quarta-feira, dezembro 10, 2008

Há 35 anos, Secos e Molhados no Gigantinho

Hoje, dia 10 de dezembro, faz 35 anos que os Secos e Molhados se apresentaram em Porto Alegre, no Gigantinho, em 1973. Não tenho certeza, mas acho que foi o primeiro show musical no ginásio do Inter. Eu estava lá. Deveria ter sido no dia 9, domingo, mas um problema com o certificado de censura fez com que fosse adiado para segunda. Na época, nem questionei esse fato, mas hoje fico curioso. O que terá realmente acontecido? Um mês antes, houve um cambalacho, com anúncio de um show do grupo no Auditório Araújo Vianna e ingressos a dez cruzeiros. Era golpe. Dessa vez era pra valer e o preço era um pouco mais caro, 15 cruzeiros. Mas haveria três outras atrações. De qualquer forma, tanto o alarme falso do mês anterior quanto o adiamento podem ter prejudicado a bilheteria. Mas minha lembrança é de que estava bem cheio, embora não lotado.

O mestre de cerimônias da noite foi o radialista Cascalho (Antônio Carlos Contursi), no auge de sua popularidade como apresentador do "Cascalho Time" da Rádio Continental. Eu já o conhecia de vista, mas estranhei vê-lo de barba. Com seu estilo espalhafatoso inspirado no Big Boy da Mundial do Rio, Cascalho começou chamando a atenção para o esforço da Continental e de Pepsi (que também patrocinava o seu programa) em trazer os Secos e Molhados para se apresentar em Porto Alegre. "Difícil pra burro tirar eles de São Paulo, blá blá blá..." E disse que breve viriam shows internacionais, também, citando o Led Zeppelin. "Vocês sabem quem é o Led Zeppelin?" Estamos esperando até hoje, mas tudo bem.

Saudade Instantânea em foto de maio de 1973. "Cacau" é Cláudio Vera Cruz.
A primeira atração da noite foi o grupo gaúcho Saudade Instantânea com sua ópera pop "Eugeny". Cheguei a ficar em dúvida se não seria o Terço, que também estava anunciado. Achei a sonoridade da banda parecida com a da música "Adormeceu", do grupo de Sérgio Hinds, que nossa professora de música nos mostrara no ano anterior como exemplo de influência de Bach. Mas era mesmo o Saudade com seu som progressivo e a menina Gata chamando a atenção na bateria por seus 13 aninhos e ótimo desempenho. Compunha a formação também o guitarrista Cláudio Vera Cruz.

O Terço foi o segundo a se apresentar e já entrou rachando com "Hey Amigo", que só seria lançada em disco em 1975. O rock do grupo em nada lembrava a citada "Adormeceu", de forma que cheguei a pensar que fosse outro grupo com nome igual. Mas não, era o mesmo Terço da professora de música, agora no auge de sua fase roqueira. Questionado no Orkut, o guitarrista César das Mercês não lembrou se a formação ainda era o power trio com Vinícius Cantuária na bateria ou já Luiz Moreno na percussão e Flávio Venturini nos teclados. Mas com certeza Sérgio Hinds estava na guitarra.

Imaginava-se que viriam Sá e Guarabyra, mas Cascalho disse que os Secos e Molhados já iriam se apresentar. Lembrei que tinham outro show agendado para a mesma noite no clube Leopoldina Juvenil e pensei ser esse o motivo da antecipação. Mas recentemente soube o que realmente aconteceu: Sá e Guarabyra ficaram esperando no hotel, para ficar por último. Foram avisados por telefone de que os Secos e Molhados, meio a contragosto, já estavam se preparando. A estratégia deu certo, mas teve um efeito colateral: alguns, entre eles um amigo meu, foram embora depois da apresentação dos Secos.


