terça-feira, maio 16, 2006

São Paulo

Antigamente acreditava-se que o mundo acabava no Oceano Atlântico. Quem navegasse muito além do litoral corria o risco de despencar em uma misteriosa queda d'água até o infinito. Já nos tempos atuais é um pouco diferente. A Internet mudou a situação para melhor, mas já houve uma época em que eu encomendava livros estrangeiros em "importadoras" de Porto Alegre para depois ter a resposta: "não tinha em São Paulo." Logo, para o comércio de Porto Alegre, o mundo acaba em São Paulo. E provavelmente começa no Paraguai.

Mas não só isso. Certa vez telefonei para uma renomada assistência técnica da capital gaúcha. Expliquei que tinha um televisor Toshiba cuja imagem estava começando a falhar e perguntei se eles consertavam. Sim, consertavam. Ainda um tanto incrédulo, pedi que viessem buscar o aparelho. A partir da data prometida para entrega, fui enrolado por quase cinco dias na base do "só no final da tarde", "só amanhã pela manhã" e assim por diante, até que perguntei: "Afinal, o que está havendo?" Aí fui informado de que o meu modelo era importado e, pra consertar, "só em São Paulo". O mesmo aconteceu quando levei minha máquina fotográfica Minolta para reparos. A despeito da arrogância do gaúcho, quando percebemos que não temos competência para fazer alguma coisa, dizemos que "só em São Paulo" para resolver.

Nem é preciso dizer que fui criando um certo fascínio por essa terra abençoada em que tudo se acha e tudo se conserta. Quando finalmente conheci a cidade, entendi melhor. São Paulo é tudo isso e muito mais. É uma cidade enorme e complexa, difícil de ser imaginada por quem só viveu em Porto Alegre. Como disse um amigo que mora lá, "quando se quer ir a um show ou peça de teatro, às vezes a distância é tão longa que a gente acaba desistindo". Exatamente por isso, quando se está para ir a São Paulo, não se pode contar para ninguém. Sempre tem alguém que quer alguma coisa que "só tem em São Paulo". E pensa que é uma cidade como Porto Alegre, em que se vai a qualquer lugar em no máximo meia-hora com dez reais de táxi.

Há quem suponha que Nova York é parecida com São Paulo. Eu, que tive o privilégio de conhecer as duas metrópoles, acho-as bem diferentes. Nova York tem espaços, tem verde, tem clareiras. São Paulo, até onde a vista alcança, é só prédios e poluição. Que me perdoem os meus amigos de lá, mas é a imagem que ficou para mim. Alguns moradores concordam e sonham em um dia sair de lá. O paulistano que passa um tempo em Porto Alegre, por exemplo, se apaixona e não quer voltar mais. Já o mesmo não acontece com o carioca, que sente falta da praia e da vida noturna.

Considerando tudo isso, a barbárie que se instaurou em São Paulo desde sexta-feira ganha dimensões ainda mais incompreensíveis. Como os bandidos conseguiram dominar tão rápido uma cidade daquele porte? E como o Governador ainda pôde hesitar em aceitar ajuda do Governo Federal? O caos deixou o país inteiro em estado de alerta. Espero que meus amigos que lá residem, que não são poucos, estejam todos bem. Nesta hora é impossível o gaúcho não desejar que também pesadelos como esse ocorram "só em São Paulo".

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