segunda-feira, novembro 17, 2014

Roberto Carlos em Detalhes - Realeza exposta

Publicado originalmente no International Magazine em 2007. Este foi o texto citado pelo autor Paulo César de Araújo em seu novo livro "O Réu e o Rei". 

Depois de anos anunciando e adiando uma biografia que seria escrita por Okky de Souza, Roberto Carlos foi surpreendido por um livro não autorizado. E não uma obra qualquer: "Roberto Carlos em Detalhes" é um trabalho de fôlego, com quase 500 páginas, assinado por Paulo César de Araújo. Que o historiador baiano é um pesquisador sério e meticuloso não é novidade para quem leu o excelente "Eu Não Sou Cachorro Não", sobre música brega. O que surpreende é decisão de biografar justamente o maior cantor brasileiro, que sempre exerceu um severo controle sobre sua imagem. Roberto Carlos jamais aceitou sequer a publicação de reportagens sobre sua vida particular, que dirá um livro inteiro. A hipótese de o autor eventualmente desconhecer esse fato cai por terra diante do próprio conteúdo da biografia: ela cita a condenação sofrida pelo jornalista Ruy Castro em razão de matéria publicada na revista Status. Na coletiva para divulgação do CD+DVD "Duetos", Roberto repudiou o livro, dizendo que considera a história de sua vida "um patrimônio".

Não fosse Roberto Carlos o protagonista, a obra mereceria apenas elogios, sem causar tanta polêmica. Não há nada de desrespeitoso ou sensacionalista em suas páginas. O pecado do autor foi apenas o de biografar o rei sem pertencer à corte. E, nessa condição de plebeu, abordar assuntos reservados, como os eventos da infância do cantor que inspiraram "O Divã". Com isso, os fãs mais fiéis enfrentam um dilema. Se comprarem o livro, estarão prestigiando um lançamento que seu ídolo desaprova. Por outro lado, se o boicotarem em solidariedade ao rei, deixarão de ler um texto brilhante, cobrindo todos os aspectos da vida e obra do artista. Até agora, aparentemente, a maioria preferiu a primeira opção.

Mesmo avançando em terreno perigoso, não resta dúvida do respeito de Paulo César de Araújo para com o biografado. Por exemplo, são citados vários personagens que em algum momento privaram da intimidade do cantor, menos um: o mordomo Nichollas Mariano. O ex-empregado entrou para a lista negra de Roberto Carlos ao trair sua confiança duas vezes: a primeira ao usar uma antiga procuração para sacar dinheiro de sua conta e a segunda ao publicar um livro de memórias indiscretas em 1979. Ao omitir o nome da persona non grata, bem como os fatos que a envolveram (exceto o encontro de Roberto Carlos com Maysa, em que é mencionado apenas "o mordomo"), o escritor demonstra que está procurando ser ético. De resto, as supostas "revelações" que repercutiram de forma bombástica em outros veículos da imprensa já eram conhecidas dos fãs. Aqui mesmo, no IM, Erasmo Carlos contou de seu desentendimento com Roberto nos anos 60 em entrevista para Marcelo Fróes, depois republicada no livro "International Magazine Entrevistas".

Araújo optou por narrar a história de Roberto Carlos em capítulos temáticos. Mas não ficaram lacunas: mesmo sem ordem cronológica, o quebra-cabeças se fecha com perfeição. A vida do ídolo está toda ali, dividida em 15 partes. Cada faceta de Roberto Carlos é esmiuçada com embasamento histórico, político e social. Mas um detalhe merece questionamento: embora apresente uma extensa lista de fontes ao final, o autor não indica especificamente de onde foi obtido cada fato ou citação. Além disso, talvez por ter sido finalizado às pressas para o Natal, o livro contém alguns erros que uma revisão mais minuciosa teria evitado. O grupo argentino que acompanhou Caetano Veloso em "Alegria Alegria" se chamava Beat Boys, não Beach Boys. A banda americana que fez sucesso com "Aquarius/Let The Sunshine In" era Fifth Dimension, não Five Dimension. O autor de "Just The Way You Are" é Billy Joel, não Billy Paul. Ao descrever uma estátua feita para Roberto Carlos em Cachoeiro do Itapemirim, o que deveria ser uma "efígie" virou "esfinge". Por fim, um erro fático: o capítulo sobre Roberto Carlos e a política afirma que somente em 1992 foi revelado que a música "Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos", lançada em 1971, havia sido feita para Caetano Veloso. Não é verdade: isso já fora contado pelo próprio Roberto nos anos 70 em matéria da revista Pop*.

O grande mérito de "Roberto Carlos em Detalhes" é não apenas enumerar os fatos, mas acrescentar uma análise correta e bem informada sobre a vida do cantor. Roberto Carlos emerge como uma figura grandiosa, de talento ímpar, capaz de tocar a alma de seus ouvintes independente de raça, credo ou nível social. Mesmo que surjam outras biografias com algo a acrescentar, dificilmente superarão esta. Porém, enquanto o livro chega a 45 mil cópias vendidas, o ídolo fala em tomar medidas judiciais. Paulo César de Araújo produziu um documento extraordinário, mas pode pagar um preço por sua corajosa empreitada. 

*P.S.: A homenagem a Caetano também é citada em matéria da Veja de 1º de dezembro de 1971, quando do lançamento do LP. Ou seja: nunca foi segredo.

Leiam também: 

Diversos (incluindo um comentário rápido sobre o recolhimento do livro) 
Novos tempos
Na Feira do Livro (meu encontro com o autor)

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