quinta-feira, agosto 09, 2012

Objetos perdidos

Na semana passada eu estava caminhando em direção ao centro de Porto Alegre quando avistei um cartão na calçada. Abaixei-me para juntá-lo e vi que era do IPE – Instituto de Previdência do Estado. Casualmente eu estava ao lado do imponente prédio da instituição. Entrei, encontrei um balcão de informações e lá deixei o cartão. Missão cumprida.

Esse foi um caso em que foi fácil saber que providência tomar ao encontrar um objeto perdido. Mas nem sempre é assim. Há muitos anos eu tinha ido buscar meu filho na casa dele quando enxerguei um molho de chaves caído em frente ao edifício. Meu primeiro impulso foi pegá-lo. Aí pensei: o que poderei fazer para ajudar? Não havia no chaveiro nada que identificasse o dono. Nem qualquer estabelecimento público nas proximidades onde eu pudesse deixar as chaves. Quem as perdeu com certeza iria refazer seus passos na tentativa de reavê-las. Meio a contragosto, concluí que o melhor a fazer seria recolocá-las no chão, onde as havia encontrado. E assim procedi.

Eu próprio perdi as chaves do carro mais ou menos na mesma época. Depois de passar pelo incômodo de chamar um chaveiro e mandar confeccionar chaves novas, lembrei de onde elas poderiam estar: em uma central de pagamentos onde eu tivera que largar meus objetos metálicos em uma caixa de vidro. Aí veio a parte decepcionante da história: sim, o molho de chaves estava lá, como eu previra. Mas sem as duas chaves mais importantes, que eram a da ignição e do combustível. Alguém de má fé cuidadosamente as retirou antes de entregar o chaveiro ao gerente. Reclamei, mas ele disse que, como nada podia ser provado, não haveria providência a tomar. Por sorte, o amigo do alheio nunca conseguiu achar meu carro. Seria difícil, pois não estava nos arredores.

Também já perdi meu celular algumas vezes. Em uma delas, não houve problemas: liguei para o número dele e atendeu o motorista do táxi onde eu o havia deixado. Mas, em outra ocasião, caiu nas mãos de alguém mal intencionado e nunca mais reapareceu. Dei parte na polícia. Depois de preenchidos os dados, perguntei ao atendente se ele queria o meu telefone, para qualquer informação. Resposta: "não, nós não vamos fazer nada, este documento é apenas um comprovante para o senhor". Ah, certo.

E quem lembra do hoje demodê e praticamente extinto "leva-tudo", que os não-gaúchos conhecem como "capanga"? Houve uma época em que aquele objeto era meu companheiro inseparável, como o martelo de Thor ou a espada do He-Man. Eu o achava prático, pois permitia que se carregasse um talão de cheque sem dobrar (algo que também já não uso, perfeitamente substituído pelo cartão de débito), além de papéis e documentos diversos que inevitavelmente iam se acumulando. Aliás, os primeiros "leva-tudo" que conheci eram menores e elípticos. Esses maiores que acabariam se tornando o padrão me foram apresentados pela primeira vez com um nome um tanto agourento: "perde-tudo".

Pois bem: eu os perdi duas vezes, mas tive sorte em ambas. Ou quase. A primeira foi no Carnaval de 1996. Eu estava saindo do estacionamento de um daqueles locais que servem lanches na beira da estrada quando um sujeito veio me avisar que havia um vazamento grande no meu motor. Era apenas o ar condicionado que sempre pingava muito, mas ele pareceu não se convencer. Continuou olhando para as gotas que caíam com um interesse quase mórbido. Com isso, deixou de enxergar algo que, isto sim, teria me ajudado. Mas em geral as pessoas têm é um prazer sádico de dar más notícias.

Isso se confirmou assim que peguei a estrada. Um motorista me alcançou para me avisar que o leva-tudo tinha caído de cima do carro. Ora, não teria sido mais racional anotar a minha placa e parar para juntar o dito cujo? Sim, mas aí ele perderia a chance de ser o primeiro a me avisar! Passei todo o feriado de Carnaval tentando procurar o objeto perdido, sem sucesso. Na volta ao trabalho, recebi um telefonema de Caxias do Sul: era a pessoa que tinha encontrado o leva-tudo! E nem aceitou gratificação para devolvê-lo.

Já em 1997 eu estava no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, quando fui tirar dinheiro em um caixa automático. Depois que saí de lá é que percebi que o leva-tudo havia sumido. Fiquei apavorado! Voltei correndo e consegui falar com um segurança. Ele disse que o havia encontrado e deixado na agência bancária ao lado. Ufa! Essa foi por pouco. O que mais me angustiava não era perder meus documentos, talão de cheque, dinheiro, agenda e papéis diversos de que nem lembro mais. Isso tinha conserto. O prejuízo maior teria sido uma preciosidade que eu havia conseguido na noite anterior: o autógrafo de David Bowie!

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