Começaram a surgir postagens no Facebook falando em
"volta do CD". Meu primeiro pensamento foi: onde? No Brasil, com
certeza, não. Mas logo uma lida rápida no começo das matérias respectivas
confirmou: de fato, houve um aumento de vendas nos Estados Unidos. Aí, nenhuma surpresa. Basta verificar o site da
Amazon americana para ver que, lá, os CDs continuam sendo lançados e vendidos normalmente.
E também formatos físicos de vídeo, como DVD, Blu-ray e uma mídia ainda mais
sofisticada que os brasileiros nem sabem que existe, o disco de 4K.
Mas aqui a realidade é outra. A pandemia acelerou um
processo que provavelmente era inevitável, que foi o fim da fabricação de
mídias físicas em larga escala. Ainda se encontram alguns lançamentos isolados
em CD, como MPB-4, projeto Casa Ramil e os trabalhos individuais da família, como
de Vitor, Ian e Thiago Ramil. Houve ainda um produto criado com tanto carinho
que até chegou a lembrar os bons tempos da indústria do disco: "Tesouros
MPB", pelo selo do SESC, uma caixinha de quatro CDs e um livreto de capa dura de 116 páginas
com letras e textos explicativos. Resgata gravações ao vivo de 1975 que
estiveram guardadas por 50 anos no acervo do músico Guttemberg Guarabyra. Os
artistas são Sérgio Ricardo, Jackson do Pandeiro, Maurício Tapajós, Lucinha
Lins, Fafá de Belém, Sidney Miller, Ivan Lins, César Costa Filho, Sérgio Sampaio, Walter Queiroz e Sá &
Guarabyra. Em Porto Alegre, encontrei essa relíquia na Livraria da Travessa do
Shopping Iguatemi, uma das raras lojas da capital gaúcha a oferecer lançamentos
brasileiros de CDs e DVDs.
De resto, acabaram as fartas coletâneas e também a torcida
por relançamentos em CD. Álbuns de músicos gaúchos que eu aguardava
ansiosamente em compact disc saíram somente nas plataformas digitais.
Exemplos: Hallai, Saracura, Maria Rita (não a filha da Elis), Annie Perec, o
primeiro de Bebeto Alves, Terceiro Sinal
de Jerônimo Jardim e vários volumes de festivais nativistas. De artistas de
outros estados, cito o de 1982 do Roupa Nova, Dança dos Signos de Oswaldo Montenegro, Cartas, Canções e Palavras de Sá & Guarabyra, Eterno como Areia, Sinal de Amor e Sentimento Meu de Diana Pequeno e muitos
outros. É possível comprá-los via iTunes e até gravá-los em CD-R, mas sem a
mesma qualidade de um CD original feito a partir das fitas matrizes. Sem falar
a ausência de encartes, com todas aquelas informações que a gente gostava de
ler. Também não se fabricam mais as tradicionais caixinhas de acrílico. E os
players estão desaparecendo de carros e computadores.
Em termos de vendas, o que pode estar acontecendo no Brasil
é um aquecimento na procura por usados e importados. Mas isso, me desculpem,
não é "volta do CD". Eu ainda tenho pelo formato o mesmo fascínio de
quando ele surgiu como novidade no início dos anos 1980. E é uma pena vê-lo tão
desvalorizado no Brasil, enquanto retorna o interesse por LPs que, ou custam
uma fortuna (no caso de novos), ou estão cheios de chiados, estalidos e pulos.
Tragam de volta os CDs! Mas de verdade. Façam tiragens
menores, se for o caso, mas não deixem de lançá-los.