terça-feira, outubro 27, 2009

O Kindle

No período de mais ou menos um ano em que fui usuário do Trensurb, aproveitava o trajeto de ida e volta a São Leopoldo para ler. Geralmente eu conseguia lugar para sentar desde o começo, então eram 40 minutos na boa companhia de um livro. O trem era minha sala de leitura. No início eu ficava constrangido de ler em inglês, com receio de que imaginassem que eu queria me exibir. Mas depois perdi o constrangimento. Só uma vez chamei a atenção de um grupo de jovens que ficou bem intrigado. Talvez tenham imaginado que eu fosse estrangeiro. De resto, cheguei a ver outros passageiros também lendo nesse idioma. Mas uma jovem se superou: no trajeto para Porto Alegre, ela segurava tranquilamente um "e-book". Uma geringonça prateada retangular, com tela LCD, onde o texto em inglês ia passando.

Pois agora já está disponível no Brasil, com todo o marketing a que tem direito, um dos mais populares e-books do mundo: o Kindle, vendido pela Amazon. Uma vez de posse do aparelho, é possível comprar livros em meio digital, os quais são transmitidos diretamente ao hardware via 3-G. A principal vantagem é poder transportar até 1.500 livros sem ocupar espaço. Para uma viagem é bastante útil, sem dúvida. E se servir para estimular a leitura, já é bem-vindo. Mas duvido que os verdadeiros amantes dos livros se entusiasmem com a novidade.

Por mais estranho que pareça, quem gosta de ler sente amor pelos livros em si, não apenas pelo texto. O volume que eles ocupam não é visto como um problema. Pelo contrário: eles preenchem um vazio. Eu já me acostumei a morar sozinho, embora não descarte a hipótese de casar de novo, mas fico feliz de ser recebido por meus livros sempre que chego em casa. Por mais que já estejam superlotando as duas peças do meu pequeno apartamento, eles ainda enchem os olhos. Em todos os sentidos. Como disse um amigo, é uma "relação epidérmica". É bom tocar num livro, pegá-lo na mão, folheá-lo. Sem contar o belo trabalho gráfico das edições mais luxuosas, por enquanto impossível de ser reproduzido em e-book.

Mas mesmo que eu quisesse aderir ao Kindle, no meu caso, não haveria muitas opções. Eu compro livros às pencas, mas de gêneros bem específicos: biografias de meus ídolos da música, livros-reportagem, livros sobre rádio, televisão, cinema, jornalismo, história do Brasil recente e não-ficção em geral. Também gosto de ler sobre as histórias em quadrinhos do "meu tempo", tanto os gibis em si quanto os relatos de bastidores das editoras que os criaram. Não há muitas dessas obras disponíveis em meio digital. Fiz um teste. Entrei na página do Kindle e procurei por "Beatles". Achei apenas uma das dezenas de biografias que tenho do quarteto de Liverpool. Dos demais títulos que apareceram, nenhum me interessou. Pesquisei também "Bowie" e encontrei somente dois dos mais de trinta livros que estão em minha biblioteca. O foco do Kindle, por enquanto, é em best-sellers. Esses não me atraem.

Eu não descarto a hipótese de um dia ter um Kindle em acréscimo a meus livros, mas nunca em substituição. Para brincar, mesmo. Se eu acabar gostando, darei a mão à palmatória. Mas acho difícil. Em termos de leitura, nada substitui o prazer de pegar um livro na mão. Ou a satisfação de olhar para a prateleira e enxergar uma diversidade de cores, tamanhos e títulos. Por isso, se alguém me perguntasse o que eu acharia de substituir os meu livros – aos menos, aqueles que se resumem ao puro texto, sem um visual atraente – por versões e-book, eu diria sem titubear: não, obrigado.

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