sábado, setembro 15, 2012

Ken Scott finalmente reconhecido

Terminei de ler a autobiografia de Ken Scott, mas não vou escrever uma resenha específica sobre a obra. Em vez disso, aproveitarei para discorrer de forma mais ampla sobre o produtor, tendo como ponto de partida o momento em que tomei conhecimento dele. Assim, minhas impressões acerca do livro ficam para o final.

Eu me tornei fã de David Bowie mais ou menos na época do meu aniversário de 13 anos, em dezembro de 1973. Acho que foi alguns dias antes que meu tio me trouxe de presente o LP "Aladdin Sane". Eu havia dado a ele uma lista de três em ordem de preferência. No topo estava "o último do David Bowie". Eu nem sabia qual era e achava que talvez ele estivesse apenas lançando seu primeiro disco. Eu lera sobre ele na revista Pop durante todo o ano e ficara intrigado com aquele visual de super-herói extraterrestre. Era uma espécie de versão mais imponente e colorida de Alice Cooper, cujo álbum "Billion Dollar Babies" era o segundo da lista que eu havia dado ao meu tio (o terceiro era "They Only Come Out at Night", de Edgar Winter Group). Assim, sem ter ouvido uma única música antes, resolvi arriscar. E o resultado foi que, numa década em que cada um teve o "seu" ídolo, em contraposição às unanimidades de Beatles e Elvis Presley nas duas anteriores, eu acabei encontrando o meu.

A descoberta de outros discos dele foi igualmente fascinante. Com o tempo, Bowie começou a mudar de estilo e, com isso, alienou alguns fãs. Mas haveria de conquistar novos e, mais cedo ou mais tarde, recuperar os antigos. Eu continuei acompanhando o trabalho dele, mas meu entusiasmo oscilou um pouco em alguns momentos. E foi aí que percebi um detalhe curioso: meus três discos preferidos dele, "Hunky Dory" (1971, que eu trouxe dos Estados Unidos em 1974, pois não tinha saído no Brasil), "Ziggy Stardust" (1972) e "Aladdin Sane" (1973),  haviam sido produzidos por Ken Scott. Depois que Ken saiu da equipe de Bowie, o artista lançou mais um disco "roqueiro", que foi "Diamond Dogs" em 1974. A partir de 1975, o cantor começou a dar guinadas bruscas de gênero que confundiram seus velhos seguidores. Mas seu prestígio junto à crítica foi se consolidando cada vez mais. Sua obra é sem dúvida uma das mais ricas do universo do rock ao lado da dos Beatles, Frank Zappa e pouquíssimos outros.

Nos anos 80, comecei a ler biografias de David Bowie. Foi uma década em que o ídolo teve um inesperado reaquecimento de popularidade e cada vez mais livros começaram a ser publicados sobre ele. Mas um fato me intrigava: nenhuma das obras destacava a participação de Ken Scott em sua carreira. Em algumas delas, o produtor sequer era citado. Ele havia produzido pelo menos um álbum antológico, "Ziggy Stardust", mas não recebia os méritos. Era como se o papel dele na gravação dos discos tivesse sido meramente burocrático. Em contraste, havia uma valorização quase reverencial ao nome de Tony Visconti, que produziu "Young Americans" (1975), "Low" (1977), "Heroes" (1977), "Lodger" (1979) e "Scary Monsters" (1980), além de colaborar com discos de Bowie do começo da carreira, entre 1967 e 1970. Tony era procurado para dar entrevistas e contar sobre os truques e recursos originais que havia usado durante as gravações. 

Em 1982, quando Bowie decidiu resgatar um show de 1973 que havia sido filmado, gravado e por fim esquecido, foi Tony Visconti que ele chamou para fazer a remixagem – embora fosse um registro "do tempo" de Ken Scott. Igualmente, Tony foi convidado para contribuir com comentários para o relançamento em DVD. É sempre agradável ouvi-lo falar, pois tem ótima voz e é muito articulado. Mas a verdade é que ele não teve nenhum envolvimento com o show original ou com a filmagem. Quando ele comenta o processo de restauração, seus depoimentos são pertinentes, como os "bips" no começo de "Space Oddity" (marcações da fita que ele resolveu deixar, pois combinavam com a música). Mas, quando tenta abordar fatos da época, atrapalha-se e comete erros, pois não teve participação direta. A própria remixagem que ele fez divide opiniões. Alguns fãs preferem o som do bootleg que saiu em vinil ainda nos anos 70.

