terça-feira, junho 06, 2006

Golpe de filme

Questões éticas, legais e morais à parte, há que se admirar a criatividade de certos golpes. Mas, em alguns casos, ainda mais impressionante é a credulidade de quem cai neles. A Internet já revelou a que ponto chega a inocência da população, repassando em massa alertas e relatos totalmente inverossímeis. Mas o mundo concreto consegue ser ainda mais incrível.

Essa artimanha montada por uma quadrilha no interior do Rio Grande do Sul parece enredo de série policial americana daquelas que a gente olha e comenta: "só em filme, mesmo". Os vigaristas diziam poder desviar dinheiro da Casa da Moeda. Mas a parte mais surreal era a afirmação de que as cédulas saíam de lá recobertas por uma tinta preta, para segurança. Munidos de um solvente que diziam também ter sido surrupiado da Casa da Moeda, demonstravam, com luz negra e fumacinha, como a tinta era removida. A cédula ressurgia novinha em folha.

Agora pensemos: a Casa da Moeda produz cédulas em lotes de que quantidade? Centenas? Milhares? Imaginem uma sala nas próprias dependências da instituição, ou várias salas espalhadas por pontos de distribuição, onde haveria funcionários especializados em aplicar o tal solvente em cada nota, com fumacinha e tudo. Uma por uma. Trabalho artesanal. Ah, não, talvez não fosse assim. Haveria máquinas para esse fim. Cada leva de papel-moeda seria alimentada de um lado e ressurgiria do outro completamente limpa. O serviço seria tão bem feito que nunca aparecia nenhuma nota manchada em circulação.

Mas não termina aqui. Logo vem a cena de ação do filme policial: a vítima, depois de pagar uma quantia em dólares, era instruída a seguir um carro da quadrilha até uma chácara onde iria receber um valor cerca de 30% maior nas cédulas de reais supostamente roubadas. No meio do trajeto, os bandidos eram abordados por policiais, com tiroteio e tudo. No desespero, o motorista do carro de trás, sabendo-se parte de um negócio ilícito, tratava de escapar e ainda rezava para não ser delatado pelos ofertantes da barganha. Só quando estivesse são e salvo ele iria lamentar o "azar" de ter tido o seu dinheiro perdido.

Não sei o que acontecerá com o empresário que, assumindo sua parte de culpa, denunciou os meliantes. Mas deveria existir uma forma de estimular esse tipo de atitude sem ferir a justiça. Afinal, os golpes mais maquiavélicos são aqueles em que a vítima também tenciona burlar a lei. Ao descobrir-se enganada, ela teme se expor por ter sido conivente com um pretenso ato ilícito.

De qualquer forma, ainda estou imaginando os funcionários da Casa da Moeda limpando as cédulas uma por uma. Ah, não, é uma máquina. Tinha esquecido. Com uma abertura para abastecimento do solvente especial. Com certeza deveria existir outra para aplicar o revestimento preto.

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