segunda-feira, outubro 20, 2014

Ouça o disco, leia o livro

O jornalista americano Ken Sharp já escreveu livros sobre, entre outros, Kiss (uma de suas "especialidades"), Raspberries e John Lennon. Pois agora ele mostra mais uma faceta de suas preferências musicais ao dedicar uma edição de bolso ao álbum Hunky Dory, do inglês David Bowie, lançado em 1971. O autor adota seu formato preferido para obras do gênero, que é o encadeamento de depoimentos na primeira pessoa, com raras intervenções explicativas dele próprio, em geral no começo de cada capítulo. As citações de Bowie e do guitarrista Mick Ronson, falecido em 1993, foram obtidas de fontes preexistentes. Mas Ken realizou várias entrevistas, inclusive com o baixista Trevor Bolder, que morreu no ano passado. Outros que contribuíram com suas memórias foram o pianista Rick Wakeman, o baterista Woody Woodmansey, o produtor Ken Scott, os escritores Kevin Cann e Dave Thompson, ambos pesquisadores da obra de Bowie, o jornalista Charles Shaar Murray, o executivo de gravadora Bob Grace, o empresário Ken Pitt e outros direta ou indiretamente envolvidos na criação do LP.

Por sua genialidade e diversidade musical, Bowie tem em sua discografia vários álbuns considerados clássicos. Hunky Dory é o terceiro a ganhar um livro só sobre ele - os outros dois foram The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (resenhado em 1998 por Mark Paytress na série Classic Rock Albums) e Low (focalizado em 2005 por Hugo Wilcken na coleção 33 1/3). Poderão vir outros. O que torna Hunky Dory tão especial é a presença de faixas verdadeiramente antológicas como "Changes" e "Life on Mars", essa última considerada por muitos fãs como a melhor de Bowie. O piano de Rick Wakeman tá o toque majestoso em diversos momentos. Ainda não se ouve aqui o Bowie roqueiro dos tempos de Ziggy Stardust ou Alladin Sane, exceto em "Queen Bitch", com sua influência de Lou Reed. Mas as composições revelam o brilhantismo do artista como criador de letras e melodias. Em sua irregularidade de estilos e arranjos, Hunky Dory forma um belíssimo conjunto de canções. 

O livro de Ken Sharp tem pouco mais de 100 páginas, mas vale a pena ser lido. Pode ser encomendado no site do autor.
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Eis o meu exemplar do LP. Esse disco tem uma história na minha vida. Em julho de 1974, com 13 anos de idade e sete meses como fã de David Bowie, fiz minha primeira viagem aos Estados Unidos. Contrariando a recomendação de meus pais de que comprasse apenas um disco, acabei não resistindo. Já tinha adquirido Caribou, de Elton John, por ser um lançamento recente de que nunca tinha ouvido falar. Não quis trazer o mais novo de Bowie, Diamond Dogs, porque imaginei que logo sairia no Brasil. No fim ocorreu o contrário: o álbum de Elton John em seguida foi lançado pela RGE, mas o de David Bowie ainda demorou alguns meses.

Enfim, no último ou penúltimo dia de viagem, eu e meus companheiros de quarto encontramos uma loja de discos em Lincoln Road Mall, o calçadão de Miami Beach. E ali, diante de meus olhos, apareceu o LP Hunky Dory, que eu já conhecia de nome pelas citações na revista Pop. Encontrei também The Man Who Sold The World, na reedição de capa preta da RCA. Comprei os dois. Eu sabia que ambos eram inéditos no Brasil. (Assim como Space Oddity, que, se eu tivesse visto, teria levado também. Esse meu amigo Luiz Eduardo me conseguiria quatro anos depois.) Examinando a lista de músicas, lembrei que alguém já tinha me falado em "Changes". Quando cheguei em casa, em Porto Alegre, meu irmão João Carlos, que trabalhava na Rádio Continental, comentou que conhecia principalmente "Life on Mars". Pois justamente essa haveria de se tornar a preferida de meus amigos nas chamadas "reuniões dançantes". Todos ouviam e se apaixonavam pela música. Esse disco marcou época na nossa turma. Naquele tempo era praticamente impossível encontrar discos importados em Porto Alegre. Quem trouxesse do exterior algum título inédito no Brasil realmente podia dizer que "só ele tinha".

Uma curiosidade é que, um ou dois domingos após meu retorno de viagem, estava na casa de uma amiga quando o irmão dela me falou: "Sabe quem vai aparecer no Fantástico? David Bowie! [Lembro bem que ele pronunciou 'Báui".] Quem sabe não vai cantar alguma música dos discos que tu trouxeste?" Logo descartei a hipótese. Estávamos em 1974 e os LPs que eu comprara eram originais de 1970 e 1971. Bowie já tinha lançado quatro álbuns depois. Mas, para minha surpresa... o programa apresentou exatamente "Life on Mars"! Incrível! E a música nem tinha sido lançada no Brasil! Somente em 1991 sairia uma edição nacional de Hunky Dory em vinil, com faixas-bônus! A explicação é que ela tinha sido lançada em single em 1973 no exterior e Bowie filmara um clip especialmente para promover o disquinho.
Aqui, a contracapa e o encarte do LP que eu trouxe de Miami há 40 anos. O título do LP constava de um adesivo no plástico que o lacrava e eu o mantenho guardado até hoje. Ao contrário da maioria dos LPs americanos, esse não tinha capa lustrosa. Graças às letras impressas, decorei a maioria das músicas - inclusive a complicadíssima "The Bewlay Brothers" - mesmo sem entender o que cantava.
Por fim, o vinil propriamente dito, com o clássico selo laranja da RCA. Alguns LPs eu preservo mesmo tendo comprado o relançamento respectivo em CD e aí se incluem todos os álbuns de David Bowie da RCA. Até porque, no final dos anos 80, terminou o período de propriedade da gravadora sobre as matrizes e desde então elas vêm sendo renegociadas com outros selos.

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