segunda-feira, abril 14, 2014

Paul Stanley não poupa nem a Gene Simmons

Paul Stanley era o único dos quatro integrantes originais do Kiss que ainda não havia publicado sua autobiografia. Em "Face the Music – a Life Exposed", o "Garoto Estrela" do grupo mostra-se o mais sensato e bem resolvido de todos. É ele mesmo quem narra a gravação do audiobook, com excelente dicção. Pela primeira vez ele se abre sobre o trauma de infância que enfrentou em razão de uma doença congênita chamada microtia. Em outras palavras, o bebê Stanley Einsen (seu verdadeiro nome) nasceu surdo do ouvido direito e sem a respectiva orelha. E teve que suportar a zombaria das outras crianças no colégio, que o chamavam de "Stanley, o mostro de uma orelha só". A moda dos cabelos compridos o ajudou a esconder a deformidade, mas não lhe curou do complexo. Quando o Kiss adotou cabelos mais curtos em 1981, Paul usou um lenço ao redor da cabeça. Até que, algum tempo depois, seu terapeuta lhe indicou um cirurgião que poderia reconstruir sua orelha a partir de cartilagem removida da caixa torácica. E assim, com mais de 30 anos, Paul livrou-se da anomalia que tanto o atormentara.

As críticas que ele faz ao comportamento errático dos "bad boys" Ace Frehley e Peter Criss, os membros originais que acabaram saindo, não devem surpreender os fãs mais atentos. Já se ouviram muitas histórias de que Ace era preguiçoso no começo da carreira, recusando-se a carregar equipamento, e que depois as drogas o tornaram instável e indisciplinado. Tampouco é novidade que Peter tinha limitações como baterista e também veio a se detonar com substâncias ilegais. Justiça se faça, Paul até reconhece os momentos em que Peter se mostrava uma boa companhia, como quando foi vê-lo na apresentação da peça "O Fantasma da Ópera", em que o guitarrista viveu o papel principal em 1998 e 99 (e se identificou com a deformidade facial do personagem). Também concede que Ace Frehley, o "Spaceman" da guitarra solo, "tinha talento para ser tão bom quanto pensava que era". E acrescenta: "O potencial estava ali para que ele se tornasse um dos maiores de todos os tempos. Mas a bebida, o Valium, a coca e o que mais fosse lhe deixavam incapacitado quase o tempo todo".
 
O que surpreende é que nem o fiel Gene Simmons é poupado das farpas! Ele e Paul fizeram parte de todas as formações do Kiss e comandam o grupo. As afinidades são muitas: ambos judeus, os dois com infâncias problemáticas, apaixonados por mulheres e rock and roll. O sucesso funcionou para eles como uma catarse. Mas Paul não perdoa o caráter egocêntrico do colega. Afirma que Gene dizia "eu" nas entrevistas em situações que o certo seria "nós". Não deixa barato o período nos anos 80 em que o baixista parecia mais preocupado com seus filmes do que com os discos da banda. Acusa-o de usar o logotipo e a imagem do Kiss em projetos pessoais. Por fim, tenta desfazer o mito de que Gene seria o maior responsável pelos negócios do conjunto, enquanto Paul ficava com a parte musical. "Ele não era nenhum gênio de marketing. Ele apenas assumia o crédito pelas coisas. (...) Estrategista calculado? Com certeza. Gênio? Não." 
 
Um boato que de tempos em tempos mexe com a curiosidade dos fãs é sobre a sexualidade de Paul. Já houve insinuações em livros e entrevistas maldosas de fãs. O músico não aborda os rumores diretamente, mas aproveita duas passagens para deixar claro de que lado ele está. Ele comenta que Neil Bogart, da gravadora Casablanca, sugeriu que ele mudasse a maquiagem, porque a máscara da estrela solitária era muito "afeminada". E argumenta: "Eu tinha orgulho de ser o Starchild e não via como o que eu fazia podia ter qualquer ligação com minha sexualidade, ou como era percebida. (...) Neil estava certo sobre como meu personagem poderia ser interpretado. Só que eu não me importava." Mas o recado inequívoco aparece quando ele comenta o texto de apresentação que redigiu para a capa do álbum Alive!: "... escrevi minha nota sem torná-la específica para um gênero. (...) Eu considerava um elogio ser atraente para qualquer um e para todos, ser procurado e imitado pelas pessoas independente de gênero ou orientação sexual. Nunca senti que fosse uma ameaça a meu senso de masculinidade ou identidade. Se eu fosse gay, certamente não seria algo que eu iria esconder ou de que teria vergonha, mas não sou." E termina o capítulo respectivo com uma historinha. Uma fã lhe falou em plena cama: "Meu namorado disse que você é gay." E Paul respondeu a ela que não adiantou, pois não a impediu de se aproximar dele.
 
