sábado, fevereiro 17, 2007

Aprender inglês

Na semana que passou a Zero Hora publicou uma matéria em um de seus cadernos especiais sobre como escolher o melhor curso de inglês para seu filho. Acabei nem lendo, pois já tenho opinião mais do que formada sobre o assunto. Curso de inglês é como regime alimentar: em princípio, todos dão certo se forem levados a sério. Só é preciso desconfiar de métodos revolucionários ou milagrosos, que prometem resultado sem muito esforço. De resto, o ideal é escolher o mais conceituado e nele seguir até o fim. Quando a gente fica trocando muito, é porque quer fugir do sacrifício. Sim, estou falando tanto de dietas quanto de cursos de idiomas.

Por outro lado, concordo com alguns de meus amigos quando reclamam da exigência indiscriminada de domínio de inglês para tudo. Certos empregos requerem esse conhecimento muito mais por modismo do que por necessidade. Claro que saber uma língua estrangeira é sempre uma vantagem. Mas será mesmo um requisito indispensável? Para todos os empregados? Sobre isso, existe um texto de Max Gehringer, da Revista Exame, que é perfeito. Chama-se "Você é hands-on?" Este é o trecho que nos interessa:

- Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
- In a hurry!
- Saúde.
- Não, isso quer dizer 'bem rapidinho'. É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?
- E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?

Isso mostra também como uma pessoa que sabe inglês pode ver frustrada sua expectativa de ter seu conhecimento aproveitado.

Uma área em que o inglês é considerado indispensável é computação. Qualquer analista de sistemas ou técnico em informática que quiser encarar a fundo a atividade já sabe que não poderá fugir ao idioma de Shakespeare. E mesmo assim, alguns protestam. O fato de se ter vocação para lidar com computadores não garante a mesma desenvoltura com idiomas. São aptidões diferentes. No entanto, a bibliografia de informática é toda em inglês. Ora, não seria apenas o caso de traduzir? Em princípio, sim. E cada vez mais aparecem clássicos da literatura de computação em língua portuguesa. Mas enquanto as editoras brasileiras começam a pensar no caso de lançar essa ou aquela obra, já surgem livros mais atualizados nos Estados Unidos. Sem falar a proliferação de artigos, que já era grande antes da Internet e hoje se dissemina com muito mais rapidez. Para mudar isso, seria preciso uma profunda alteração em toda a cultura do meio. Na França, por exemplo, dizem que se traduz tudo. É uma prática que vem a beneficiar tanto aos estudantes quanto aos tradutores, além de valorizar o idioma local.

O conselho que eu daria a quem não gosta de inglês mas é obrigado a aprender a língua por motivos profissionais é de que não fique ansioso. O seu colega fala com fluência enquanto você mal consegue dizer "the book is on the table"? Ótimo, você já pode responder a quem perguntar onde está o livro. Se estiver na prateleira, vá correndo pegá-lo e colocá-lo sobre a mesa antes de dar a resposta. Nem todos têm a mesma facilidade de aprender uma língua estrangeira. Eu tive sorte de nascer com queda para o inglês, mas invejo as pessoas que se mantêm naturalmente em forma sem nunca consultar um endocrinologista ou nutricionista – vide a analogia lá do primeiro parágrafo. Jamais terei corpo de manequim, mas consigo me entusiasmar com uns quilinhos perdidos. Assim também, os que possuem dificuldade com inglês provavelmente nunca serão tradutores ou professores, mas podem vir a dominar o suficiente para encarar a bibliografia com ajuda de um dicionário. Aliás, a questão do tradutor da área técnica é complicada. Quem sabe muito de inglês e pouco de informática pode se sair com um "código de origem" sem saber que o usual é "código fonte". Por outro lado, quem sabe muito de informática e pouco de inglês (ou mesmo de português) acaba inventando "resetar" (assim mesmo, com um "s" só e pronunciado "ressetar"), "customizar" e "insertar". Os dois lados precisam se entender melhor, mas chegaremos lá.

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