segunda-feira, maio 12, 2014

Falta de sinalização

Já faz mais de uma semana do acidente na ponte do Guaíba, em que um rapaz se perdeu de automóvel, entrou na contramão e acabou caindo no estuário (ou lago, como hoje se convencionou chamar o rio que nunca foi rio), por não perceber que o vão estava içado. Quando o carro foi resgatado, seu corpo estava sem vida. Entre as muitas causas da fatalidade, gostaria de apontar uma que inclusive já mencionei em outra oportunidade: a falta de sinalização nas ruas e estradas do Brasil.

Brasileiro não tem cultura de sinalização. Os poucos sinais que se encontram por aí mais parecem cumprir um objetivo estético ou ornamental do que propriamente indicativo. E, ainda assim, o trânsito funciona. Por quê? Porque pessoas como eu, que conseguem se perder em sua própria cidade, são exceções. Em geral, os itinerários se ensinam de pai para filho. Ou se aprendem pela observação. Consultam-se mapas. Hoje já existe até o GPS. Em último caso, vigora o “quem tem boca, vai a Roma”. Se não souber o caminho, pare e pergunte. O nosso povo é muito intuitivo e tem um senso extraordinário de improvisação. Em outras palavras, nossa gente “se vira”.


Mas eu sempre fui muito distraído e desligado em relação ao trânsito. Até o meu filho, com todas as suas limitações de menino autista, parece ter mais facilidade de memorizar os trajetos do que eu na idade dele. Em certa ocasião, pegamos o ônibus Assunção em vez do Praia de Belas (quando eu morava em meu antigo apartamento) e, quando o veículo dobrou à direita após a escola Parobé em vez de seguir reto, o Iuri protestou. Ele estava acostumado com o outro caminho. Já eu me revolto com a ausência de sinalização em locais óbvios. Já contei aqui que me perdi voltando de Teresópolis para o Menino Deus. No final de uma rua havia uma placa dizendo que, para a esquerda, chegava-se ao Centro. Tudo bem, eu sei que o Menino Deus também é por ali. O problema é que deveria haver outro sinal logo a seguir orientando dobrar à direita. Provavelmente não foi colocado sob a premissa de que “todos sabem” disso. Todos menos eu. Segui reto e acho que acabei atravessando a temida Vila Cruzeiro do Sul.


Esse é o problema: presume-se que “todos sabem” o caminho. Se não souberem, perguntem, consultem o mapa, usem GPS, façam qualquer coisa, mas não esperem que a sinalização vá ajudar muito. E isso não vale somente para ruas e estradas. Na semana passada, estive em um renomado complexo hospitalar de Porto Alegre. Já foi difícil localizar o prédio certo. Havia somente uma placa com aquela famosa setinha que diz, em última análise: “fica pra lá”. Ainda que “lá” se encontrassem outros blocos e portas para confundir. Perguntei e confirmei que havia chegado no edifício desejado. Mas... e a sala? Quando a moça me informou que seria na 4 ou 5, eu observei que nenhuma delas citava a especialidade que eu procurava em suas sinalizações. Ela respondeu: “O hospital tem várias especialidades. Depende do médico.” Como descobrir? Perguntando, claro. Foi o único jeito.


Em 1990, fui com minha então esposa aos Estados Unidos. E aluguei um carro na Flórida. Fizemos o trajeto Miami-Orlando, ida e volta, comigo na direção. Felizmente deu tudo certo e foi uma viagem inesquecível, mas eu estava apreensivo. Se já tenho dificuldade de orientação em minha própria cidade, como iria me sair no exterior? Para meu alívio, a sinalização era farta. Nos trevos, por exemplo, havia alertas informando quando não seria possível retornar para o sentido oposto. Ao contrário do brasileiro, o americano tem cultura de sinalização. Até mesmo os nomes das ruas por que passávamos eram informados em placas suspensas. Parece que isso já está sendo implementado em algumas cidades do Brasil, mas não em Porto Alegre. Aqui a gente sofre espichando o olho nas esquinas, tentando achar uma plaquinha escondida. E nem sempre encontra.


Sinalização deveria ser abundante, redundante, exagerada, repetitiva. Pecar por excesso. Em vez disso, ocorre o contrário. Pra que sinalizar se “todos sabem”? Infelizmente, esse rapaz que se perdeu em Porto Alegre
não sabia. Ele era de Charqueadas. E eu digo a vocês que – Deus me livre! – o acidente que aconteceu com ele poderia ter sido comigo. Eu sou atrapalhado o suficiente no trânsito para fazer o que ele fez. Certa vez dei um retorno no bairro Ipanema, presumi estar na preferencial e ia passar reto em uma esquina. Segundos antes, vi um carro cruzando à toda na perpendicular e percebi que aquela era a rua em que eu pensava estar. Foi um aviso. Por um triz eu não cortei a frente daquele automóvel.

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