segunda-feira, outubro 05, 2026

Lembranças e reflexões

Às vezes lembro do começo de minha amizade com o saudoso Paulo Brody. Nós nos conhecemos em um grupo de conversação em inglês do Cultural, o Getting Together. Se bem lembro, ele tinha 15 para 16 anos em 1980 e eu, 19. Apesar da diferença de idade (que hoje nem chamaria tanto a atenção, mas na época chamava), logo descobrimos interesses em comum. Um deles, obviamente, era o inglês. Ele tinha bom domínio do idioma e eu, modéstia à parte, não ficava atrás. Depois descobri que ele também era fissurado por música e histórias em quadrinhos. No dia 29 de novembro de 1980, um sábado, eu queria ver o show "Verde", com Nei Lisboa, Augustinho Licks e Boina. Tenho uma vaga lembrança de ter convidado outros amigos, mas nenhum aceitou. Eu tinha o telefone do Paulo e liguei pra ele: "Tá a fim de ir num show comigo?" Ainda lembro da voz dele respondendo: "Tô, cara!" E ali a parceria começou pra valer.

Mas o Paulo tinha outro interesse do qual, na época, eu não partilhava: política. Apesar da pouca idade, ele possuía uma cultura imensa e gostava de conversar sobre fatos atuais e História do Brasil recente. E insistia em tocar no assunto. Eu tentava dizer pra ele que o tema não me agradava, que eu não queria saber nada daquilo, mas ele não parecia entender. Acho que era mais forte do que ele, ele precisava falar de política. Então ficava discorrendo longamente e eu ouvia sem muita atenção. Ele bem poderia estar falando com a parede.

Na juventude, eu tinha o dom de aproximar amigos meus que não se conheciam entre si e acabavam formando uma turma. Logo o Paulo se agregou a um grupo nosso e saíamos à noite. Certa vez, fomos a um bar ele estava profundamente deprimido. O motivo: o Presidente Figueiredo havia instituído o voto vinculado, obrigando o eleitor a votar em candidatos do mesmo partido. Depois, eu e outro amigo comum comentamos: que bobagem o Paulo ficar na fossa por causa de política! Imagina! Eu só fico na fossa por fim de namoro ou algo bem pessoal. Capaz que vou ficar na fossa por política!

Mas, como eu sempre digo, o mundo deu voltas. Minha primeira eleição foi em 1982 e ali eu já votei em Pedro Simon, do PMDB. Cheguei a cogitar a opção por Olívio Dutra. Não pelo PT, mas pelo Olívio, mesmo, que havia conquistado minha admiração. Mas, como a apuração era em um só turno, achei melhor escolher um candidato com mais chances. Eu disse "já" porque, se eu pudesse votar em 1978, com certeza teria apoiado alguém da Arena, o partido da situação. Eu me considerava de direita na adolescência. Mas esses quatro anos entre um e outro pleito foram suficientes para mudar minha posição. A propósito, o vencedor foi Jair Soares, do PDS. Meu voto não adiantou.

A minha transformação, mesmo, aconteceu com o retorno gradual da democracia plena, ao longo da década de 1980. No segundo semestre de 1987, já casado, comecei a comprar livros de História do Brasil para recuperar o tempo perdido. O primeiro deles, casualmente, eu encontrei na saudosa Livraria Papyrus e era em inglês: "The Political System of Brazil", de Ronald M. Schneider, publicado em 1971. Depois fui descobrindo outros. "Guerra das Estrelas", de Carlos Chagas. "Brasil, de Getúlio a Castelo", de Thomas Skidmore. 'Vida e Morte da Ditadura", de Nélson Werneck Sodré. "Linha Dura no Brasil – O Governo Médici", de Daniel Drosdoff. "História Sincera da República", em quatro volumes, de Leôncio Basbaum. A coleção "Nosso Século", que era de minha mãe e ela me deu.

Outro fator importante foi ter ingressado na Faculdade de Jornalismo no mesmo ano, 1987. E lá tive aulas de História do Brasil (sob o pomposo nome de "Realidade Socioeconômica e Política Brasileira") com o ótimo professor Arnoldo Doberstein. Aqui, por uma questão de justiça, preciso fazer uma ressalva: tive excelentes professoras de História no colégio. Eu é que não estava num momento propício para a matéria. O Arnoldo me pegou com sede de aprendizado e isso ajudou bastante. Eu adorava as aulas dele. Em especial, eu gostava das "correções comentadas" que ele fazia nas provas, escrevendo bastante, orientando o aluno e demonstrando atenção e interesse pelas respostas. Que diferença dos professores que apenas assinalavam um "C" de certo, um "X" de errado e às vezes colocavam um ponto de interrogação sobre o que foi escrito. Ele deve morar perto de mim, pois seguidamente o encontro no supermercado.

