sexta-feira, setembro 21, 2012

Memórias de um produtor

Já que comentei o livro de Ken Scott, aproveito para republicar o texto que escrevi em 2007 sobre a autobiografia de Tony Visconti, outro produtor de David Bowie e artistas diversos. Foi redigido para publicação no International Magazine.

A autobiografia de Tony Visconti confirma o que já se sabia pela Internet: apesar de seu invejável currículo como produtor de lendas do rock, ele é um cara simples. Conta a história de sua vida com a mesma espontaneidade e bom humor com que já respondeu a perguntas de fãs em seu site e até por e-mail. Ele confessa, por exemplo, que se viciou em heroína e se tratou ainda antes da fama, mas isso acabou ajudando-o a escapar do Vietnã. Tony nasceu no bairro novaiorquino do Brooklyn e começou na música como baixista. Mas logo começou a se interessar pelos meandros de uma sessão de gravação. Em 1967 mudou-se para Londres a convite de Denny Cordell, para ser assistente de produção. Seus primeiros trabalhos de destaque foram com David Bowie e Marc Bolan. 

Talvez por estar novamente produzindo Bowie, ele atenua duas histórias que antes apimentava bastante em entrevistas. Por exemplo, em 1983 ele contou para o Time sobre o período em que morou com o músico inglês em 1970: "Quinta-feira era noite gay. David ia a um clube gay, Angie [esposa de David] ia a um clube de lésbicas e os dois traziam pessoas que tinham conhecido. Tínhamos que trancar nossos quartos pois no meio da noite essas pessoas subiam em outras camas procurando sangue novo".  Já no livro esse episódio se resume a uma menção rápida de que Tony e sua esposa Liz saíram de lá entre outras coisas porque havia "um fluxo constante de visitantes ficando até tarde da noite".  Outra passagem que o livro até narra, mas de forma amenizada, foi a falta de envolvimento de Bowie no álbum "The Man Who Sold The World", que o guitarrista Mick Ronson praticamente carregou nas costas. Tony várias vezes contou que Bowie e Angie ficavam de namorico na recepção enquanto os músicos gravavam. 
Um fato pelo qual Tony não esconde uma certa mágoa foi a falta de crédito por seus arranjos no LP "Band on The Run", de Paul McCartney, em 1973. Ele apenas foi citado na lista de agradecimentos. Somente na edição comemorativa de 30 anos do disco Tony não apenas foi mencionado como contribuiu com um depoimento para o CD 2. Paul enviou-lhe uma nota na época dizendo: "Finalmente você ganhou seu crédito", demonstrando que tomara conhecimento dos sentimentos do produtor. Tony fala também de seu trabalho com o Thin Lizzy. Explica também como remontou a estrutura de "A Sort of Homecoming" do U2 para lançamento no EP ao vivo "Wide Awake in America".
O produtor se abre ainda sobre sua vida amorosa. Ao conhecer a cantora inglesa Mary Hopkin em 1971, apaixonou-se  veio a se separar de sua primeira mulher Liz. Mary tornou-se sua segunda esposa. Mas era uma mulher insegura, que tinha o que se chama em inglês de "stage fright", ou medo do palco. Usou a gravidez e a nova vida em família como pretexto para se afastar dos shows. Isso de certa forma explica o comportamento irritadiço que a artista demonstrou quando veio ao Brasil em 1969 e ameaçou não cantar, reclamando da desorganização. O casal se separou na época em que Tony produzia "Scary Monsters", de David Bowie, em 1980. Depois de alguns namoros esporádicos, Tony reencontrou May Pang, mas a princípio não a reconheceu como a namorada de John Lennon com quem conversara em 1974. Obviamente ele a viu com outros olhos, sentiu-se atraído e o resultado foi, nesta ordem, gravidez e mais um casamento. 
Tony encerra o livro num tom otimista, dizendo que as evoluções tecnológicas mudaram a indústria do disco, mas demonstrando que ainda se entusiasma em conhecer novos músicos e produzi-los. Torce para que David Bowie se recupere do problema cardíaco que o afastou dos palcos e diz que espera ansiosamente pelo próximo disco do cantor, mesmo que não seja ele, Tony, o produtor. A biografia é prefaciada por Morrisey e tem 394 páginas, mas não inclui todas as informações já divulgadas por Tony em seu site (http://www.tonyvisconti.com). Um complementa o outro, portanto. O lançamento é da editora inglesa HarperCollins.

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