terça-feira, dezembro 30, 2008

Reforma ortográfica

Eu lembro bem quando a reforma ortográfica anterior começou a vigorar. Foi em 1972, o mesmo ano da Reforma do Ensino. Na época, eu tinha apenas 11 anos. Apesar de já ter escrito um número razoável de "composições" (era como chamávamos as redações), não tive dificuldade de me adaptar à nova ortografia. Encarei-a como uma bem-vinda simplificação. Por muito tempo eu ainda tive guardado um livreto que explicava as mudanças de forma simples e divertida. Mostrava, por exemplo, o desenho de uma letra "S" tirando o chapéu, para explicar que o pronome demonstrativo "esse" não seria mais acentuado. Até o nome da minha cidade foi modificado. Antigamente se escrevia "Pôrto" Alegre. Nossa professora enfatizou que, até 1975, a ortografia extinta ainda seria aceita. Mesmo assim, a edição em português do livro "Brasil, de Getúlio a Castello", do americano Thomas Skidmore, não foi corrigida em nenhuma de suas republicações.

Desta vez eu confesso que fui contra mais esta alteração. Nesta hora eu me pergunto por que há outros idiomas que já nasceram perfeitos enquanto o português parece estar sempre precisando de conserto. Não que eu sinta inveja de quem estudou Physica no collégio ou de quem comprou remédios na Pharmácia e leu o Thesouro da Juventude. Mas nesta era de Windows, fica a impressão de que a língua portuguesa está lançando "uma nova versão que corrige bugs da anterior", algo assim. Não vai muito longe: a primeira conseqüência é que todos teremos que comprar dicionários novos e atualizar nossos corretores ortográficos. Ainda bem que não é Bill Gates quem coordena as ortografias do mundo, ou passaríamos eternamente sofrendo com MS-Português versão 2.9 e coisas do tipo.

Eu costumo dizer que a melhor forma de se aprender português é esquecer as famigeradas "regrinhas" e procurar observar a "lógica" do idioma. Por exemplo: por que supermulher não tem hífen, mas super-homem tem? Porque ficaria estranho escrever "superhomem", concordam? Que eu saiba, não existe em português nenhuma palavra com "r" e "h" lado a lado. Por que a separação de sílabas de "sublinhar" é "sub-li-nhar"? Porque a palavra significa "sub...linhar", ou seja: colocar uma linha por baixo. Sim, existem exceções e casos especiais que podem atrapalhar. Mas é preciso, antes de tudo, captar a essência da língua. E a essência tem lógica.

É por isso que eu sou contra a extinção do trema. Ele é necessário. Sem ele, como contestar os pernósticos que têm mania de pronunciar o "u" de palavras como "líquido", "extinguir" e "distinguir"? Até agora, bastava dizer: "não tem trema". A partir de 2009, nenhuma palavra mais terá. Também as idéias ficarão mais pobres sem o acento no "e". Fica uma coisa assim meio insossa: "tive uma ideia". E se já tem gente por aí com auto-estima reduzida, imaginem sem o hífen.

Enfim, vamos nós de novo encarar uma série interminável de reimpressões de livros, dicionários virando sucata e gente ganhando dinheiro com tudo isso. Como estamos nos últimos dias de vigência da ortografia versão 7.2, vou aproveitar para contar uma piada. Não sei se tem graça, não sei se vale a pena, mas é agora ou nunca.

Um sujeito tinha sido traído pela mulher e estava traumatizado. Andava a esmo pela rua, cabisbaixo. De repente, ouviu alguém dizendo:

- Qüiqüiqüiqüí...

Já ficou desconfiado: "Quem faz qüiqüí é rato. Rato gosta de queijo. Queijo vem do leite. Leite vem da vaca. Tá me chamando de corno!"

A piada acabou, gente. Riam. Tudo bem, eu falei que podia não ter graça. Mas é que, sem o trema, não tem como contar essa piada por escrito. Se eu escrevesse "quiquiquiqui", a geração "internetês" leria "kikikiki". Eu poderia escrever "cuí cuí", mas, convenhamos, fica horrível. Não adianta, rato não faz "cuí cuí" nem "quiqui", ele faz "qüiqüí", mesmo. Até para isso o trema vai fazer falta.

Boa nova ortografia para todos nós.

1 Comments:

Blogger Alessandra Soares Pereira said...

Adorei! bem colocado!
Escreva mais!

12:15 PM  

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