segunda-feira, abril 03, 2006

Benevolência

Certa vez comentei com amigos que a minha personalidade se formou aos 13 anos. Que hoje eu sou aquele mesmo garoto que eu era em 1974, apenas com um pouco mais de vivência. Mas, na verdade, a gente continua mudando, sim. Mesmo que não perceba.

Aos 25 anos eu vivi a experiência de ser mesário em uma eleição. Não vou dizer que a perspectiva de desperdiçar o feriado de 15 de novembro tenha sido das mais agradáveis. Mas, como diz o ditado, se a curra é inevitável... Tive a sorte de pegar uma turma legal, com um presidente de mesa organizado e naturalmente líder. Deu tudo certo. Ou melhor, quase. Um dos convocados não compareceu. Com isso, a suplente não pôde ser dispensada, como desejava. Mas ela também procurou aceitar a situação. Mesmo assim, ficamos de sobreaviso. Se o eleitor convocado aparecesse para votar, deveria ser chamado a se explicar.

Dito e feito: pouco depois do almoço, lá apareceu o sujeito que não havia atendido à convocação. Veio acompanhado de seu filho pequeno. Questionado, afirmou não ter recebido a notificação. O presidente de mesa o convocou no ato. Ele alegou não poder ficar por causa da criança, mas que talvez voltasse mais tarde. Não voltou. Na hora de fazer a ata, o presidente de mesa escreveu apenas que o mesário convocado não havia se apresentado para os trabalhos mas, ao comparecer para votar, disse não ter recebido a correspondência do TRE. Eu protestei e insisti para que constasse também que ele tinha sido convocado no ato e se esquivou com uma desculpa. O presidente de mesa disse que não iria colocar isso porque "iria causar problemas para o cara". Fiquei indignado. Ora! Nós tínhamos passado o dia ali, trabalhando em pleno feriado. Um dos mesários simplesmente não apareceu, mas veio votar, deu um pretexto qualquer e fica por isso mesmo? Voltei a tocar no assunto enquanto levávamos a urna. Eu simplesmente não me conformava. Achava um procedimento injusto com todos nós, mais ainda com a suplente.

Não sei o que vocês acham disso, pois reconheço que é um assunto polêmico. Só digo que hoje, aos 45 anos, penso muito diferente. Foi certa a atitude do presidente de mesa. Talvez não a correta pelas normas rígidas, mas sem dúvida a mais madura. Não sou a favor do silêncio quando se testemunham falcatruas ou delitos graves. Mas vale a pena prejudicar um cidadão por algo tão pequeno? Se tivesse acontecido uma ausência de todos os indicados, aí teríamos uma situação emergencial que mereceria investigação posterior. Mas foi um só caso de não comparecimento. Mesmo que o mesário refratário soubesse de antemão que seu nome poderia estar na lista, deveria ter seus motivos para alegar o não recebimento da carta. Isso o TRE teria a faculdade de verificar posteriormente. Já é uma situação suficientemente delicada que ele teria que enfrentar. Por que causar-lhe mais transtorno fazendo constar em ata a convocação oral feita na hora?

Não sou a favor da impunidade. Mas cada caso é um caso. Há que se ter maturidade para saber relevar situações em que não vale a pena causar transtornos. Hoje eu vejo casos parecidos, observo o comportamento dos demais envolvidos e logo identifico os benevolentes e os impiedosos. No fundo, os dois estão certos. Mas eu troquei de lado. Hoje, não defenderia o que defendi há 20 anos. Pensando bem, mudei, sim. Espero que tenha sido para melhor.

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