quinta-feira, março 30, 2006

Um ano de "Presque"

Dia 31 de março está fazendo um ano que Luis Fernando Verissimo divulgou o nome da verdadeira autora do "Quase", o mais popular dos apócrifos atribuídos a ele: Sarah Westphal Batista da Silva, estudante de Medicina de Florianópolis. Uma semana antes, em sua crônica do dia 24, ele havia contado que recebera em Paris uma coletânea de escritores brasileiros traduzidos para o francês em que o texto aparecia com sua assinatura sob o título de "Presque". No dia 31, encerrou sua coluna com um parágrafo à parte, onde dizia: "apareceu a autora do Quase". Passado esse tempo, algumas perguntas ainda atiçam a curiosidade dos fãs do cronista gaúcho. Como o "Quase" chegou à França? Quem o traduziu? Os franceses chegaram a saber da autoria incorreta? E o que mudou na vida da jovem Sarah depois da revelação? É o que o Blog pretende responder agora.



Tradutora do "Quase" para o francês:
"Não vou mais confiar na net!"

Gabriella Scheer é carioca, mas viveu a adolescência na Alemanha, onde se formou atriz na Escola de Arte Dramática de Munique. Suas atividades teatrais pouco a pouco a levaram para a França, que ela considera hoje seu "ponto de ancoragem". Além de alemão, francês e, claro, português, ela também atua em inglês e espanhol. O projeto "Cenas Brasileiras" realizou o seu sonho de criar espetáculos com base em autores de seu país natal. Um deles se chamou em francês "Aller vers...", inspirado no texto "Ir para...", de Clarice Lispector. Um editor propôs de lançar um livro com os textos para ser vendido depois do espetáculo. Gabriella achou ótima a idéia, pois o público sempre perguntava onde poderia encontrar os textos em francês. "Quando o livro estava sendo preparado para o Ano do Brasil na França, no ano passado, o editor me perguntou se eu não queria colocar outros textos, mesmo que não estivessem no espetáculo, então aproveitei e dei textos que tinha traduzido por puro prazer!"

Nem é preciso questionar como o "Quase" chegou até Gabriella com a falsa assinatura de Luis Fernando Verissimo: por e-mail, é claro, enviado por um amigo que o encontrou na Internet. A atriz decidiu incluí-lo na coletânea. "No Salão do Livro o Luis Fernando me confessou que o poema não era dele, mas tampouco sabia de quem era. Nessa altura, não fiz nada. O livro já estava pronto. Tampouco contei ao editor."

Agora que conhece a história completa, a brasileira radicada em Paris diz que poderá contá-la para as pessoas que compram o livro, "mas não todas". Segundo ela, "Alles vers..." está "quase" esgotado e provavelmente não haverá reedição. Caso aconteça, Gabriella pensa em três hipóteses: colocar o nome da autora certa, excluir o texto ou substituí-lo por outro também de Sarah, caso a estudante consinta. A atriz se mostra tranqüila em relação ao episódio. Diz que gostou da história e que, se Sarah quiser fazer contato com ela, será um prazer. Mas ressalva: "é óbvio que, doravante, não vou confiar mais na net!"

(Agradecimento especial a Gisela Lima.)



Sarah Westphal, a verdadeira autora:
"O melhor foi a certeza de que posso ser ouvida."

Mesmo antes de Luis Fernando Verissimo divulgar seu nome, Sarah Westphal Batista da Silva, ou simplesmente Sarinha, como era seu apelido, já havia reivindicado a autoria do "Quase" no Orkut. Alguns desconfiaram. Seria mesmo essa desconhecida estudante de Medicina de Florianópolis a criadora de um dos textos mais populares da Internet? A crônica de Verissimo mandando um recado "para o verdadeiro autor" proporcionou a ela a chance de se apresentar publicamente. Depois disso, foi entrevistada, apareceu na televisão, recebeu propostas de editoras, viveu seus 15 minutos de fama, mas logo voltou à rotina normal. Um ano depois, aos 22 anos, ela diz que não se considera uma escritora.

