terça-feira, abril 18, 2006

"Caiu na Rede" revisto

Quando comentei o livro da jornalista Cora Rónai, "Caiu na Rede", procurei destacar somente os aspectos positivos. Afinal, adorei a obra e acho que deveria ser leitura obrigatória para quem freqüenta a Internet. Mais do que isso, a mídia para o lançamento serviria também para denunciar os textos falsos, podendo até fornecer o gancho para a tão sonhada matéria no Fantástico. Enfim, qualquer esforço no combate aos apócrifos é bem-vindo. Cora Rónai fez um excelente levantamento do caos que se instaurou na rede com a disseminação indiscriminada de textos com autoria incorreta.

Mas, no blog dedicado ao livro (http://livrocaiunarede.blogspot.com), a verdadeira autora do texto "Romeu e Julieta contemporâneo", Francine Bittencourt de Oliveira (cujo blog está aqui), postou uma crítica construtiva. Ela diz: "Duas coisas me deixaram um pouco chateada. A primeira foi meu texto ter entrado como autor desconhecido, já que esta devidamente registrado há dois anos e só o nome do Verissimo é que sempre aparece... Mas tudo bem estou acostumada. Vou torcer para sair a próxima edição e com isso a editora altera." Eu também acho que Cora poderia ter-se esforçado mais em localizar os verdadeiros autores. A maioria deles está na própria Internet, é só dar uma "googlada seletiva" que eles acabam aparecendo. A seguir, é claro, deve-se tentar contato para confirmação. Cora fez a ressalva de que alguns autores foram identificados e não autorizaram a divulgação de seus nomes, mas por uma razão compreensível: os textos seriam publicados da forma adulterada com que costumam circular e não em sua versão correta original. Também sobre isso a escritora alertou que não pretendia restabelecer a verdade dos fatos, mas apresentar um instantâneo da situação na Internet.

A outra queixa de Francine é: "Textos falsos, no título, passa a impressão que os autores desconhecidos copiaram os grandes autores, o que no meu caso, e acredito que no da maioria, também não é verdade." Concordo com Francine e vou além: também não aposto na hipótese de premeditação sugerida por Cora Rónai. A jornalista presume que a substituição de assinatura nos textos apócrifos seja uma atitude deliberada de pessoas que queiram dar mais destaque às crônicas ou poemas. Ela chega mesmo a supor que o próprio autor – o verdadeiro – seja responsável pelas falsas assinaturas de Luis Fernando Verissimo e Arnaldo Jabor, entre outros. Não acredito nessa possibilidade. Até pode haver má-fé em casos isolados, mas na maioria das ocorrências, os apócrifos surgem de forma espontânea. A existência de "alguém" responsável por eles me parece tão improvável quanto a de um autor para boatos e lendas urbanas. Menos ainda que esse "alguém" seja o autor real, boicotando a si mesmo para que suas idéias ganhem notoriedade. Que vantagem teria com isso, por exemplo, Martha Medeiros, que já teve pelo menos quatro de suas crônicas atribuídas a Mario Quintana? Quem gosta de "Felicidade Realista" vai procurar o autor errado e deixar de conhecer as obras de Martha. É evidente que ela é a vítima e não a culpada. Faço essa observação óbvia porque já li um comentário "inteligente" no Orkut de que a escritora estaria se promovendo às custas de Quintana. E depois dizem que eu não tenho paciência...

A primeira vez em que recebi por e-mail aquele texto de amizade de Paulo San'tana, estava sem autoria. Incrível, mas há leitores que acham mesmo que não é importante creditar o autor de um texto. Isso foi confirmado pela cronista e poetisa Betty Vidigal em suas incansáveis pesquisas. Simplesmente, alguém acha um texto bonito e decide repassá-lo. Mas, como nunca ouviu falar no autor, omite o seu nome. Ora, ninguém sabe quem é esse tal de Paulo Sant'ana, mesmo... (Só o Rio Grande do Sul inteiro, mas tudo bem.) Um dia, alguém lembra: Vinicius de Moraes escreveu texto sobre amizade, deve ser este. E assim nasce um apócrifo. Já recebi uma piadinha enviada por um amigo com a observação: "Acho que é do Luis Fernando Verissimo." Obviamente não era, mas há quem julgue conhecer bem o estilo de dois ou três escritores e imagine que só eles redigem tudo o que circula por e-mail. Se é humorístico, é do Verissimo. Se é crítico, é do Jabor. Se é romântico, é do Quintana. Pronto, nunca foi tão fácil identificar estilos literários!

Cora Rónai deu o pontapé inicial, mas a literatura ainda carece de uma obra realmente investigativa sobre o assunto. Por enquanto, quem parece estar na dianteira é a já citada Betty Vidigal, de cujas pesquisas encontra-se uma amostra aqui. Cora já fotografou o caos. Cabe a alguém agora organizá-lo.

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