Secos & Molhados e Kiss: fim de polêmica

ATENÇÃO: Esta é uma versão inteiramente nova do texto originalmente publicado. As novas informações obtidas desde então me levaram a publicar esta "edição revista e atualizada" em 02/02/2009. O texto anterior continua disponível nos sites que o citaram.
O Kiss copiou a maquiagem dos Secos e Molhados? Ney Matogrosso costuma contar sempre a mesma história quando é perguntado sobre o assunto. Eis o que ele falou, por exemplo, para o Jornal do Brasil:
...o Kiss é que copiou a gente! A banda já era um estrondo no Brasil e fomos ao México. O sucesso lá foi tanto que ficamos mais uma semana. A Billboard tinha publicado uma foto nossa de página inteira e dois empresários americanos quiserem me levar para os EUA. Recusei a oferta: ''Estou começando uma história no meu país e quero dar seqüência a isso''. Não queria acabar como Carmen Miranda. Inclusive disseram que minha imagem era boa, mas que o som tinha que ser mais pesado. Eu não ia mudar nosso som por causa disso. Viemos embora. Uns seis meses depois começou o Kiss, com uma maquiagem como a nossa e um som mais pesado.
Os fãs em geral interpretam esse testemunho de Ney como uma informação privilegiada de que o Kiss realmente copiou os Secos e Molhados. Ou seja, "é verdade porque o Ney falou". No entanto, basta ler com atenção (e isenção) para ver que os fatos que ele alega não provam nada. Ele apenas faz suposições. Sim, é verdade que o disco dos Secos saiu primeiro. Mas, no site oficial dos Secos e Molhados, é possível verificar a data em que o grupo se apresentou no México: foi em março de 1974. Pois bem: nessa ocasião, quando os Secos foram abordados por empresários americanos, o primeiro disco do Kiss já estava nas lojas, com maquiagem e tudo. Ele saiu um mês antes, em fevereiro. A data pode ser conferida neste site e confirmada em outras fontes, como o livro "Black Diamond", de Dale Sherman, e a edição de 23 de fevereiro da revista Billboard.
Mas tem mais. O terceiro volume da série de DVDs "Kissology" traz um DVD bônus com um show do Kiss em dezembro de 1973, no Coventry. A qualidade de imagem deixa a desejar, mas vale pela raridade. E mostra que a banda já estava devidamente maquiada:
Com isso, cai por terra a tese da "maquiagem copiada por empresários no México". Os dois empresários americanos que procuraram os Secos e Molhados naquele país não tinham nada a ver com o Kiss. Até porque, como se sabe, o Kiss tinha somente um empresário no começo da carreira: Bill Aucoin.
Certo. Mas e antes? Os Secos e Molhados lançaram seu primeiro LP em agosto de 1973. Já o álbum de estreia do Kiss saiu em fevereiro de 1974. Nesse ínterim, não haveria tempo de o Kiss tomar conhecimento dos Secos e Molhados e copiar o visual do grupo brasileiro? Em princípio, sim. Mas para saber com certeza, é preciso verificar quando cada grupo começou a se maquiar.
A Rolling Stone brasileira publica uma entrevista com Gene Simmons em seu último número e diz que o Kiss usa maquiagem desde 1972. Na verdade, a maquiagem tradicional do Kiss surgiu um pouco depois. O que aconteceu em 1972, mais precisamente em novembro, foi que a banda Wicked Lester, então formada por Gene Simmons, Paul Stanley e Peter Criss (Ace Frehley ainda não havia entrado), fez uma apresentação de teste para Don Ellis, Diretor de A&R (artistas e repertório) da Epic Records. Os três usaram uma maquiagem toda branca e é uma foto dessa ocasião que costuma aparecer em livros e sites:
Mais detalhes sobre esse fato podem ser conferidos no livro "Sealed With a Kiss", de Lydia Criss, primeira esposa de Peter. A propósito, a banda não passou no teste.
