segunda-feira, julho 31, 2006

Mauro Kwitko

Ouvi falar em Mauro Kwitko pela primeira vez em 1976. Ele havia participado do 4º Musipuc, em Porto Alegre, com a música "América Moreno". O festival era o principal foco de atenção do radialista Júlio Fürst, que levava as gravações ao vivo para tocar em seu programa "Mr. Lee em Concerto", na Rádio Continental. Logo a composição de Mauro estava rodando na freqüência 1120 AM.

Tempos depois, já formado em Medicina, Mauro foi para o Rio de Janeiro fazer residência em Pediatria. Nessa época, foi apresentado ao cantor Ney Matogrosso por um colega do Hkspoital, seu amigo. Ney sempre deu chance a novos compositores, mas ouviu algumas músicas de Mauro e achou que não eram o seu estilo. O gaúcho não se intimidou. Voltou para o hotel e compôs uma música especialmente para Ney gravar. Depois, retornou para mostrá-la. Começou a cantar:

- Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher...

Imediatamente Ney saltou e falou:

- Pára, pára...

Foi correndo buscar o gravador e disse:

- Grava, grava...

Ney ouviu até o fim, entusiasmado, e disse que gravaria a música. Mas como se chamava? Mauro sugeriu:

- Já que eu fiz a música pra ti, pode colocar o nome que quiser.

Ney escolheu "Mal Necessário". Mauro aprovou. A faixa entrou no LP "Feitiço", de 1978, e tornou-se um clássico do repertório de Ney Matogrosso, sendo até hoje uma das preferidas dos fãs. O que pouca gente sabe é que o próprio Mauro Kwitko lançou sua versão em compacto. Em dezembro de 1979, o compositor participou do Festival da Tupi com "Até o Infinito", parceria com Carmen Seixas. Não se classificou para a final, mas a música saiu pela WEA com "Mal Necessário" no outro lado (erradamente impressa "Mau Necessário"). O produtor foi o lendário Liminha.

Um dia, Mauro procurou Ney Matogrosso na WEA. Lá, encontrou o guitarrista Pisca, que lhe informou que Ney estava agora na Ariola e lhe ofereceu uma carona. No caminho, pegaram um baita engarrafamento. Para matar tempo, Pisca mostrou a Mauro uma melodia que ainda estava sem letra. Mauro ouviu e começou a esboçar alguns versos: "Quando você me chega com olhos de quem me quer..." A música foi terminada ali mesmo. Dias depois, recebeu um telefonema de Pisca:

- Mauro, o Ney vai gravar a nossa música!
- Que música?
- Aquela do engarrafamento!

E assim, em 1982, saiu "Jeito de Amar", mais um sucesso de Ney Matogrosso com a assinatura de Mauro Kwitko.
Logo Mauro se mudou para o Rio, onde morou com os músicos do Bixo da Seda. Como Fughetti Luz estava, naquela época, residindo em Porto Alegre, Mauro ficou de letrista do grupo por um tempo. Com Paulo César Casarin, gravou várias músicas suas. Duas delas, "Cavaleiros da Nova Era" e "3ª Geração", foram licenciadas para a EMI e saíram em compacto. As demais oito continuam inéditas. Quem tem essa fita? Pela qualidade do que foi lançado, é algo que mereceria sair em CD. Casarin viria a tocar na formação-relâmpago dos Engenheiros do Hawaii em 1995 (a mesma que tinha o ex-RPM Fernando Deluqui na guitarra) e hoje está na Automóvel Verde.


Em 1985, Mauro contribuiu para o LP "Música Popular Gaúcha" com o rock "Ikemlikidoa". Um dia eu estava em minha casa ouvindo a música quando o meu sobrinho, na época com 15 anos, entrou no meu quarto com cara de quem já a conhecia. Estranhei, pois não era algo que ele pudesse ter ouvido. Ele me perguntou:

- Essa não é a música dos Abelhudos?

Ele se referia a "Dono da Terra", com a qual o grupo infantil concorreu no Festival dos Festivais no mesmo ano. Não só ele achou as melodias parecidas, como deve ter-se confundido com o primeiro verso da composição de Mauro: "De quem é a terra, de quem pisa nela ou quem lhe ignora." De qualquer forma o LP gaúcho saiu antes do festival. Semelhanças acontecem, mas é preciso frisar que "Ikemlikidoa" foi lançada primeiro. Os Abelhudos eram compostos por filhos e sobrinhos de um produtor da EMI, da qual Mauro foi contratado, e ao sair, deixou lá uma fita com dezenas de músicas e letras. Coincidência?

Conversei com Mauro em 1992 para um trabalho da Faculdade de Jornalismo. Ele me disse que iria lançar um disco independente e inclusive mostrou a partitura de uma das músicas, "Uma Angústia Qualquer" (como se eu soubesse ler música...). Em vez de disco, acabou saindo uma fita em 1996, chamada "Canto Para Uma Nova Era". Mas antes disso, ainda em 92, Mauro viria a vencer a Califórnia da Canção Nativa na Linha Livre com "Barra do Dia". Depois, ao apresentá-la num show em Porto Alegre, ele confessou que não a havia composto como música nativista, mas colocou um arranjo típico para inscrevê-la no festival.

Em 1998, Mauro lançou o CD "Invisible Friends", incluindo várias parcerias psicografadas. É interessante observar que, em uma das letras em inglês, aparece a expressão "light beans", que Mauro traduziu como "grãos de luz". O que o espírito transmitiu com certeza foi "light beams" (fachos de luz). Um pequeno "ruído na comunicação" que confere autenticidade à psicografia.

Atualmente, Mauro Kwitko está mais dedicado ao Espiritismo e à Terapia Reencarnacionista, como se vê em seu site. Mas seria interessante que tanto a fita de 96 quanto as gravações (inéditas ou não) feitas antes fossem resgatadas para lançamento em CD.

