quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Comunicação prejudicada

Quando Hugo de León foi demitido da função de técnico do Grêmio, em abril de 2005, publiquei aqui no Blog um comentário sobre a importância de um treinador. Na verdade eu, como leigo, questionava o quanto um técnico podia trazer de positivo ou negativo em uma partida de futebol. E um aspecto que não considerei é a facilidade de comunicação com os jogadores. Imagino que isso seja fundamental. Não basta ter conhecimento tático: é preciso saber repassá-lo ao time. E aí não se inclui somente o entendimento verbal, mas também o carisma, a liderança natural, a segurança que um técnico pode transmitir. Tivemos vários técnicos no Rio Grande do Sul que eram pessoas simples, humildes, mas extremamente eficazes em seu ofício. Sabiam comandar um time.

Como vocês já devem ter desconfiado, estou tecendo esses comentários pensando na demissão de Luiz Felipe Scolari do Chelsea. Por que Felipão deu certo na Seleção Brasileira, na Seleção Portuguesa, mas não num clube inglês? É impossível não pensar que a barreira do idioma possa ter atrapalhado. Nunca esqueço uma matéria do Fantástico mostrando jovens chineses que vieram ao Brasil para aprender futebol. O técnico gritava instruções e imediatamente um intérprete as repetia em chinês. Até que ele disse: "Capricha!" O pobre tradutor ficou perdido, olhando para o ar, e a edição ainda colocou um ponto de interrogação sobre a sua cabeça. E no tempo em que o pugilista Maguila era treinado pelo americano Angelo Dundee, uma lenda que já trabalhou com Muhammad Ali, eu me perguntava o quanto de seus ensinamentos o peso pesado brasileiro conseguia aproveitar.

Alguns técnicos brasileiros, quando ganham notoriedade, adotam paletó e gravata, como Wanderley Luxemburgo. Outros, como Carlos Alberto Parreira, mantêm uma fisionomia estoica por toda a partida, mesmo nos piores momentos. Felipão, não. Onde quer que ele esteja, por mais decisivo que seja o jogo, ele é o mesmo gringo de Caxias do Sul (embora tenha nascido mesmo em Passo Fundo), de agasalho esportivo, erguendo os braços e fazendo uma expressão de desespero cada vez que o seu time faz uma bobagem. Parece estar dizendo "Porco Zio!", como o personagem Radicci, do chargista Iotti. (Para quem não é gaúcho: no Rio Grande do Sul, "gringo" quer dizer "descendente de italiano"). O estilo Felipão funciona com brasileiros, com portugueses e com países normalmente habituados a importar talentos futebolísticos. Mas os ingleses inventaram o esporte.

Eu sei que Felipão surpreendeu a imprensa inglesa com seu conhecimento do idioma na primeira entrevista coletiva. Mas por mais que tenha evoluído no domínio da língua, enquanto o aprendizado não for total, alguma barreira continuará existindo. Fica então o dilema entre a frieza de um intérprete ou a limitação de um vocabulário próprio na língua dos jogadores. De um jeito ou de outro, fica prejudicada a comunicação, tão importante na relação de um técnico com seus comandados.

Talvez não tenha sido nada disso. Mesmo assim, fico curioso para saber o quanto o idioma, ou mesmo as diferenças culturais, contribuíram para que o gringo de Caxias (nascido em Passo Fundo) perdesse o seu cargo no britânico Chelsea.

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