sexta-feira, abril 07, 2006

O efeito Contatos Imediatos

"Contatos Imediatos do 3º Grau" foi um dos clássicos da minha adolescência. Não achei o filme tão espetacular quanto meus amigos (quanto eles acharam, quero dizer – mas de qualquer forma também acho meus amigos melhores do que o filme), mas ainda assim gostei mais do que "Guerra nas Estrelas", que a maioria dos meus colegas adorou. Para minha surpresa, apenas dois anos depois Steven Spielberg relançou o filme com cenas a mais. Naquele tempo ainda não se dizia "versão do diretor". Se não me engano a expressão foi usada pela primeira vez no relançamento de "Blade Runner". Hoje "versão do diretor" virou sinônimo de "edição mais longa", mesmo que o diretor prefira a mais curta. É exatamente o caso de "O Exorcista". Todas aquelas cenas adicionais que apareceram na "versão do diretor" haviam sido cortadas pelo próprio na edição final em 1973.

Mas voltando ao "Contatos", nos extras do DVD, Steven Spielberg explica o porquê da segunda versão. Ele teve que concluir o filme às pressas para o Natal de 1978 e, com isso, não conseguiu fazê-lo como queria. Num lance obstinado, disse ao estúdio que queria verba para terminar o filme e relançá-lo como pretendia desde o começo. Levou, mas com uma condição: teria que mostrar o lado de dentro do disco voador. Esse seria o mote da campanha do relançamento. É um tanto estranho que a única cena que Spielberg filmou contra a vontade tenha sido usada na publicidade da nova versão. Nem ao menos o ator Richard Dreyfuss aparece dentro da nave: ele pára na porta e fica olhando, fascinado. Claro que as supostas imagens do interior foram filmadas em separado. No DVD, Spielberg finalmente editou o filme como queria: com todas as cenas extras, menos a da espaçonave. Essa entrou como bônus na parte das cenas cortadas.

Por mais que se queira criticar, acho que o estúdio fez bem. Ninguém sairia de casa para assistir a um filme que já tinha visto dois anos antes só por causa de algumas ceninhas novas. Mesmo com a visão interna da espaçonave, ouvi gente reclamando que "era o mesmo filme", provavelmente imaginando que seria algo bem diferente. E aí lembro das novas versões de softwares e aplicativos que usamos diariamente. Às vezes, para corrigir um errinho ou aperfeiçoar uma funcionalidade realmente útil, um fabricante enche um pacote de software de babados inúteis, animações, sons, perfumarias, módulos dispensáveis que penalizam o desempenho, só para mostrar "os novos recursos do software Tal". São as famosas "melhoras não solicitadas". Isso porque a primeira versão, também como no filme de Spielberg, foi lançada às pressas para ganhar a dianteira do mercado. Agora o usuário quer ver as falhas corrigidas, não uma nova tela de apresentação, menus mais bonitos e padrões modificados que o obrigarão a reaprender tudo para continuar obtendo o mesmo resultado. Infelizmente o "efeito Contatos Imediatos" se aplica também à informática. Mas com um agravante: não temos opção. A ditadura das novas versões nos obriga a renovar nosso software e hardware ano a ano. Mas, para não acharmos que não estamos tendo nenhuma vantagem com isso, eles acrescentam implementações inúteis que deixam o visual mais atraente. Assim como Spielberg, para fazer os pequenos ajustes que desejava, foi obrigado a mostrar o lado de dentro da espaçonave.

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