quinta-feira, março 29, 2012

"Aqui" finalmente em CD

Dezembro de 1975 foi um mês marcante para Porto Alegre. No dia 14, pela primeira vez um time gaúcho sagrou-se campeão nacional - no caso, o Internacional, numa final contra o Cruzeiro de Belo Horizonte, no Beira-Rio. Quatro dias depois, quase no mesmo endereço - um pouco mais à direita, no Gigantinho - aconteceu o histórico show do tecladista inglês Rick Wakeman, numa época em que eram raríssimas as vindas de astros internacionais de rock para o Brasil. Treze mil pessoas lotaram o ginásio para ver o espetáculo "Viagem ao Centro da Terra", com participação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e regência do maestro Isaac Karabtchewsky.

Em meio a toda essa efervescência, uma notícia não passou despercebida: o lançamento do segundo LP dos Almôndegas. Num tempo em que não era incomum um artista lançar dois discos no mesmo ano, Aqui saía apenas sete meses depois do álbum de estreia do grupo. Dos quatro LPs da discografia da banda, esse era o único que nunca tinha sido relançado em CD. Existia uma coletânea com a mesma capa, mas incluindo todas as faixas do primeiro LP e apenas algumas do segundo. E deixando de fora justamente o maior sucesso, "Canção da Meia-Noite". Pois agora o legítimo Aqui está sendo relançado pelo selo Discobertas.

Nesse período relativamente curto entre o primeiro e o segundo disco, houve uma mudança na formação dos Almôndegas. Saiu Pery Souza, que viria a seguir carreira solo com belas canções como "Pampa de Luz" e "Estrela Guria". Mas o número de integrantes permaneceu o mesmo, cinco, com a chegada de João Baptista. O músico entrou para acrescentar um instrumento que o grupo ainda não usava: o baixo. Ao contrário dos demais membros, que vinham do meio universitário, João tinha currículo em conjuntos de baile, como os Boinas Azuis:


Boinas Azuis em matéria da Folha da tarde de 23 de outubro de 1969. João Baptista é o bem da esquerda. Depois dos Almôndegas ele passaria a tocar com medalhões da MPB.

Hoje os Almôndegas são mais lembrados como o grupo de Kleiton e Kledir, não só porque o sucesso da dupla superou em muito o da antiga banda, mas também por terem sido eles os únicos a participar de todas as formações. Mas a contribuição dos integrantes era equilibrada, em especial nessa primeira fase, antes da mudança para o Rio de Janeiro. No primeiro disco, Kledir havia despontado como principal compositor e vocalista. Neste novo trabalho, surgem as duas primeiras composições de Kleiton: "Séria Festa" e "Vida e Morte". A segunda foi a escolhida para divulgação no quadro musical do apresentador Fernando Vieira, no Portovisão (concorrente do Jornal do Almoço na TV Difusora canal 10). Os Almôndegas apareceram dublando a gravação e o vídeo-tape foi reapresentado diversas vezes. Como compositor, Kleiton já demonstrava o desejo de ousar, mas ainda não criava as melodias envolventes que viriam a se tornar sua marca registrada. Ele também faz vocal solo num pequeno trecho de "Em Meio aos Campos", de Fernando Ribeiro (outro músico gaúcho que viria a se destacar nos anos 70) e Arnaldo Sisson.

Uma falha imperdoável dos créditos do LP – infelizmente mantida no CD
foi a não citação do nome de Quico Castro Neves, definido pelo crítico Nei Gastal, do Correio do Povo, como "um dos Almôndegas fundamentais". No disco anterior ele já havia deixado sua marca compondo "Gô" e fazendo o vocal solo naquele que é até hoje um dos maiores sucessos do grupo: "Vento Negro", de Fogaça. Em Aqui ele contribui com sua mais memorável composição, "Haragana", que ganharia uma versão na voz de Fafá de Belém. A música teve clip no "Transasom" de Pedrinho Sirotsky. Ele também assina "Barca de Caronte" e canta "Gaudêncio Sete Luas", de Marco Aurélio Vasconcelos e Luiz Coronel. Quico permaneceria mais um ano, mas voltaria a Pelotas quando os Almôndegas se mudaram para o Rio, no começo de 1977. Bom cantor e compositor, é curioso que ele nunca tenha buscado uma vitrine alternativa para o seu trabalho. Como outros artistas gaúchos que se deslocaram para além da música (Raul Ellwanger, Jerônimo Jardim), Quico poderia manter uma carreira paralela fazendo shows e lançando CDs. Quem sabe ainda é tempo?

Kledir reafirma sua condição de figura central dos Almôndegas cantando a linda "Amor Caipira e Trouxa das Minas Gerais", de Zé Flávio. O autor entraria para o grupo em 1977, mas nessa época ainda integrava a banda de blues-rock Mantra. Mesmo assim o nome dele já se destacava, pois tinha composto o sucesso do primeiro LP, "Sombra Fresca e Rock no Quintal". E em Aqui ele contribuiu também com aquele que se tornaria o único êxito nacional dos Almôndegas: "Canção da Meia-Noite". A irresistível composição de "um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê" entrou para a trilha-sonora de"Saramandaia", da Globo. Mas mesmo antes da estreia da novela, o Fantástico mostrou um clip da música em 25 de abril de 1976. Para a época, foi uma produção sofisticada, que demandou sete horas de estúdio, incluindo uma floresta metálica, um castelo medieval, uma caveira e doze bailarinos.

Como compositor, Kledir procura fugir do convencional, a exemplo de seu irmão, em faixas como "Mi Triste Santiago" (com letra de Fogaça), "Coisa Miúda" e a divertida "Elevador", em homenagem ao elevador do Instituto Belas Artes, em Porto Alegre. Por fim, os Almôndegas confirmam sua posição de representantes da música regional num cenário urbano ao encerrar o disco com um popurri (ou medley) de canções gauchescas, com crédito de arranjo para João Baptista e o percussionista Gilnei Silveira.

Uma curiosidade: logo depois do lançamento do disco, os Almôndegas compuseram uma música chamada "Aqui" e passaram a apresentá-la nos shows. Mas ela nunca chegou a ser gravada, até por motivos óbvios: se saísse em outro LP e fizesse sucesso, confundiria o público, que a procuraria no disco de mesmo nome. E isso se tornou ainda mais problemático com a mudança de gravadora. A Polygram não iria querer lançar uma música com título de um LP da Continental!

Os Almôndegas passariam todo o ano de 1976 fazendo shows e só voltariam a lançar disco em 1977, já fora do Rio Grande do Sul, com outra formação. A ida para o Rio de Janeiro foi benéfica em alguns aspectos: o grupo amadureceu bastante e a troca de gravadora resultou num salto de qualidade na produção e na mixagem. Mas, em termos de importância e resposta do público, os dois primeiros LPs foram os mais marcantes, mesmo com eventuais deficiências. É desses Almôndegas que os fãs gaúchos que os acompanhavam desde o começo sentem mais saudade. E agora a discografia está completa em CD.

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