domingo, janeiro 25, 2015

The book is still on the table

Uma notícia que está causando um certo frisson entre roqueiros tupiniquins (leiam clicando aqui) é a de que o produtor americano Jack Endino criticou os grupos brasileiros que cantam em inglês. Isso depois de escutar uma música do grupo paraibano The Noyzy. Ele postou uma mensagem curta e grossa no Facebook: 

"Bandas brasileiras! Por que vocês cantam em inglês? Nunca consigo entender uma palavra!"

Por mais que alguns ranjam dentes com esse recado, a verdade é que ele está apenas dizendo o óbvio. Qualquer produtor estrangeiro teria a mesma reação ao ver essa febre recorrente e inexplicável de brasileiros cantando em inglês. Porque realmente não faz sentido. As letras são cheias de erros, a pronúncia em geral é ininteligível, mas a turma insiste. Enquanto as opiniões ficam "em casa", parece que está tudo bem. Aí surge alguém de fora para colocar o dedo na ferida e pronto, ficam todos ofendidinhos. 

E nem foi o primeiro caso. Vejam esta nota publicada na Bizz de agosto de 1996:

"CANTE EM PORTUGUÊS!!!"

Palavras de Jay Ziskrout, o cara que fundou a Epitaph, a gravadora punk de LA que sacodiu o mercado fonográfico americano. Responsável também pelo estouro do Offspring, ele esteve no Brasil atrás de grupos esquisitos que cantem em português. À frente de um novo selo, o Grita!, especializado em maluquices cucarachas, Jay já contratou os espanhóis Cérebros Exprimidos e quer mais. Gente boa, o cara foi o primeiro baterista do Bad Religion, fala sem problemas sobre a ida do Offspring para a Sony. "Na verdade, oferecemos mais dinheiro do que eles, mas a banda achou que não iria ser prioridade na Epitaph e preferiu ir para a major".

Tomando aulas de português semanalmente, Jay finaliza mandando um recado com as palavras que aprendeu. "É ridículo bandas brasileiras cantando em inglês. Fenômenos como o Sepultura acontecem de dez em dez anos. Foda-se o Sepultura! Seja você mesmo!!!", diz, enfático, e dá o endereço de contato: Grita! - PO BOX 1216, Murray Station New York, NY 10156 - USA.


Na verdade eu já me incomodava com essa mania desde os anos 80. O sucesso do Sepultura criou a falsa ideia de que o mercado internacional está aberto para bandas brasileiras gravando em inglês. Aí vem um produtor estrangeiro para cá e não entende nada - em todos os sentidos da expressão. Para quem exatamente cantam esses incautos? Não dominam o idioma o suficiente para criar boas letras, cometem erros aos quilos e têm uma pronúncia horrorosa. Onde pretendem chegar? Em geral, ficam marcando passo. Mas teimam em continuar.

Em 1996, alguns meses antes de a nota acima ser publicada na Bizz, escrevi um texto sobre esse assunto para o International Magazine. Intitulava-se "The book is on the table". Talvez por não acompanhar tão de perto a cena independente, pensei que essa equivocada tendência estivesse superada. Pois agora vejo que não. E segue provocando as mesmas reações em produtores estrangeiros. Passados 19 anos, "the book is still on the table". Lamentável. 

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