segunda-feira, maio 22, 2006

Sem noção

Todos conhecem a expressão "fazer-se de bobo para passar bem". É o que se diz quando alguém se finge de inocente com o objetivo de obter algum favor especial ou privilégio. Mas, depois de observar diversas situações, cheguei à conclusão de que os bobos "legítimos" ainda são maioria. Os espertos existem, mas o predomínio é de pessoas realmente sem noção, que não conhecem seus limites e acreditam ter mais direitos do que realmente possuem. Como noto a diferença? Pela reação quando não conseguem o que querem. O "bobo pra passar bem" até pode insistir, mas sabe dar-se por vencido. Sua atitude é: paciência, pelo menos tentei. Já o bobo verdadeiro fica inconformado, revolta-se feito criança mimada. Tem muita gente assim.

Há muitos anos, levei o Iuri ainda pequeno em um Pediatra que atendia em Canasvieiras. Enquanto a enfermeira cadastrava meus dados, vi um casal chegar com um nenê de colo pedindo que o médico fosse chamado na sala de espera. Eles queriam que o doutor desse uma olhada na criança "pra ver se precisava consultar". Ou seja, faltava-lhes vivência para entender que uma das finalidades da consulta é constatar ou não alguma doença e não apenas medicar. Se não houvesse nada, o dinheiro gasto valeria pela tranqüilidade – que foi exatamente o caso do meu filho. Mas não, eles queriam uma pré-consulta gratuita. O médico educadamente explicou: "ou ele consulta, ou ele não consulta". Acabou não consultando. O casal deve estar até hoje indignado com a "má vontade" do doutor.

Certa vez, fiz um curso de extensão em Análise de Sistemas em que a bibliografia era quase toda em inglês. Isso incomodava meus colegas, que não tinham bom domínio do idioma. Mas eles se safavam. Prestavam atenção nas aulas e iam bem nas provas. Mesmo assim, um dia uma professora disse que iria distribuir um material em inglês e um colega, com quem não quer nada, perguntou: "Não dava pra você traduzir pra nós antes de entregar?" Hoje a comunidade de tradutores do Orkut é regularmente invadida por gente pedindo traduções gratuitas. E ficam ofendidíssimos se não são atendidos!

Recentemente uma colega da comunidade "A Noviça Rebelde" me escreveu dizendo que estava preparando uma apresentação baseada no filme e queria que eu lhe enviasse "todas" as músicas para que escolhesse as melhores. Ora, como alguém se propõe a um projeto desses sem ter no mínimo a trilha sonora já ouvida e disponível? Por sorte achei um link onde alguém já havia postado as músicas em MP3 e o indiquei, do contrário eu teria que dizer: quem sabe você não prefere que eu lhe mande o meu CD de presente?

Um dia um colega de faculdade me contou que pediu a um vendedor de loja de discos raros que trouxesse de casa um determinado LP que ele queria olhar. E ficou revoltado porque a resposta – óbvia, diga-se de passagem – foi: "E eu vou trazer só pra você olhar?" Eu incluiria nessa turma aqueles para quem você não pode dizer que tem nada, que já querem emprestado. Enfim, é uma questão cultural. Em geral o comentário que esse pessoal suscita é o de que estão bancando os espertos. Mas eu acho que não. A maioria é "sem noção", mesmo. Fazer o quê?


P.S.: Aos que estão chegando aqui via Tecla SAP (valeu o link, Ulisses!), indico também os seguintes textos, que têm a ver com inglês ou linguagem:

A palavra que falta
Duas carnes
Eufemismos
Get a life
Inversão de valores
Objetividade verbal
Professores de inglês na berlinda
Regras para confundir
Transmitindo informações

6 Comments:

Blogger Dragonfly Sports said...

Concordo quanto à irritação dos tradutores ao pedirem para fazer traduções de graça e da consulta médica, mas não concordo com alguns outros exemplos que você mencionou, como pedir os MP3 para um amigo ou pedir um LP para ouvir.

4:39 PM  
Anonymous Renata Fonseca said...

É verdade...
algumass pessoas não se mancam.
Só acho triste porque o profissional que aceita esse tipo de 'oferta' desvaloriza a si e a sua classe.

8:58 PM  
Blogger sara said...

Cheguei por tecla SAP e virei telespectadora. Que bom te ler, cara!

3:41 PM  
Blogger sara said...

Cheguei por tecla SAP e virei telespectadora. Que bom te ler, cara!

3:42 PM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Obrigado, Sara. Volte sempre.

7:14 PM  
Blogger Cris said...

Emílio, aqui no Ceará a gente tem uma expressão bem menos educada pra dizer isso: "fingir de morto pra comer o coveiro"...rs São muito comuns, tanto o experto como o sem noção. Como todo bom cearense, se a pessoa for "amiga" eu finjo que levo na gozação e digo "mamar na vaca, vc não quer não?" Outra expressão nossa, muito antiga. Se não tenho intimidade, digo apenas q estou com muito trabalho e não tenho tempo etc. Mas de graça... não.

5:59 PM  

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