(Obrigado a Mauro Kwitko pela revisão e correções.)

domingo, julho 30, 2006

Confusão

Por uma casualidade incrível, lembrei de ligar o rádio para ouvir o Gre-Nal bem na hora em que começou o incêndio nos banheiros químicos. Em certo momento o jogo reiniciou e a equipe da Gaúcha ficou em dúvida se narrava a partida ou a baderna. Agora o clássico está parado de novo. Se eu estivesse lá, faria como alguns já estão fazendo: iria embora o quanto antes. A perspectiva é a pior possível.

sábado, julho 29, 2006

Os demitidos da Varig

Uma discussão que de vez em quando surge no ambiente de trabalho é: nós, os empregados, somos a empresa? Ou a empresa é o dono? Seriam os chefes? Ou apenas os produtos e serviços oferecidos?

Acho que a questão é mais pertinente do que nunca diante do destino da Varig. Imagino que, quando os empregados da companhia aérea se uniram para salvá-la, pensavam, num misto de idealismo, ingenuidade e esperança, estarem lutando por si mesmos. Batalhavam para manter seus empregos. Pois bem: a Varig foi salva. O nome e o logotipo continuarão existindo. Os serviços estão funcionando precariamente, mas espera-se que sejam restabelecidos. Já 5.500 funcionários que contribuíram para essa vitória foram demitidos.

Neste momento, todos eles devem estar repensando seus conceitos de empresa. De que adiantou salvar a Varig? De que valeram as manifestações, os protestos, a solidariedade dos parentes e amigos, para tudo terminar assim? A pessoa jurídica lá, preservada. Eles aqui, desempregados. Lutaram para salvar um nome e um logotipo, nada mais. Eles, que por tantos anos vestiram a camiseta da companhia, que tinham orgulho em dizer que trabalhavam na Varig, um nome que impunha respeito, agora percebem que eram peças descartáveis. Sentiam-se parte da empresa, muitas vezes devem ter repetido "a Varig somos nós", para agora serem dispensados.

Coloco-me no lugar, também, daqueles que, tendo a chance de buscar um novo emprego enquanto era tempo, preferiram lutar até o fim. Quem pressentiu o inevitável deve ter aproveitado alguma oportunidade de colocação em empresas concorrentes. Não haveria lugar para todos no mercado, mas quem se adiantou obteve as primeiras vagas. Já os fiéis, que resistiram até o minuto final, foram penalizados.

Conclusão: no caso específico da Varig, salvar a companhia pouco benefício trouxe para os empregados. Logo eles, que foram não só os articuladores mas principalmente os motivadores da solidariedade do povo brasileiro, restaram prejudicados. A empresa ficou, mas o corpo funcional foi mutilado. Sobraram 3.985 na folha de pagamento. Menos da metade.

Vale a pena lutar por uma empresa?

quinta-feira, julho 27, 2006

Faxina

Estou pensando seriamente em dar uma enxugada nas minhas comunidades do Orkut. Só vou manter aquelas de que efetivamente participo. E só vou participar daquelas que me acrescentam alguma coisa. Não vejo sentido em estar inscrito em comunidades "só pra constar" se a discussão não é produtiva. Depois vou procurar outras e me inscrever por algum tempo para testá-las, também. Em geral, gosto de comunidades onde existe troca de conhecimento e respeito por opiniões contrárias, com maturidade e inteligência. Ou um bate-papo gostoso. Infelizmente, algumas comunidades são templos virtuais de adoração cega a um ídolo acima de todos os outros. Falta pouco para serem na verdade seitas. Têm até dogmas e atitudes consideradas sacrílegas ou pecaminosas. Dessas, vou sair correndo.

quarta-feira, julho 26, 2006

A volta do trem-bala

Nas eleições para Prefeito de Porto Alegre em 1992, o candidato Carlos Gomes, do PRN, dizia que iria implantar um trem-bala ligando a capital ao litoral. Questionado de onde obteria recursos para a obra, respondeu: "Do Presidente Fernando Collor", que era seu correligionário no PRN. Collor caiu antes das eleições, mas de qualquer forma as chances de Gomes eram nulas. Na eleição presidencial seguinte ele se candidatou, para que os órfãos do ex-Presidente afastado tivessem em quem votar.

Pois agora é Edison Pereira, do PV, quem acena com um trem-bala, que "já existe na Europa há 20 anos". Desta vez a eleição é para Governador. Quem sabe?

O comercial do Ponto Frio

Não sei há quanto tempo está no ar o comercial, mas só hoje vi a campanha do Ponto Frio para o Dia dos Pais. Cléo Pires posa de filha ao lado do padrasto, Orlando Morais. Acho superlegal esse bom relacionamento dos filhos e filhas com o novos maridos de suas mães, mas todos sabem que o pai de Cléo é o cantor Fábio Jr. Lembro bem quando Glória Pires comentou numa entrevista sobre seu namoro com Fábio Jr., "agora sob os olhares vigilantes de nossa filha Cléo". Como pai separado, fico um tanto perplexo com essa substituição da figura paterna. Acho que o maior castigo que eu poderia ter seria o meu filho "adotar" outro pai em meu lugar. Sei que há pais omissos, mas sei também que há mães separadas que não entendem que o ex-marido não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Fora aquelas que usam os filhos para se vingar de alguma mágoa que tenham de seus ex. Já tive namoradas com filhos e nunca tentei disputar posição com os pais verdadeiros. Orlando Morais merece a homenagem, mas como fica Fábio Jr. nessa história?

Parabéns, Kleiton e Kledir!

