sábado, novembro 27, 2010

Colorado sem exageros

Certa vez comentei aqui no Blog que sou tão apaixonado por documentários que compraria até mesmo do Grêmio, se saísse. Afinal, era o time do meu pai e faz parte da história de Porto Alegre, que é um assunto de meu interesse. Pois, acreditem se quiserem, os DVDs saíram e eu comprei todos. Tenho os do Inter também, claro. Mas gosto de reportagens bem feitas.

Tive uma fase doentia como colorado, mas felizmente passou. Em alguns jogos, consigo torcer de verdade para o Grêmio, mesmo sabendo que dificilmente algum torcedor gremista retribuiria o meu gesto. Talvez o meu pai, lá no além. Como gaúcho, fiquei orgulhoso quando o coirmão conquistou seu primeiro título nacional em 1981, contra o São Paulo.

Já no ano passado, quando uma vitória do Grêmio contra o Flamengo daria o título nacional ao Inter, eu sonhei com um milagre. Quando o time da Azenha começou vencendo, cheguei a me emocionar. Comecei a redigir na minha cabeça o texto que postaria no Blog, de que o espírito esportivo superou rivalidades bobas e aquele era um dia histórico para o futebol gaúcho, blá blá blá... Como se sabe, nada disso se concretizou. E mais decepcionado ainda fiquei quando soube que torcedores gremistas esperaram os jogadores no aeroporto para xingá-los por ter mostrado garra em vez de entregar descaradamente a partida.

(Antes de seguir com o assunto, uma observação: colocar jogadores reservas para entregar um jogo não me parece uma boa tática. Ao saber que estão sendo escalados "porque o time tem que perder", eles podem se encher de brios e mostrar serviço.)

Às vezes eu me pergunto como nós, portoalegrenses, conseguimos conviver pacificamente com esta rivalidade acirrada. Além do meu pai, tive um irmão gremista (já falecido) e também namoradas gremistas. Amigos, colegas, gente do bem, todos torcendo pelo adversário. Mas, na hora do jogo, tudo parece virar uma guerra. Esporte deveria ser congraçamento, diversão, competição sadia. Esse tema já foi explorado no filme "Domingo de Gre-Nal", de 1979, com roteiro do colorado Sérgio Jockymann. Era uma sátira à história de Romeu e Julieta, inclusive com os mesmos nomes dos personagens. Só que, em vez de Montecchios e Capuletos, era uma família de colorados e outra de gremistas. Paulo Sant'ana fazia o papel do pai da Julieta (gremista).

Lembrei de tudo isso porque ontem, numa vitrine, enxerguei os dois DVDs da série "100 anos de Gre-Nal": "Supremacia Vermelha" (do Inter) e "Grem10x0" (do Grêmio). Entrei na loja e disse: "Quero levar os dois." O vendedor não esboçou nenhuma surpresa, aparentemente. Mas, na hora de pagar, a moça do caixa perguntou: "São pacotes separados?" A princípio, achei que ela não conseguia acreditar que os DVDs seriam para a mesma pessoa. Ou ficou com medo de que eles começassem a brigar dentro da embalagem. Na verdade o que tinha acontecido é que o vendedor tirou duas notas. Automaticamente, sem pensar muito, ele fez isso. Na cabeça dele, os dois produtos não poderiam coexistir pacificamente na mesma nota. Ele estava programado para jamais juntar, numa mesma fatura, Grêmio e Inter. De certa forma, isso lembra o que já comentei aqui sobre estereótipos.

Quando tiver assistido aos DVDs, farei um comentário comparativo. Por ora, quero dizer que tenho muito respeito pelo Grêmio. A rivalidade engrandece as conquistas do Inter e, se bem administrada, pode ser um fator de motivação para a valorização do esporte.

Mas o Inter é melhor.

4 Comments:

Blogger Carlos Ribeiro said...

Também sou colorado, Emílio.

Sempre torci pelo futebol gaúcho. Quando meu irmão (gremista) éramos solteiros, sempre torcíamos pelos gaúchos. Não importa se era o Inter, o Grêmio, o Juventude, o Caxias, ... se era série A, B,... partindo do princípio de que times gaúchos com grandes conquistas fortaleceria o nosso futebol.

Casamos e a história mudou. Minha esposa - e a dele - são coloradas e não admitem torcerem pro Grêmio (engraçado que elas não têm a menor ideia sobre escalação de time, esquema tático, tão pouco já foram em um jogo). Torcem contra porque é assim.

Sinto saudades do tempo em que torcíamos juntos. Lembro que um dia eu levei ele a um jogo de Libertadores no Olímpico (Era Felipão). Ele só poderia ir se eu levasse ele.

Chegando lá, o dinheiro só dava pra um ingresso. A fila era enorme. Eu não tinha muito tempo para pensar: comprei um ingresso e dei pra ele: "vai, eu fico aqui te esperando". Fiquei o jogo inteiro ao lado do portão esperando o jogo acabar.

Foi uma noite fria fora do estádio, mas sempre lembro com saudades daquele momento.

Desculpe o longo comentário, meu amigo. Abraços

10:31 PM  
Blogger Ulisses Wehby de Carvalho said...

Emílio,

Parabéns pelo texto e pelo bom senso. Sempre! Adorei o último parágrafo não porque eu seja colorado - não sou - mas porque apesar de ser aparentemente paradoxal com o resto do texto, sintetiza muito bem toda a irracionalidade das paixões. Gostei!

Abração

2:33 AM  
Blogger Emilio Pacheco said...

Carlos, longos comentários são muito bem-vindos quando acrescentam informações interessantes, como as suas.

Ulisses, obrigado pelo elogio e por continuar visitando o meu Blog. Se eu não encerrasse o texto daquela forma, daqui a pouco poderiam achar que eu sou um gremista enrustido!

5:05 PM  
Blogger Caco said...

O final de post mais objetivo que já vi! Dando gargalhadas!

2:13 PM  

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