- Você já contou mil vezes, mas não faz mal. Como foi mesmo que você escreveu o "Quase"?

- O Quase me veio como um desabafo na aula de Português. Estava no começo do semestre, a matéria era transcrição fonética e, ao ler kwase no quadro, me dei conta de quanto eu odiava essa palavra. O motivo do desabafo foi um quase amor que eu tive, desses que terminam sem a gente saber por quê.

- Você costumava escrever regularmente? Ou aquele texto foi um instante isolado de inspiração?

- Costumava. Na época, eu me obrigava a escrever bastante por causa do vestibular, mas essa obrigação foi virando vício. Eu escrevia bastante, sobre qualquer coisa, depois mandava pras minhas amigas sem maiores pretensões.

- Em que momento você soube que o texto estava circulando como se fosse de Luis Fernando Verissimo?

- Durante uma aula de redação sobre "equilíbrio", ao ver que o texto e o tema se relacionavam, mandei o "Quase" pra frente e ele foi lido em voz alta pelo Waltinho, meu professor. Um ano depois, foi ele quem me avisou de um e-mail que atribuía o meu "Quase" a Luis Fernando Verissimo...

- Seu sentimento foi positivo ou negativo? Sentiu-se lisonjeada por acharem que um texto seu era dele ou frustrada por não ter o seu nome reconhecido?

- Achei engraçado, pois não via semelhança nenhuma. Pensei que era um engano de quem repassou o e-mail e gostei da idéia de ele estar sendo lido por mais gente. Foi um sentimento positivo, com certeza, mas eu ficava chateada quando não acreditavam em mim.

- Você tentou provar a verdadeira autoria?

- Depois de ver, no diploma da namorada do meu irmão, o "Quase" atribuído a Luis Fernando Verissimo, tentei de várias formas desfazer o engano: mandei e-mail ao colégio Energia, onde ela se formara, e aos jornais de Florianópólis, mas não houve resposta. Achava que, se Luis Fernando um dia soubesse do texto, ele ia ficar ofendido.

– Como você ficou sabendo que o Verissimo a havia citado em sua coluna?

- Acordei e entrei no Orkut. Me mandavam olhar o Zero Hora. Li a coluna tremendo. O último parágrafo tinha gosto de recompensa por todas as vezes que eu escutei "mas esse texto não é teu, é do Luis Fernando Verissimo..." Adorei.

- Chegou a conhecê-lo pessoalmente?

- Não, infelizmente.

- Depois que o seu nome foi divulgado, o que mudou em sua vida?

- Na época, pensava muito em largar a Medicina. No entanto, quando a oportunidade apareceu, vi que virar escritora não era exatamente o que eu queria. Eu gosto do escrever tanto quanto eu gosto de falar, de convencer. O melhor do "Quase" na minha vida é a certeza de eu posso ser ouvida, não importa a profissão que eu escolher.

- Você tem mais textos guardados que mereceriam divulgação?

- Guardados sim, mas que mereceriam divulgação, não sei. A minha mãe gosta, ha ha!*

- Nenhuma editora a procurou? Qual foi a sua resposta?

- Recebi e-mail de algumas editoras, mas o prazo para que eu escrevesse um livro era curto demais. Eu escrevo certinho, mas não sou uma escritora, nem perto disso. Precisaria de aulas, precisaria ler muito, precisaria de tempo. Talvez eu tenha perdido uma grande oportunidade, mas não teria coragem de pôr meu nome em cinqüenta páginas de qualidade duvidosa.

- E o rapaz que inspirou o "Quase", que fim levou? Ele sabe de tudo?

- Sabe, e riu bastante comigo... Ele nem sabia que eu gostava dele tanto assim. Foram só três semanas, mas quem tem 18 anos sabe o quanto o tempo é relativo...

*No ano passado, este blog publicou um poema inédito de Sarah Westphal. Leia aqui.

Leia também:

Desvendando o "Quase"

Parabéns, Sarinha!

Quase

Matéria do site Observatório da Imprensa

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