O CD "Ao Vivo", de Kleiton e Kledir, ganhou o Prêmio Tim de melhor disco na categoria "Canção Popular". Eu confesso que não esperava. Estava na torcida, mas quando vi quem eram os outros concorrentes, pensei: "Capaz que eles vão ganhar de Roberto Carlos!" Pois ganharam. Roberto Carlos levou o prêmio de melhor cantor na mesma categoria, mas o melhor disco é dos irmãos Kleiton e Kledir. Parabéns a eles por esta conquista!

Bom atendimento

Gostaria de fazer um registro elogioso ao Banco 24 Horas. Na sexta-feira, por uma falha do equipamento, meu saque de 40 reais não teve o pagamento efetuado. Em vez do dinheiro, recebi uma papeleta informando a ocorrência. Na mesma hora, telefonei para o número indicado e encaminhei uma reclamação. Já foi uma surpresa a experiência do atendimento automático com reconhecimento de voz. "Diga o nome do seu banco", disse a gravação. Um tanto cético, falei: Caixa. "Caixa ou Nossa Caixa?", perguntou a misteriosa voz feminina. Acabei falando com um dos atendentes e passei meus dados. Ontem liguei novamente e a voz programada me orientou a dizer "suporte" caso o assunto fosse falha do equipamento. Mais um pouco e eu já estaria convidando a moça da gravação para jantar (brincadeira). Mas o que eu queria dizer é que hoje o valor foi ressarcido. Nem precisei envolver a agência. Claro que não fizeram mais do que a obrigação, mas num mundo cada vez mais complicado, em que a automatização, em vez de facilitar, nos dá mensagens tipo "este programa executou uma operação ilegal e será fechado", é um alívio ver que há serviços funcionando como deveriam, sem necessidade de choros, ameaças ou insistências.

terça-feira, julho 25, 2006

Eu li!

Anúncio numa vitrine de fotógrafo em Porto Alegre:

"FIZEMOS PORCELANA"

Fizeram? Puxa, e agora???

Repassando o alerta

Eu não sou de ficar repassando alertas, até porque sei que são todos falsos. Mas este me pareceu legítimo, então faço questão de publicar aqui:

REPASSEM, IMPORTANTE QUE TODOS SAIBAM!

Tenham cuidado! Não sei quantos de vocês fazem compras nos supermercados Rissul, mas esta informação pode ser de muita utilidade. Mando esta informação para avisá-los que fui vítima de um assalto no Rissul, mas poderia ter sido em qualquer outro supermercado. Funciona da seguinte maneira: Duas garotas muito gostosas chegam perto enquanto você está guardando as compras no porta-malas e começam a limpar o pára-brisa com esponja e produto limpador, dizendo que é um novo produto que pode ser usado sem água e que elas são mostradoras. Seus seios praticamente saem para fora de suas camisas, assim fica impossível não olhar. Eu até quis dar uma gorjeta, mas não aceitaram e me perguntaram se eu ia passar próximo a outro supermercado, pois elas iriam para lá. Eu falei que sim, que não tinha problema e entraram as duas no banco de trás e no caminho começaram a se beijar e logo em seguida começaram a fazer sexo. Logo em seguida uma passa para o banco da frente e começa a me praticar sexo oral, enquanto a outra me rouba o dinheiro que estava no meu bolso de trás da calça.

Estejam alertas, pois poderá acontecer com vocês também! Me roubaram no sábado, no domingo, na segunda duas vezes, hoje... e amanhã vou de novo!

segunda-feira, julho 24, 2006

A volta do Super-Homem

Neste fim-de-semana eu e minha namorada fomos assistir a "Super-Homem, o Retorno". Embora não seja um mau filme, com destaque para belas imagens aéreas (por favor, não me digam que foram geradas por computador, deixem-me na ilusão...), ficou um pouco aquém de minhas expectativas. A exemplo de "Batman Begins", o enredo peca por mistificações e esoterismos desnecessários. Claro, tudo é influência dos quadrinhos das últimas décadas. Tentaram deixar o universo das HQ mais inteligente e adulto e destruíram seu maior charme, que eram as histórias simples e fáceis.

Super-Homem é o mais famoso super-herói da ficção, mas é também o que menos resistiu ao tempo. Batman, por exemplo, se adapta com facilidade a qualquer época ou tendência. Ele começou como uma sinistra figura das trevas, depois tornou-se um simpático e acessível herói das crianças, até virar um defensor hi-tech nos filmes da Warner. Mas o pobre Super-Homem, a despeito de sua invulnerabilidade, não é imune ao anacronismo. Pode haver algo mais ridiculamente ultrapassado que um super-herói chamado Super-Homem, com superpoderes, superforça, supervisão e uma roupa com as cores da bandeira americana? O resultado é que a DC Comics já recorreu aos mais diversos subterfúgios para manter o interesse no personagem. Reescreveu a saga de seus heróis em 1985 com a "Crise nas Infinitas Terras", matou e ressuscitou Super-Homem nos anos 90 e assim vem tentando modernizá-lo.

Muitos pensam que Super-Homem se torna irreconhecível como Clark Kent só por causa dos óculos. Ora, claro que não! Desde quando alguém se disfarça apenas usando óculos? A grande diferença entre os dois é que o Super-Homem usa pega-rapaz no cabelo! Ainda que nunca apareça o momento em que ele muda o penteado na hora de trocar de roupa. Ele deve usar algum gel especial de Krypton que mantém o cabelo firme mesmo em meio a explosões ou vôos a supervelocidade. Podem observar no filme: haja o que houver, o pega-rapaz do Super-Homem está sempre ali, redondinho e incólume.

