sábado, julho 02, 2011

Palavras do trabalho

Dizem os psicólogos que a palavra que o ser humano mais gosta de ouvir é o próprio nome. E, de fato, sempre achamos uma pessoa mais simpática quando nos cita nominalmente em uma conversa. É como uma atenção especial, um toque personalíssimo ao diálogo. É gratificante constatar de que o interlocutor sabe com quem está falando (sem conotação megalômana) e faz questão de demonstrar isso.

No entanto, existe uma situação em que nem sempre se gosta de ouvir o nome: é no ambiente de trabalho.

- Fulano!

E você já pensa: e agora? Por que estou sendo chamado? Será alguma tarefa complicada, daquelas bem cabeludas? Ou será que já fiz alguma bobagem? Pior é quando esse chamado vem num momento em que você está ocupadíssimo, mas não pode se recusar a atender. Mais rolos. Ou então você ouve, lá do outro lado da sala, alguém dizer, hesitante:

- Ôôôôôôôôôô...

E você já sabe que, no final desse "ôôôôôôôôô", virá um nome. Será o seu? Será? Não será? E, se for, será mais um rolo? Será? Não será? O suspense é torturante.

Além do próprio nome, existem outras palavras e expressões que podem nos deixar apreensivos no ambiente de trabalho. É comum acontecer de alguém pedir informações por telefone que nem sempre você tem condições de fornecer. Isso acontece principalmente quando você puxa uma ligação que chega para um outro ramal. Mas, como você é soldado da instituição e a representa, tem que se virar. Então você diz alô, a pessoa do outro lado se identifica, pede para falar com alguém que provavelmente não se encontra no momento e, na falta dela, recorre a você mesmo. E geralmente introduz o assunto dizendo:

- Assim, ó...

Alguém alguma vez se preocupou em fazer a análise sintática de "assim, ó"? Porque é dessa forma que a maioria das pessoas começa falando quando quer contar uma longa e complicada história. Como nem ela própria sabe a melhor forma de organizar as ideias, faz uso do "assim, ó" como uma espécie de expressão coringa. Tipo: abre alas, porque vai passar um trem bem grande e barulhento. Você ouve "assim, ó" e já sabe que tem que ficar sentado com toda a calma e escutar com muita paciência. Às vezes, depois da longa conversa, você fica feliz e satisfeito por ter conseguido dar uma informação valiosa. E pensa que sua missão chegou ao fim. Ledo engano. Quando você menos espera, a pessoa do outro lado diz:

- Outra coisa...

Essa não! Quando você pensa que acabou, começa tudo de novo! Se "assim ó" é a locomotiva que vem apitando e anunciando uma longa história, "outra coisa" é o engate que puxa mais um enorme vagão logo atrás. É por detestar o "outra coisa" que, quando tenho mais de um assunto para tratar em um telefonema, já começo dizendo: tenho três perguntas para fazer. Ou: estou ligando para falar de duas coisas. Assim o interlocutor já abre espaço em seu estado de espírito para a enorme carga que estou trazendo em minhas indagações.

No fundo, essas experiências todas tornam o ambiente de trabalho mais desafiador e evitam que caia na rotina. Nesses contatos, fazem-se amizades e se incentiva o exercício da solidariedade. O colega aprende mais depressa o seu nome, nem que seja para chamá-lo quando a situação complica. O telefone toca. Você atende.

- Fulano, tudo bem? É a Fulana...

E você já espera. Em menos de dez segundos, você ouve:

- Assim, ó...

Em outras palavras: senta, que a história é grande! E ainda pode vir "outra coisa" no final...

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