domingo, dezembro 04, 2011

O triste fim de Sócrates

O álcool é uma droga duplamente sedutora. Em primeiro lugar, porque as bebidas alcoólicas, em geral, são saborosas. É muito fácil criar gosto pela combinação de doce, azedo e gelado de uma caipirinha, pelo amargo refrescante de uma cerveja, pelo buquê sutil e carregado de nuances de um vinho tinto ou pelo teor forte e acentuado dos destilados em geral.

Em segundo lugar, é inegável o prazer de um "pilequinho". A ressaca cobra a conta depois, mas o torpor etílico, enquanto dura, provoca uma sensação de relaxamento e euforia. E a combinação dos dois atrativos citados vem a criar um terceiro: o visual. A imagem de um copo de caipirinha cheio de gelo picado, de um copo de chope com colarinho ou de uma elegante taça de vinho faz brilhar os olhos de quem já se deixou seduzir por sua bebida preferida.

Ao contrário das drogas ilegais, o consumo de álcool, num primeiro momento, é estimulado. Somente quando se percebe (e nem sempre se percebe) que alguém está mergulhando perigosamente no poço do vício é que se começa a criticar e recomendar que pare. Muitas vezes essa tentativa de socorro nem sempre tempestiva parte das mesmas pessoas que antes encorajavam o alcoólatra a beber.

Até os 18 anos o álcool praticamente não existia para mim. Eu podia ocasionalmente bebericar uma caipirinha ou tomar um copo de vinho, mas não ficava de pileque. De cerveja, não gostava. E ainda assim lembro que, nas festas em família, às vezes alguém me dizia: "Deixa de frescura, hoje tu vais beber." Talvez imaginasse que minha quase abstinência fosse exigência dos meus pais, o que não era o caso naquele momento. Mas eu não bebia.

É difícil combater o uso do álcool porque o discurso pode acabar se alinhando com o de fanáticos religiosos, daqueles que acham que qualquer comportamento mais rebelde ou irreverente "é pecado". Além disso, significa também "cortar o barato" de pessoas que são felizes com sua cervejinha e muitas delas, admitamos, têm noção de limite. Sabem beber e percebem quando é hora de parar. Mas algumas não sabem e, ainda assim, não reconhecem. São alcoólatras em negação.

Um estereótipo que se faz dos alcoólatras é o de que são pessoas frustradas, fracassadas, traumatizadas, que bebem para afogar as mágoas. Ou então, indivíduos simples, de famílias pobres, que vivem num ambiente de "cachaceiros". Então vem a inevitável pergunta: que razões teria o jogador Sócrates para despencar nesse abismo? Ele foi um dos melhores jogadores de todos os tempos, era um sujeito inteligente, culto, que conseguiu a incrível façanha de frequentar a Faculdade de Medicina e se formar sem que isso prejudicasse sua carreira de atleta profissional. Já tinha um futuro mais do que garantido mesmo antes de pendurar as chuteiras e veio a apresentar um programa de entrevistas. E acabou assim, como o simplório Garrincha.

A verdade é que o estereótipo acima é uma fantasia. O álcool pode levar qualquer um, do mais anônimo indigente ao mais bem sucedido magnata.

Não faltarão patrulheiros do politicamente correto para dizer que se está "usando" a morte de Sócrates para combater o álcool. Mas, queiramos ou não, os exemplos públicos são os mais eficazes. São os que tocam mais profundamente a consciência da coletividade. Isso não diminui em nada a grandeza da trajetória do craque, como não ofuscou os dribles geniais das pernas tortas de Garrincha. Mas que é um fim triste, diferente do que se desejaria para ele, isso não se pode negar. E a lição fica, independente do que eu ou você possamos dizer, escrever ou pensar a respeito.

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