Estou curioso para ver o documentário "Look Up in The Sky: The Amazing Story of Superman". Acho que não será lançado no Brasil, mas de qualquer forma o DVD importado até que não está tão caro. O "Super-Homem" de Christopher Reeve continua sendo a melhor adaptação de quadrinhos para o cinema, mas no Século XXI meu voto vai para o Homem-Aranha. Por sinal, vem aí o III.

sexta-feira, julho 21, 2006

As magras

Hoje, depois do almoço, vi uma cena deprimente. Uma mulher magérrima, com corpo de linhas paralelas, subindo na balança. Deve ter saído dali preocupadíssima, arrependida de ter comido aquela folhinha a mais de alface.

Eu já disse uma vez, mas vou repetir: quem gosta de mulher magra é costureiro. Daqueles que olham para uma Vera Fischer e dizem, "mas você está goooordaaaa..." A Gisele Bundschen faz sucesso porque é na verdade falsa magra. E vai estar no ponto quando chegar aos 40 anos, "gorda" e "velha" demais para as passarelas, se é que me entendem.

quinta-feira, julho 20, 2006

Administrar o jogo

Quando relacionei algumas expressões preferidas pela imprensa esportiva, esqueci de uma sensacional: administrar o jogo. Ou o resultado, ou a vitória, tanto faz. A ênfase é no verbo administrar.

Se eu fosse administrador, ficaria revoltado com esse jargão. Ora, como assim, administrar o jogo? O que quer dizer, exatamente? Pelo que entendi, significa enrolar, embromar, fazer a bola circular inofensivamente para que não haja alterações no status quo. Então, assim como se administra o jogo, pode-se administrar também o time ou uma empresa. Como vocês, administradores, aceitam que o termo passe a ter esse significado?

Enfim, a LDU cometeu o erro de tentar administrar o jogo ontem contra o Inter. Administrou tão bem que levou dois gols e foi eliminada da Libertadores. Da próxima vez, melhor contratar um administrador profissional.

terça-feira, julho 18, 2006

Prêmio misterioso

Recebi um e-mail como sendo da filial inglesa da Coca Cola dizendo que fui sorteado em uma loteria on-line promovida pela empresa. Fui escolhido entre 29.031 participantes. Agora tenho que fornecer todos os meus dados (nome, idade, sexo, endereço, e-mail, telefone, profissão, empresa, renda anual, valor do prêmio, CEP, estado e país) para solicitar o prêmio. Sou recomendado a não divulgar o número que foi sorteado pois "solicitações duplicadas não serão honradas". Puxa, não é uma baita sorte ser contemplado num sorteio em que eu nem lembrava de ter-me inscrito? Não querem cópia da chave da minha casa também?

Réplica

O fã de Bonnie Tyler se manifestou, mas postou seu comentário numa mensagem antiga. Se quiserem ler o que ele escreveu, cliquem aqui e depois no link "Comment".

Foram eles

Lendo sobre o julgamento dos jovens acusados de matar o casal Von Richtofen, observo um padrão recorrente em crimes envolvendo mais de um réu: cada um tenta colocar a culpa nos outros. A cumplicidade que levou a consumar o ato dá lugar a um "cada um por si", com advogados diferentes e versões diferentes. Mas todas com uma alegação comum: "foram eles".

Em suma: não foi ninguém.

sábado, julho 15, 2006

Hallai-Hallai



Um dos grupos mais geniais surgidos no movimento musical gaúcho do programa de "Mr. Lee" (o radialista Júlio Fürst), que marcou época na saudosa Rádio Continental AM em 1975 e 1976, foi o Hallai-Hallai. A combinação de vozes e violas que eles faziam era simplesmente mágica. Uma das primeiras músicas deles que lembro de ter ouvido foi "Tributo aos Beatles", que ainda não era o melhor do grupo. Mas logo vieram "Cowboy", "Sou lá do Sul", "Rei" e uma intepretação linda, perfeita, de "Quando Viajar Pro Norte", de Fernando Ribeiro e Arnaldo Sisson. Em 1976 um espectador de outro estado que assistiu ao terceiro concerto "Vivendo a Vida de Lee" disse que eles tinham o melhor vocal do Brasil. No mesmo ano, o empresário e produtor Luiz Mocarzel, que já tinha levado Hermes Aquino para a Tapecar, veio novamente a Porto Alegre e anunciou a contratação de dois grupos: Hallai-Hallai e Inconsciente Coletivo. O que aconteceu depois não se sabe, mas o compacto do Inconsciente chegou a sair, enquanto nada mais se ouviu falar do disco do Hallai-Hallai.

Com o fim do programa de Mr. Lee, o movimento se dispersou e perdeu força. Muitos nomes daquela época sumiram ou deram um tempo. Assim, foi uma surpresa quando, em 1983, o Hallai-Hallai reapareceu com o clip de "Segurando o Vento" no segmento local do "Fantástico", que hoje não é mais produzido. Em seguida saiu esse compacto independente que aparece acima, gravado em 16 canais no estúdio da Isaec. Não é um mau disco, mas não chega nem perto do que o grupo fazia nos tempos de Mr. Lee. Já em 1986 surgiu a chance de lançar um LP pela 3M. Talvez para não serem confundidos com o Hanói-Hanói, encurtaram o nome para "Hallai". Mas foi um período da música brasileira em que o som acústico estava em baixa, substituído pela sonoridade pasteurizada dos teclados. E o Hallai acabou perdendo uma de suas características mais marcantes, que era as violas em destaque. A revista Bizz, numa citação rápida, comparou o grupo ao Roupa Nova. Nem mesmo a gravação de "Cowboy", clássico dos tempos de Mr. Lee, conseguiu recriar o velho clima. O Hallai não durou muito depois disso. Nem a 3M no Brasil como gravadora.

Separei mais alguns compactos raros para digitalizar e, de tempos em tempos, irei mostrá-los e comentá-los aqui.

sexta-feira, julho 14, 2006

Bonnie Tyler - correção

Mesmo com um ano de atraso, gostaria de fazer uma correção. Neste post eu escrevi:

"Sem contar o mico de artistas como Bonnie Tyler, Barry Manilow e Sting, que gravaram músicas em português imaginando que isso lhes daria mais chance de sucesso no Brasil."

