner não pode lançar o seu CD azul? Obrigado, Rogério, por me convidar para esse belo projeto. Agora é conferir o show de sábado. Todos lá!
P.S.: Minha parceria com Rogério até já tocou na Itapema FM, abrindo o programa de Júlio Fürst. Pena que perdi. Quem diria que um dia eu teria uma letra minha divulgada por "Mr. Lee"! Vejam abaixo (a página original está aqui).

quinta-feira, maio 12, 2016

Dia triste

Ainda que nem todos enxerguem, hoje é um dia triste para o Brasil. Confirmou-se o que eu tinha escrito aqui. Não se poderia esperar outro desfecho, já que foi um jogo de cartas marcadas. O ponteiro cruzou em impedimento, o centroavante tocou a bola para dentro com a mão e o juiz marcou gol. Quando existe conivência, consegue-se qualquer resultado.

Aos que foram às ruas gritar "fora Dilma" e hoje estão comemorando, desejo vida longa. Para que vejam o julgamento da História. E percebam, mesmo que tarde demais, o legado de vergonha que deixaram para seus filhos e netos. Pintar o rosto de verde e amarelo não transforma ninguém em uma pessoa politizada. 

Já aviso que não aceitarei "explicação para porteiro de cinema" quando começarem as consequências indesejáveis dessa manobra. "Ah, eu não queria isto, eu só queria tirar os corruptos, arrumar a casa, limpar o Brasil, blá blá blá..." Ainda hoje há quem diga que o afastamento de João Goulart em 1964 foi necessário e somente os Atos Institucionais posteriores é que não deveriam ter acontecido. Ora, não se pode dissociar um fato dos demais. Quando se rompe a ordem democrática, os resultados são imprevisíveis. É uma lição que deveria ter sido aprendida.

A menos que ocorra algo novo que me faça mudar de ideia, não pretendo mais escrever sobre eleições aqui no Blog. Era um dos temas que mais me entusiasmavam e agora perdeu a graça. Voltamos ao tempo em que o voto era apenas uma manifestação simbólica com efeito limitado e reversível.

Queen no cinema

Terça à noite, assisti ao filme "Queen: a Night in Bohemia", no Barrashopping de Porto Alegre. A primeira meia-hora é um documentário com imagens atuais (de Brian May e Roger Taylor) e de arquivo, estas incluindo entrevistas de 1977 com o apresentador inglês Bob Harris. O foco é o álbum A Night at the Opera e o single "Bohemian Rhapsody", ambos de 1975. Foi o momento em que o grupo realmente estourou e iniciou uma nova fase em sua carreira. 

Depois, teve início o show que a banda fez na véspera de Natal de 1975 no Hammersmith Odeon, em Londres. Quando cheguei em casa, confirmei minha lembrança: é a mesma apresentação que já foi lançada em CD, vinil, DVD e SD Blu-ray com o título de A Night at the Odeon. Inclusive a imagem foi captada originalmente em vídeo, não em película, para o programa de TV "The Old Grey Whistle Test". Mesmo assim, a projeção na tela grande tinha qualidade razoável. Com tantos shows do Queen disponíveis em vídeo, pergunto-me por que justamente esse foi selecionado para receber destaque em cinema. Mas não estou reclamando.

segunda-feira, maio 09, 2016

Legendas faltando

Nesse fim de semana, revi o clássico "O Homem Que Sabia Demais", de Hitchcock, na bela imagem de uma edição Blu-ray. Como estava acompanhado, coloquei legendas em português. Ia tudo bem, até que chegou um dos trechos que mais me marcou quando vi o filme pela primeira vez. James Stewart e Doris Day estão em uma igreja e, em vez de cochichar, aproveitam que todos estão cantando um hino e "cantarolam" suas frases numa melodia mais ou menos parecida. É o toque de humor que Hitchcock às vezes dava às suas cenas. Só que o responsável pela tradução interpretou que eles estavam apenas cantando a letra do hino e, portanto, não seria necessário legendá-la. A solução foi recuar um pouco o filme e, temporariamente, ativar as legendas em inglês. Assim eu mesmo traduzi o que foi dito. Vejam abaixo.
"Esta é apenas mais uma busca sem sucesso." Notem a observação "cantando" entre parênteses, para pessoas com dificuldade de audição.
"Vamos esperar!" A voz aguda de Doris Day cantando algo que nada tinha a ver com o hino chamou a atenção das senhoras à sua frente.
"Olhe quem vem pelo corredor!" Imaginem tudo isso cantado, para não chamar a atenção. As legendas para o Brasil desprezam esse diálogo e, na trilha em português, os dubladores preferiram falar em vez de cantar, tirando toda a graça da cena.