As máscaras que viriam a se tornar a marca registrada do Kiss começaram a surgir no dia 9 de março de 1973, em um lugar chamado The Daisy, em Nova York. A data pode ser verificada no livro citado e também em "Kiss Alive Forever – The Complete Touring History", de Curt Goof e Jeff Suhs. As fotos abaixo são do dia 10 de março, e mostram uma versão embrionária das maquiagens. Os desenhos iriam evoluir, especialmente o de Paul Stanley, que chegou a experimentar variações. A estrela no olho surgiria depois. Mas as máscaras de Gene, Ace e Peter já estavam delineadas.

E os Secos e Molhados? Existem muitas versões sobre a origem da maquiagem do grupo. Ney Matogrosso certa vez disse que quis se maquiar para não ser reconhecido quando ficasse famoso. Conta-se também que, antes de um show, Ney decidiu passar um pouco de purpurina e acabou se pintando todo. Outro testemunho diz que o cantor encenava uma peça com Regina Duarte e, na hora do show dos Secos, não teve tempo de tirar a pintura. É possível que tudo isso seja verdade e Ney tenha usado maquiagem de forma esporádica nas primeiras apresentações com o grupo. Mas o visual dos Secos e Molhados que viria a estourar em todo o Brasil surgiu na sessão de fotos para a capa do primeiro LP, conforme depoimento do fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues para a Folha de São Paulo em 2001:
"Numa viagem para o Rio, vi na praia meninas com uns corações grandes de purpurina no rosto, pensei em fazer um ensaio inspirado naquilo. Chamei o maquiador Silvinho, e começamos a criar". (As fotos foram publicadas em 1973 na revista Fotoptica.)
"O pai de João Ricardo trabalhava comigo no Última Hora e pediu que eu desse uma ajuda aos meninos. Vi um show deles, que ainda faziam sem máscaras. Falaram que a gravadora não acreditava neles, que tinham uma quantia insólita para me pagar. Mostrei as fotos da Fotoptica. Acharam arrojado demais, mas entenderam que era uma grande ideia."
"Um dos quatro, o baterista Marcelo [Frias], não gostou da ideia de se maquiar, tanto que saiu do grupo logo depois. Ney no máximo usava batom antes disso."
Para corroborar o testemunho do fotógrafo, existe a foto abaixo, em que os Secos e Molhados aparecem no Museu de Arte de São Paulo, publicada na revista Pop de maio de 1973:

Podem clicar para ampliá-la, mesmo assim vejam estes detalhes:
Ney Matogrosso pintou somente as sobrancelhas. Gérson Conrad aparece de cara limpa no fundo, à direita.
Aqui está João Ricardo, também de cara limpa.E se o baterista Marcelo Frias saiu do grupo por não concordar com a maquiagem, por que posou para a capa do primeiro LP? Porque imaginou que a pintura seria somente para aquelas fotos. O que confirma que, antes, não se maquiavam.
Voltemos ao site dos Secos e Molhados. A cronologia informa junho de 1973 como a data da sessão de fotos. Logo, mesmo que alguém quisesse acreditar na improvável hipótese de o Kiss ter tomado conhecimento dos Secos e Molhados antes de o grupo brasileiro lançar o primeiro LP, vemos que a banda americana começou a se maquiar um pouco antes, em março. Em suma: ninguém copiou ninguém.
Existe também o depoimento de Zé Rodrix, que diz que Gene Simmons e Paul Stanley teriam estado em sua casa em 1973 levados pelo bailarino Lennie Dale. Rodrix, que tocou no primeiro LP dos Secos, teria mostrado a capa do disco "em primeira mão" para ambos. Embora o músico brasileiro esteja convicto de que foram realmente os integrantes do Kiss que o visitaram, ele admite nunca ter confirmado a identidade dos americanos que acompanhavam Dale. E quem conhece a história do Kiss sabe que nenhum deles veio ao Brasil nos anos 70, antes ou depois da fama. Além disso, se Gene e Paul fossem mesmo amigos de Lennie Dale, seria mais fácil que tivessem se inspirado nos Dzi Croquettes, que o dançarino dirigia. Mas os músicos do Kiss nunca se interessaram por coreografia profissional, mímica, dança ou nada que pudesse ligá-los a Dale. Se fosse David Bowie, até poderíamos considerar a hipótese, pois essa era bem a praia dele, na época.
