sábado, abril 11, 2026

Obsolescência forçada

Eu sou do tempo em que a gente adquiria um produto e, se quisesse, usava-o enquanto ele continuasse funcionando. Fiquei mais de 20 anos com o Gol 1989 que ganhei zero de minha mãe. E, pelo visto, o Uno 2014 que comprei também zero vai pelo mesmo caminho. Já está comigo há 12 anos. Os CDs que venho colecionando desde 1989 ainda tocam perfeitamente e continuam compatíveis com os players. Idem os DVDs que comecei a comprar no ano 2000. Blu-rays, desde 2013. Minha ex-esposa esteve em meu apartamento na pandemia, com nosso filho, e sugeriu que eu comprasse uma geladeira nova, porque a minha "está muito feia". Sim, está enferrujada. Mas funciona. Só precisei mandar consertar uma vez e foi simples. O modelo supersofisticado que minha ex tem em casa faz uns barulhos estranhos de tempos em tempos.

Infelizmente, estamos cada vez mais entrando em um mundo em que não somos mais nós quem decidimos quando aposentar um produto. O fabricante nos obriga a isso. Tive que tirar de uso um scanner em perfeito funcionamento porque se tornou incompatível com o hardware e software do meu computador. Tenho vários CD-ROMs aqui e nenhum roda no meu equipamento. Mas agora, a meu ver, a situação está ficando abusiva.

Já comentei aqui de quando recebi um aviso da Microsoft me mandando providenciar um computador novo, pois eles não forneceriam mais atualizações de segurança para o Windows 10. O prazo era até outubro do ano passado. Ora, dos quatro desktops que eu já tive, este é o melhor de todos. Comprei-o em 2017. Não tenho problemas com travamentos ou falhas repentinas. Meu Dell anterior às vezes não queria ligar, eu tinha que insistir ou tentar repetidas vezes. Este é perfeito. O prazo que a Microsoft me deu já passou, mas eu seguirei usando o equipamento enquanto puder.

Há algum tempo, liguei o home theater Sony que tenho desde 2013 e fui surpreendido por um "aviso importante": "Todos os serviços de streaming e navegador de Internet serão encerrados a partir de 16 de setembro de 2025. Pedimos desculpas pela inconveniência". Eu sabia que o aparelho estava fora de linha havia tempos, mas pensei que o que já estivesse nele ficaria para sempre. Ele tinha vários serviços, mas o que eu mais usava era Netflix. Era uma beleza poder desfrutar do som 5.1 diretamente do player para as caixas. Muitas vezes, sintonizei também o YouTube. E, de repente, mais nada. Simplesmente tiraram tudo. Agora só serve para tocar CDs, DVDs, Blu-rays e pen drives, além de poder ser usado com o televisor. Tudo bem, essas foram as principais finalidades para as quais comprei o player. Mas e aqueles extras todos que eram anunciados? Foram-se.

Mas não acabou. Na semana passada, recebi um aviso de que os aparelhos Kindle lançados até 2012 inclusive não terão mais suporte. Conseguem-se ler os livros já baixados nesses dispositivos, mas, a partir de 20 de maio, não se poderão acrescentar mais títulos a eles. E, se desfizermos o registro do aparelho ou restaurarmos as configurações de fábrica, nunca mais poderemos reativá-los. A mensagem ainda termina oferecendo um desconto de 20% nos novos aparelhos Kindle. Ah, sim, muito obrigado! O modelo que comprei justamente em 2012 funciona com "e-ink", sem luz própria e totalmente operado por botões. Eu gosto assim. Tenho outro dispositivo que comprei mais tarde, mas suspeito que também pertença à geração que está sendo condenada à extinção. Pelo menos no smartphone e no computador os aplicativos não serão afetados, suponho. Já não sei mais.