Ainda assim, fiquei em dúvida se a informação do Cascalho estava correta, pois uma banda desconhecida (ao menos para mim) iniciou tocando um longo trecho instrumental. De repente, no meio da execução, entram João Ricardo, Ney Matogrosso e Gérson Conrad devidamente maquiados, fazendo a dança tradicional. E assim teve início o momento mais esperado da noite. Quem ainda não tinha comprado o LP só conhecia duas músicas do grupo, "O Vira" e "Sangue Latino", que eram as que mais tocavam no rádio. A primeira foi apresentada duas vezes, uma no meio, outra no final do show, sempre num andamento mais rápido do que no disco. "Rosa de Hiroshima" também já começava a se sobressair. Uma lembrança que ficou marcada foi João Ricardo dando saltos em seqüência com violão e tudo. Recentemente perguntei à esposa dele no Orkut se ele ainda faz isso e ela respondeu: "Talvez, para pular de poça d'água..." O grupo não falou nada entre as músicas, como provavelmente nunca fazia.

O sucesso dos Secos e Molhados foi realmente extraordinário. Eu estava completando 13 anos naquela semana e meus amigos tinham mais ou menos a mesma idade. Nossa turma não ouvia praticamente nada de música brasileira. Acho que, naquela época, só os adolescentes mais politizados ouviam MPB. O resto era música pop direto, de preferência o que era lançado nos LPs "internacionais" de novelas. Ali havia alguns brasileiros se fingindo de americanos, entre eles o famoso Morris Albert. Mas nós curtíamos os Secos e Molhados. O grupo, com sua sonoridade rara e apelo visual provocador, atingia uma parcela de público que só ouvia música estrangeira. Hoje muito se fala na importância dos Secos e Molhados como contestadores em plena ditadura, mas eu diria que não era esse o maior trunfo da banda. Sim, as letras eram politizadas. Inclusive, o grupo teve composições censuradas, como "Tem Gente Com Fome" e "Tristeza Militar". Mas, para a maioria dos fãs, o que agradava nos Secos e Molhados era mesmo o espetáculo, a musicalidade e o mis-en-scène.

Por fim, chegou a vez de Sá e Guarabyra. A letra da música "Só Tem Amor Quem Tem Amor Pra Dar" tinha sido distribuída na platéia com o título de "Nós Escolhemos Pepsi" (se alguém ainda tiver isso, é uma relíquia) e Cascalho havia pedido que todos cantassem junto quando ela fosse apresentada. Fazia pouco tempo que os dois vinham tocando sem Zé Rodrix e ainda não tinham lançado nenhum disco como dupla. Foi um momento de descontração. Boa parte do público saiu das arquibancadas e sentou no chão, em frente ao palco. Lembro que eles cantaram "Mestre Jonas". Em certo momento, Sá anunciou uma música "ainda do tempo do Rodrix", mas hoje eu me pergunto se havia alguma composição do repertório que não fosse do tempo do trio. Talvez as novas que entrariam no LP "Nunca", do ano seguinte. Ah, sim, e a música da Pepsi, que era de um compacto solo de Guarabyra.

As fotos acima foram tiradas do Diário de Notícias (Secos e Molhados) e Zero Hora (Saudade Instantânea), durante as pesquisas que fiz no ano passado no Museu de Comunicação Hipólito da Costa, em Porto Alegre. Deixo abaixo as matérias que achei sobre o show. Não localizei uma que comparava a reação do público aos primeiros tempos de Roberto Carlos e citava um trecho da letra de "Sangue Latino". Essa eu lembro que li na época e tenho certeza absoluta de minha memória, pois foi ali que confirmei o nome da banda Saudade Instantânea e da ópera Eugeny. Ainda vou dar uma examinada no arquivo da Zero Hora. Lendo a nota da ZH e a matéria do Diário de Notícias, tive a impressão de que os jornalistas não ficaram até o fim. Apenas marcaram presença e foram para casa mais cedo. Inclusive, o Diário de Notícias erra a ordem dos shows. Incluí também uma matéria com Sá e Guarabyra publicada na mesma ocasião.
Cliquem para ampliar.





Procurem meu texto sobre o primeiro LP dos Secos e Molhados no livro "1973, o Ano que Reinventou a MPB", organizado por Célio Albuquerque.

2 Comments:

Blogger Caíque Rufato said...

MUITO, MUITO, MUITO OBRIGADO POR ESSE DEPOIMENTO EMOCIONANTE E PELOS ARQUIVOS. UMA MEMÓRIA MARCANTE QUE TOCA MINHA EMOÇÃO!

12:33 PM  
Anonymous Anônimo said...

Secos e Molhados eu também estava lá. Lembro da musica o Vira-Vira e o solo feito na gaita.

3:03 PM  

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