terça-feira, abril 25, 2006

Tarzan e Jane

Sempre gostei de contar e ouvir piadas. Independente do humor e da criatividade, algumas piadas trazem lições. A gente só não perde tempo dizendo "moral da história" porque imagina que os ouvintes vão estar rindo nesse momento. De preferência, gargalhando. Suando, lacrimejando, ficando vermelhos e descontrolados de tanto rir. Como disse um amigo, provocar esse tipo de reação nos dá uma sensação de "missão cumprida". Quando uma piada faz sucesso, não há a menor necessidade de perguntar: foi bom pra você? É mais fácil fingir um orgasmo do que uma gargalhada.

As melhores piadas são as infames e sutis. Como as dos elefantes, por exemplo. Mas não vou contá-las aqui. Não todas, pelo menos. Quero deter-me em uma em especial. Sabe o que o Tarzan disse para a Jane quando viu os elefantes em cima da colina?

- Jane, olhe! Os elefantes estão em cima da colina!

Tudo bem, talvez você não tenha achado graça. Depende do momento e do tipo de humor de cada pessoa. Mas eu nunca tinha percebido como essa piada é profunda. Num mundo atribulado como este em que vivemos, só alguém como o Tarzan teria tempo e disponibilidade para observar os elefantes sobre a colina. Afinal, que preocupações ele tem? Quais os compromissos do Tarzan? Combater animais ferozes, balançar-se de árvore em árvore pendurado no cipó e, de vez em quando, bater no peito e soltar uns gritinhos esquisitos feito cantor de yodel. Nas horas vagas ele não lê livros, jornais ou revistas. Não tem cultura. Não freqüenta escola ou faculdade. Não cumpre horário. A visão dos elefantes é suficiente não só para atrair sua atenção mas também para suscitar um comentário. Os elefantes estão em cima da colina! Um fato tão relevante como esse merece ser discutido! É um assunto para conversar com Jane.

Mas... e ela? No momento exato em que Tarzan fez a observação, Jane pensava se a crise da Varig a faria desistir de sua planejada viagem à selva amazônica. Selvagem por selvagem, pelo menos Tarzan falava sua língua, que ela própria ensinara. Até rolou um clima no primeiro encontro: "Me, Tarzan, you Jane." A forma como Tarzan contraiu os bíceps para gesticular a deixou fascinada. Mas agora ela começava a pensar que talvez eles não tivessem sido feitos um para o outro. Sim, o rapagão era forte e atlético. Fisicamente, era o homem dos seus sonhos. Mas os dois não tinham os mesmos interesses. Havia um certo desnível cultural entre eles. A selva, para ela, era um objeto de estudo. E Tarzan tinha o péssimo hábito de interromper seus raciocínios complexos de filha de caçador e aspirante a pesquisadora com assertivas como a que ela acabara de escutar. Sem dúvida, Tarzan e Jane eram o amor impossível. Essa é a verdadeira lição da piada aparentemente infame e sem graça.

- Jane, você ouviu o que eu disse?
- Hein? Ah, sim, claro! Os elefantes estão em cima da colina. Que coisa, né? Eles vão sempre lá?

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