sexta-feira, julho 27, 2012

A vida no cartório

A gente quer ter voz ativa 
No nosso destino mandar 
Mas eis que chega a roda viva 
E carrega o destino pra lá 

Chico Buarque, "Roda Viva"

E o futuro é uma astronave 
Que tentamos pilotar 
Não tem tempo, nem piedade 
Nem tem hora de chegar 
Sem pedir licença
Muda nossa vida 
E depois convida 
A rir ou chorar 

Toquinho (letra), "Aquarela"

Hoje fui ao cartório para providenciar o último documento que me faltava para a compra do apartamento. Lá entrando, chamou-me a atenção um casal jovem que estava sentado mais à direita. Pelo brilho nos olhos da moça e o sorriso radiante que não saía de seus lábios, logo percebi que estavam marcando o casamento. E isso se confirmou pela conversa que ouvi a seguir.

Ah, o amor! Como disse certa vez meu irmão mais velho – o primeiro de nós a casar e o único que nunca se separou quando "bate o sininho" a gente não pensa duas vezes: quer se unir à outra pessoa pelos laços do matrimônio. Mas, a julgar pela expressão de felicidade da noiva, não era bem um sininho que tocava em seu coração. Tomando emprestada a expressão de Vanusa para descrever seu primeiro encontro com Antônio Marcos, eram "os carrilhões do Big Ben".

À esquerda, outro casal jovem tratava de registrar a filha. Não lembro o nome exótico que a mãe falou, mas ela queria que fosse com "y" no final. A atendente logo a dissuadiu da ideia, explicando que, dessa forma, ela seria chamada no colégio como se o nome fosse uma palavra oxítona e não paroxítona, como deveria ser. Não foram esses os termos que ela usou mas, em essência, foi o que ela quis esclarecer. Então a menina foi registrada com "e" no fim. Assim, naquele momento, a funcionária do cartório conseguiu simplificar todo o futuro da recém-nascida. Essa provavelmente se tornará uma daquelas histórias que a mãe passará a vida inteira contando para a filha: "Teu nome era para ser com 'y', mas a moça do cartório me convenceu a não fazer porque blá blá blá..." (Curiosamente, quando nasceu o Iuri, eu fiz questão que o nome dele fosse com "I", sem acento no "u". Não só porque acho mais bonito, mas também porque ficaria mais simples. A pronúncia ninguém erra, mas a maioria insiste em escrever com Y...)

E o que eu estava fazendo lá? Averbando meu divórcio. Uma mera formalidade, já que a separação de fato conta mais de dez anos. Preciso do comprovante de estado civil para compor a documentação do contrato de compra e venda. Mas não me arrependo de ter casado. Foi uma fase legal da minha vida na maior parte do tempo que durou. Continuo me dando bem com minha ex-esposa e com o casal de filhos que ela teve de outro relacionamento, depois da separação. É a família do meu filho.

Só depois de pagar a taxa é que percebi que a moça que me cobrou – a mesma que atendia os pais da menina, como citei – estava grávida! Breve ela própria será responsável por mais um nascimento que o cartório haverá de registrar. Incrível: quatro diferentes etapas da vida acontecendo ao mesmo tempo com seis pessoas dentro de uma sala. Ou sete, se contarmos a que se escondia na barriga da mãe.

Mas acredito que todos nós tivéssemos uma coisa em comum: o desejo de ser feliz. E a determinação de nunca abdicar desse objetivo.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Belo texto, ou melhor, bela narrativa.
Abraços.
Lasek

9:23 PM  
Blogger Cléia Vargue said...

Que bela!! É essa arte de escrever, as vezes me pego tendo esses pensamentos nas rotinas do cotidiano, mas nunca escrevi. PARABÉNS!!!Cleia

10:30 PM  

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