Talvez por vir de uma família perturbada, com pais que tinham dificuldade de entendê-lo e uma irmã com problemas mentais, Paul ansiava por um lar. Belas mulheres não lhe faltavam: enquanto garotos colecionavam pôsteres de revistas masculinas, o músico levava as próprias modelos para sua alcova. Seu primeiro relacionamento mais significativo foi com a atriz Donna Dixon. O romance acabou de forma turbulenta, mas o guitarrista não desistiu de sua busca. Disposto a se casar, acabou elegendo Pam Bowen, outra atriz, para ser sua esposa. Da união nasceu seu primeiro filho Evan. Mas a moça não parecia valorizar as atitudes românticas do marido. Chegava a colocar defeitos nos presentes caros que recebia. Não podia dar certo. Foi na advogada Erin Sutton que Paul encontrou a companheira ideal. Com ela, Paul teve mais um menino e duas garotas. Hoje ele curte a vida familiar, cozinhando e cuidando do jardim na companhia dos filhos. 
 
Sobre a morte do baterista Eric Carr, Paul dá sua versão. Ele diz que ficou surpreso com a animosidade que existia para com ele e Gene no velório. "Aconteceu que Eric nos tinha pintado como vilões – ele disse que nós o chutamos da banda e não lhe demos apoio, o que não era verdade." Como explicou um pouco antes, a intenção era apenas dar ao músico tempo e tranquilidade para que se recuperasse do câncer. Mas finalmente conclui: "Foi um erro afastar Eric do que ele mais amava, do que era para ele uma corda de salvação. KISS." No último capítulo, Paul diz que o grupo poderá prosseguir sem ele em algum momento: "...eu não sou imortal - a banda é." Mais adiante: "As causas continuam. Os partidos políticos continuam sem seus fundadores. Eu acho que pode surgir alguém que poderá carregar a bandeira tão bem quanto ou até melhor – alguém que possa construir sobre a fundação. Eu aguardo o dia em que serei substituído no Kiss. Não porque eu queira sair, mas porque isso irá provar que eu estou certo: o Kiss é maior do que qualquer de seus membros."

(Para ler meu comentário sobre a autobiografia de Peter Criss, clique aqui.)
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Ao mesmo tempo em que o livro de Paul Stanley chega às livrarias americanas, o Kiss vive um momento duplamente histórico: finalmente entram para o Rock and Roll Hall of Fame. No embalo do evento, outro tabu é superado: em 40 anos de carreira, a banda pela primeira vez adorna a capa da Rolling Stone americana. Sempre existiu um preconceito muito forte contra o grupo junto aos críticos mais xiitas, que não reconheciam a legitimidade do Kiss como banda de rock. A maquiagem e o merchandising (merendeiras, bonecos, jogos, máquinas de fliperama, etc.) pareciam conspirar contra a imagem do quarteto. Pois desta vez não só os quatro membros originais aparecem na fachada da revista, como são também entrevistados. Gene ainda não havia lido a autobiografia de Paul, mas confirmou todas as críticas que o jornalista lhe transmitiu, numa espécie de "acareação". "Culpado da acusação", era o que o baixista repetia a cada alegação. A matéria pode ser lida aqui.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Sabia que a vida do Stanley não havia sido fácil, mas pelo jeito foi pior do que imaginava.

Esse cara é f*da.

7:57 PM  
Anonymous Laercio B. said...

Vi e ouvi Paul Stanley em 2009 em SP. Em 2013 uma das músicas do Kiss foi performada em meu casamento. O timbre de voz de Paul sempre foi marca registrada. Excelente !!

10:51 PM  

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