segunda-feira, janeiro 25, 2010

Prioridade telefônica

Há muitos anos, vi um cliente em uma agência bancária reclamar que "a pessoa que telefonou não veio pessoalmente e está sendo atendida". Em outras palavras, ele se queixava de ter que esperar sua vez enquanto o atendente falava ao telefone. Foi naquele momento que observei este curioso paradoxo: o telefone sempre acaba tendo prioridade sobre o interlocutor de carne e osso. Essa noção, justa ou injusta, era reforçada pelo "triiim triiim" que até há bem pouco tempo era padrão no recebimento de chamadas. O telefone soava igual a um despertador, gritando para ser atendido logo. Hoje, graças à nova tendência introduzida pelos celulares, também os aparelhos fixos já trazem sons bem mais agradáveis. Mas a urgência continua a mesma.

Aliás, se por um lado os celulares amenizaram o som da campainha, por outro, levaram o conceito de "interrupção telefônica" para as ruas. Você está caminhando e conversando com alguém, muitas vezes uma companhia agradável, e aquele barulhinho personalizado do Terceiro Milênio se faz ouvir na hora mais indesejada. Você fica olhando com cara de tacho enquanto a pessoa a seu lado diz: "Alô... Oi, Fulano! Tudo bem? Ahn... Não, estou na rua, caminhando. Sim! Ah, pois é... Não sei ainda. Tenho que falar com a Beltrana. Ahn... Pois é..." E você "sobra" solenemente. Tudo porque um estranho veio por telefone e roubou sua companhia, sem dó nem piedade.

Embora seja proibido falar ao celular enquanto se dirige, já vi mais de um motorista de táxi atender a ligações no meio da corrida. E seguiram dirigindo com uma mão só, andando mais devagar pela contingência de não poder fazer mudanças. E eu com pressa... Mas nada me indigna mais do que caixa de lanchonete me atendendo enquanto fala ao telefone. Ou me deixa esperando sem a menor cerimônia - para anotar os pedidos de uma tele-entrega, por exemplo - ou tenta agir como um processador multitarefa, segurando o gancho com uma mão enquanto me cobra e dá o troco com a outra. Se for uma pessoa com compulsão de gesticular enquanto conversa, já não conseguirá alternar os dois processos em sua cabeça. E se eu quiser fazer alguma pergunta ou pedir alguma mercadoria de última hora, terei que aguardar minha vez. A prioridade é sempre do telefone.

É claro que isso tem uma certa lógica. É indelicado deixar alguém esperando ao telefone. O interlocutor não vê o que está acontecendo, logo, não sabe se vai ser atendido ou não. A espera, digamos, "presencial" é amenizada pela visualização do contexto. Você enxerga a enorme fila e sabe exatamente quantos estão na sua frente. Já se houver um longo silêncio após o tradicional "momentinho" da conversa telefônica, você fica impaciente em dez segundos no máximo. Tá bom, talvez uns 15.

Nunca pus em prática uma ideia que certa vez me ocorreu, mas talvez outra pessoa já tenha tentado: estar esperando numa agência ou repartição e ligar para o local, pelo celular. É uma forma de ser atendido imediatamente. Eu poderia até ficar do lado de fora, para não dar na vista. Dependendo do desfecho da conversa eu entraria de telefone e tudo para dar continuidade ao assunto. Um dia ainda vou fazer.

1 Comments:

Blogger Zezé said...

Boa tarde, gostei do comentário sobre telefone x celular,pena que não fez a experiência para nos contar, agora será mais difícil porque usar celular nos bancos esta proibido.A espera ficará bem maior porque o segurança pode apreender o celular ou colocá-lo para fora, dependendo das normativas do gente da agência. Tenho uma irmã que diz:- ligo depois, estou com visitas! Simplesmente desliga o telefone na tua cara...arre mesmo assim é de doer.

3:51 PM  

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