Tomara que automóveis e residências jamais sejam de alguma forma integrados à Internet. Imaginem o carro parar no meio da estrada e aparecer num painel a mensagem: "Atualize o firmware!" Ou você ser obrigado a trocar de veículo porque "o provedor não dará mais suporte a tais e tais modelos". Ou receber um e-mail mandando substituir todos os aparelhos da sua casa – geladeira, fogão, freezer – porque "não serão compatíveis com o novo sistema operacional". É melhor nem dar a ideia!

sexta-feira, março 27, 2026

Discografia comentada dos Doobie Brothers

 

Os livros da série "Every album, every song – on track" são maravilhosos para colecionadores e pesquisadores porque apresentam discografias comentadas de artistas diversos. Enquanto biografias tradicionais passam batido por discos considerados menos importantes, obras como estas perpassam a trajetória de cantores e bandas sob o ponto de vista dos álbuns, dando destaque mais ou menos idêntico a todos. Então é a chance de se saber mais sobre fases obscuras de certos trabalhos. O Asia, por exemplo, teve diversas formações e acabou se desdobrando em mais de um. Os Zombies, lembrados como uma banda do final dos anos 1960, voltaram no Século XXI com os dois integrantes principais - o tecladista Rod Argent e o cantor Colin Blustone - e já lançaram quatro CDs de estúdio com músicas inéditas, fora um álbum como dupla. Todos esses detalhes estão esmiuçados nos volumes dedicados aos grupos respectivos.

Pois exatamente hoje, dia 27 de março de 2026, foi disponibilizada a versão e-book (Kindle) do tomo focalizando os Doobie Brothers, escrito por Andrew Wilde. Eu ouvia no rádio alguns sucessos deles na adolescência, como "Listen to the music", "Long train runnin'" e "What a fool believes", mas só na vida adulta vim a compreender a grandiosidade desse grupo americano. Eles começaram com um rock típico de "poeira da estrada", com o guitarrista Tom Johnstone, depois migraram para uma sonoridade totalmente diversa, refinada, com nuances de soul music, na fase com o tecladista Michael McDonald, branco de voz negra. Tiveram êxito nos dois períodos. Separaram-se em 1982, voltaram com Tom Johnstone em 1987 até que, entre idas e vindas, Michael McDonald retornou em 2021, criando uma formação que procura conciliar os dois estilos clássicos dos Doobie Brothers da primeira e da segunda metade da década de 1970. É o que se ouve no álbum mais recente, Walk this Road, de 2025, que é o último a ser resenhado neste livro.

Como o e-book chegou hoje, é claro que só tive chance de dar uma espiada rápida em suas páginas. Mas eu estava contando os dias para o lançamento e breve mergulharei no texto.  

domingo, março 22, 2026

De novo os três Ramil no palco

Foto de Betty Corrêa

No ano passado, no dia 11 de julho, Kleiton, Kledir e Vitor Ramil fizeram um show acústico no Auditório Araújo Vianna (leiam meu comentário aqui). Não foi a primeira vez que os três irmãos famosos realizaram um projeto juntos, mas dessa vez eram só eles e mais ninguém o tempo todo no palco, cantando e tocando. Ontem eles repetiram a dose no mesmo formato e repertório, só que agora a apresentação foi gravada em áudio para lançamento de um álbum (torçamos para que saia também em CD e não somente nas plataformas) e em vídeo para postagens no YouTube (saudade do tempo em que ainda se lançavam DVDs de música no Brasil).
Novamente, a biografia de Kleiton e Kledir estava disponível no balcão de vendas.
Foi também a chance de conhecer pessoalmente o amigo virtual Sidarta Martins, que veio de Sorocaba-SP para prestigiar o show. Tiramos essa foto com movimento, da qual capturei as duas imagens acima para registrar a casualidade: enquanto posávamos, um exemplar da biografia foi vendido. A vendedora pegou o próximo da pilha e o colocou em destaque.

