Às vezes lembro do começo de minha amizade com o saudoso
Paulo Brody. Nós nos conhecemos em um grupo de conversação em inglês do
Cultural, o Getting Together. Se bem lembro, ele tinha 15 para 16 anos em 1980
e eu, 19. Apesar da diferença de idade (que hoje nem chamaria tanto a atenção,
mas na época chamava), logo descobrimos interesses em comum. Um deles,
obviamente, era o inglês. Ele tinha bom domínio do idioma e eu, modéstia à
parte, não ficava atrás. Depois descobri que ele também era fissurado por
música e histórias em quadrinhos. No dia 29 de novembro de 1980, um sábado, eu
queria ver o show "Verde", com Nei Lisboa, Augustinho Licks e Boina.
Tenho uma vaga lembrança de ter convidado outros amigos, mas nenhum aceitou. Eu
tinha o telefone do Paulo e liguei pra ele: "Tá a fim de ir num show
comigo?" Ainda lembro da voz dele respondendo: "Tô, cara!" E ali
a parceria começou pra valer.
Mas o Paulo tinha outro interesse do qual, na época, eu não
partilhava: política. Apesar da pouca idade, ele possuía uma cultura imensa e
gostava de conversar sobre fatos atuais e História do Brasil recente. E insistia
em tocar no assunto. Eu tentava dizer pra ele que o tema não me agradava, que
eu não queria saber nada daquilo, mas ele não parecia entender. Acho que era
mais forte do que ele, ele precisava
falar de política. Então ficava discorrendo longamente e eu ouvia sem muita
atenção. Ele bem poderia estar falando com a parede.
Na juventude, eu tinha o dom de aproximar amigos meus que
não se conheciam entre si e acabavam formando uma turma. Logo o Paulo se
agregou a um grupo nosso e saíamos à noite. Certa vez, fomos a um bar ele
estava profundamente deprimido. O motivo: o Presidente Figueiredo havia
instituído o voto vinculado, obrigando o eleitor a votar em candidatos do mesmo
partido. Depois, eu e outro amigo comum comentamos: que bobagem o Paulo ficar
na fossa por causa de política! Imagina! Eu só fico na fossa por fim de namoro
ou algo bem pessoal. Capaz que vou
ficar na fossa por política!
Mas, como eu sempre digo, o mundo deu voltas. Minha primeira
eleição foi em 1982 e ali eu já votei em Pedro Simon, do PMDB. Cheguei a
cogitar a opção por Olívio Dutra. Não pelo PT, mas pelo Olívio, mesmo, que
havia conquistado minha admiração. Mas, como a apuração era em um só turno,
achei melhor escolher um candidato com mais chances. Eu disse "já"
porque, se eu pudesse votar em 1978, com certeza teria apoiado alguém da Arena,
o partido da situação. Eu me considerava de direita na adolescência. Mas esses
quatro anos entre um e outro pleito foram suficientes para mudar minha posição. A propósito, o vencedor foi Jair Soares, do PDS. Meu voto não adiantou.
A minha transformação, mesmo, aconteceu com o retorno gradual da democracia plena, ao longo da década de 1980.
No segundo semestre de 1987, já casado, comecei a comprar livros de História do
Brasil para recuperar o tempo perdido. O primeiro deles, casualmente, eu encontrei
na saudosa Livraria Papyrus e era em inglês: "The Political System of
Brazil", de Ronald M. Schneider, publicado em 1971. Depois fui descobrindo
outros. "Guerra das Estrelas", de Carlos Chagas. "Brasil, de
Getúlio a Castelo", de Thomas Skidmore. 'Vida e Morte da Ditadura",
de Nélson Werneck Sodré. "Linha Dura no Brasil – O Governo Médici",
de Daniel Drosdoff. "História Sincera da República", em quatro
volumes, de Leôncio Basbaum. A coleção "Nosso Século", que era de
minha mãe e ela me deu.
Outro fator importante foi ter ingressado na Faculdade de
Jornalismo no mesmo ano, 1987. E lá tive aulas de História do Brasil (sob o
pomposo nome de "Realidade Socioeconômica e Política Brasileira") com
o ótimo professor Arnoldo Doberstein. Aqui, por uma questão de justiça, preciso
fazer uma ressalva: tive excelentes professoras de História no colégio. Eu é
que não estava num momento propício para a matéria. O Arnoldo me pegou com sede
de aprendizado e isso ajudou bastante. Eu adorava as aulas dele. Em especial,
eu gostava das "correções comentadas" que ele fazia nas provas,
escrevendo bastante, orientando o aluno e demonstrando atenção e interesse pelas
respostas. Que diferença dos professores que apenas assinalavam um
"C" de certo, um "X" de errado e às vezes colocavam um
ponto de interrogação sobre o que foi escrito. Ele deve morar perto de mim,
pois seguidamente o encontro no supermercado.
Depois do voto em Pedro Simon em 1982, minha posição
política passou por um período de indefinição. Eu só sabia que jamais votaria
no PDS ou qualquer partido sucedâneo da antiga Arena. Nas eleições
presidenciais de 1989 e 1994 eu escolhi Brizola no primeiro turno e Lula no
segundo. Quando Brizola saiu do páreo, Lula ganhou meu voto cativo. Por algum
tempo eu ainda tive o PMDB como segunda opção para outros cargos, até me
definir pelo PT.
Meu amigo Paulo Brody faleceu em 2017, se não me engano por
um problema no intestino. Mas chegamos a ter longas conversas sobre política
depois da minha, digamos, "conversão". E às vezes lembro dele naquela
noite no começo dos anos 1980, na fossa pela instituição do voto vinculado por Figueiredo.
E de como eu achei absurdo alguém se deprimir por causa disso. Porque o que eu
senti no domingo, depois do resultado da eleição, deve ter sido bem pior do que
o Paulo sentiu naquela ocasião. Foi, sim, uma fossa tremenda. E fico tentando
imaginar o que leva o nosso povo a preferir um candidato cujo principal plano
de "governo" é anistiar criminosos (incluindo o pai dele) e estabelecer uma administração conjunta com Donald Trump. Os eleitores de direita, depois de anos se anunciando como "patriotas" e
dizendo que "a nossa bandeira jamais será vermelha", adotaram como ícones a bandeira americana e a imagem do atual
Presidente dos Estados Unidos. E é desolador constatar que, entre eles, há pessoas que eu quero bem. Que eu amo.
Como consolo, minha candidata Maria do Rosário se elegeu para Deputada Federal. E, em Porto Alegre, Lula, Juliana Brizola e Manuela D'Ávila tiveram maioria de votos para Presidente, Governadora e Senadora, respectivamente. Lula venceu também em Pelotas e Rio Grande.
A eleição ainda não está perdida, mas viradas de segundo
turno são raríssimas. Mesmo assim, Lula e seus apoiadores têm o dever moral de
encarar o segundo turno de cabeça erguida, lutando até o fim. Depois, se a derrota
se confirmar, a atitude correta é: respeitar o resultado e preparar
a próxima campanha para daqui a quatro anos. No domingo à noite eu conversei
por Whatsapp com uma amiga e ela acha que a única forma de conter o avanço do Bolsonarismo
é surgir uma terceira via de centro. Pode ser. Qualquer coisa é melhor do que
um governo nas mãos de um clã entreguista e irresponsável.
Paulo, onde estiveres, um abraço. Queria que estivesses aqui
para conversarmos bastante sobre política.
Meu sobrinho Rafael também fez falta para dar seu voto e seu apoio.