segunda-feira, novembro 24, 2008

O público de shows

Eu teria que conferir em minha coleção para ter certeza, mas acho que foi em 1979 que a revista Somtrês publicou uma matéria sobre Teca e Ricardo. Era um casal que já havia lançado vários LPs na França, mas era desconhecido no Brasil. Ricardo Villas era ex-guerrilheiro exilado e Teca Calazans era sua esposa. Fiquei fascinado com a matéria. Imaginem: músicos brasileiros anônimos em seu próprio país, mas fazendo sucesso no exterior. Na época era difícil de se conseguirem discos importados, ainda mais da Europa. Mas tive curiosidade de conhecer o trabalho da dupla.

Passou-se algum tempo, veio a anistia, Teca e Ricardo voltaram para o Brasil e reiniciaram sua carreira por aqui mesmo. Já tinham dois LPs lançados pela EMI e a música "Gabriel" tocava bastante nas rádios ("ele vinha da Guiné, Gabriel nasceu na África Equatorial, etc.") quando foi anunciado um show deles no Salão de Atos da PUC de Porto Alegre, em 1981. Nem pensei duas vezes: tratei de providenciar rápido o meu ingresso. Eu não quereria perder a apresentação deles por nada. Fui com meu amigo Paulo Brody, na época o meu único companheiro de fé para shows. Fomos no meu fuquinha (ou "fusquinha", pra quem não é gaúcho) e lembro que falei para ele que não deveríamos chegar muito tarde, ou teríamos dificuldade para estacionar.

Vocês conhecem o Salão de Atos da PUC? É tão grande quanto qualquer outro Salão de Atos ou Reitoria que vocês já tenham visto. Na dúvida, confiram no DVD "Kleiton e Kledir ao Vivo", que foi gravado lá. Agora imaginem aquele enorme teatro com menos de dez pessoas lá dentro! Foi esse vexame que o público de Porto Alegre deu diante da dupla que eu tanto queria conhecer. Mas eles se apresentaram normalmente e ainda deram bis. Algum tempo depois, tive chance de conversar rapidamente com um dos rapazes do Diretório Acadêmico, que promoveu o show. Ele não entendeu o que houve. Cerca de um mês antes, Diana Pequeno havia lotado o auditório. Desta vez, por duas noites, Teca e Ricardo tocaram para menos de dez pessoas.

Hoje leio no jornal que o show do Duran Duran em Porto Alegre foi cancelado por fraca venda de ingressos. Eu já desconfiava que esse mesmo motivo havia ocasionado o cancelamento da apresentação de Roberta Flack. O que está havendo com o público de Porto Alegre? Falta de dinheiro? Desinteresse por artistas nostálgicos? Às vezes eu me pergunto que tipo de público ainda sai de casa para ver um show. Sem ter feito nenhuma pesquisa, com base apenas na observação, eu diria: em primeiro lugar, os jovens. Se o artista veterano que vier se apresentar tiver uma legião significativa de fãs da novíssima geração (como é o caso de Elton John, por exemplo), o show já terá uma boa platéia. Em segundo lugar, os fãs incondicionais, independente de idade. Para ver David Bowie eu já saí do Rio Grande do Sul duas vezes. Mas não me motivei a fazer o mesmo por Paul McCartney, por exemplo. Mas se ele viesse a Porto Alegre é claro que eu iria.

Nem sempre é fácil saber o que tira alguém de casa para assistir a um show. Em 1981, quando Teca e Ricardo amargaram o público minguado, qualquer um dos quatro baianos que um dia formaram os Doces Bárbaros (Gil, Caetano, Gal e Bethânia) lotaria um ginásio na capital gaúcha. O problema do Duran Duran é que a imagem da banda ficou muito cristalizada nos anos 80. Se viessem os Bee Gees, por exemplo, seria sucesso garantido, pois é um grupo que se tornou eterno, uma paixão que passa de pai para filho. Mas depois da morte de Maurice, o futuro dos irmãos Gibb é incerto.


Eu até pensava em ir assistir ao Duran Duran, mas em minha idade, gosto de ver shows no conforto de uma cadeira. De pé, com espaço, também serve. Em arquibancada, jamais. Preciso de encosto. Já perdemos dois grandes shows, talvez outros de que nem ficamos sabendo. Quem sabe até o DVD, com suas comodidades e recursos, possa estar rivalizando com os shows "in loco". Eu lamento muito o cancelamento do Duran Duran. Houve uma época em que quase não vinham shows internacionais ao Brasil e os poucos que aqui chegavam movimentavam a imprensa no mínimo por um mês. Hoje, já estamos esnobando os grandes astros. Uma pena.

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