Depois do voto em Pedro Simon em 1982, minha posição política passou por um período de indefinição. Eu só sabia que jamais votaria no PDS ou qualquer partido sucedâneo da antiga Arena. Nas eleições presidenciais de 1989 e 1994 eu escolhi Brizola no primeiro turno e Lula no segundo. Quando Brizola saiu do páreo, Lula ganhou meu voto cativo. Por algum tempo eu ainda tive o PMDB como segunda opção para outros cargos, até me definir pelo PT.

Meu amigo Paulo Brody faleceu em 2017, se não me engano por um problema no intestino. Mas chegamos a ter longas conversas sobre política depois da minha, digamos, "conversão". E às vezes lembro dele naquela noite no começo dos anos 1980, na fossa pela instituição do voto vinculado por Figueiredo. E de como eu achei absurdo alguém se deprimir por causa disso. Porque o que eu senti no domingo, depois do resultado da eleição, deve ter sido bem pior do que o Paulo sentiu naquela ocasião. Foi, sim, uma fossa tremenda. E fico tentando imaginar o que leva o nosso povo a preferir um candidato cujo principal plano de "governo" é anistiar criminosos (incluindo o pai dele) e estabelecer uma administração conjunta com Donald Trump. Os eleitores de direita, depois de anos se anunciando como "patriotas" e dizendo que "a nossa bandeira jamais será vermelha", adotaram como ícones a bandeira americana e a imagem do atual Presidente dos Estados Unidos. E é desolador constatar que, entre eles, há pessoas que eu quero bem. Que eu amo.

Como consolo, minha candidata Maria do Rosário se elegeu para Deputada Federal. E, em Porto Alegre, Lula, Juliana Brizola e Manuela D'Ávila tiveram maioria de votos para Presidente, Governadora e Senadora, respectivamente. Lula venceu também em Pelotas e Rio Grande.

A eleição ainda não está perdida, mas viradas de segundo turno são raríssimas. Mesmo assim, Lula e seus apoiadores têm o dever moral de encarar o segundo turno de cabeça erguida, lutando até o fim. Depois, se a derrota se confirmar, a atitude correta é: respeitar o resultado preparar a próxima campanha para daqui a quatro anos. No domingo à noite eu conversei por Whatsapp com uma amiga e ela acha que a única forma de conter o avanço do Bolsonarismo é surgir uma terceira via de centro. Pode ser. Qualquer coisa é melhor do que um governo nas mãos de um clã entreguista e irresponsável.

Paulo, onde estiveres, um abraço. Queria que estivesses aqui para conversarmos bastante sobre política. Meu sobrinho Rafael também fez falta para dar seu voto e seu apoio.

sexta-feira, outubro 02, 2026

O debate que não houve

Acho que a Globo não deveria ter sido proibida de exibir uma cadeira vazia no debate. Foi uma restrição excessiva. Mas, principalmente, porque essa prática não prejudicaria o Lula em nada. A emissora fez exatamente isso em 2006, em que Lula também não compareceu, e o resultado foi um circo patético. A câmera ficava mostrando a cadeira vazia, como se esperasse uma resposta dela. Ou como se desse a Lula a chance de aparecer ali num passe de mágica.

No fim, a Globo cancelou o debate, alegando "insegurança jurídica". A meu ver, não foi só esse o motivo. A gota d'água foi a desistência de Flávio Bolsonaro faltando apenas duas horas para o início. Que audiência teria um programa só com os candidatos sem chance de ir para o segundo turno? E uma curiosidade é que, se não tivesse havido a proibição, teriam que ser feitas perguntas também à cadeira vazia do Bolsonarinho. 

Quando Jair Bolsonaro deixou de participar de um debate, eu argumentei, no Facebook, que era um direito dele, lembrando que Lula e outros já haviam feito o mesmo. Campanha eleitoral não é como processo judicial. Os candidatos não são "réus" que precisem comparecer às "audiências" e responder às "acusações" sob pena de revelia ou confissão. Eles podem se omitir e isso não os impede de ganhar votos. O eleitor é quem decide. 

