segunda-feira, novembro 03, 2014

Mais uma biografia de David Bowie

Desculpem a predominância do assunto David Bowie aqui no Blog, mas eu tinha avisado que iria comentar dois livros sobre ele. Faltava este. E já estejam preparados para quando eu tiver em mãos a coletânea Nothing has Changed, que sai em breve. Escreverei a respeito, também.

Com tantas biografias já lançadas sobre o cantor, Wendy Leigh optou pela ênfase na vida pessoal do personagem. No caso de Bowie, isso rende boas fofocas. Mas a autora tocou num ponto delicado ao citar uma história nunca antes ouvida sobre um suposto interesse de Loretta Young em Bowie. Pessoas diretamente ligadas à atriz americana contestaram a alegação no site da Amazon, reputando-a totalmente caluniosa. De fato, a fonte é, no mínimo, frágil: o produtor e empresário Kim Fowley afirma ter sabido desse episódio por Elizabeth Taylor. Nem ela, nem Loretta Young estão vivas para confirmar e ainda existe a hipótese de confusão de nomes por parte de Elizabeth e do próprio Kim Fowley. Muito diz-que-diz envolvendo pessoas falecidas.

O texto tem lá seus méritos por pintar um quadro bastante convincente dos relacionamentos de Bowie com as pessoas importantes de sua carreira: seus pais, empresários, esposas, seu meio-irmão Terry, a fiel assessora Coco Schwab, o filho Duncan e os velhos amigos. Mas, para quem realmente conhece a carreira do músico, os erros são gritantes. Isso mostra que a escritora abordou o tema sem qualquer conhecimento prévio e com mínima verificação dos fatos. Senão, vejamos:

- Não foi somente em 2007 que Bowie revelou ao mundo que seu personagem Ziggy Stardust era inspirado em Vince Taylor. Já em 1976 ele falava nisso. E a citação que ela transcreve é de 1996, não de 2007, como consta. Ademais, considerando que Ziggy é um personagem fictício, nunca houve exatamente um mistério sobre sua "verdadeira identidade".

- A autora afirma que o guitarrista Mick Ronson permaneceu com Bowie por mais dois álbuns após o fim dos Spiders From Mars: Aladdin Sane e Pin Ups. Não exatamente. Em primeiro lugar, os Spiders ainda acompanhavam Bowie no primeiro disco. No caso do segundo, apenas o baterista Woody Woodmansey estava ausente, substituído pelo lendário Aysnley Dunbar.

- Scary Monsters foi lançado em 1980, não 1981.

- Não há no livro qualquer menção ao fato de que Let's Dance foi o primeiro disco de David Bowie na EMI depois de mais de dez anos na RCA. A troca de gravadora foi importante, não poderia ser omitida.

- Peter Frampton tocou com David Bowie na turnê de 1987, não na de 1983!

- Ao citar uma viagem que Bowie fez para Madri em 1990, a autora comenta que ele tinha vencido um pouco o seu medo de avião. Realmente, o cantor ficou um longo tempo sem voar a partir de 1972, mas quebrou o jejum em 1977! E atravessou o mundo via aérea nas turnês de 1983 e 1987. Nada a ver fazer essa observação com 13 anos de atraso.

- Black Tie, White Noise foi lançado em 1993, não em 1997! Ao errar a data do disco, Wendy Leigh acrescenta quatro anos de vida ao guitarrista Mick Ronson, dizendo que ele faleceu de câncer de fígado pouco depois de participar do álbum. Sim, isso aconteceu mesmo... em 1993.

Em razão dessas falhas todas, não recomendo "Bowie: The Biography" a editoras brasileiras que pensem em lançá-lo em português. Se quiserem acrescentar mais uma opção aos fãs do cantor que não entendem inglês, considero "Strange Fascination", de David Buckley, a melhor biografia já escrita de David Bowie. E eu li várias! Mais de dez, fora livros temáticos, tipo discografias comentadas ou compilações de entrevistas.

Meu comentário ao livro no site da Amazon americana está aqui, se alguém quiser conferir.

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