Esse trecho foi descoberto por um fã de Bonnie Tyler que o levou para sua comunidade no Orkut acrescido da seguinte observação:

bom é a opinião dele e devemos respeitar, mas não creio que a bonnie e outros artistas gravaram músicas "em portugues" só para tentarem fazer mais sucesso no brasil e aliás, que eu saiba, a bonnie nunca gravou música em portugues e sim um dueto com um cantor brasileiro.o que na minha opinião é bem diferente já que a versão dela ficou totalmente em inglês.mas como nossos jornalistas só sabem criticar o que é bom e elogiar e dar prêmios ao que não presta isso em nada me espanta, rsrsrs

Aí, claro, vieram as respostas:

Ao invés desse jornalista estar preocupado com assuntos importantes como a corrupção de políticos, desmatamentos de florestas bandido fazendo polícia de refén,ele está preocupado com esse tipo de assunto.......e não sabe nem o que fala porque ele errou em relação à Bonnie,mais uma coisa ele está certo:como esses ótimos artistas farão sucesso aqui ????Afinal de contas o brasileiro(em esmagadora maioria)só gosta de futebol,carnaval,Taty quebra barraco,novela,e acha normal senadores pegar o nosso dinheiro e colocar em suas contas particulares!!!!Isso é Brasil.

Só imagino a Rede Globo anunciando: "Senhores telespectadores, neste ano a Globo não vai cobrir a Copa do Mundo, pois nossos jornalistas estão todos preocupados com assuntos importantes como a corrupção de políticos, desmatamento de florestas e bandido fazendo a polícia de refém. Pedimos a sua compreensão." Ora, quem sabe não seria uma boa idéia?

Outra opinião:

eitaaaa, o cara é jornalista e tão mal informado, a Bonnie nunca gravou em português e a música com o Fábio é porque ele iria lançar o lp dele na europa e o dueto bom a Bonnie era pra ela dar uma força pra ele não o contrário.Mas enfim o que + temos são jornalistas de almanaque no Brasil.

Então, diante dessas informações eu me retrato: Bonnie Tyler não gravou em português. Ela participou de uma gravação com Fábio Júnior em que ele cantava em português e ela em inglês. Vou alterar o texto original ou colocar um adendo com a correção.

A cabeçada

Atenção: este não é um comentário sobre futebol. É sobre comportamento.

A cabeçada do francês Zidane no italiano Materazzi ainda suscita polêmica. Por trás de toda a discussão a questão se resume a uma pergunta: é lícito perder a calma? Há quem pense que sim. Um dia desses, na hora do almoço, ouvi alguém falar: "O italiano ofendeu a mãe e a irmã dele em francês. Aí tem mais é que agredir, mesmo". Pois é. Só que o episódio em questão parece ser daqueles em que a intenção era exatamente a de fazer o outro se descontrolar. O objetivo foi atingido e acabou prejudicando Zidane.

Levar desaforo para casa não é fácil. Mas também é preciso tomar cuidado para não morder iscas. Há situações em que é preciso manter a cabeça fria a qualquer custo. Exemplo típico é debate em campanha política. Na guerra pelo voto, um momento de alteração pode ser desastroso para o candidato. E há políticos que são mestres em perceber o ponto fraco do adversário. Apertam os botõezinhos certos para acionar o detonador.

Claro que tudo depende do nível da pessoa. Há quem perca as estribeiras por uma bobagem. Mas Zidane não é nenhum Edmundo. Se ele tivesse pelo menos tentado se controlar, o diálogo que suscitou a cabeçada teria ficado entre os dois e sua imagem seria preservada. O craque francês descarregou sua raiva, mas pagou um preço por isso.

Também é preciso lembrar que todos temos um limite. Às vezes uma reação dessas é mais forte do que nós. Mas há uma diferença entre acertar as contas com a turma da esquina e partir para a ignorância em público a partir de uma provocação mal intencionada. O grande desafio é revidar com classe, saindo por cima. Nem sempre é possível. Mas temos que saber perceber quando estamos na arena de uma guerra psicológica. Aí, sangue frio é tudo.

quarta-feira, julho 12, 2006

Veranico de julho

Mais uma vez verifica-se a falta de memória do gaúcho com a "surpresa" por este "calor fora de época". Tão fora de época que acontece todos os anos. Hoje a Zero Hora fez uma matéria sobre o assunto. Eis um trecho interessante:

Os profissionais da área acrescentam que invernos assim não são novidade. Em 30 de julho de 1977 a temperatura bateu na marca de 33,4°C.

A impressão que eu tenho é que só quem lembra do "veranico de inverno" somos eu e os meteorologistas de Porto Alegre. Mais ninguém.

terça-feira, julho 11, 2006

Da série "separados ao nascer"

Estes dois aí da foto parecem gêmeos, mas só o que eles têm em comum é o período de suas carreiras em que obtiveram maior sucesso. O da esquerda é o técnico Rubens Minelli, que veio para o Internacional em 1974 e levou o time a seu primeiro título nacional em 1975, repetindo a façanha em 1976. O da direita é o produtor turco Arif Mardin, que produziu um disco dos Bee Gees pela primeira vez em 1974 ("Mr. Natural"), mas levou o grupo ao sucesso mesmo com "Main Course" em 1975. Tanto Minelli quanto Mardin já tinham longos currículos em suas atividades, mas chegaram ao auge praticamente ao mesmo tempo. Mardin, infelizmente, foi outra perda recente para a música: faleceu no dia 26 de junho.

