quinta-feira, abril 10, 2014

A música de 1973

No momento em que teclo estes caracteres, está acontecendo no Rio de Janeiro um bate-papo com alguns autores do livro "1973, o Ano que Reinventou a MPB". Eu, infelizmente, não pude comparecer. Mas aproveito para escrever sobre a música daquele ano, como prometi que faria. 

Célio Albuquerque, o organizador da obra, deve estar feliz porque a crítica em geral endossou a tese dele. Em especial Nélson Motta, numa matéria de cinco minutos na Rede Globo, comprou a ideia de que 1973 foi um ano especialíssimo para a música brasileira. Eu, no caso, nunca tinha tido essa percepção especificamente sobre a MPB. Meu fetiche pelo ano de 1973 se estendia a todo o universo musical, em especial os lançamentos da Inglaterra, Estados Unidos e, em alguns casos, também o Brasil. Tanto que, em 2002, criei uma lista no site da Amazon só com discos daquele ano (vejam aqui).

Mesmo hoje, em 2014, continuo achando que 1973 foi o melhor ano para a música depois da década de 60 (imbatível com seus Beatles, Mutantes e tantos outros). Por que teria sido? Admito que a minha idade, na época, influiu bastante (mais sobre isso adiante). Mas qual seria a razão para justamente em 73 terem saído tantas obras primas? Nem sempre uma virada de década implica fim de um ciclo e começo de outro. Mas, no caso da transição dos anos 60 para 70, eu diria que isso aconteceu. Principalmente porque foi marcada pelo fim dos Beatles. Do lado americano, separaram-se também Simon & Garfunkel. E uma série de outros eventos funcionando como divisores de rios.

Logo, houve um recomeço. Um reinício de criatividade que atingiu seu clímax justamente em 73. Também deve-se levar em conta as más influências que ainda não haviam chegado. Hoje eu até curto os clássicos da disco music, mas não se pode negar que a febre da discoteca teve o efeito colateral de contaminar o trabalho de certos músicos. Ou de padronizar a música "dançante", roubando sua diversidade. Em 73, isso ainda não tinha ocorrido. 

Vários de meus discos preferidos de todos os tempos são de 1973. Senão, vejamos:

Alladin Sane - David Bowie - O álbum que me tornou fã dele.

Dark Side of the Moon - Pink Floyd - Clássico unânime que dispensa comentários.

Billion Dollar Babies - Alice Cooper - Grande produção do que era, na época, uma banda.

Don't Shoot Me, I'm Only the Piano Player e Goodbye Yellow Brick Road - Elton John - Na primeira metade dos anos 70 era supercomum um artista soltar dois álbuns por ano. Pois Elton John lançou justamente os seus dois melhores em 73.

Tubular Bells - Mike Oldfield - Álbum de estreia do "mago dos overdubs" que acabou ganhando uma vitrine especialíssima em "O Exorcista" (embora não tenha sido composto para o filme). Clássico do rock progressivo.

Selling England by The Pound - Genesis - A banda em sua formação clássica grava um de seus trabalhos mais fortes e cativantes. É aqui que se ouvem as belíssimas "I Know What I Like" e "Firth of Fifth".

Innervisions - Stevie Wonder - A lenda da soul music vinha numa sucessão de álbuns cada vez melhores e chegou ao ápice neste LP.

Diana Ross & Marvin Gaye - Marvin Gaye já havia lançado outros álbuns em dueto com cantoras da Motown, mas neste os dois estavam num ótimo momento. E assim foram gravados clássicos como "You Are Everything", "My Mistake" e "Stop, Look, Listen". 

Band on the Run - Wings - Dois ex-Beatles lançariam seus melhores álbuns em 73. Este é o de Paul McCartney.

Ringo - Ringo Starr - Depois de dois álbuns temáticos - um de country music, o outro com standards do cancioneiro americano - Ringo finalmente estende para um LP a fórmula pop que já havia experimentado em diversos singles. Com produção de Richard Perry e uma pequena ajuda de seus amigos (entre eles os outros três ex-Beatles), o resultado é fabuloso.

Mind Games - John Lennon - Não é considerado o melhor disco de John pela crítica em geral, mas é o meu preferido!

Life in a Tin Can - Bee Gees - Está longe de ser o melhor álbum dos irmãos Gibb, mas também não merecia ter passado despercebido, como aconteceu. Em apenas oito faixas, Barry, Robin e Maurice capricham num elegante som acústico com influência de country music. Se tivessem escolhido a pungente "Method to My Madness" para ser a música de trabalho (em vez da bem menos impactante "Saw a New Morning"), talvez o resultado fosse outro.

Now and Then - Carpenters - O álbum que me fez descobrir a dupla Richard e Karen. Um disco bonito e alegre.

Freedom for the Stallion - Hues Corporation - Um momento sublime da vertente mais doce da "soul music" que surgiria no começo dos anos 70. O disco é lembrado pelo sucesso "Rock the Boat", mas tem muito mais, em especial as lindas baladas "Off My Cloud", "Go to The Poet" e a faixa-título. Praticamente todas as músicas se encontravam em CD em coletâneas diversas, mas recentemente o álbum original foi relançado na Inglaterra, numa bela edição.

Armed and Extremely Dangerous - First Choice - Outra banda em estilo semelhante, mais lembrada por sucessos dançantes como "Smarty Pants", "Newsy Neighbors" e a faixa-título. Mas, a exemplo do Hues Corporation, o álbum traz pelo menos duas baladinhas que merecem atenção: "A Boy Named Junior" e "Wake Up to Me".

