quarta-feira, janeiro 31, 2007

A polêmica da TV de plasma

Esse episódio dos televisores de plasma, que decepcionaram o consumidor brasileiro e provocaram uma enxurrada de devoluções, serve de lição muito mais para os compradores do que para as lojas. Sim, concordo que houve falha na divulgação das informações. As reclamações são legítimas, bem como a restituição do dinheiro aos insatisfeitos. Mas o despreparo dos vendedores é um problema antigo e crônico. Infelizmente, sempre foi assim. No entanto, existem alguns detalhes que um cliente mais esperto deveria perceber.

Desde que comecei a ver as primeiras televisões de tela larga ("widescreen") nas vitrines, já torci o nariz. Qual a vantagem? A programação da TV é na proporção 4x3. Quando os DVDs lançam os filmes com barras pretas em cima e em baixo, é para preservar a imagem original do cinema, sem perder nada nas laterais. Isso, aliás, é outro aspecto que confunde até quem deveria entender do assunto, como dono de locadora, por exemplo. Alguns filmes foram lançados assim em VHS, como "O Lawrence das Arábias" e "A Cor Púrpura". Um dia, para fazer um teste, perguntei a um casal proprietário de uma locadora o porquê desse recurso. O marido respondeu: "Eles dizem que é para manter a nitidez da imagem." Já a esposa perguntou se eu tinha visto "A Cor Púrpura" no cinema e se lá "estava assim também".

Quando começaram a aparecer as primeiras matérias sobre TV de tela larga em publicações especializadas, já se sabia que haveria uma incompatibilidade com a programação atual. Não era preciso ser nenhum gênio da lâmpada para prever. Não há como encaixar um retângulo em um quadrado ou vice-versa sem sacrifício de um ou desperdício de outro. Aliás, isso me lembra alguns colegas de faculdade que, na aula de fotografia, reclamavam que não conseguiam enquadrar a projeção do negativo no papel fotográfico. "Quando acerta a largura, passa da altura!" Outra questão importante é que proporção não tem nada a ver com tamanho. Nos cinemas IMAX, por exemplo, a tela é enorme, mas é um retângulo vertical, ou seja, mais alto do que largo. Certa vez li um artigo que me convenceu de que não haveria nenhuma vantagem em trocar o padrão de TV e vídeo para "widescreen". Mas era uma voz solitária na multidão.

Pois os precipitados compradores de TV a plasma descobriram na prática o que poderiam ter concluído pela lógica: uma tela mais larga não vai expandir a imagem da programação normal. A proporção da imagem hoje transmitida continua a mesma. Logo, só existem três opções: barras pretas nas laterais para não haver deformidade, "zoom" na imagem com perda em cima e em baixo (isso eu não sei se as TVs de plasma conseguem fazer) ou alargamento da imagem com conseqüente achatamento. Cliquem aqui para ler uma matéria em que um empresário assistiu a um vídeo dessa forma e comentou: "Nossa, como minha sobrinha está gorda!" Era apenas o efeito da tela.

Outro fator que está causando polêmica é a qualidade da imagem. Aquelas belas paisagens naturais que as lojas usam para demonstração vêm de um aparelho especial acoplado ao televisor. Não chega a ser propaganda enganosa porque a nitidez é real e uma TV comum não obteria aquela definição tão perfeita. Mas é claro que televisor nenhum consegue melhorar uma imagem convencional recebida por antena. Se alguém achou que enxergaria as novelas da Globo com aquele visual de cinema, sem dúvida, foi muito ingênuo. Por outro lado, não sei também o que os vendedores disseram. Alguns falam tudo o que o cliente espera ouvir.

Por fim, desde que surgiram os chamados protetores de tela para monitor de PC, já se sabe que não é recomendável deixar uma imagem parada por muito tempo em uma tela eletrônica. A tendência é os contornos ficarem marcados e visíveis, principalmente quando o vídeo é desligado. Nunca usei TV de plasma (e estou longe disso, para falar a verdade, pois estou satisfeito com meu atual televisor de 20 polegadas – meu sonho de consumo é um "home theater”), mas segundo consta, ela é ainda mais sensível a imagens fixas. E se a a tela não é integralmente ocupada em todos os momentos, é claro que os espaços ociosos ficarão com um sombreamento diferenciado em relação ao restante. Esse é um problema que eu mesmo só descobriria na prática.

Então esse episódio serve de lição para todos: vendedores, compradores e até os jornalistas especializados. Sempre houve muita desinformação, mas antes não chegava a comprometer. Quem comprou vidoedisco, por exemplo, não se importava em saber que a imagem não era digital, apesar do que insistia em dizer a revista Vídeo News. Mesmo assim, o formato não pegou, e eu me pergunto o quanto de culpa têm nisso as lojas que exibiam o aparelho sem som, quando o maior trunfo do formato era justamente a qualidade de áudio. Com a TV de plasma, tentou-se vender um produto especializado e com especificações técnicas avançadas para o consumidor casual, embora de alto poder aquisitivo. Houve o choque de expectativas. Então vamos sacudir a poeira e aproveitar todos nós para aprender um pouco mais sobre as novas tecnologias antes de sair anunciando e cobiçando o que ainda não conhecemos bem.

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