Quando a Internet entrou em minha vida em 1996, minha primeira iniciativa foi entrar em contato com fãs de David Bowie no mundo todo. Criou-se uma comunidade virtual em torno do cantor, com membros de diversos países. Logo descobri mais admiradores que, como eu, consideravam Ken Scott injustiçado. Essa ideia foi reforçada quando um dos sites sobre Bowie fez uma enquete para escolher o melhor produtor de seus discos. Tony Visconti venceu, o que não foi surpresa. Mas um dos participantes chegou a dizer que preferia os discos de Scott, ainda assim iria votar em Visconti, pois achava que ele acrescentava mais às produções. Ficou subentendido que a contribuição de Ken Scott para aqueles álbuns fantásticos que saíram entre 1971 e 1973 tinha sido mínima. Já eu achava – e acho – que o que importa é o resultado. Se meus discos preferidos de David Bowie foram produzidos por Ken, como posso votar em outro nome? Para ter uma amostra do quanto ele enriquecia as gravações em pós-produção, basta ouvir a mixagem "crua" de "The Bewlay Brothers" que aparece como faixa bônus da edição de "Hunky Dory" da Rykodisc e compará-la com a versão final. Em 1998, escrevi uma análise em inglês sobre "Alladin Sane", o álbum que me tornou fã (pode ser lida aqui). Ao final do terceiro parágrafo, eu perguntava: "Quando o produtor Ken Scott irá receber o reconhecimento que merece?"

Um dia, descobri o e-mail de Ken e escrevi para ele. Recebi uma resposta breve e simpática, dizendo ao final que ele iria "viajar a serviço". Já percebi que essa é a desculpa padrão que alguém dá quando fica com receio que o outro vá "ficar no pé" por e-mail. Mas eu não sou de fazer isso. Ken veio a público em 2006 para contestar várias afirmações do livro de Geoff Emerick, "Here, There and Everywhere", sobre as gravações dos Beatles (o que ele disse a respeito, mais réplicas, tréplicas, etc, estão aqui). Percebi então que ele tem em comum comigo a obstinação por tirar fatos a limpo e retificar informações incorretas. Foi aí também que fiquei sabendo que, antes de ser produtor de David Bowie, Supertramp e outros, ele tinha trabalhado como engenheiro de som do quarteto de Liverpool, com atuação destacada no "Álbum Branco". Aqui pode ser baixada uma entrevista interessantíssima que ele concedeu ao radialista Andre Gardner, onde conta uma história bem curiosa sobre um erro que ele cometeu durante a gravação de "Glass Onion" e acabou ficando no disco. Nessa mesma época, Ken ingressou em um fórum de colecionadores e audiófilos do qual eu fazia parte. Ao ler uma menção elogiosa que eu fizera a ele, enviou-me um agradecimento em particular. Chegamos a trocar algumas mensagens. Foi também nessa ocasião que ele se dispôs a responder a perguntas de outros participantes, como já mencionei em meu texto "O medo de ser chato".
Neste ano, finalmente, veio a notícia de que Ken Scott iria publicar uma autobiografia. O livro foi escrito com a colaboração de Bobby Owskinski e se chamou "From Abbey Road to Ziggy Stardust". E aqui ele conta toda a sua história, seu começo como engenheiro de som na EMI em Londres, as peripécias nas gravações do Álbum Branco, as participações em álbuns de Elton John, seu primeiro trabalho como produtor em "Hunky Dory", com David Bowie, suas experiências com a Mahavishnu Orchestra e o Supertramp, a tentativa de atuar como empresário dos Missing Persons, a amizade com George Harrison e seu envolvimento com "All Things Must Pass", inclusive o relançamento em CD, e muito mais. Ele menciona também o fato de ter sido chamado para remixar "Ziggy Stardust" em 5.1, observando que foi uma decisão acertada da gravadora convocar o produtor original para essa tarefa. Há ainda diversos depoimentos elogiosos de músicos com quem ele trabalhou, como o baixista alemão Klaus Voorman, que chega a fazer um "mea culpa" sobre o quanto a participação de Ken no estúdio era importante e ao mesmo tempo pouco valorizada. Para quem se interessa pelos aspectos técnicos, Ken explica detalhadamente o equipamento usado no estúdio através dos tempos, incluindo fotos.

Enfim, Ken Scott aprendeu na prática uma lição que muitos de nós às vezes negligenciamos: se quisermos que os outros enxerguem nossas qualidades, não podemos ser excessivamente modestos ou discretos. Não precisamos ficar o tempo todo nos vangloriando de nossas conquistas, que isso nos torna presunçosos aos olhos alheios. Mas não custa encontrar uma forma estratégica de divulgar o que já fizemos e ainda podemos fazer. Com sua autobiografia, Scott põe sobre a própria cabeça uma coroa que já fazia por merecer havia muito tempo. E o melhor de tudo: com pleno aval dos personagens principais de sua história.

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