Syd Barrett (1946-2006)

Morreu Syd Barrett, o "gênio louco" que fundou o Pink Floyd. Syd faleceu de câncer na sexta-feira, em Londres, mas a notícia só hoje foi divulgada.

Roger "Syd" Barrett tornou-se uma figura lendária por diversos motivos. Um deles, naturalmente, era o seu talento. O guitarrista compôs todas menos uma das músicas do primeiro LP do Pink Floyd, "The Piper at The Gates of Dawn", lançado em 1967. Foi também o autor dos clássicos singles "Arnold Layne" e "See Emily Play". Depois disso, infelizmente, sua condição psicológica começou a se agravar. Ficava tocando sempre o mesmo acorde durante um show todo. Já não se concentrava nos ensaios. Aos poucos, o baixista Roger Waters foi assumindo o grupo. David Gilmour foi convidado a substituir Syd, embora os dois tenham chegado a tocar juntos por algum tempo. Com Gilmour, o Pink Floyd abandonou o som psicodélico de Syd em favor de um estilo de rock progressivo que muitos definiram como "som espacial". Não se podem negar os méritos do novo guitarrista, mas há quem prefira o Pink Floyd mais agressivo e irônico dos tempos de Syd.


O fundador do grupo acabou saindo e tendo que se internar. Em 1970, voltou à música com dois discos solo, "Barrett" e "The Madcap Laughs". Os álbuns mostravam uma sonoridade acústica e divagante, pouco tendo a ver com seu trabalho com Pink Floyd. A partir de então, Syd se manteve totalmente recluso. Ou quase. Existe um episódio na história do Pink Floyd que as biografias citam de passagem, mas que mereceria ser investigado mais a fundo.

Em 1975, durante as sessões do LP "Wish You Were Here", um Syd gordo e calvo apareceu para fazer uma visita aos ex-colegas. Depois de jogar conversa fora, disse que estava pronto para voltar ao grupo. Roger Waters e David Gilmour não levaram a sério, claro. E não se pode culpá-los. Mesmo assim, a rigor, não se pode dizer que Syd nunca tenha tentado voltar. E embora "Wish You Were Here" seja uma obra-prima irretocável (por sinal inspirada em Syd), teria sido no mínimo interessante saber o que teria acontecido se a proposta de Syd tivesse sido aceita. Afinal, o disco não se chamou "gostaria que você estivesse aqui?" Pois ele esteve.

Quase nada se soube sobre a vida reclusa de Syd Barrett, exceto por depoimentos pouco reveladores de amigos e parentes. Mas os paparazzi se mantiveram atentos e de vez em quando surgiam fotos de um Syd irreconhecível andando na rua - como a segunda que aqui aparece. Syd Barrett era uma lenda em vida e continuará sendo depois da morte. Não acredito que o Pink Floyd volte para homenageá-lo, mas um concerto tipo tributo, com artistas diversos, acho bem provável que aconteça.

Maus perdedores

O assunto Copa do Mundo, por mim, já poderia estar encerrado. Acabou, o Brasil não venceu, a Itália é tetra, melhor sorte da próxima vez. Fim de papo, bola pra frente.

Infelizmente, não é o que está acontecendo. E é nestas horas que vejo a diferença entre mim, que há mais de vinte anos me desinteressei de futebol, e o brasileiro comum. O fato de a Seleção ter feito fiasco na Copa está sendo motivo de indignação, raiva, revolta. Como se os jogadores nos tivessem traído. Prometeram o hexa e não cumpriram. Ah, gente, o que é isso? É apenas uma competição esportiva. Qualquer dos times pode vencer e só um pode ser campeão. O Brasil fez feio? Paciência! Parabéns à Itália, que tem um belo histórico de Copas e fez por merecer a taça. Voltemos a nossos afazeres, que a vida continua.

Mas não, a impressão que eu tenho é que o povo brasileiro vai passar todo o resto do ano de 2006 chorando e rangendo dentes por causa da Seleção. Isso se não fizerem assim até a próxima Copa. Se a ginasta Daiane dos Santos ou o tenista Guga decepcionam, a torcida entende. Mas no futebol o Brasil tem obrigação de ganhar. Não existe mais espírito esportivo. A lógica é de que os altos salários percebidos pelos jogadores se justificam pela contrapartida de aliviar as frustrações de um povo sofrido. Mas se não cumprem a sua parte, são execrados.

Em suma, no futebol, somos maus perdedores. Agimos feito crianças mimadas que não ganharam o doce. Mas eu tenho mais o que fazer do que me preocupar com a meia de um ou os quilos a mais do outro, que mesmo assim conquistou o seu sonhado recorde. A Copa acabou. Vamos às eleições.

quinta-feira, julho 06, 2006

Os falsos Quintanas

Os textos apócrifos da Internet é um dos temas recorrentes neste blog. No entanto, nunca publiquei aqui a lista de "falsos Quintanas" que sempre divulgo no Orkut, tanto na comunidade "O verdadeiro Mario Quintana" como em qualquer outra em que o assunto vier à baila. Como aqui não existe a limitação de tamanho de mensagem do Orkut, terei espaço para fazer mais comentários. Atenção: os textos que serão citados abaixo não são de Mario Quintana! Não importa onde você os tenha visto com a autoria atribuída ao poeta.

Vamos começar com os dois mais freqüentes:

"Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. (...) Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação."

Esse já foi declamado por Bruno e Marrone em seus shows e circula pela Internet das mais diversas formas. Existe até uma montagem sobre uma bela foto de dois namorados se beijando. A dificuldade maior em convencer os incautos de que não é de Quintana advém do fato de que o verdadeiro autor ainda não foi descoberto. Provavelmente se originou de algum blog a partir de um amontoado de frases, pois ele contém até mesmo uma citação (não creditada) de Saint-Exupery: "Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas." Já a frase do olhar e da longa explicação é tida como um provérbio árabe, inclusive aparecendo
aqui em inglês. Esse "Frankenstein" vem crescendo e recentemente ganhou mais um apêndice: a observação de que "para o homem provar que é homem, não precisa ter mil mulheres, basta fazer uma feliz".