Como já disse aqui em outra ocasião, não me considero expert em cinema. Dois dos mais aclamados filmes de Hitchcock, no caso, "Psicose" e "Os Pássaros", não me cativam. Vi cada um deles uma vez só e é suficiente. Imagino que, para os cinéfilos, sejam verdadeiras aulas de edição e enquadramento. Mas os enredos, ao menos para mim, deixam a desejar. Então não está nos meus planos colecionar todos os filmes de Alfred Hitchcock em Blu-ray ou DVD. Mas alguns eu tenho e pretendo adquirir outros.

domingo, maio 08, 2016

Tri-hexa

Quando o Internacional sagrou-se hexacampeão gaúcho em 1974, aquele título foi chamado de "bi-hexa". É que o hexa de 1945 havia sido um feito histórico, que rendeu ao time da época o apelido de "Rolo Compressor". Então, pela segunda vez em sua história, o Inter atingia a marca de seis títulos gaúchos consecutivos. A denominação "bi-hexa" vinha sendo divulgada desde o penta, no ano anterior. Cá entre nós, acho que era uma forma de criar um feito que o Grêmio não tivesse em seu currículo, já que o arquirrival havia superado o recorde do Inter ao conquistar o hepta em 1968. Dois anos depois do "bi-hexa", o Inter chegou ao octa, ultrapassando o número máximo do Grêmio. 

Enfim, será que o título de hoje será chamado de "tri-hexa"? Seja como for, parabéns, Internacional! Faltam só dois anos para, quem sabe, chegar a um "bi-octa"!

Dia das Mães

Feliz Dia das Mães! Mãe, onde estiveres, obrigado por tudo!

sexta-feira, maio 06, 2016

Ace Frehley voltando às origens

Gravar covers é um recurso a que artistas veteranos às vezes recorrem quando o seu público já não se entusiasma com discos de inéditas. Se o resultado é bom, a gente até perdoa o comodismo. Ace Frehley, ex-guitarrista do Kiss, sabe fazer um rock and roll de alto nível, quando quer. Em seu novo CD, Origins Vol. 1, ele homenageia suas "origens" ao regravar clássicos do Cream ("White Room"), Rolling Stones ("Street Fighting Man"), Jimi Hendrix ("Spanish Castle Magic"), Led Zeppelin ("Bring it on Home"), entre outros. Há também músicos célebres convidados. Sem dúvida a participação de mais destaque para os fãs é a de Paul Stanley, ex-colega de Ace no Kiss, cantando em "Fire and Water", do Free. Não por acaso, é a música de trabalho do CD, com direito a clip. Lita Ford divide os vocais em "Wild Thing", dos Troggs, e o baterista Scot Coogan canta em alguns trechos de "White Room" e "Bring it on Home". 

Uma sacada interessante de Ace foi incluir duas músicas de sua autoria do tempo do Kiss, mas que eram interpretadas originalmente por Gene Simmons. Nos primeiros álbuns do grupo, Ace compunha, mas não cantava. Então aqui estão, pela primeira vez, gravações de estúdio de "Parasite" e "Cold Gin" na voz do próprio autor. Uma surpresa é a releitura de "Rock and Roll Hell", de Gene Simmons, lançada em 1982 no álbum Creatures of the Night, do Kiss. Como se sabe, Ace aparece na capa daquele disco, mas não toca em nenhuma faixa. Já estava fora do grupo, embora não oficialmente. Então é curioso que tenha escolhido justamente essa para homenagear sua velha banda. 

Eu arriscaria dizer que algumas execuções ficaram até melhores do que os originais, mas sem citar nomes, para não incorrer na ira dos puristas. O que importa é que é um ótimo CD de hard rock. Ace optou por uma fórmula segura, que garante boas vendas junto aos velhos fãs, então todos ficarão satisfeitos.