A vantagem de se ter um blog é que cada texto pode se tornar um eterno "work in progress", com constantes correções e acréscimos. Logo, não se surpreendam se, de repente, aparecerem novos títulos na lista acima (P.S.: já apareceram dois.). É só uma questão de ir lembrando. Mas deixei para o final quatro discos de música brasileira que sempre citei entre os clássicos de 1973. Quando Célio Albuquerque me convidou para participar do livro em fevereiro de 2013, por indicação de Marcelo Fróes, eu automaticamente me ofereci para resenhar os seguintes LPs: Secos e Molhados, Krig-há Bandolo de Raul Seixas, Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua de Sérgio Sampaio e o segundo do Guilherme Lamounier. Tenho uma vaga lembrança de, num e-mail posterior (que não tenho mais guardado), ter dito que, se fosse para ser um só, eu preferia o dos Secos e Molhados. E fiquei honrado com o atendimento do meu pedido.

Essas músicas todas eu escutava na saudosa Rádio Continental, a 1120, em Porto Alegre. Tocar Raul e Secos e Molhados era algo que as outras emissoras também faziam, mas talvez só a Continental rodasse "Viajei de Trem", de Sérgio Sampaio, uma densa power ballad que caía bem no meu gosto. E, principalmente, os ouvintes da Continental foram apresentados a "GB em Alto Relevo", do álbum de Guilherme Lamounier, em que todas as faixas tinham letra de Tibério Gaspar. O comentário desse disco, redigido por Ricardo Schott, foi o primeiro capítulo do livro que eu fui ler quando pus as mãos num exemplar (depois do meu próprio, para ver se estava tudo certinho). É uma pena que o LP nunca tenha sido relançado em CD. Minha música preferida era "Mini Neila", mas havia várias outras quase tão boas quanto: "Telhados do Mundo", "Capitão de Papel", "Será Que eu Pus um Grilo na Sua Cabeça", "Passam Anos, Passam Anas"... Guilherme tinha um dom raro para criar baladas, valorizadas pelas letras de Tibério. Acho as músicas dessa fase bem melhores do que "Enrosca" e outras que lhe trouxeram mais sucesso adiante. 

O que eu vi acontecer na música brasileira em 73 e anos próximos foi o surgimento de um gênero que não seria nem o rock, nem a MPB tradicional. Talvez, por falta de uma expressão melhor, fosse uma "música pop brasileira". Além dos artistas citados, tínhamos ainda Sá, Rodrix e Guarabyra. Com esse estilo eu me identificava bastante. E até o fato de o livro ter saído com um pequeno atraso, no ano seguinte ao planejado, de certa forma, reforça minha comemoração pessoal. Porque o ano mais memorável da minha adolescência foi 1974, mas a trilha sonora era quase toda de 1973. No caso dos discos estrangeiros, muitas vezes, porque o lançamento no Brasil ocorria com uma certa demora. Mas havia também discos que tinham sido comprados no ano anterior e que eram levados em nossas "reuniões dançantes". Para mim, o ano de 1973 foi de incubação, de preparo para o adolescente de 13 anos que eu me tornaria em 1974 (na verdade dezembro de 73, mas simplifiquemos). E isso inclui a maior parte das músicas que eu viria a escutar.

4 Comments:

Blogger Alexandre Marques said...

Boa noite, meu querido Emilio Pacheco. Li a sua postagem sobre a música de 1973 e constatei que você realmente cometeu um engano. E foi o de você pensar estar enganado. Raw Power, dos Stooges, foi de fato lançado em 1973, você não se enganou. O disco foi gravado nos estúdios da CBS entre os dias 10 de setembro e 6 de outubro de 1972 e lançado no dia 7 de fevereiro de 1973. Não sei quem te passou esta informação de que o disco foi lançado em 72, mas, com certeza, se enganou.

8:51 PM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Obrigado, Alexandre, já excluí a ressalva. Essas confusões geralmente acontecem quando o disco é gravado no final de um ano e lançado no outro. Ainda fico em dúvida se o "Brain Salad Surgery" de Emerson Lake and Palmer é de 73 ou 74. E neste exato momento estou envolvido numa "discussão acadêmica" com outros colecionadores/jornalistas/pesquisadores. Estão todos comemorando os 40 anos do álbum "Loki", do Arnaldo Baptista. Realmente consta "(P)1974" no selo. Mas minhas pesquisas indicam que o disco só "veio ao mundo" mesmo em 1975. Parece ser o mesmo caso do LP "Em Mar Aberto", do gaúcho Fernando Ribeiro. Foi gravado durante o segundo semestre de 1976, foi "carimbado" 1976 na capa e no rótulo, mas saiu mesmo em 1977. Desse eu tenho certeza absoluta. O Arnaldo eu ainda tenho que confirmar.

6:05 PM  
Blogger André Queiroz said...

Oi, Emilio

Queria aproveitar para fazer uma correção:o álbum que Paul McCartney gravou em 1973 foi Red Rose Speedway e não Band On the Run, que é de 1974 e o àlbum que você citou do ELP é mesmo de 1973.

Abs
André Luiz - RJ

11:58 AM  
Blogger Emilio Pacheco said...

A data oficial de lançamento do "Band on the Run" é 7 de dezembro de 1973. No Brasil, realmente saiu em 1974, assim como o "Mind Games" do John Lennon.

12:02 PM  

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