sábado, novembro 07, 2015

A história da pirataria musical

Terminei de ouvir o audiobook em inglês, narrado pelo autor, do livro que saiu no Brasil com o título de "Como a Música Ficou Grátis", de Stephen Witt. É um trabalho investigativo interessante, mas que em certos pontos me obrigou a ouvir novamente alguns trechos. A sucessão de personagens e fatos é rápida e, em alguns momentos, complexa. O autor alterna narrativas de eventos paralelos que se juntam em determinado instante.

Eu sempre imaginei que a pirataria de música tivesse surgido da forma mais banal possível: no momento em que passou a ser possível converter um CD para mp3, os primeiros compradores copiavam os álbuns e os repassavam aos amigos. Mas não foi bem assim. Muito mais pelo desafio e pela adrenalina do que por eventual lucro, surgiu uma verdadeira "indústria mundial de vazamentos". Empregados infiltrados em fábricas conseguiam CDs inéditos antes da data do lançamento e os colocavam no circuito clandestino. Hoje já sei como pude ouvir o álbum Reality, de David Bowie, com antecedência da venda oficial, em 2003. Aproveitei para escrever uma resenha sobre o disco para o International Magazine e o jornal chegou às bancas praticamente ao mesmo tempo em que o CD apareceu nas lojas. 

Outro fato abordado pelo livro que me remeteu a David Bowie foi a guerra entre formatos de conversão de áudio. O mp3 acabou se impondo, mas por algum tempo a indústria apostava no mp2. Em 1996, Bowie foi pioneiro no lançamento de seu novo single pela Internet, no caso, três remixes de "Telling Lies". E foram disponibilizados justamente em mp2. Na época, a maioria das conexões à rede era por linha discada, então a espera para baixar uma música era agoniante. Eu tive que deixar para a madrugada, quando o fluxo de dados era menos obstruído. No outro dia, vários fãs reclamaram. Lembro especificamente de uma mensagem que dizia: "Da próxima vez, me dê sua música onde sempre consegui comprá-la: na loja de discos!" Uma observação que se torna irônica diante da evolução do mercado.

Em fóruns de música, leio muitos comentários sobre os "erros" das gravadoras. Por mais que elas tenham sido gananciosas e negligentes, eu não vejo o que elas poderiam ter feito para prevenir a pirataria. No momento em que se tornou possível copiar CDs em "n" gerações sem perda de qualidade, o alastramento foi inevitável. A menos, é claro, que alguns queiram argumentar a famosa "lei do retorno". Ou, para os crentes, "castigo de Deus". Como punição pela forma inescrupulosa com que trataram seus artistas e clientes, surgiu a pirataria digital para arruinar seus negócios.

Eu até diria que as gravadoras estão lidando bem com a situação. A criação de produtos sofisticados, como luxuosas caixas de CDs, é uma saída interessante. Já o contrário - tentar baratear o produto para concorrer com a pirataria - eu vejo como um equívoco. A menos que se mantenha um mínimo de qualidade, como as caixinhas que relançam coleções completas ou dividas em períodos em capinhas de papelão imitando os LPs originais. Um exemplo de forma errada de combater a pirataria foi o lançamento, no Brasil, de vídeos em VCD, formato que era gravado em CD normal. É que os camelôs estavam vendendo cópias de filmes nesse tipo de mídia. Mas, logo em seguida, surgiu o DVD gravável, permitindo uma pirataria mais sofisticada.

Enfim, o que escrevi aqui não foi um comentário específico sobre o livro, mas uma breve dissertação sobre o tema a partir de questões levantadas pela obra. Mas recomendo a leitura de qualquer maneira. O lançamento de "Como a Música Ficou Grátis" no Brasil é da editora Intrínseca. Também está disponível em e-book (Kindle ou ePub).

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