O outro "campeão" dos blogs e e-mails costuma aparecer com o título de "Nada Como o Tempo" e começa assim: "Com o tempo você vai percebendo que, para ser feliz com outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela". E encerra com a afirmação clássica: "O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você". Ouvi dizer que até camiseta já apareceu no Brique da Redenção contendo essa frase e assinatura de Mario Quintana. Também não se sabe ao certo quem é o autor, mas pelo menos há uma página na Internet em que o poema aparece com a autoria de
Kátia Cruz. Já o ditado das borboletas também é atribuído a D.Ehlers. Se é verdade ou não, difícil saber, mas pelo menos já são alternativas de nomes para apresentar a quem perguntar.

Os cinco textos a seguir são de autoria de Martha Medeiros, mas também circulam como se fossem de Quintana:


Felicidade Realista
Promessas Matrimoniais
Sermão do Casamento (também conhecido como "Casamento na Igreja")
Sentir-se Amado
A Impontualidade do Amor

Aqui, é curioso que as pessoas atribuam a Quintana textos em prosa que nada têm a ver com o estilo dele. Talvez por influência de Vinicius de Moraes, existe uma falsa idéia de que todos os poetas de destaque falavam de amor. Quintana até falava, mas muito raramente. Ele tinha a pureza e a castidade de um menino. No entanto, a geração Internet quer imaginar aquele simpático velhinho usando de sua sabedoria para dar conselhos a casais enamorados. Mesmo que, para satisfazer a essa fantasia, coloquem em sua boca palavras como "sarado" (em "Felicidade Realista") e a citação de uma data quatro anos posterior à sua morte (em "Sermão do Casamento"). Martha fez menção a essas confusões mais de uma vez, notadamente em "
Clonagem de Textos" e "A Crônica Sobre a Desinformação"

Outro poema muito citado é "A Idade Para Ser Feliz". Seu verdadeiro autor é Geraldo Eustáquio de Souza, como pode ser conferido no link. Já "Amor é Síntese" merece ser reproduzido na íntegra, pois não só sua verdadeira autora é Mirtes Mathias, como o verso final aparece adulterado. Em sua versão apócrifa, o poema termina com a frase: "E eu serei perfeito amor". O correto é:

Por favor, não me analise

Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!

Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!

(Do livro "Bom dia amor!", Mirthes Mathias, Juerp, 1990)
 
(P.S.: Atenção para o poema em sua versão certa! Tem gente corrigindo a autoria, mas deixando os versos incorretos. Existe uma diferença enorme entre "eu serei perfeita, amor" e "eu serei perfeito amor". A mudança de gênero e a falta da vírgula alteram completamente o sentido.)

Às vezes o verdadeiro autor de um texto ou poema de grande sucesso é um ilustre desconhecido. Ou, para ser mais exato, uma ilustre desconhecida. Um dos mais populares "falsos Quintanas" é aquele que começa: "Não quero alguém que morra de amor por mim." E depois de uma série extensa de versos, como Quintana jamais escreveria, termina assim: "Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão, que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim, que eu sempre dei o melhor de mim e que valeu a pena!" No "Yahoo Respostas", nada menos do que três iluminados afirmaram categoricamente que o poema se encontra na coletânea "80 Anos de Poesia", de Quintana (cliquem aqui para ver com os próprios olhos). Mas sua autora é uma moça chamada Adriana Britto, que pode ser encontrada no Orkut.

Já o poema que se tornou conhecido com o nome de "Deficiências" ou "Dicionário do Quintana" é na verdade a parte final de um texto redigido pela professora
Renata Vilella, da escola Flor Amarela. As frases da professora ("Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, etc.") foram rearranjadas em forma de versos e acabaram se tornando um libelo contra o preconceito. Mas Quintana jamais escreveria algo parecido. Hoje a professora luta para ver sua autoria reconhecida, mas esbarra na teimosia costumeira de quem ainda confia cegamente na Internet. Na seção "Notícias On-line" do site da escola, ela comenta:

Há meses recebi um e mail dizendo que circulava na internet o texto que está escrito na minha apresentação como sendo de autoria de Mário Quintana, não levei a sério, para falar a verdade me senti até honrada, porém quando o senado federal divulgou no folder do Dia Nacional de Valorização da Pessoa com Deficiência escrevi uma mensagem para o Senador Flávio Arns, autor do projeto, pedindo que esclarecesse, mas não obtive resposta. Como o texto foi escrito no final de 1990, quando eu estava indo para o interior de Minas e Mário Quintana ainda era vivo, nem psicografado pode ter sido. 


Já os versos abaixo são de Carlos Moreira:

Que fique muito mal explicado
Não faço força para ser entendido
Quem faz sentido é soldado

 
"O Laço e o Abraço" é de Maria Beatriz Marinho dos Anjos.

"Abraçar é dizer com as mãos o que a boca não consegue, porque nem sempre existe palavra para dizer tudo." Até prova em contrário, essa frase parece ser original da Homília da Missa de despedida do Padre Nei Nélson da Paróquia Santíssima Trindade de Ceilândia - DF.

Outros exemplos de apócrifos atribuídos a Quintana, mas de autores desconhecidos:

Algo sobre o amor ("Para meus amigos que estão solteiros... casados... etc.").
Amadurecimento ("Aprenda a gostar de você, a cuidar de você, e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.")
"Se for para esquentar, que seja no sol, se for para roubar, que seja um beijo, etc."
"Sentir primeiro, pensar depois/ perdoar primeiro, julgar depois, etc."