Então vamos decidir. É no domingo. Torço pelos meus candidatos, mas é inútil tentar "abrir os olhos" de quem pretende votar diferente de mim. Se conseguirmos continuar escolhendo nossos governantes e representantes e, principalmente, respeitando o resultado da eleição, já estaremos no lucro.

sexta-feira, setembro 25, 2026

Homenagem a Wilson Ney

A exposição "Memória Cantada", em homenagem ao músico gaúcho Wilson Ney, estreou no Museu da Comunicação Hipólito da Costa, em Porto Alegre, no dia 4. Ela segue até a semana que vem, mas hoje foi a última sexta-feira com show às 18 horas. Estavam anunciados os convidados Iara Lemos e Cláudio Tudinho. Ouviram-se os clássicos do compositor, como "Dou a fantasia", "Nosso caso", "Basta", "Poxa vida" e "Recomeçar". Mas a grande surpresa veio no final: após o anúncio de "Convite ao povo", que se eternizou pelo verso "povo meu, povo meu", ouviram-se tambores e surgiram quatro ritmistas da escola Imperadores do Samba (para quem "Convite ao povo" havia sido composta), com o tradicional traje vermelho e branco, para encerrar a apresentação de forma apoteótica!

quarta-feira, setembro 23, 2026

O Peter dos sebos

No dia 2 de novembro de 2004, quando este Blog ainda não tinha três meses completos, eu abri uma postagem com o seguinte parágrafo:

O ator Paulo Betti está sendo entrevistado no Jô. Quando Jô lhe perguntou sobre os melhores sebos do Brasil, fiquei aqui torcendo: "Porto Alegre... Porto Alegre..." Ele respondeu: "É difícil citar algum para não cometer injustiça, mas eu gosto muito do sebo do Peter, em Porto Alegre". Ahá! Não tem pra ninguém, Porto Alegre é a capital dos sebos de livros e de discos também!

Mais adiante eu confessava meu desconhecimento. Qual é o sebo do Peter? É Peter ou Pitter? Pois logo eu descobriria: era o Beco dos Livros. Há mais de uma livraria com esse nome, todas do mesmo proprietário. Quanto à grafia, costuma-se escrever Peter, mesmo, mas ele se chamava na verdade João Pedro Dullius.

Sim, se "chamava". Faleceu hoje. 

segunda-feira, setembro 14, 2026

Quatro visitas a um mesmo tópico

Às vezes acontece de dois ou três visitantes de lugares diferentes chegarem a um mesmo tópico do Blog praticamente ao mesmo tempo. E eu fico intrigado, imaginando o que os teria trazido a esse destino comum. Mas desta vez foram quatro de países diferentes - Noruega, Venezuela, Colômbia e Brasil -, todos visitando esta postagem aqui. Devem ter pesquisado alguma palavra ou expressão específica e caíram ali, mas em que circunstância? Curso de idiomas on-line, talvez? 
O caso mais marcante de buscas a um mesmo tópico aconteceu em dezembro de 2007, como registrei aqui: 170 internautas pesquisando o termo "abigeatário" dentro de um mesmo espaço de uma hora. A palavra deve ter aparecido em algum quiz show.
Cliquem na imagem acima para ampliá-la.

terça-feira, setembro 08, 2026

O sucesso brasileiro de Elton John

Em 1973, possivelmente em maio, eu estava circulando pela Galeria do Rosário, em Porto Alegre. Minha irmã morava no Edifício Oliveira Castro, praticamente ao lado, na Rua Vigário José Inácio, e eu ia bastante lá. Aproveitava para circular na galeria porque lá havia três lojas de discos: A Musical, mais próxima da saída (ou entrada) da Marechal Floriano, Kidiscos, mais ou menos no meio, e Discorama, perto da Vigário. Eu tinha 12 anos. 

Foi na Kidiscos que ouvi uma balada muito bonita que me cativou imediatamente. Entrei na loja e fui conferir o disco. Era um compacto duplo chamado 4 Top Hits From England, com artistas diversos. No caso, a música que me encantara era "Skyline Pigeon", com Elton John. Eu já conhecia Elton por "Rocket Man" e talvez, não tenho certeza, por "Crocodile Rock". Comprei o disco na hora. A contracapa trazia a letra, então "Skyline Pigeon" tornou-se a segunda música em inglês que memorizei em minha vida, mesmo sem entender nada. A primeira havia sido "Tell me once again", do grupo brasileiro Light Reflections, que encontrei em uma revistinha de letras. 
Mais para o final do ano, "Skyline Pigeon" estourou. Deve ter sido por sua inclusão no LP da trilha sonora internacional da novela "Carinhoso". Uma curiosidade é que, antes disso, ela tinha entrado no LP Sua Paz Mundial, da Rádio Mundial do Rio, um disco em que as faixas foram acrescidas de efeitos especiais. Como a gravadora era a mesma das novelas, a Som Livre, foi essa versão modificada que constou no álbum "Carinhoso". Eu e um amigo que também tinha comprado o compacto duplo "4 Top Hits From England" mais ou menos na mesma época nos vangloriávamos de já conhecer a canção muito antes de estourar. Talvez em Porto Alegre tenha havido um atraso nesse sucesso, já que as novelas, naquele tempo, vinham para cá com defasagem de alguns meses. 
Em 1975, o primeiro LP de Elton John, Empty Sky, de 1969, finalmente foi lançado nos Estados Unidos e no Brasil (aqui com uma capa diferente das edições inglesa e americana). E aí os brasileiros tiveram a surpresa de saber que "Skyline Pigeon" tinha sido gravada anteriormente com cravo e órgão. As notas finais mostram clara influência de Bach. Mas, investigando-se mais a fundo, descobre-se que, ainda antes de Elton, Guy Darrel havia lançado a música em single pela Pye Records e Roger Cook pela Columbia Records, ambos em 1968.
"Skyline Pigeon" só fez sucesso no Brasil e esse fato é registrado nesta página aqui do site oficial de Elton John. Originalmente, a versão com piano era o lado B do single "Daniel", gravada nas mesmas sessões do LP Don't Shoot Me, I'm Only the Piano Player, de 1973, mas deixada de fora do álbum. Aparece como faixa-bônus em alguns relançamentos em CD. Para não dizer que nunca constou em nenhuma coletânea, ela abre o terceiro CD da versão "Deluxe" da compilação Diamonds. Elton sabe dessa predileção do público brasileiro pela música e sempre a apresenta em seus shows no Brasil. Como fez ontem à noite no Rock in Rio, após anunciar: "A próxima é a primeira boa canção que compus com Bernie [Taupin] e o Brasil é o único lugar em que ela se tornou popular". Obrigado, Elton!

