segunda-feira, fevereiro 26, 2018

As voltas por cima de Phil Collins

Em 1991, o Genesis lançou seu álbum We Can't Dance. A edição em vinil, ao menos no Brasil, trazia um adesivo com os nomes dos integrantes na capa. O objetivo era claro: chamar a atenção dos compradores em potencial de que Phil Collins estava no grupo. E eu pensei: que virada curiosa. Em 1975, quando ele, que até então era apenas baterista, assumiu o vocal da banda após a saída de Peter Gabriel, muitos duvidaram que pudesse dar certo. Para os fãs, Gabriel era o Genesis, com suas máscaras e a voz inconfundível.

Mas Phil encarou o desafio. Sua voz lembrava bastante a de Gabriel, de forma que a sonoridade do grupo não ficou descaracterizada. Os shows do Genesis passaram a ter mais descontração e menos teatralidade. O público e a crítica aprovaram. O novo cantor continuou exercendo seu ofício de baterista em estúdio, mas no palco teve o reforço de Chester Thompson (após uma rápida participação de Bill Bruford, ex-Yes). E foi esse Genesis que veio a Porto Alegre em 1977, tendo ainda Steve Hackett na guitarra, Michael Rutherford no baixo e Tony Banks nos teclados.

Mas houve novas mudanças. Após a turnê de 1977, foi a vez de Steve Hackett abandonar o barco. O guitarrista Daryl Stuermer entrou como mais um integrante somente para shows e o grupo continuou oficialmente como um trio. Foi aí que o estilo começou a migrar para longe do velho rock progressivo. Vieram canções mais rápidas e urgentes, em especial nos anos 80, como "Misunderstanding", "Turn it on Again", "No Reply at All", "Abacab", "That's All", "Home by the Sea" e "Invisible Touch". 

Nesse ínterim, em 1981, Phil Collins surpreendeu a todos com um disco solo. O álbum Face Value não lembrava nem o Genesis, nem o trabalho esporádico do vocalista/baterista com o Brand X. O primeiro hit radiofônico do LP, "I Missed Again", mostrava bem a linha rhythm'n'blues que o músico adotou. Como um experimento isolado, recebeu elogios da crítica. O que muitos talvez não pudessem prever é que ali estava nascendo um ídolo pop. Sua carreira individual seguiu em frente e ele emplacou outros sucessos, como "In The Air Tonight", "One More Night", "Another Day in Paradise", "Sussudio", "Take Me Home" "Against All Odds (Take a Look at Me Now)" além de covers como "You Can't Hurry Love" e "A Groovy Kind of Love".

Logo o nome Phil Collins tornou-se mais "vendável" do que o do Genesis. Sua popularidade ultrapassou não apenas a de seu grupo, mas também a de Peter Gabriel, a quem substituíra em 1975. Isso lhe rendeu algumas animosidades dos velhos fãs, para quem Phil traiu a causa do rock progressivo. Eventuais retornos do Genesis eram bem recebidos, mas o adesivo na capa de We Can't Dance em 1991 selava a virada: o nome de Phil estava sendo usado para divulgar um disco da banda. Isso dava a entender que muitos conheciam seu trabalho solo, mas não sabiam que ele pertencia ao conjunto.

Phil acabou deixando o Genesis em 1996, sendo substituído pelo vocalista Ray Wilson. O grupo se desfez no ano 2000, mas anunciou a volta em 2006 novamente com Phil Collins. O DVD When in Rome e o CD Live Over Europe mostram o cantor já sem a mesma energia dos bons tempos, deixando de subir uma oitava na segunda parte de "The Carpet Crawl", por exemplo. Eu sua autobiografia, lançada no Brasil com o título de "Ainda Estou Vivo", ele conta dos problemas que teve no braço esquerdo e no pescoço. Cirurgias livraram-no da cadeira de rodas, mas o impossibilitaram de tocar bateria e de se locomover sem uma bengala. Logo após se aposentar como músico, começou a beber. Internou-se, passou pelo tradicional calvário dos alcoólatras, mas conseguiu superar.

É curioso pensar que, se não tivesse se lançado como cantor, Phil Collins seria hoje um baterista aposentado por invalidez. Mas ele ainda tem sua voz e o repertório que o público adora. Com essa carta na manga, ele voltou à ativa em 2016. Cantando sentado o tempo todo, com seu filho Nicholas Collins, de apenas 16 anos, na bateria, Phil dá mais uma volta por cima, com total apoio dos fãs. É isso que veremos amanhã, no Beira-Rio. O show de abertura, que também deve ser ótimo, é dos Pretenders. Será que ele vai dizer "oi gaúchos", como em 1977, com o Genesis? Tudo bem, o que queremos é um bom espetáculo. E com certeza teremos. 

1 Comments:

Blogger José Elesbán said...

Bah. Baita apresentação.

10:09 PM  

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