A criação da x----- (Este eu estou acrescentando a posteriori, pois é incrível a quantidade de incautos que tem repassado esse poema pornográfico acreditando mesmo que Quintana o escreveu. Esses deveriam receber uma penitência: escrever 100 vezes "Eu não entendo nada de Mario Quintana". Até aprender.)

A cada dia parece surgir um novo texto ou poema falsamente atribuído a Quintana (vide o adendo acima - outros virão, se necessário), de forma que é praticamente impossível compilar uma lista completa. Esta foi iniciada por Lúcia Kerr Jóia, da comunidade "
Afinal, Quem é o Autor", depois veio sendo atualizada com a ajuda de vários colaboradores, como Jane Araújo, Westh Ney e outros. Por fim, existe um poema que é, sim, de Quintana, mas aparece na Internet de forma totalmente modificada, a começar pelo título de "O tempo" ou "A vida", ambos errados. Eis o poema correto (atenção: este é o único Quintana verdadeiro neste post!):

SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
 
Esse é o poema completo, mas os "amantes do óbvio" enxertaram o verso "quando se vê, perdemos o amor da nossa vida" e acrescentaram o seguinte final: "E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará." Há variações, mas não importa: são adendos indevidos.


O livro "Poesia Completa", da Editora Nova Aguilar, contém toda a obra de Quintana. Não fosse um volume caro (o preço de lista é 170 reais), seria o presente perfeito para os cabeçudos que acreditam piamente quando recebem um poema com o nome de Quintana por e-mail, mas pedem mil provas quando o verdadeiro autor se apresenta. O que não estiver ali, não é dele. E quando alguém vai avisar a Ana Maria Braga para que deixe de ler no ar poemas enviados por telespectadores? Essa é a melhor maneira de disseminar apócrifos! Depois ela ainda publica os textos no site do programa dela. Os "Quintanas" que estão lá são todos falsos!

quarta-feira, julho 05, 2006

Decisões insossas

Ontem cheguei em casa pouco depois que a Itália venceu o jogo na prorrogação. Liguei o televisor a tempo de ouvir o narrador dizer: "...e a Alemanha vai para a decisão do 3º lugar".

Decisão do 3º lugar... Por que esse jogo precisa existir? Só para o ranking ficar completo? Ora, então por que não defrontar os perdedores dos jogos anteriores, também? Sinceramente, acho que nem um amistoso com um timinho local é mais patético do que uma decisão de 3º lugar. É mais ou menos como ser obrigado a assistir a mais uma semana de aula já sabendo que está reprovado. Imagine a preparação. O técnico dando instruções. Os jogadores e a torcida vibrando a cada gol. Comemoram o quê?

Tenho uma vaga lembrança da Seleção Brasileira disputando o 3º lugar em 1974. Perdeu para a Polônia. Como não fez gol na partida, nem mesmo pude avaliar a reação da torcida. Isso me lembra do "jogo da amizade", Brasil e México, logo após a Copa de 70. Eu era torcedor novato e ainda estava contaminado pelo vírus do tricampeonato. Quando o Brasil fez gol, eu imitei a minha família na Copa e soltei um grito a plenos pulmões, até que vi que ninguém me acompanhou. Claro: era apenas um amistoso. Mas decisão do 3º lugar é Copa. Só que sem gritos e foguetes.

O que mais tenho ouvido nos últimos dias são críticas a Parreira. Confirma-se o que eu já tinha escrito aqui sobre "
O detalhe no futebol". Vamos ver como serão os detalhes de Felipão hoje contra os nossos algozes franceses.

terça-feira, julho 04, 2006

Investimento

Leio na Zero Hora que as camisetas para torcer pelo Brasil na Copa estão sendo "torradas" a preço de banana. Estou pensando em comprar algumas para guardar por quatro anos. Tamanho M.

domingo, julho 02, 2006

Fim amargo

No meu tempo de colorado fanático, acompanhando cada partida com interesse, em alguns jogos eu tinha a impressão de que o Inter não iria fazer gol de jeito nenhum. Não sei explicar, mas eu ficava com a sensação de estar torcendo pelo impossível. De que, por mais tempo de partida que restasse, eu estava querendo demais. O gol não iria sair.

Senti isso de novo no jogo do Brasil contra a França. E o olhar resignado de Parreira parecia transmitir que também ele sentia o mesmo. No fundo, todos sabíamos que este seria o primeiro adversário de verdade do Brasil nesta Copa. Diante do gol, foi como se todos se rendessem ao destino. Acabou.

É curioso pensar que os jovens torcedores de 16 anos, ou mesmo um pouco mais velhos, estão vendo o Brasil ser eliminado de uma Copa pela primeira vez. A última tinha sido em 1990, contra a Argentina. Eu tinha retornado de uma temporada de três meses em Brasília. Voltaria para ficar mais dois, mas vi os jogos em Porto Alegre. Gravei em vídeo a derrota para a Argentina e tive chance de reavaliar a partida quando foi revelado que Branco foi dopado, no ano passado. A análise está
aqui.

Mesmo não me considerando um expert em futebol, achei que Parreira teve muita sorte em sua vitória em 1994. Pois agora seu destino está selado. Dificilmente ele volta. Mas acho curioso quando vejo os que supostamente entendem do riscado falando com uma segurança incrível sobre o que o técnico deveria fazer. Cada um deles me convence de que seria melhor treinador do que qualquer um que estivesse lá. E acho que eles se julgam realmente capazes. Eu, com certeza, não serviria para a função.


É uma pena que o futebol tenha perdido sua alegria. Quando a Seleção sai da Copa, o torcedor brasileiro fica com raiva. Não deveria ser assim. Paciência, toquemos a vida em frente. Já somos penta. E depois, ainda temos por quem torcer: dá-lhe Felipão! Pois pois...