segunda-feira, setembro 07, 2026

Volta do CD? Não aqui.

Começaram a surgir postagens no Facebook falando em "volta do CD". Meu primeiro pensamento foi: onde? No Brasil, com certeza, não. Mas logo uma lida rápida no começo das matérias respectivas confirmou: de fato, houve um aumento de vendas nos Estados Unidos. Aí, nenhuma surpresa. Basta verificar o site da Amazon americana para ver que, lá, os CDs continuam sendo lançados e vendidos normalmente. E também formatos físicos de vídeo, como DVD, Blu-ray e uma mídia ainda mais sofisticada que os brasileiros nem sabem que existe, o disco de 4K.

Mas aqui a realidade é outra. A pandemia acelerou um processo que provavelmente era inevitável, que foi o fim da fabricação de mídias físicas em larga escala. Ainda se encontram alguns lançamentos isolados em CD, como MPB-4, projeto Casa Ramil e os trabalhos individuais da família, como de Vitor, Ian e Thiago Ramil. Houve ainda um produto criado com tanto carinho que até chegou a lembrar os bons tempos da indústria do disco: "Tesouros MPB", pelo selo do SESC, uma caixinha de quatro CDs e um livreto de capa dura de 116 páginas com letras e textos explicativos. Resgata gravações ao vivo de 1975 que estiveram guardadas por 50 anos no acervo do músico Guttemberg Guarabyra. Os artistas são Sérgio Ricardo, Jackson do Pandeiro, Maurício Tapajós, Lucinha Lins, Fafá de Belém, Sidney Miller, Ivan Lins, César Costa Filho,  Sérgio Sampaio, Walter Queiroz e Sá & Guarabyra. Em Porto Alegre, encontrei essa relíquia na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi, uma das raras lojas da capital gaúcha a oferecer lançamentos brasileiros de CDs e DVDs.

De resto, acabaram as fartas coletâneas e também a torcida por relançamentos em CD. Álbuns de músicos gaúchos que eu aguardava ansiosamente em compact disc saíram somente nas plataformas digitais. Exemplos: Hallai, Saracura, Maria Rita (não a filha da Elis), Annie Perec, o primeiro de Bebeto Alves, Terceiro Sinal de Jerônimo Jardim e vários volumes de festivais nativistas. De artistas de outros estados, cito o de 1982 do Roupa Nova, Dança dos Signos de Oswaldo Montenegro, Cartas, Canções e Palavras de Sá & Guarabyra, Eterno como Areia, Sinal de Amor e Sentimento Meu de Diana Pequeno e muitos outros. É possível comprá-los via iTunes e até gravá-los em CD-R, mas sem a mesma qualidade de um CD original feito a partir das fitas matrizes. Sem falar a ausência de encartes, com todas aquelas informações que a gente gostava de ler. Também não se fabricam mais as tradicionais caixinhas de acrílico. E os players estão desaparecendo de carros e computadores.

Em termos de vendas, o que pode estar acontecendo no Brasil é um aquecimento na procura por usados e importados. Mas isso, me desculpem, não é "volta do CD". Eu ainda tenho pelo formato o mesmo fascínio de quando ele surgiu como novidade no início dos anos 1980. E é uma pena vê-lo tão desvalorizado no Brasil, enquanto retorna o interesse por LPs que, ou custam uma fortuna (no caso de novos), ou estão cheios de chiados, estalidos e pulos.

Tragam de volta os CDs! Mas de verdade. Façam tiragens menores, se for o caso, mas não deixem de lançá-los.