quarta-feira, abril 01, 2015

O adeus de Cynthia

Não, infelizmente não é trote de 1º de abril: faleceu hoje, de câncer, aos 75 anos, Cynthia, primeira esposa de John Lennon e mãe do músico Julian Lennon. Ela foi a única mulher a se casar com um Beatle antes da fama e pagou um preço por isso. Foi o caso típico da menina recatada que se apaixonou por um garoto com fama de grosseiro e mulherengo. O matrimônio só aconteceu porque ela engravidou. E, no começo da fama dos Beatles, foi mantido em segredo. Mas não por muito tempo. Quando se soube que Lennon era o "Beatle casado", tentou-se vender a ideia da união tradicional. Vejam por exemplo as imagens desta história em quadrinhos:
A cena verdadeira foi desenhada pela própria Cynthia e publicada em seus dois livros, "A Twist of Lennon" e "John". A cerimônia foi num cartório, apenas com os padrinhos, além de Paul e George. Do lado de fora, o ruído de uma britadeira abafava os votos do casal:

Na segunda das duas autobiografias citadas, Cynthia tenta desfazer a imagem de "mulher desprezada" que se perpetuou nos anais da cultura Beatle. Ela fala do carinho com que John a tratava durante o namoro e os primeiros anos de casamento. Mas ela desmente a versão de que, sem a chegada inesperada de Julian, John nunca a teria desposado. Isso realmente é estranho, pois foi ela própria quem fez essa afirmação para Hunter Davies, que a publicou na biografia oficial lançada no Brasil com o título de "A Vida dos Beatles", em 1968. Em uma das reedições, Davies afirma que a declaração de Cynthia quase chegou a ser cortada da edição final, mas acabou entrando. Enfim, Cynthia tenta mostrar o lado romântico e atencioso de John e atribui sua mudança de comportamento às drogas. Foi a partir do momento em que começou a usar LSD que o guitarrista dos Beatles "saiu do ar" e passou a ignorá-la. Ela até mesmo tentou aderir ao ácido lisérgico para aproximar-se do marido, mas não conseguiu. 

Cynthia era uma menina conservadora e bem comportada da cidade de Hoylake, a oeste de Liverpool, e não teve pique para acompanhar a ascensão de John à condição de músico famoso. Quando o círculo de amizades do marido passou a incluir mulheres bonitas e famosas, ela sentiu-se insegura e fez plástica no nariz. Mas era tarde: John já estava envolvido com Yoko. Antes disso, uma passagem marcante para ela foi quando não conseguiu embarcar no trem que levaria os Beatles e o Maharishi para Bangor, em 1967. Um segurança não a reconheceu e tentou barrá-la. Cynthia começou a chorar, mas não pelo fato em si. "Eu estava chorando porque o incidente parecia simbólico do que estava acontecendo com meu casamento. John estava no trem, acelerando para o futuro, e eu ficava para trás".

O carinho da "família Beatle" para com Cynthia ficou evidente no momento da separação. Paul, então o único Beatle solteiro, numa tentativa de consolá-la, foi ao seu encontro e lhe deu uma rosa, dizendo: "Que tal, Cyn, nós dois casarmos agora?" Foi nessa ocasião que o baixista se inspirou para compor "Hey Jude". O título original era "Hey Jules", numa referência ao filho Julian. Os versos da canção tentavam dar uma força para o menino num momento de crise.

Apesar do preconceito, antes tarde do que nunca, Yoko veio a conquistar o respeito dos fãs de John. Ela era a mulher com quem o Beatle tinha sintonia em todos os níveis, inclusive intelectual. Mas os Beatlemaníacos nunca perderam o afeto por Cynthia, a mocinha tímida e bem educada que amou o garoto rebelde e atormentado. Ela própria admite, em seu segundo livro, que se soubesse o que iria enfrentar, não teria dado o passo. São os preços que se pagam por seguir o coração. Descanse em paz, Cyn!

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