Outro detalhe, este realmente incrível, é que, como se vê em clips do YouTube, no tempo dos Secos e Molhados, Ney Matogrosso mostrava a língua ao final de "O Vira". Não vai muito longe: no livro "Secos e Molhados", publicado pela Editora Nórdica logo após o fim do grupo, em 1974, aparece a foto abaixo:
Segundo os que defendem a tese do plágio, isso seria mais uma "prova incontestável" de que o Kiss copiou os Secos. Aqui, desculpem-me, mas não há outra explicação senão uma tremenda coincidência. Eu assisti aos Secos e Molhados várias vezes na TV e uma vez ao vivo, em dezembro de 1973, no Gigantinho, em Porto Alegre. Esse momento isolado em que Ney Matogrosso mostrava a língua nunca me chamou a atenção. Hoje, com os recursos que temos de vídeo e Internet, é possível esmiuçar cada quadro de imagem de clips exibidos há 35 anos e verificar essas curiosidades. Já Gene Simmons mostra a língua o tempo todo nos shows do Kiss, além de exibi-la ostensivamente em fotos promocionais e até em entrevistas:
Ainda que os dois lados não entendam, meu objetivo não é "defender o Kiss" e sim checar informações. Mas é difícil tocar neste assunto sem que vire "briguinha de torcidas". Os fãs do Kiss afirmam que Ney está "mentindo" e "está com inveja" porque "o Kiss é a maior banda do mundo", enquanto os fãs dos Secos e Molhados me acusam de "defender americanos". Já houve quem me perguntasse onde estava "minha auto-estima de brasileiro", como se isso me obrigasse a aceitar mitos em nome do nacionalismo. Com tantas paixões em jogo, ninguém mais acredita em investigar os fatos apenas para saber a verdade e não para defender alguma bandeira. Ney Matogrosso não está "mentindo". Nem Zé Rodrix. Mas estão tirando conclusões erradas.Infelizmente, os pouquíssimos livros existentes com informações sobre os Secos e Molhados apenas reciclam as "achologias" que se perpetuaram em relação a essa polêmica. Seria interessante que alguém fizesse uma pesquisa mais profunda, inclusive tentando localizar os empresários americanos que procuraram os Secos e Molhados no México. Gérson Conrad afirmou no Orkut que um deles se chamava David Ruffino.
Por fim, cumpre lembrar que houve casos de maquiagem no rock antes dessas duas bandas. Existe um clip de 1968 no YouTube em que Arthur Brown aparece cantando "Fire" com uma maquiagem branca e preta. Já em 1971 surgiu na Itália o grupo de rock progressivo Osanna, também com as caras totalmente pintadas. Muitos lembram Alice Cooper, mas ele apenas usava preto em torno dos olhos e da boca. A semelhança não era tão grande com Secos e Molhados ou Kiss. David Bowie usou uma maquiagem bem marcante na capa de "Aladdin Sane" e também no clip de "Life on Mars", ambos em 1973. Segundo o produtor Tony Visconti em sua autobiografia "Bowie, Bolan and the Brooklyn Boy", quando Bowie estava gravando "Lodger", lançado em 1979, recebeu a visita de Gene Simmons e Paul Stanley. Os dois teriam prestado uma homenagem ao músico inglês reconhecendo que, sem o seu pioneirismo com o visual da fase Ziggy Stardust, eles jamais teriam sido o Kiss. Isso teria acontecido no estúdio Hit Factory, em Nova York. Não confirmei que o Kiss tenha gravado nenhum disco nesse local, mas não significa que não pudesse estar lá ensaiando ou preparando demos.
Fim de polêmica. Arquive-se.
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