Lembro bem quando ele nasceu. Eu tinha 15 anos. Minha irmã queria muito ter um segundo filho - o primeiro, Rodrigo, tinha nascido seis anos antes - e finalmente conseguiu. Encontrei num sebo um "Livro do Bebê" de Mansueto Bernardi para dar de presente a ele. Eu deveria ter sido padrinho de crisma dele. Inclusive, houve um tempo, na infância, em que ele me chamava de Dindo. Mas ele nunca se crismou. E um detalhe que ninguém da família se deu conta, na época, é que, não sendo Católico, eu jamais poderia ter cumprido essa função.
Rafael tinha duas coisas em comum comigo. Primeira: ele era quieto. O irmão dele que nasceu depois, o Ricardo, desde pequeno falava pelos cotovelos, era "vacinado com agulha de vitrola", como se dizia. Puxou à mãe. Já o Rafael puxou ao pai, caladão como ele. Mas fazia o tipo "quieto simpático". Conquistava a todos com seu carisma.
A outra característica que tínhamos em comum era o romantismo. Ele, como eu, se apaixonava e sofria por amor. Mas, nos últimos anos, estava feliz com sua companheira. Tiveram uma filha que deve estar agora com 8 anos.
Uma característica dele que definitivamente eu não tenho é o dom artístico. Minha mãe tinha. Passou para minha irmã, que passou para ele. Achei legal quando ele fez a arte da capa de um caderno da Gang, depois repetiu o desenho na primeira página com dedicatória para a irmã dele, a Renata. Em 2003 ele foi responsável pelas ilustrações do livro "Bem Feito! Quem Mandou Organizar Eventos", de Josemar Basso, padrinho dele.
Rafael formou-se em Publicidade e Propaganda pela mesma Faculdade onde cursei Jornalismo, a Famecos. E atuou na profissão. Em 2014 ele fez duas participações no programa Teledomingo, da RBS, mostrando lugares onde comer bem e barato na noite de Porto Alegre. Até pouco depois de adoecer, ele tinha sua própria empresa, a Hélice. Como ele me explicou por Whatsapp em 2020: "A gente trabalha com cultura organizacional. Muitas das estratégias nas empresas não acontecem em função da cultura. Então a gente foca na transformação através de diálogos entre os colaboradores e construção de sentido do que é proposto". Ele havia feito um pós em Psicologia e estava colocando em prática seus novos conhecimentos.
Em dezembro, no aniversário da minha irmã, estranhei que ele estava falando com dificuldade. Então ele me contou que havia sido diagnosticado com a doença do neurônio motor. É uma condição degenerativa. Mas ele parecia disposto a lutar, a não se entregar. Chegou a criar um perfil no Instagram, "O Andarilho do Labirinto", para compartilhar as suas experiências em sua nova realidade. Mas o desfecho acabou sendo mais rápido do que todos poderiam imaginar. Ele teve uma pneumonia e, talvez em razão das defesas mais baixas, não resistiu. Mesmo assim, chegou a postar uma última mensagem, sem saber que seria uma despedida: Quinta passada participei de um grupo de discussão do livro "O Cavaleiro Preso na Armadura". Depois de entrar no caminho da verdade, o Cavaleiro deve encarar o Castelo do Silêncio. Na sexta eu entrei no Castelo do Silêncio.
Quadro de pneumonia e baixa saturação de oxigênio. Fui sedado e entubado. Só me acordaram no domingo na UTI do Clínicas. Hoje faz uma semana que estou aqui.
Nada de heroísmo, força ou resiliência. Muita solidão, medo e fragilidade.
Sou privilegiado, sou cercado de muitas pessoas que me amam. Só que quando chega a noite, só sobra eu comigo mesmo. Cabeça, alma e coração em conversas que muito não me agradam.
É fácil viver, mas Deus usa roupas diferentes para cada ocasião. A vida no Castelo do Silêncio tem segundos, minutos e horas mais demoradas. E não é fácil. Eu tô cansado e fazendo pessoas sofrerem. Não tô desistindo de nada, mas não vejo beleza na luta.
Sonhei com essa música nas primeiras noites. Não é uma canção que eu escutava. Mas agora choro quando escuto.
A música, no caso, era "Bandolins", de Oswaldo Montenegro, que se ouve na postagem. Depois de ler tudo isso, lembrei que, quando ele nasceu, por sugestão de minha irmã, eu fiz um acróstico para ele. Mas nunca tinha chegado a mostrar nem para ele, nem para minha irmã, só para minha mãe. Talvez não o tenha considerado bom o suficiente. Mas achei que agora era hora de mostrar. E escrevi:
Rapaz, a vida é longa
Abraça-a sem temor
Felizes os que encontram
Ainda nela amor
E tu nos encontraste
Lembrou-te o Criador
Esse acróstico eu fiz quando tu nasceste, por sugestão da tua mãe, mas acabei não mostrando nem pra ela. Mas a mensagem dele, escrita com a singeleza do tio de 15 anos que eu era, continua pertinente. Ainda encontras o amor das pessoas que te querem bem e o Criador, tenho certeza, continua lembrando de ti.
E ele curtiu a mensagem! Pode ter sido a sua última manifestação antes de perder a consciência. Agora, olho pra trás e vejo que foi tudo muito rápido. Quem esteve ao lado dele o tempo todo na hospitalização foi o irmão Ricardo, o tagarela. Segurava a mão dele no momento da partida.
Até breve, Rafael, sobrinho querido!