domingo, dezembro 04, 2016

Correndo riscos

Já falei aqui sobre o meu medo de avião. Não a ponto de deixar de viajar. Embarco, tomo meu lugar no assento e não consigo relaxar, por mais longa que seja a viagem. Dormir, nem pensar. Ler também é difícil. De alguma forma, fico acompanhando à distância o trabalho do piloto. Certa vez arranquei o braço da cadeira, sem querer. Acho que, instintivamente, tentava segurar a aeronave, para que não sacudisse. 

Em 1985, aos 24 anos, fiz minha segunda viagem aos Estados Unidos. Não consegui dormir nem na ida, nem na volta, mas não é isso que quero comentar. Em Washington, num passeio de ônibus, nosso guia local, um brasileiro, mostrou-nos a ponte onde um avião caíra em 1982, logo após a decolagem. Hoje, graças à Internet, é possível pesquisar detalhes sobre o acidente (quem souber inglês pode ler aqui). O aeroporto estivera temporariamente fechado em razão de uma forte queda de neve. Quando finalmente chegou o momento da decolagem, seria recomendável repetir um procedimento de degelo da aeronave. Aparentemente, o piloto dispensou, dizendo que apenas serviria para "dar uma falsa sensação de segurança". O que de fato aconteceu foi bem mais complexo, mas em essência, houve negligência por parte do comandante. Com resultado fatal.

Desde então, muitas vezes pensei: será que os pilotos às vezes não assumem riscos calculados? Confiando não apenas em sua perícia, mas também na sorte? "Ah, eu vou decolar. Não vai acontecer nada." E, em muitas vezes, dá tudo certo, mesmo. Por exemplo: o avião da LaMia que vitimou a delegação da Chapecoense e um grupo de jornalistas já havia voado quatro vezes no limite do combustível (leiam aqui). Quatro vezes! E sempre chegando bem.

Não é difícil imaginar o que ocorreu. É claro que o piloto não poderia ter tentado a façanha uma única vez. Mas, ao lograr êxito em sua empreitada de risco por nada menos que quatro tentativas, ele se sentiu justificado em sua ousadia. Na visão dele, estava mais do que provado que não havia necessidade de seguir a norma. Ele, pelo menos, se garantia. Passou a se considerar "um craque" na manobra. 

E quantas vezes isso se dá também em outras áreas? O eletricista que trabalha sem desligar a chave geral e ainda ri de quem se preocupa com isso. O motorista que anda em alta velocidade e ainda reclama da "indústria das multas". Gente que faz ultrapassagens arriscadas, muitas vezes em pontos proibidos, porque "se garante". Pessoas que nadam em águas perigosas, mesmo com farta sinalização de alerta. Vai tudo bem, até que um dia... acaba mal.

As normas de segurança não existem para atrapalhar nossas vidas. Pelo contrário: elas são criadas para nos proteger. Espero que ao menos alguma lição se tire da tragédia da Chapecoense.

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