sexta-feira, dezembro 05, 2014

Ruído na comunicação

No começo dos anos 80, a Atlântida FM, de Porto Alegre, tinha um programa chamado “Atlântida dá o recado pra ti.” Ia ao ar das 10 às 11 da noite, se bem lembro. A gente telefonava para a rádio e mandava um recado que depois o locutor lia no ar. Uma amiga minha comentou que sempre ouvia a emissora naquele horário. Um dia, fiz uma surpresa para ela: mandei-lhe uma mensagem! E na semana seguinte outra. Depois disso, começamos a namorar. E segui me comunicando com ela via Atlântida de tempos em tempos, pois a prática já havia se tornado um ritual entre nós.
Um belo dia, o namoro terminou. Mas eu queria continuar. Ainda gostava muito dela. Então, tive uma ideia. Mesmo num momento complicado, ao menos para mim, tentei ser original e demonstrar senso de humor. Liguei para a rádio e ditei o seguinte recado:
 
Se você pensa que eu vou voltar correndo e, de joelhos, pedir clemência, está muito enganada! Eu vou voltar a 60 quilômetros por hora e pedir clemência sentado.
 
Meio ridículo, né? Muito, na verdade. Deem um desconto, eu era um jovem inocente de 20 e poucos anos vivendo uma espécie de adolescência tardia. Tentava descontrair o clima e apaziguar os ânimos. Só que, para meu absoluto constrangimento, o locutor leu a primeira frase, depois entremeou comentários improvisados, dando a entender que a mensagem estava encerrada. Só então ele falou a segunda parte, mas aí era tarde. A conexão entre as duas afirmações estava desfeita. A destinatária nem devia estar mais prestando atenção. Somente o trecho agressivo havia sido comunicado de forma eficaz.
 
Não reatamos o namoro, apesar de minhas insistências durante todo o restante daquele ano. Nosso último diálogo mais tenso aconteceu num barzinho da Plínio Brasil Milano cujo nome nem recordo mais. Só lembro do Hique Gomez, então um cantor da noite, providenciando o fundo musical com “Seduzir”, de Djavan. Mas um consolo eu tive. Ela veio a compreender a intenção do meu recado. Não adiantou nada, mas ao menos eu consegui me explicar. Porque, sim, ela tinha entendido mal, como eu previra. Culpa do locutor, que não leu as duas frases em sequência.
 
Esse episódio me veio à memória em razão da gafe ocorrida ontem em uma campanha publicitária para uso de camisinha nas relações sexuais. Certa agência teve a brilhante ideia de apresentar três outdoors em ordem com as seguintes frases: 1 – “Botar camisinha corta o clima.” 2 – “E eu tenho cara de canal do tempo?” 3 – “Camisinha. Não tem desculpa pra não usar.” Dizem que somente o primeiro anúncio foi postado em uma rua de Porto Alegre e logo foi amplamente divulgado na Internet. Ficou parecendo que o objetivo era exatamente o contrário: desestimular o uso de preservativo. Mas mesmo que os anúncios estivessem corretamente dispostos, eu me pergunto: todos iriam ler os três dizeres? 
 
Nesta época de pressa, instantaneidade e imediatismo, é preciso ter cuidado redobrado com certas mensagens que se pretendem passar. No caso de um comercial, os telespectadores já estão condicionados a prestar atenção por 30 segundos. E os bons publicitários sabem criar suspense e atrair o interesse de seu público-alvo. Mas no caso de texto, é preciso avaliar bem. Em minhas comunidades do Orkut, eu sempre colocava os alertas no começo da apresentação. Se estivessem ao final ou mesmo no meio, nem todos tomariam conhecimento. E outdoor é feito para ser lido “de passagem”. Não é o meio ideal para uma comunicação mais longa, com princípio, meio e fim, como foi o caso. Ainda mais considerando que, dependendo do sentido em que se trafega, os cartazes podem ser vistos fora de ordem.
 
Espero que tenham lido tudo!

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