No final, como sempre, a visita ao camarim. Mesmo antes de escrever a biografia de Kleiton e Kledir eu já tinha a honra de pertencer ao seleto grupo que eles recebem depois do show. 
Da esquerda para a direita: Sidarta, Kleiton, Betty, Patrícia, Vitor, Kledir (agachado), Angelita, Gisele, Mike (vindo de Pelotas), Mariusa (vinda de São Paulo-SP) e eu.
Hoje, domingo à noite, um grupo se reuniu no Cavanhas, para um último encontro com os que vieram de fora. À esquerda: Mike, Mariusa e Betty. À direita (começando do fundo): Gisele, Sidarta e eu. Eles me contaram que saíram com Kleiton na sexta à noite, véspera do show, e foram para o bar Cotiporã. Gisele perguntou ao gerente do local se sabia quem era "aquele ali" e ouviu como resposta: "Guilherme Arantes". Já houve uma época em que os dois eram bem parecidos. 
P.S.: Esta imagem que aparece nas "stories" de Kleiton e Kledir no Facebook e no Instagram é de encher de esperanças. Mas é mais provável que a legenda tenha sido redigida por alguém que não está habituado a comprar DVDs. Se estivesse, saberia que eles não são mais fabricados em larga escala no Brasil. Alguns selos especializados ainda lançam filmes clássicos, mas são heroicas exceções. De música, não sai mais nada. Em todo o caso, capturei a imagem. Quem sabe não possamos usá-la para "cobrar" o lançamento? Vídeo nas plataformas não é a mesma coisa, a gente não pode guardar na coleção, nem tem "extras" para apreciar. 

sábado, fevereiro 28, 2026

Amizades blogueiras

A Internet já me proporcionou muitas amizades via redes sociais, mas algumas vieram aqui do Blog, mesmo. Não muitas, mas são importantes pela qualidade e não pela quantidade. Tive oportunidade de me reencontrar com duas delas em fevereiro, então não vou deixar fechar o mês sem fazer este registro. 
Téo Bastos é português e mora em seu país natal, mas residiu por muitos anos em Porto Alegre. Daí o seu interesse pela capital gaúcha. Descobriu o Blog por postagens sobre a cidade e passou a acompanhá-lo. Um dia, em uma visita de férias ao Rio Grande do Sul, me reconheceu na praia de Capão da Canoa e acabamos fazendo contato. Pois neste ano ele veio de novo e trouxe sua esposa Clarice, daqui mesmo, mas que mora com ele há dois anos no além mar. Combinamos um café no dia 12 e depois tiramos esta foto.
José Rodrigues é três vezes colega: bancário aposentado, blogueiro e escritor. Acompanha este Blog no mínimo desde abril de 2006, pois achei no Blog dele um comentário sobre minha postagem a respeito do fechamento da saída da Galeria do Rosário pela Galeria XV de Novembro. No dia 11 de dezembro de 2016, estive no centro para buscar meu ingresso para o show dos Rolling Stones. Na volta, seguindo pela Rua da Praia, senti um dedo me cutucando. Era o José me reconhecendo das fotos que já publiquei aqui e se apresentando. E assim consolidamos a amizade. Nos encontramos no dia 19 deste mês para eu entregar a ele o exemplar do livro "1985, o Ano que Repaginou a Música Brasileira" autografado por mim, mais Juarez Fonseca, Márcio Pinheiro, Zeca Azevedo (os autores gaúchos participantes) e o organizador Célio Albuquerque. Eu tirei a foto dele, depois ele me fotografou, também.
Outra importante amizade blogueira foi com Cristina Carriconde (e, por tabela, com o Márcio, marido dela). Já estive várias vezes na casa dela em Pelotas e cometi a gafe de nunca tirarmos uma foto juntos. Essa falha vai ter que ser sanada em minha próxima visita. Além do marido, a mãe dela, Dona Neusa, também tem que aparecer junto. O que tenho para mostrar é a foto abaixo, do dia 27 de março de 2023, no Mercado de Pelotas. Cristina está sentada, Dona Neusa está de pé e Márcio está de costas, de óculos. O apoio deles na sessão de autógrafos da biografia de Kleiton e Kledir foi inestimável. Quem está de boné e camiseta branca é Gilnei Silveira, percussionista dos Almôndegas, comprando o livro. 
Como bem observou um amigo no Facebook, é uma pena que os blogs tenha perdido força. Hoje fazemos nossas postagens pelo Facebook, que é uma espécie de blog coletivo. Mas páginas como esta continuam insubstituíveis como sites de consulta permanente. Eu vou mantendo o meu, devagar e sempre, por vínculo afetivo e por incentivo de meus poucos mas fiéis leitores.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Reza retroativa

Acho que todas as pessoas que têm fé, em algum momento, já fizeram uma "reza retroativa". Mesmo que não tenham se dado conta disso. É rezar pelo desfecho favorável de algo que já aconteceu, mas a gente ainda não sabe como terminou. Se deu certo ou não. Mas a gente reza para que sim. E aí? Essa reza tem alguma chance de ser atendida, se o passado não pode ser mudado? Não faz sentido, eu sei. Mas fé é assim mesmo. A gente reza até para que alguma coisa "tenha acontecido". E agora vejo que Contardo Calligaris já falava no poder da reza retroativa em um texto de 2006 na Folha de São Paulo.

