quinta-feira, junho 25, 2009

Michael Jackson

Ainda lembro quando, há cerca de 15 anos, um vendedor de loja de discos comentou comigo o que um médico amigo dele dissera sobre Michael Jackson. Que, só de olhar para o rosto do cantor, era possível constatar que estava com uma doença gravíssima que iria matá-lo logo. Pois faleceu hoje, aos 51 anos.

Michael Jackson sempre se assumiu como um Peter Pan da vida real. Tanto é verdade que, por muito tempo, morou numa propriedade chamada “Neverland” (Terra do Nunca), uma espécie de Disneylândia particular. De qualquer forma, nada sobrou de seu rosto original, esculpido por sucessivas cirurgias plásticas. Segundo a biografia escrita por J. Randy Taraborrelli, Michael usava uma ponta de nariz protética. E dormia na cama com crianças. O cantor garantia que era na mais absoluta inocência. Mesmo assim, sofreu processos de pedofilia e enfrentou exames humilhantes. Mas, se é tentador pensar que ele podia realmente ter um lado pervertido, não se pode negar que era também presa fácil para pais gananciosos, de olho nos seus milhões (já bastante reduzidos). E seria muita injustiça que uma obra tão marcante na música pop fosse ofuscada por bizarrices e excentricidades.

A história de como Michael e seus irmãos foram maltratados na infância pelo pai Joseph já foi repisada incontáveis vezes na imprensa. De uma família em clima de turbulência e infidelidade, surgiram os Jackson 5, o arquétipo das bandas infantis. O que diferia os Jacksons de seus imitadores era o talento legítimo de seus integrantes: bons cantores, compositores e, no caso de alguns, instrumentistas. Mas era o menor deles, Michael, que roubava o show. Ouvia-se a voz aguda daquele menino de 12 anos e lamentava-se que um dia ele mudaria o timbre. Estranhamente, a alteração foi mínima. Michael manteve uma voz rara para um adulto. E quem viu o superastro levando fãs à loucura em arenas superlotadas nos anos 80 (houve que comparasse o fenômeno com os Beatles) não o imaginaria fazendo uma modesta aparição no programa Sílvio Santos com seu irmão Jermaine no começo dos anos 70, cantando “Never Can Say Goodbye”. O menino Michael cedo lançou-se em carreira solo e estourou com “Ben" e “Got to Be There”. No Brasil, com uma ajuda das novelas, teve dois sucessos locais: “Music and Me” em 1973 (da novela “Carinhoso”) e “One Day in Your Life” em 1975 (de “Cuca Legal”). A segunda, num curioso efeito retardado, chegaria ao primeiro lugar na Inglaterra em 1981.

Os Jackson 5 começaram na Motown, mas foi na Columbia (hoje Sony Music) que fizeram a transição para a fase adulta. Depois de dois álbuns regulares, mostraram os primeiros sinais de maturidade em “Destiny” (dezembro de 1978). Foi então que se decidiu investir novamente na carreira solo de Michael Jackson. O resultado foi o bem produzido “Off the Wall” (1979), considerado o primeiro disco “adulto” de Michael. Entre vários hits, o disco trazia o sacudido funk “Don’t Stop Till You Get Enough”, que apontava a nova direção de sua carreira.

Ouvi “Wanna Be Startin’ Something” no rádio pela primeira vez no final de 1982 e pressenti que vinha coisa boa pela frente. Michael era jovem, estava apenas se descobrindo como compositor e a nova música era uma espécie de “Don’t Stop Till You Get Enough” com o dobro de adrenalina. A exemplo de Stevie Wonder, que também havia começado na infância, Michael tinha tudo para se consolidar como um grande nome da música negra americana. O que se seguiu foi um pouco diferente do previsto – e com certeza muito mais bombástico – mas de qualquer forma o álbum “Thriller” tornou-se um clássico. A reedição em CD de 20 anos é mais interessante do que a recente de 25. Ela inclui mais faixas bônus e a narração completa de Vincent Price para a faixa-título, incluindo uma estrofe cortada e a frase “can you dig it”, que saiu impressa na letra do encarte, mas não se ouve na música.

Michael pode não ter sido o primeiro a levar uma eternidade entre um álbum e outro para sugar o máximo de seu impacto (talvez Pink Floyd ou Kraftwerk), mas com certeza foi o que obteve melhores resultados com a manobra. Os fãs de Michael cresceram ao longo dos anos “Thriller”, depois os anos “Bad” (1987 em diante) até chegar aos anos “Dangerous” (de 1991), com muitos clips, aparições de TV, shows, curtas metragens e lançamentos em vídeo (como “The Making of Thriller” e o filme “Moonwalker”, ambos inéditos em DVD). Foi desse ponto em diante que sua carreira começou uma descida lenta e gradual.


Michael Jackson sempre gerou controvérsia por sua postura andrógina, seu comportamento estranho, casamentos misteriosos, filhos ocultos sob máscaras cirúrgicas, vídeos polêmicos e um estilo de dançar de quem parecia estar com pulgas subindo pelo corpo. Mas seu talento era inegável. Para os fãs, ele nunca deixou de ser o Rei do Pop. Seu futuro como artista era incerto, mesmo assim preparava uma superturnê para breve. Peter Pan não chegou a envelhecer, mas escreveu um importante capítulo da história da música pop.

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