domingo, janeiro 22, 2012

O Orkut morreu?

Na minha juventude, quando eu saía à noite com meus amigos nas sextas e sábados, eu e eles tentávamos entender o que fazia com que alguns lugares fossem mais frequentados do que outros. Qualidade, por si só, não parecia ser uma boa explicação. Se perguntássemos para alguém por que preferia tal restaurante, bar ou danceteria, em geral a resposta era de que estava sempre movimentado. Ah, sim. Mas por que estava movimentado? O que fez com que as pessoas começassem a se dirigir àquele local? E, quando o movimento começava a diminuir, anunciando o fechamento iminente de um estabelecimento que deixou de ser "point", o que ocasionava esse fenômeno? Ainda, raciocinando de forma inversa, o que fazia com que ninguém procurasse outros locais? Sem ânimo para uma análise mais aprofundada, concluíamos: "Aquele é um lugar em que ninguém vai porque ninguém vai. E este é um lugar em que todos vão porque todos vão." E assim encerrávamos a questão, sem descobrir suas verdadeiras causas.

Em 2004 (e não em 2006, como erradamente indica a foto acima), surgiu na Internet o Orkut. Na época o ingresso era somente por convite. E havia outras diferenças em relação ao que é hoje: se um determinado número de pessoas banisse um usuário, ele ficava "preso" por um tempo, sem poder postar nada (e sua foto era substituída pela sombra de um presidiário entre as grades). Mas era uma ideia bem bolada, uma verdadeira "Internet dentro da Internet", como defini, na época. Todas as discussões, assuntos e relacionamentos entre internautas eram sistematizados em um único site. Logo o Orkut virou "point" entre os brasileiros e a vantagem disso é que, se você quisesse encontrar um velho amigo na rede, era só procurar ali.

Mas houve um efeito colateral. Um dos recursos do Orkut era uma estatística dos membros por país ou, no caso dos Estados Unidos, por estado. Só que os brasileiros logo começaram a tomar a dianteira. Ao perceberem isso, organizaram uma campanha de adesões em massa para ficar em primeiro lugar na lista. Nunca entendi a vantagem disso. Não havia nenhuma competição nesse sentido. O resultado é que todas as comunidades, inclusive aquelas que haviam sido criadas por americanos para discussões em inglês, começaram a ser invadidas por brasileiros. Alguns tentavam escrever em inglês, mas erravam muito. Outros postavam em português mesmo, violando as normas da comunidade. Em razão disso, os americanos acabaram abandonando o barco. Os brasileiros tomaram conta. Até que, em 2008, a administração do site passou para as mãos da Google Brasil.

Hoje os executivos da Google nos Estados Unidos devem estar furiosos com os brasileiros. Invadiram o barco para depois abandoná-lo? Ao menos, é o que se comenta. Dizem que o Orkut "morreu". Os brasileiros estão migrando para o Facebook, que também é uma rede social, mas com outras características. E isso, é claro, me faz lembrar os locais da minha juventude que de repente esvaziavam. Deixavam de ser lugares "onde todos vão porque todos vão" para serem lugares "onde ninguém vai porque ninguém vai". E é exatamente por isso que muitos estão trocando o Orkut pelo Facebook: porque estão todos indo para lá. Mas por quê? Porque estão todos indo para lá, ora! A mesma linha de raciocínio "circular" que nada explica, mas que move os fenômenos de modismos.

De minha parte, não pretendo sair do Orkut. Fiz muitas amizades por lá e até conheci uma namorada. A telinha azul me é simpática. Gosto do foco nas comunidades, muitas das quais ainda estão bem ativas. Em especial "O verdadeiro Mario Quintana", criada por mim com apoio de outros admiradores do poeta, tornou-se referência e já foi elogiada até por Elena Quintana, sobrinha de Mario. E assim continuam rolando outras discussões interessantes sobre os mais diversos assuntos. Sigo recebendo convites para adicionar amigos. O Orkut pode estar mais tranquilo, sem a agitação de outros tempos, mas continua sendo um lugar aprazível e gostoso de se visitar.


Leia também:

Maioria no Orkut. E daí?

3 Comments:

Blogger Silvia Helena Cavicchio said...

Concordo 100% com você, Emílio. Acabei entrando no Facebook, exatamente porque "todo mundo" entrou, mas continuo acompanhando três comunidades no Orkut e fico torcendo para que elas continuem bem vivas por muito tempo ainda.
Abraços!

9:30 AM  
Anonymous Solange Pinho said...

Perfeito. Também concordo. O facebook pode até ser bom para algumas coisas (poucas), mas é tanta bobagem que se posta ali, sem nenhum critério, que acaba se tornando chato e cansativo. Pouco fico lá, mas sou capaz de ficar horas no orkut. Nada como o orkut para se discutir assuntos do nosso interesse, com foco e organização.

7:09 PM  
Blogger Simone said...

Concordo com vc, mas gosto também do Face, são diferentes, mantenho ambos. Abraços.

8:11 PM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home