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Encontrando a mim mesmo na loja de discos

Hoje à tarde fui conversar com um jornalista de Brasília que está em Porto Alegre para fazer pesquisas para um futuro livro. Vou deixar que ele mesmo divulgue o projeto, quando chegar a hora. Ele estava em um hotel na Av. Independência. A entrevista terminou cedo e eu achei que não valia a pena voltar para casa e depois sair de novo para buscar meu filho. Eu já estava na metade do caminho. Então fui matar tempo na Toca do Disco. E na hora certa, pois eles vão entrar em férias. Acabei comprando alguns compactos e um LP, já que estou no embalo de fazer digitalizações de vinil. Mas achar o compacto duplo acima foi uma grata surpresa. Foi um reencontro comigo mesmo 50 anos depois.

Ele tem o meu nome na contracapa. E sou eu realmente, não um homônimo. Já contei a história aqui, é só clicar no link e saber mais. Eu tinha 15 anos quando ajudei Norberto de Barcellos a fazer a letra desse jingle (que foi mostrado na TV em dezembro de 1976) e 16 quando a Prefeitura de Porto Alegre editou esse disco promocional invendável (em 1977). Em lojas de discos raros e usados ele até aparece, de vez em quando. Às vezes eu nem lembro que tenho esse item no meu currículo há tanto tempo. A única outra vez em que ganhei um crédito de coautoria numa música lançada em disco (CD, no caso) foi no álbum "Canções para Leitores", de Rogério Ratner. Enfim, foi um momento de emoção. Quando pedi para olhar os compactos brasileiros, jamais imaginei que ali estaria um com meu nome. 

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Caminhadas com meu filho

A foto acima é de 8 de outubro de 2022. Foi a primeira vez em que eu e meu filho Iuri demos uma caminhada na Av. Beira-Rio, em Porto Alegre, depois da pandemia. 

Meu filho herdou minha compulsão por comida, com o agravante de não entender as consequências, por ser autista não-verbal. Não tem vaidade e come por prazer, não para matar a fome. Mas consegui fazer com que criasse gosto por caminhar. Não lembro ao certo, mas acho que não seria exagero supor que ele tinha 6 anos quando comecei a levá-lo do Menino Deus até o Centro pela Av. Beira-Rio. Certa vez um senhor chegou a perguntar a idade dele, de tão impressionado que ficou de ver uma criança pequena já fazendo uma longa caminhada com o pai. Naquele tempo, íamos no passinho dele. Já adulto, ele começou a acompanhar o meu ritmo e até me puxar, às vezes.

É claro que, no final, tem que ter um lanche. Fazemos no Rua da Praia Shopping. Antigamente saíamos de lá em direção à Dr. Flores para pegar um táxi e voltar. Até que, em certo momento, não lembro se antes ou depois da pandemia, ele começou a me puxar para o sentido contrário, indicando que também queria retornar a pé. Eu achei ótimo! Se não for muito tarde e não houver risco de anoitecer no trajeto, fazemos ida e volta. Já se sabe que exercício não emagrece tanto quanto pensam os leigos, mas no tempo em que ficamos na rua caminhando, com exceção do lanchinho, ele não fica querendo comer. E a tarde passa de forma prazerosa.

Só que, há alguns meses, não sei por que, o Iuri começou a ficar mais preguiçoso. Em certos momentos, não queria sair. Ou então saía, mas sinalizava para que fôssemos em locais próximos, geralmente o supermercado. Eu e a mãe dele estamos investigando para ver o que pode estar ocasionando essa mudança de comportamento.

Então um de meus desejos para 2026 é poder voltar a fazer essas demoradas e gostosas caminhadas com meu filho. Se ele estiver com algum problema, que seja logo sanado e ele torne a se sentir disposto para nossos longos passeios. Neste Blog, há muitas fotos dele caminhando comigo nesses 21 anos em que este site está no ar.