quinta-feira, janeiro 24, 2008

Rádio-relógio

Eu tinha 12 anos quando conheci meu primeiro rádio-relógio. Era novidade. Um modelo eletromecânico, muito diferente dos eletrônicos que existem hoje. Mesmo assim, era chamado de "digital" porque não tinha ponteiros. Os números estavam impressos em preto sobre fitas brancas que se moviam com suavidade quando a hora mudava. Havia também uma alavanca que se deslocava aos poucos até desligar automaticamente o rádio, conforme programada.

A idéia de dormir com música me fascinava. Algumas vezes, quando meus pais estavam viajando, dormia na cama deles só para aproveitar o rádio-relógio. Deixava na Continental, claro. Ainda ficava um tempo olhando hipnotizado para a luz que iluminava o fundo branco dos números. Foi naquele rádio-relógio que ouvi pela primeira vez "Mini Neila" com Guilherme Lamounier e "Let It Grow" com o Renaissence, no escuro do quarto.

Hoje percebo que, de certa forma, cada rádio-relógio marcou o começo de uma nova etapa na minha vida. Quando casei, havia um rádio-relógio na lista de presentes. Foi a primeira coisa que coloquei na cabeceira da cama. E o manual estreou a gaveta. Muitos anos depois, em 1997, já separado, eu estava no Shopping Iguatemi quando resolvi comprar uma lente zoom para minha máquina fotográfica. No dia seguinte eu embarcaria para assistir aos três shows de David Bowie no Brasil, em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. A loja em que fiz a compra estava com uma promoção de aniversário. Participei de um sorteio e ganhei – adivinhem? – um rádio-relógio! Justo num momento em que iria mesmo precisar. Era um modelo diferente dos que eu conhecia, redondo, vertical, mais difícil de manusear deitado. Mas as primeiras noites com ele não trazem boas lembranças. Ele estreou no chão, ao lado de um colchonete. Depois dias melhores vieram, mas ele não começou bem.

Mas o rádio-relógio foi uma bem-vinda invenção. Ele deu um toque mais humano à fria tarefa de marcar o tempo. Serviu para simbolizar que as horas não foram feitas para ser apenas numeradas, mas vividas, desfrutadas, aproveitadas. E depois, de uma forma ou de outra, todos nós estamos esperando a nossa hora. Pois que essa espera não seja vazia e ociosa. E quando chegar o momento de soar o despertador, que seja sem trauma, ou com a suavidade do som ambiental, ou com a voz de um locutor anunciando um novo dia.

Ontem comprei um rádio-relógio. Rádio-relógio novo, vida nova. Pensamento positivo.