quarta-feira, fevereiro 01, 2017

A farofa progressiva do Asia

Texto publicado originalmente no International Magazine, em 2008, por ocasião do lançamento do DVD "Fantasia - Live in Tokyo", do Asia. Quando eu o escrevi, havia acabado de ler a biografia oficial do grupo, "The Heat Goes On", de David Gallant. Republico agora como homenagem a John Wetton.

A volta do Asia com a formação original passou pelo Brasil em março de 2007. Mas alguns dias antes, no mesmo mês, o grupo se apresentou no continente que lhe dá o nome. Agora é a chance de levar para casa o DVD de um desses shows. Aliás, essa foi a primeira vez em que o quarteto se apresentou no Japão com John Wetton, Steve Howe, Geoffrey Downes e Carl Palmer. Em 1983, o grupo tocou lá com Greg Lake substituindo John Wetton. Ambos têm voz parecida e já haviam passado pelo King Crimson. A idéia era Lake permanecer no grupo, o que poderia ter sido interessante. Eu, particularmente, acho que ele é melhor compositor do que todos os demais integrantes de todas as formações do Asia. Mas Wetton logo voltaria, ainda que para apenas mais um LP.

Mas iniciemos do começo. O Asia estourou em 1982 com o álbum mais vendido daquele ano. Músicas como "Heat of The Moment" e "Only Time Will Tell" tocavam direto no rádio, ao lado de outros sucessos como "Waiting For a Girl Like You" do Foreigner, "Trouble" de Lindsay Buckingham, "Young Turks" e "Tonight I'm Yours" de Rod Stewart e a romântica "Endless Love" de Diana Ross e Lionel Richie. A banda na verdade surgiu como um casamento arranjado, um encontro maquinado por um executivo da Geffen Records, John Kalodner. Foi ele quem uniu John Wetton, que vinha de grupos como King Crimson, Roxy Music e UK, com o guitarrista Steve Howe, do recém desfeito Yes. Depois de ensaiarem com o baterista Simon Phillips, acabaram convidando Carl Palmer, de Emerson, Lake & Palmer. Este, por sua vez, sugeriu que acrescentassem um tecladista. Steve Howe indicou Geoffrey Downes, o ex-Buggles que havia integrado o Yes por um disco apenas, "Drama", em 1979. E assim formou-se a banda que adotaria o nome de Asia. Pensaram em incluir um segundo vocalista – Trevor Rabin, que entraria para o novo Yes em 1983, chegou a fazer um teste – mas fecharam mesmo no quarteto.

Ao chamar Geoffrey Downes para o grupo, Steve Howe adicionou um ingrediente importante na fórmula, mas que viria a eclipsá-lo. Downes e Wetton sentiram-se à vontade compondo juntos e viriam a criar os maiores sucessos do Asia. O resultado é que, quando chegou o momento de gravar o segundo LP, não sobrou espaço para as composições mais complexas de Howe. Apesar da curiosidade que despertava na imprensa por ser um "supergrupo", com ex-integrantes de lendárias bandas de rock progressivo, o Asia se destacava mesmo por suas músicas acessíveis e radiofônicas. A crítica desdenhava, mas com o sucesso do primeiro disco, quem haveria de culpá-los? Depois da crise que afastou Wetton temporariamente para a entrada de Greg Lake (que teve sua rápida passagem eternizada no vídeo "Asia in Asia", ainda não relançado em DVD), o relacionamento entre os integrantes ficou abalado. Seguiu-se um longo período em que apenas Geoffrey Downes participou de todas as formações. O grupo teve diversos guitarristas e, na maior parte do tempo, o vocal do baixista John Payne.

Mas a volta da formação original vinha sendo amadurecida. Acabou acontecendo em 2007, nos 25 anos do primeiro disco. Neste DVD, além dos sucessos obrigatórios, incluindo versões mais despojadas de "Don't Cry", "The Smile Has Left Your Eyes" e o lado B de compacto "Ride Easy", o Asia apresenta uma música de cada ex-banda de seus membros. John Wetton até que não faz feio cantando "Roundabout", do Yes, "Video Killed The Radio Star" dos Buggles e, claro, "In The Court of Crimson King", do seu próprio ex-grupo King Crimson. Mas é na instrumental "Fanfare For the Common Man", do repertório do Emerson, Lake & Palmer, que os músicos realmente se soltam, com destaque para o guitarrista Steve Howe. O mais irônico é que o Asia talvez seja o pior grupo pelo qual cada um de seus integrantes já passou. Até mesmo os obscuros Buggles de Geoffrey Downes, com seu estilo new wave, deixaram um gosto de "quero mais" após apenas dois álbuns. O que dizer então de Yes, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer. Mas o rock farofa com tempero progressivo do Asia tem seu valor e sem dúvida deixou saudade. Steve Howe é hoje um velhinho de cabelos brancos, John Wetton engordou, Carl Palmer continua forte apesar das rugas e Geoffrey Downes, talvez por ser o mais jovem, é o que melhor resistiu ao tempo. Mas quando os quatro se juntam, ainda sai um caldo. E a gente volta no tempo, cantando junto em "Heat of The Moment": "And now you find yourself in '82..."

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Emílio, estive lendo o seu texto sobre o ASIA. Sou fã da banda há muito tempo e coleciono CDs, DVDs, biografia etc. Eu gosto muito da fase com Wetton, mas eu prefiro a fase com John Payne. Os cds Archiva 1 e 2, Aqua, Aria (pra mim o mais "rock"), Silent Nation, Aura e outros são excelentes. Em toda resenha/análise que eu leio estes CDs não são mencionados. Não entendo o motivo. John Payne seria um vocalista ruim? Estes CDs seriam ruins? Não acredito em nenhuma destas coisas...

Poderia comentar sobre a fase PAYNE?

Agradeço.
Dirceu.

9:23 AM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Eu teria que ouvir novamente os CDs da fase Payne (os que eu tenho - me faltam alguns) para opinar. Sempre existe preconceito com formações atípicas, em especial aquelas em que o vocalista é que não é o mais conhecido. Aquele velho papo de "Não existe [GRUPO TAL] sem [CANTOR TAL]." Às vezes as pessoas nem ouvem direito o disco e já prejulgam só porque não é a formação clássica. Adoro o Yes com Trevor Horn e acho que sou um dos raros fãs de todos os discos dos Secos e Molhados, não só os que têm Ney Matogrosso. Mas sou exceção.

9:24 PM  

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