segunda-feira, junho 26, 2006

Porteiro eletrônico

Tive o primeiro contato com porteiro eletrônico em 1975, aos 14 anos. Minha irmã tinha-se mudado para o Menino Deus e eu tive que aprender a usar a geringonça. Até então, eu nunca me preocupava em saber o número certo dos apartamentos. Achava os endereços pelo andar e pela localização da porta no corredor. A inovação me trouxe esse incômodo e, no começo, me atrapalhei um pouco. Lembro de um dia em que fui visitar um amigo que morava numa casa. A mãe dele me informou que ele estava no apartamento de um amigo comum que ficava na mesma rua. Eu perguntei:

- Qual é o apartamento?
- É o bem da frente.
- Sim, mas qual o número?
- É o bem da frente! – ela insistiu. Ainda não tinha assimilado a cultura do porteiro eletrônico.

Hoje porteiro eletrônico é algo tão comum quanto campainha ou telefone. Em tese, é um recurso que facilita bastante a vida do morador. O problema é a falta de cuidado de quem circula em nossos apartamentos. Crianças e empregadas, ansiosas por demonstrar conhecimento do uso do aparelho, acabam abrindo a porta para quem não devem. Sem contar os desleixados que entram com a chave, mas não se preocupam em verificar se a porta foi bem fechada. Aí acontecem os assaltos e arrombamentos. Como conseqüência, vários prédios adotam como norma manter as portas de entrada sempre chaveadas. Com isso, perde-se a finalidade precípua do porteiro eletrônico, que é a de permitir o acionamento remoto. Fica sendo apenas um intercomunicador. E até para isso ele poderia ser dispensado, considerando que hoje quase todo o mundo tem telefone celular. Quando alguém chegasse, bastaria telefonar e dizer: "Estou aqui em baixo."

Para mim essa prática criou um inconveniente tremendo. Às vezes estou com meu filho, que é uma criança autista, e tenho que deixá-lo no apartamento para descer e abrir a porta para uma visita. Ou para buscar algum "tele" que tenhamos pedido. Eu tento levá-lo junto, mas ele prefere ficar esperando. Como sou asmático, tenho Ecco Salva. Mas já sei que, se acontecer uma emergência, terei que dar um jeito de descer para receber a ambulância. Tive uma crise na semana passada e, como estava com meu filho, pedi ajuda de minha irmã. Meu sobrinho (irmão do que me ajudou no ano passado – é a família dos anjos da guarda) chegou de táxi mas não pôde subir porque a porta estava trancada. Só quem já teve uma crise de asma sabe o que é não ter fôlego nem para colocar os sapatos no filho. Descalço ele não quis vir comigo, nem eu teria forças para obrigá-lo. A solução foi eu descer bem devagar, chegar lá em baixo, entregar a chave para o sobrinho e dizer:

- Por favor, sobe lá no apartamento, põe os tênis no Iuri e desce com ele e a malinha dele, que eu não vou conseguir voltar.

E agora, o que posso fazer? Fornecer uma cópia das chaves para o Ecco Salva? Para minha irmã até não seria difícil, mas e se ela não estiver aí? No fim o desleixo, a imprudência e a falta de segurança tornaram o porteiro eletrônico totalmente inútil.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home