quinta-feira, novembro 27, 2008

Tanta tormenta

Quando o movimento musical gaúcho liderado pela Rádio Continental de Porto Alegre começou a se destacar em 75 e 76, criou-se uma expectativa no Rio Grande do Sul. Imaginava-se que poderia estar surgindo uma vertente com tanta força quanto havia sido a dos baianos, por exemplo. A música riograndense tinha uma identidade, mas ainda era muito atrelada ao folclore e o regionalismo. Faltava uma corrente com um apelo mais universal, mas que trouxesse elementos de identificação com o estado. Os Almôndegas chegaram muito perto disso e até incluíram um popurri (ou "medley") de canções gauchescas em seu segundo LP, "Aqui", de 1976 (não confundir com o CD que saiu com a mesma capa, mas é na verdade uma coletânea). Depois Hermes Aquino seguiu o exemplo e fez o mesmo em seu disco "Desencontro de Primavera", em 1977. Mas ainda não foi dessa vez.

Quem acabou representando o Rio Grande do Sul com uma MPB tipicamente gaúcha foram os ex-Almôndegas Kleiton e Kledir, nos anos 80. A dupla surgiu oficialmente em dezembro de 1979, ao concorrer com "Maria Fumaça" no Festival da saudosa Rede Tupi. Depois vieram as gírias de Porto Alegre em "Deu Pra Ti", um desafio gauchesco em "Trova" e uma homenagem ao mais famoso personagem de Luis Fernando Verissimo em "Analista de Bagé". Finalmente, existia uma música riograndense com cara de música riograndense fazendo sucesso com os jovens de todo o Brasil. A MPB agora também tinha sotaque gaúcho.

Logo Kleiton e Kledir perceberam que poderiam ir além e serem porta-vozes da Região Sul como um todo. E como era comum os músicos nordestinos cantarem os problemas do nordeste - a seca, o êxodo rural, bóias frias e "paus de arara" - por que não procurar um tema semelhante no sul? E assim, em 1985, no quarto LP da dupla, apareceu a composição "Por Água Abaixo", sobre as enchentes de Santa Catarina. Eis a letra:

Pela mão do destino
Vamos sendo marcados
Nossos sonhos, em vão
Foram por água abaixo

Nunca vi tanta chuva
Transbordando os rios
Destruindo paixões

Tudo por água abaixo

Fiz até uma promessa
Se São Pedro fechasse
As torneiras do céu
Mas foi por água abaixo

E será que vai dar pra recomeçar
Quando passar tanta tormenta?
Tanta tormenta!

Acontece que o homem
Mexe na natureza
E isso dá no que deu
Vamos por água abaixo

É impossível nadar
Contra a lei correnteza
Inocentes, culpados
Todos por água abaixo

Só nos resta a esperança
Na justiça divina
O que a alma plantou
Não vai por água abaixo

Lembro de uma viagem a trabalho que meu pai fez para Florianópolis no final dos anos 70. Acabou pegando alagamento. Por sorte, não sofreu maiores conseqüências, apenas chegou com uma divertida foto em que aparecia andando de canoa em plena cidade. No final do ano de 1995, eu, minha (hoje ex) esposa e meu filho fomos a Canasvieiras. Tivemos que pernoitar num hotel na metade do caminho, pois o acesso a Florianópolis estava interrompido em Palhoça. Conseguimos chegar no dia seguinte, mas prolongamos nossa estada antes de voltar para esperar que o trânsito na rodovia fosse normalizado.

Passados mais de 20 anos da música de Kleiton e Kledir, nada mudou. Santa Catarina continua assolada por chuvas torrenciais. Haverá algo que se possa fazer para salvar um dos melhores estados do Brasil? Muito se fala na qualidade de vida de Florianópolis e outras cidades catarinenses. Nós, brasileiros, somos abençoados por não sofrer com terremotos ou temperaturas abaixo de zero. Mas temos enchentes. No momento, a providência a tomar é fazer doações. Mas depois? Se a letra da música estiver correta ao dizer que "o homem mexe na natureza", será possível reverter o quadro? Já ouvi algumas teorias a respeito do que causaria essas chuvas, mas realmente não sei se procedem.

Curiosamente, Porto Alegre já foi uma cidade de enchentes. A maior de todas foi a de 1941. Conta-se inclusive que um dos flagelados foi entrevistado no rádio e disse que estava feliz com a mordomia com que o tratavam. Devia estar torcendo para que a situação se prolongasse, pois acrescentou: "Ouvi dizer que as águas estão baixando assustadoramente!" Eu tenho uma vaga lembrança de uma enchente na minha infância, até porque morávamos em frente ao Porto. Deve ter sido a de 1967, que é citada
neste site. O endereço indicado menciona mais três depois, mas não lembro que o Guaíba (rio, lago, estuário, vocês decidem) tenha chegado a transbordar.

Mas não há como conter a chuva. É preciso estar preparado para ela. E como diz a letra de Kleiton e Kledir, será que vai dar pra recomeçar? Tem que dar.

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